Em sua luta eterna contra a caminhada, Ares nos teletransporta até a entrada do shopping. O lugar é enorme. O maior shopping que eu já estive, com toda certeza. Encaro um mapa à minha esquerda, onde uma projeção espetacular do prédio exibe a planta do lugar. Parece tecnologia de ponta mostrada em filmes, mas é magia.
— Isso vai levar horas — suspiro — algum andar em especial que ela gosta?
— Quem? — Ares me encara confuso.
O olho impaciente.
— Afrodite, é claro.
— Você ficaria bem naquele vestido — ele aponta para um ousado vestido vermelho exibido em uma loja perto. É exuberante, deve valer mil vezes o que eu ganho no Acampamento.
— Eu fico bem com qualquer roupa, mas esse não é o ponto — retruco — quais andares que Afrodite geralmente frequenta?
Ares leva um tempo pensando e depois levamos mais tempo vasculhando as lojas preferidas da deusa do amor. Para minha sorte, são só nove. Com o tamanho desse shopping, poderia ser pior.
— Estou faminta — anuncio quando terminamos metade, já indo em direção a praça de alimentação.
— O que você quer comer? — Pergunta Ares.
— Hmmm — observo cada fachada com rapidez, escolhendo uma brasileira com animação. Não há ninguém onde deve ser a fila, para nossa sorte.
— Olá, bem-vindos ao Sabor Brasileiro, em que posso ajudar... — o atendendo para no meio da frase, encarando Ares com choque — posso... Posso ajudá-lo?
Me apoio no balcão, cansada.
— Oi, aqui. Bem aqui! — aceno tentando chamar sua atenção, mas sou ignorada. Ugh, flashbacks traumáticos de infância rolando agora. Ei, pai.
— Eu não vou querer nada, mas minha... — Ares pausa, me olhando em dúvida — parceira de busca, vai. Fale com ela. Agora.
Com a ordem de Ares, o atendente se vira para mim com um sorriso apertado.
— O que vai querer?
Avalio o cardápio por um momento e peço arroz com strogonoff e batata palha, brócolis para me manter saudável e Guaraná trincado de gelo. Ganho uma sobremesa surpresa grátis.
Antes que eu possa pedir para Ares pagar, o atendente diz que é tudo por conta da casa, um presente para o deus da guerra.
— Esperem só alguns minutos que entregaremos o pedido — ele diz, se afastando de nós e indo para os fundos.
— Vai se sentando que eu levo para você — Ares me diz e eu assinto, ansiosa por descanso.
Acho uma mesa vazia próxima e me sento, esperando meu parceiro de busca. Minhas unhas me fazem suspirar. Elas estão perfeitamente feitas, longas e moldadas, brilhando como se eu tivesse passado alguma base de ótima qualidade. Elas nunca ficaram tão grandes ou bem cuidadas, graças a minha falta de tempo e serviços no Acampamento. Provavelmente Afrodite vive com cada parte do seu corpo perfeitamente em ordem, brilhando saudável e atraente. Vaca sortuda.
— Aqui está — me assusto um pouco com Ares colocando a bandeja na mesa e se sentando à minha frente.
— Obrigada — começo a comer, mas estranho ele não ter nada para si — não vai comer?
— Estou bem — diz apenas. Ele com certeza pode estalar os dedos e uma bandeja com néctar e ambrosia vai aparecer aqui, então por que se importar, certo?
Assinto, e começo a comer. Está delicioso, me fazendo lembrar da minha infância.
— Diga algo — peço, incomodada pelo silêncio desconfortável entre nós. Se ele estivesse comendo tornaria tudo mais normal, porém só me encarar me deixa desconcertada.
— Como o quê?
— Como uma de suas histórias de guerra favorita.
— Você quer ouvir uma das minhas histórias de guerra? — Repete incrédulo.
— É. É interessante, eu acho — dou de ombros — e sempre parto do princípio de que posso aprender com qualquer situação, então... Manda a ver.
— Tem certeza? — Insiste, franzindo as sobrancelhas.
— Cem por cento.
E então ele conta, inseguro de início, mas ficando confortável com o passar do tempo. A história escolhida é mais sobre como ele se divertiu ao lado de colegas de exército quando foram capturados por soldados inimigos e na fuga da cidade acabaram se fingindo de monges e depois de drag queens. Parece um daqueles filmes do Jackie Chan.
— Isso foi incrível — elogio — e eu com certeza vou usar a tática da rede um dia.
— Vai detonar seus inimigos — faz piada, rindo e me fazendo rir também.
Reparo que algumas pessoas ao redor nos olham com estranheza. Bom, antes eu já estava recebendo olhares estranhos por causa da essência de Afrodite, mas ter Ares comigo acrescenta uma carga magnética a mais. Provavelmente pela fofoca.
— Ugh — reclamo, me dando conta do que se trata a sobremesa surpresa.
— O quê? — Ares se inclina em minha direção, preocupado.
— Sou alérgica a abacaxi — conto, deixando o pote com Doce de Abacaxi de lado — nada de sobremesa para mim.
— Podemos tomar um sorvete — sugere o moreno, se levantando. Me levanto também e antes que eu possa pegar a bandeja, ela desaparece.
— Essa é uma ótima ideia — concordo.
— Tem uma sorveteira bem ali — Ares segura meu ombro com delicadeza, me guiando pela praça de alimentação enorme. Meu corpo parece reagir automaticamente ao seu toque, me fazendo pensar de estou em período fértil. Não é possível que com um toque Ares consiga me abalar da cabeça ao pés. Não. Deve ser hormônios.
Alguém esbarra em mim propositadamente, me fazendo apertar meus anéis automaticamente. Entretanto toco apenas meus dedos, já que meus anéis encantados não estão comigo. Olho para as minhas mãos em pânico, onde estão? A última vez que vi estava no Acampamento e fui atacada. E então estava no templo de Apolo...
Eu terei que ir até o templo de Apolo para recuperar meus anéis. Argh.
— Sol e Ares, que coincidência agradável — Hermes chama a atenção para si. Foi ele quem esbarrou em mim.
— Coincidência — repete Ares, desconfiado.
— Posso te chamar de Sol, não é? — Hermes nem dá bola para meu parceiro de busca, sorrindo para mim.
— Claro, senhor — assinto.
— Sem essa de "senhor", por favor — Hermes dispensa com a mão a formalidade — somos primos. De... — Ele pensa por um momento — Algum grau.
Sorrio, me lembrando de Luke. E isso faz meu sorriso sumir, porque Hermes pode ser um cara legal, mas ainda é um pai relapso. Eu amo Luke e vejo de perto a dor que ele enfrenta por causa dos seus problemas com o pai. Isso faz qualquer simpatia que eu tenha por Hermes murchar.
— O que foi? Eu disse algo errado? — O deus dos viajantes questiona, atento à minha expressão decepcionada.
— Você me lembra o Luke — digo e acrescento, para o caso dele não lembrar quem é: — o seu filho.
— Não o deixe ouvir isso — ri nervosamente, um nota triste em seu tom — a morte é melhor que ser relacionado à mim.
— Eu entendo ele — falo, sem me comover.
— Venham para cá, agora! — A voz irritada de Zeus faz minha cabeça doer por um momento.
— Wow! — Pulo assustada, meu coração quase saindo pela boca — o que foi isso?
— Isso, minha cara, é Zeus prestes a ter um chilique épico — Hermes avisa.
É agora que eu viro churrasco.
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