O barulho estridente e continuo da campainha fez Allie despertar assustada. Ela se enrolou na blusa de Leo que estava na poltrona próximo à cama. Leo não estava em casa, já devia ter saído para a oficina. Desceu correndo as escadas, impulsionada pelo apertar da campainha. Ao abrir a porta deu de cara com um enorme arranjo de flores e um rapaz por trás dele.

_Bom dia, você é a Allie?

_Sim – ela respondeu desconfiada, pois não conseguia ver o rosto da pessoa.

_Essas flores são para você – ele disse entregando as flores.

Se Allie já estava com o coração acelerado por acordar com aquele barulho todo, agora seu coração batia mais rápido ainda. O garoto que segurava as flores não era bem um garoto, mas sim uma menina. Allie arreganhou a boca em um grito que nunca saiu, ela olhou para aquela menina sem entender, a única coisa que conseguia sentir além dos seus batimentos cardíacos era raiva.

_Você está com raiva, não é?

_Como descobriu meu endereço?

_Sua mãe. Ela me deu... Nossa como você está diferente... Faz tanto tempo...

Allie arrancou o arranjo de sua mão, derrubando algumas pétalas.

_Entre logo, Lia. Precisamos conversar!

Depois de Allie fazer o café da manhã para ambas, elas se sentaram na sala para poder conversar.

_Allie, me desculpa... Mas eu também estava perdida em relação a minha vida e você não me deixou ir com você...

_Mas por que? Sua familia não era igual a minha! Você não tinha motivos!

_Nem você, na verdade – ela disse, tomando um pouco do café – Allie, eu sei que você ficou preocupada e tal, assim como eu também fiquei quando você se foi. Mas não, você não tem direito nenhum de me dar bronca – ela sorriu.

Allie sabia que quando Lia sorria em algum assunto sério era porque estava extremamente nervosa.

_Bem, a verdade é que sempre te vi como uma irmã mais nova, então todos esses meses desde que voltei e soube que você foi embora, eu fiquei maluca, Lia! Não queria que ninguém fizesse o que fiz!

_Mas olhe para você, nem parece a mesma que deixou essa cidade a um tempo atrás. Parece mais... mulher.

_A vá! – Allie desdenhou – agora eu quero saber o que aconteceu!

_Eu adoraria contar, mas não posso. Prometi que não falaria do que vivi a ninguém.

_Mas eu não sou ninguém, sou sua melhor amiga! – Allie quase gritou.

Lia olhou com seus olhos verdes toda a casa.

_Casa legal... Não sabia que tinha dinheiro para comprar...

_E não tenho... Essa casa não é minha, é d Tá. o meu namorado.

_Namorado? Pera aí, você está namorando e morando com ele?

_Sim, por que?

_Ai Aliie que demais!

_Tá – Allie estava realmente irritada – E sua mãe? Falou com ela?

Lia se levantou e começou a andar de um lado para o outro.

_Não, bem... Ela... Bem...

Allie segurou a cabeça com as mãos, completamente perplexa.

_Não acredito, Lia! Sua mãe está louca de preocupação e você aqui!

_Olha, Allie, já disse que não vou querer que me faça sentir mal por eu ter ido embora. Ao contrário de você, eu não quero voltar.

_Mas se não reparou, você já voltou.

_Que seja! Não quero ver minha família de novo. Descobri que fazem dois meses que eles se mudaram.

_Sim – ela disse bruscamente – eles foram embora para o interior exatamente no dia em que me mudei para cá.

_Ótimo para eles.

Lia estava mudada demais, Allie podia sentir. Em seus olhos não tinha mais medo e muito menos remorso quando falava de sua família.

_Eu voltei para cá exatamente por saber que eles não estariam – Lia continuou.

_Você disse que procurou minha mãe... Ela pode muito bem chamar seus pais.

_Não, não pode, Allie. Tia Sandra jamais faria isso.

_Tenho certeza que a cabeça dela mudou.

_Tenho certeza que ela não faria isso.

E aquela foi a ultima palavra daquele assunto. Allie estava cansada de insistir, Lia não queria ouvir. A menina que acabará de chegar começou a andar pela sala, olhando os quadros de fotos espalhados em uma das paredes da sala. Quase todas as fotos foram tiradas a menos de um mês, quando a turma toda se reuniu naquela casa. Já faziam quatro meses que Allie morava ali e o tempo passará tão rápido que ela nem viu.

_Pessoal legal – Lia comentou.

_Sim... – Allie disse, com saudade de todos.

_Hã... – Lia soltou, alto demais – Allie, pode me explicar o que Jason está fazendo nessas fotos? Por um acaso é ele que mora aqui?

_Não. Meu namorado é esse moreno aí. Leo Valdez é o nome dele.

_Leo... – ela sussurrou – eu acho que conheço ele... Bem, mas o que Jason faz aqui?

_Ele e Leo se conhecem a anos, e ao conhecer Leo, me reencontrei com Jason.

_E não rolou fashback? – Lia largou as fotos e se sentou na poltrona.

_Não – mentiu – ele está namorando agora.

_Pena. Ele é tão lindo.

_Prefiro Leo.

_Leo também é gato.

E com um passe de mágica, Leo abre a porta da frente da casa e entra.

_Amor? O que aconteceu? – Allie perguntou ao vê-lo

_Nada demais... Só... Lia?

Allie olhou impressionada para Leo.

_De onde você a conhece?

_Não... – Lia dizia, com a boca aberta – Moreninho, tudo bem?

Allie estava completamente perplexa. Mas ao invés de demonstrar, ela resolveu acabar com a situação.

_Leo, me acompanhe, amor.

_Estou bem, Lia... – ele dizia e sorria. Ele ignorou por um momento o chamado de Allie, mas depois se voltou a ela e disse – Claro, amor.

Allie subiu as escadas e Leo veio atrás, ambos entraram no quarto.

_Ok, o que é isso? Ela me disse que conhecia você.

_Sim, nós nos conhecemos à algum tempo. Eu morava aqui, lembra? – ele deu um peteleco fraco na cabeça dela, sorrindo.

_Sim – ela sorriu de volta, mas com desdém – eram bem íntimos. Ela te chama de moreninho e tudo.

_Na verdade, éramos sim, mas não do jeito que está pensando. Eu a queria somente como minha amiga, se ela queria algo a mais, o problema era dela. Aliás, na época eu já tinha namorada, praticamente uma esposa.

_E parece que isso começou a se repetir, não é mesmo? Mais uma coisa a se repetir.

_Calma, Allie. Não tem nada se repetindo aqui. Sei que esses meses foram ruins para se adaptar e tentar fazer as coisas diferentes, mas saiba que não precisa se preocupar, porque tudo já está diferente.

Allie o encarou, séria.

_Está bem. Mas uma gracinha, uma só e eu pulo do barco, entendeu?

Leo afirmou com a cabeça e depois a puxou para um beijo.

_Eu amo seu jeitinho ciumenta, mi amor, me deixa...

Uma batida na porta acabou com o clima e logo uma voz soou.

_Eu não quero atrapalhar, mas já estou indo, minha carona chegou...

Allie encostou a testa na testa de Leo e suspirou, depois tomou folego e abriu a porta e encontrou Lia ali, com cara de paisagem. Todos desceram até a sala.

_Acho que você não lembra, mas... – Ela começou – eu já tinha falado de Leo para você e de quanto eu gostava dele – ela encarou Allie, com certa mágoa – eu já vou. Não sei mais quando volto, se eu voltar, claro. — Ela fez menção de abraçar Allie, mas a garota se afastou — Agora não somos mais amigas?

_Só vamos voltar a ser amigas se você parar com essa loucura.

A menina pareceu pensar no assunto, mas logo desfez a expressão.

_Não posso. Mas prometo voltar assim que der. Te amo, amiga.

Elas se abraçaram e ambas choraram. Quando se soltaram, estavam com os olhos vermelhos. Uma buzina fez Lia se apressar na despedida. Ela abraçou Leo e o garoto lhe disse:

_Fique bem e não se meta em encrencas... Já conversamos muito sobre isso.

_Não sou mais aquela criança que você conheceu.

_Eu sei, por isso estou te dando novamente esse conselho.

Lia assentiu, com os olhos cheios de lagrimas, e então saiu correndo em direção ao carro vermelho que ela esperava.

_Uma pena uma menina assim se perder nos caminhos da vida – Leo dizia, enquanto encaravam a rua.

_Que filosófico.

_Você sabia que ela gostava de mim? – ele perguntou, sem emoção ou qualquer tipo de sentimento, o que deu a Allie um certo alívio.

_Não sabia que era você – os dois entraram e o menino fechou a porta – ela chamava o garoto maravilhoso que tinha conhecido como moreninho, então eu nunca saberia se o nome desse menino seria Leo Valdez.

Leo sorriu.

_Você tinha motivos para se envolver com ela. Na verdade eu estou bem curiosa para saber o motivos de termos tantas ligações.

_Eu queria saber a mesma coisa, como nós não nos conhecemos mesmo com tantas pessoas em comum?

Allie deu de ombros.

_Me conta.

_Sobre Lia? Claro. Uma vez eu estava sentado na frente da oficina, tinha acabado de discutir com Calypso e ela vinha descendo a rua, chorando, era noite, mas não era tarde. Ela passou na minha frente, me encarando até. Andou uns passos a frente e depois voltou em minha direção e me fez a seguinte pergunta: “Tem fogo?” eu meio que quis responder que sou feito dele, mas me segurei – ele parou o relato para rir de Allie, e depois que se recuperou, continuou – Eu disse que não e ela virou as costas, continuando seu caminho. Quando ela falou comigo, eu notei que estava chorando, e então a chamei de volta. Ela veio, sem medo de eu ser um estranho sujo, e se sentou ao meu lado. Nós começamos a conversar e todos os dias depois desse ela vinha para desabafar.

Allie ouviu com atenção e começou a relembrar de todas as vezes que Lia saia correndo da escola para encontrar o menino que ela tanto falava.

_Deuses – ela suspirou — Não querendo cortar o clima da revelação, mas você falou com Jason?

Leo a olhou de lado.

_Sim, falei agora a pouco. Ele e Piper estão bem.

_Eu fico feliz que tenha perdoado ele.

_Claro que perdoo, ele é meu melhor amigo... E outra, já faz tempo, e ele não voltou a pisar na bola – ele sorriu – mas eu não vim aqui para falar de Lia e muito menos de Jason... Eu vim aqui para uma coisa...

_O que?

_Hã.... Vamos a um lugar... Passar uma mini lua de mel... O que você acha?

_Eu...

_Allie, nós merecemos, vai... – ele sorriu – depois de tudo...

Allie assentiu receosa.

_O que foi? – ele notou e perguntou.

_Não sei, eu... Sempre que as coisa vão bem eu me sinto insegura.

_Não fique amor...

_E você veio aqui só para jogar a ideia?

_Não... Eu vim aqui exatamente para decidirmos onde vamos e fechar o pacote!

_Eu e você?

_Somente, amor.

Allie olhou, sorrindo, para o menino que ela tanto amava e que mudará a sua vida para o melhor. Que fazia ela enxergar um horizonte de possibilidades, uma vida cheia de caminhos lindos.

_E estamos esperando o que? Vamos logo! – ele disse, depois de um tempo.

Allie pulou do sofá e correu para o quarto, e o seu medo que a um minuto existia sumirá da mesma forma que veio, rapidamente. Agora ela não precisava ter mais medo, sua vida estava nos eixos e ela nunca esteve tão feliz em toda a vida e ela só estava começando.

Notas finais
Pessoal, eu estou recebendo os comentários de vocês e, sinceramente, estou imensamente feliz, sério! Muito obrigada mesmo, sou imensamente grata a todos que estão lendo e deixando suas opiniões. Um grande beijo a todos