Allie acordou com uma tremenda dor de cabeça, não conseguirá dormir direito a noite passada. Pensou em tudo o que aconteceu na noite anterior: fora conhecer a cidade e acabou se perdendo e quando retornou ao hotel, quase não conseguiu entrar porque já passava da hora. Quando chegou ao quarto ela começou a repensar seus planos e o que queria dali para frente. Passou horas em claro e quando viu já estava amanhecendo, adormeceu sem ao menos perceber.

Se levantou lentamente e reparou em uma bandeja com café da manhã encima da cômoda de roupas. Foi até lá e trouxe a bandeja consigo até a cama, comendo lentamente cada coisa que estava ali, era uma variedade que Allie nunca tinha visto. Depois do café da manhã ela resolveu tomar um banho, precisava mais do que tudo tomar um rumo e principalmente arrumar algo para ganhar dinheiro, ela não iria sobreviver somente com o que tinha no bolso.

Fez tudo o que tinha para fazer e desceu para rua. Andou por alguns minutos até parar na frente de uma lanchonete de fachada roxa, na placa se lia: Donuts Monstro. Que nome esquisito, pensou. Mesmo assim ela entrou e logo se deparou com uma atendente de avental roxo igual ao da fachada.

_Bom dia – Allie começou – eu gostaria de saber se vocês estão procurando alguém para...

_Sim! Sim! – disse a mulher, toda empolgada, interrompendo completamente a garota – precisamos. Você quer se candidatar?

_Hã? – Allie disse sem querer – sim, quero. Quais são as funções disponíveis?

A atendente deu um sorriso enorme, medonho até e respondeu:

_Lavar a louça. Sabe, atendemos muitas pessoas famintas por aqui.

Allie reparou melhor na atendente e agora ela podia ver como a moça era esquisita: seu cabelo era verde, mais puxado para verde musgo; seus olhos eram lilases e ela era bem magrinha.

_Hã... eu aceito então – ela conseguiu esboçar um sorriso.

A atendente correu para dentro da loja e voltou ainda mais rapidamente com um avental roxo, indo logo prendendo o avental ao corpo de Allie e posteriormente levanto ela para a cozinha do lugar, que era ainda mais estranho.

_Aqui será o seu ambiente de trabalho, mocinha, você será testada, se passar pode ficar com a vaga – e deu uma risada estranha.

_O...Ok.

Elas ficaram se encarando por alguns segundo e a moça dos cabelos verdes disse:

_Tá esperando o que? Pode começar!

Ela virou as costas e saiu, deixando Allie parada no meio da cozinha.

_Ok – disse ela pra si mesma – vamos começar.

Ela observou o ambiente ao seu redor e percebeu que sua prova ia ser mais difícil do que ela imaginava. A louça se acumulava por todos os lados, em todas as bancadas, parecia que um batalhão tinha passado por ali e comido em todos os dias da semana.

Ela começou a trabalhar. De pouco a pouco as bancadas foram esvaziando. Os pratos eram maiores do que Allie podia lembrar de um prato comum, eles estavam cheios de glace de variadas cores. Depois de uma hora, metade da louça já estava lavada e guardada. Allie podia ver melhor aquela cozinha, tudo ali era do mesmo tom de roxo de seu avental: as bancadas, os fogões, os fornos, tudo. Menos o chão, que era em um tom de verde igual ao cabelo da atendente.

_Já terminou? – perguntou de repente a atendente, enfiando a cabeça para dentro da cozinha.

_Quase, senhora... Hã, me desculpe, como é seu nome?

_Mirna, querida. Mirna.

_Está tudo certo por aqui, Mirna. Estou quase acabando só falta e esses... – disse ela apontando para a pilha de pratos do lado esquerdo da pia, mas parara completamente ao perceber que a pilha da direita que acabará de esvaziar estava cheia novamente – eu tinha acabado de esvaziar essa e...

Mirna balançava a cabeça negativamente.

_Aqui as coisas são diferentes, os pratos aprecem aqui magicamente.

_Como... isso acontece?

_É simples, querida, as pessoas comem e os pratos vem para cá assim que elas acabam de comer.

_Mas...

_Não tente entender. Somente faça seu trabalho. Quer o emprego, não quer?

Ela sorriu e voltou para a frente da loja. Mulher estranha, pensou. Voltou a larvar os pratos, que nunca acabavam.

Três horas depois tudo estava brilhando, os pratos pararam de aparecer magicamente e ela pode relaxar um pouco. Mirna estava de volta, como se pressentisse que ela havia parado.

_Pelo que vejo você já acabou.

_Sim, senhora.

_Você foi uma boa menina. O emprego é seu.

_Obrigada! – disse ela empolgada, mesmo com o lugar sendo estranho, ela estava contente de ter arrumado algo.

_Todos os dias, manhãs e tardes – ela disse e saiu do ressinto.

_Mas... — Allie começou, mas Mirna já tinha voltado para a frente.

Allie parou por um instante e pensou com mais clareza, dizendo para si mesma: estranho, ela não ouvirá nenhum cliente entrar e nem fazer pedidos, não virá nenhum cozinheiro para fazer os donuts e muito menos aquela maluca tinha voltado para buscar qualquer coisa na cozinha. Tudo naquele lugar era estranho.

Allie retirou o avental, já estava no fim da tarde e possivelmente ela já estaria liberada. Quando saiu da cozinha viu a coisa mais estranha que podia ver na vida: o salão estava repleto de monstros e gigantes, comendo loucamente os doces que magicamente iam parar em seus pratos. Allie queria gritar, espernear, queria que alguém esclarecesse que diabos era aquilo, queria bater na mulher... Aquela mulher era a pior de todas: agora ela estava completamente diferente do que aparentava alguns minutos atrás quando anunciará que ela ficaria com o emprego.

Suas pernas não eram bem pernas, e sim duas enormes e grossas cobras peçonhentas, seu corpo fino estava mais verde do que seu cabelo e seus olhos estavam da cor do roxo de seu avental. Quando ela se virou e sorriu para a garota, Allie pode ver seus dentes enormes e amarelados.

_Bem vinda, garota, ao Donuts Monstro, seu novo emprego e novo lar. Você é a peça preciosa no nosso joguinho. Venha para a nossa festinha de comemoração de sua contratação! – ela sorria ainda mais.

Allie ficou imobilizada, olhando para aquele salão cheio de glace e monstros sujos de confetes. Ela não conseguia se mover, sentiu as mãos, que do nada se transformaram em garras, de Mirna. A atendente, que na verdade era um monstro, a levou para uma das cadeiras. Allie fechou os olhos e tudo o que sentiu foi um bafo quente em seu rosto, depois tudo ficou completamente escuro.