A expressão de sua mãe era indecifrável, ela a olhava com cautela.

_Você vai embora novamente?

_Não, não, mãe. Não agora...

_E quando então?

_Quando você melhorar. Vou ficar ao seu lado até isso passar.

_E pra onde você vai? Por que decidiu isso? – sua mãe perguntava, com a expressão neutra.

_Vou para a algumas quadras daqui, mãe, não muito longe. Sempre vou estar aqui com você...

_E como você conseguiu essa casa? Como?

Allie começou a explicar tudo, onde conhecerá Leo e para onde fora, tudo de forma completamente resumido para não piorar a situação em que sua mãe se encontrava.

_Leo... Quem é esse garoto? – agora era seu irmão perguntando.

_Vocês irão conhece-lo – ela respondeu feliz.

E nesse momento alguém bateu a porta e seu pai foi atender.

_Ele é Leo – Marcus anunciou, abrindo espaço para Leo passar – o namorado de Allie.

Leo entrou com cautela e foi em direção a mãe de Allie.

_Senhora – ele estendeu a mão e Sandra a segurou – sou Leo Valdez, namorado de sua filha.

Sandra olhava de Leo para Allie e depois voltou a encarar Leo.

_Então é você que quer roubar minha filha de mim? – e o inesperado aconteceu, ela sorriu.

_Sim, senhora, mas fique tranquila, ela será a prisioneira mais feliz do mundo – Leo entrou na brincadeira.

_Você está achando isso correto, Sandra? – Marcus perguntou – eu não aceito.

_Marcus – Sandra começou, com calma – Ela é uma pessoa boa... Criamos Allie no caminho certo e ela sabe o que é bom para ela. Esse garoto transmite confiança e para mim está tudo bem. Allie tem que viver por ela mesma, assim como Ethan, quando chegar a hora.

_Pensando por esse lado, sim. Mas não confio nele – o pai de Allie disse.

_Então me dê tempo para provar. Se eu fosse ruim para sua filha, ela nunca teria voltado – arriscou Leo.

Marcus parou um minuto para pensar, cogitando aquelas palavras.

_Nem precisamos discutir, Allie, você decide, meu amor – sua mãe estava completamente diferente – e nem precisa esperar eu melhorar...

_Não, mãe. Eu vou ficar até você ficar melhor.

Sua mãe sorriu e a chamou para sentar ao seu lado. Uma coisa Allie percebeu, Sandra não tirará os olhos do garoto.

_Você me lembra muito a sua mãe, garoto – ela começou.

Leo paralisou no mesmo instante.

_Como? – ele perguntou.

_Esperanza, ela era uma mulher incrível e com certeza criou, até onde pôde, um filho bom – com a cara confusa que Leo fazia, Sandra resolveu explicar – Eu conheci a sua mãe, menino. E me lembro de você quando bebê. Um garotinho forte. Me lembro do trágico acidente. De tudo. E me lembro de você... Há um tempo você concertou o meu carro, não foi?

Leo agora tinha o rosto mais suavizado, mas ao mesmo tempo triste.

_Eu me lembro da senhora – ele disse com a voz embargada.

Allie estava confusa, sua mãe já conhecia Leo e para melhorar, conhecerá a mãe dele.

_O filho de Esperaza sempre será muito bem vindo em minha casa. E ainda mais bem vindo como namorado da minha filha.

Leo tinha lagrimas nos olhos.

_Não chore, menino – Sandra continuou – ela nunca quis te ver triste.

Allie observou a todos na sala e se deparou com o rosto incrédulo do seu pai.

_E você, Marcus, nunca mais fale mal dele. Eu sei que ele estará sempre ao lado de nossa filha – Sandra terminou e abraçou apertado a filha que estava ao seu lado – bom, agora se me dão licença, eu preciso descansar.

Ela fez menção de se levantar e então Allie a ajudou, seu irmão também veio para ajuda-las. Muito devagar, eles subiram degraus acima, a ultima visão que teve da sala foi seu pai pedindo a Leo que sentasse, seu rosto trazia a mesma expressão de assustado e incrédulo que exibia quando Sandra disse aquelas palavras.

Quando sua mãe se acomodou na cama, Allie não se aguentou e perguntou, sentando na cama.

_Você nunca me disse isso... Nunca me disse que conhecia a mãe de Leo e o próprio Leo.

_Não tinha o porquê, minha filha... Faz um tempo, você e seu irmão ainda eram muito pequenos.

_E Leo? Você disse que o conhecia...

_Sim, ele arrumou meu carro quando tinha uma oficina no centro. Nunca mais deu problema – ela sorriu.

_Sim, mas o fato é você ter conhecido ele antes e nunca me apresentou – Allie sorriu.

_Mas ainda bem que agora você o encontrou. Ele parece gostar de você.

Allie colocou o cabelo para trás da orelha e sorriu.

_Espero mesmo que ele cuide de você – disse seu irmão.

_E desde quando você me protege fedelho?

_Acho que desde quando eu nasci...

Ele andou até onde ela estava e a abraçou novamente.

_Ok, maninho, agora está ficando estranho essa melação – Allie tentava se soltar e sua mãe ria.

_Bem, meninos, ainda bem que tudo acabou bem... Agora eu preciso dormir.

Ambos concordaram e saíram do quarto, deixando a porta encostada. Ao descerem encontraram Marcus e Leo dando risada de alguma piada que, possivelmente, Leo tinha contado.

_Olha eles aí... Já arrumou suas coisas, filha?

Ok, de onde veio isso?

_Não... Como eu disse, vou depois que minha mãe melhorar.

Allie não baixou a guarda nem mesmo quando seu pai tinha, estranhamente, se entendido com Leo.

_Bem, já que quase toda a sua família me conhece, eu preciso ir – Anunciou Leo – preciso arrumar as ultimas coisas para que podemos nos mudar... E gostaria de voltar a usar a minha oficina.

O garoto se despediu de todos e Allie o acompanhou até a porta.

_Te vejo mais tarde, mi amor... Eu amo você.

Ele a beijou, sem deixar ela dizer qualquer palavra.

_Eu amo você... – Allie baixou os olhos e Leo segurou seu rosto.

_Eu vou voltar, mi amor...

_Eu sei é que... Muitas informações sabe...

_Sei, mas logo vou te contar tudo.

Leo saiu, rua acima, andando descontraído. Allie fechou a porta e foi cuidar um pouco do que tinha deixado para trás.

****

Dois meses se passaram desde que ela havia voltado e muita coisa tinha mudado, sua casa estava mais confortável e sua mãe muito mais carinhosa, não reclamava de dividas e muito menos da vida.

_Bom dia, flor do dia – ela dizia, fazendo o café – pronta para enfrentar a nova vida?

_Estou... Eu acho... – ela disse se sentando na mesa – você sabe alguma noticia de Lia?

Lia, a melhor amiga de Allie e que estava perdida desde que Allie partira, mais uma coisa para a garota se preocupar e se culpar.

_Não temos, nenhuma pista. Conversei com o pai dela e nada – Sandra se virou e olhou para a menina – não foi culpa sua, Allie, ela possivelmente sentiu a mesma necessidade que você teve de se libertar.

_Não é isso, ela sempre acompanhou os meus planos de fuga e acho que a influenciei de forma negativa nisso e agora... Ela realmente se foi.

_Acalme-se, ela vai voltar...

Allie tomou café em silencio e ficou pensando se realmente ela voltaria. A menina encarou as suas poucas malas que estava levando para a casa nova, ela já tinha levado seus livros e algumas outras coisas, o que faltava mesmo era só as roupas.

_Ethan vai ajudar você com suas coisas.

_Obrigada, mãe.

Sandra se juntou a ela para tomar café e juntas contaram as ultimas noticias do bairro.

Uma batida na porta acabou com a diversão.

_Eu atendo – anunciou Allie, se levantando.

A menina abriu a porta e lá estava a pessoa que ela jamais imaginaria encontrar naquela manhã. Era Jason, com seus óculos e seu sorriso sedutor.

_Bom dia, Duckline, quer ajuda com a mudança?

Allie somente o encarou.

_Quem é? – gritou a mãe da cozinha.

Jason enviou a cabeça no vão da porta e disse:

_Sou eu, Dinda, Jason!

_Jason? Não – ela gritou de volta e depois apareceu na sala – está esperando o que? Entre logo, garoto.

Allie quase foi empurrada para o lado quando ele passou. Não podia ser, ela pensava. Desde quando ele sabia que ela estava de mudança? O que fazia ali? Pensou em um milhão de possibilidades e que talvez Leo o tenha chamado, mas logo dispensou esse ultimo pensamento por conta de que Leo tinha contado a ela no dia anterior que há tempos não falava com ninguém do acampamento.

E os problemas daquele dia só estavam começando.