Em um piscar de olhos estamos na entrada de um templo que é a cara de Ares. Espadas coladas umas nas outras formam as duas colunas na entrada. Não posso deixar de admirar a beleza disso, afinal, a arte está meu meu sangue.

Mas em vez de andarmos para templo, Ares parece mudar de ideia e mais uma vez nos transportamos em um piscar de olhos para dentro.

Impaciente. Ele não duraria um dia no acampamento sem poderes. Brooke sempre reclama sobre ter que andar de uma lá para o outro pelo terreno gigante. Nota mental: arranjar veículos para locomoção dentro do acampamento.

Fico surpresa ao ver que o interior do templo não parece muito um templo, mas uma casa normal. Olho ao redor e uma grande bagunça de armas é dominante na sala de estar. O deus também percebe isso, porque estala os dedos e os objetos começam a levitar até seus lugares — parede, estantes, baús — ou simplesmente desaparecer.

— Fique a vontade — Ares me diz — alguns dos convidados preferem ficar nus, então se quiser... — sorri.

— Certo... — olho desconfiada para ele.

— Vou malhar um pouco — avisa — você pode ficar olhando.

Eu seriamente não acredito no que acabei de ouvir. Ele realmente acha que isso é algum de tipo de diversão para mim? Ou para alguém?

— Eu prefiro dar um passeio — falo, tentando escapar, mas acrescento: — obrigada.

— Vou com você — diz, ficando ao meu lado.

Que encosto, reclamo mentalmente. Andamos por um tempo e ficamos em silêncio. Não é desconfortável, pelo menos. Mas sua presença me deixa com a pulga atrás da orelha. Por que ele está me tratando assim?

Decido que preciso de espaço e preparo algum plano para afastá-lo. Como? Como? Avisto um grupo de ninfas nos encarando, principalmente ao deus da guerra. Eu até entendo elas... Ele é um gato, afinal.

Mas o que eu preciso agora é de espaço, então trato de usar suas fãs ao meu favor.

— Está tão calor, não é? Por que não tira a blusa? — sugiro como quem não quer nada, mas na verdade quer sim.

Ares parece ver isso como uma coisa boa, porque tira a blusa no mesmo instante. Isso atrai as ninfas, que vem até nós dando gritinhos animados. Apriveito para para me misturar entre elas e sair de fininho, correndo para as construções mais a frente.

Entro pela primeira janela aberta que vejo, tomando cuidado para não quebrar nada no lado de dentro. Me deparo com um cômodo escuro, com apenas iluminação vindo de brasas em um canto. De quem será esse lugar?

Um som de passos se aproximando me faz tomar uma postura diplomática — apesar da minha invasão não ter sido nem um pouco.

— Sinto muito por invadir — digo, minha voz calma e arrependida, mesmo que eu não esteja nenhum dos dois.

— Saia.

Curto e grosso. Certo. Posso lidar com isso.

— Claro, eu só preciso ficar um pouco mais...

— Saia.

O homem ainda está coberto pelas sombras, mas seu porte físico é ótimo. Grande e musculoso, claramente sem camisa, apenas vestindo uma calça e avental. Ele está descalço, percebo.

— Vamos lá, são só uns minutinhos para eu organizar minha mente — peço.

— Por que você não organiza fora daqui?

A honestidade pode nos levar longe ou nos afundar no lugar, lembro de Christina dizendo, mas ser verdadeiro geralmente funciona. Às vezes é questão de sorte. Reconheça isso e evitará problemas.

Avalio minha situação: não faço ideia de quem é esse desconhecido. Há 50% de chance dele me delatar para Ares e 50% de chance dele não me delatar. Talvez ele goste do deus, talvez não. Não há como prever. Sorte, então.

— Porque Ares está me perseguindo e eu não estou com saco para atura-lo.

— Ares, uh? — ele finalmente fica perto da luz disponível e consigo ver seu sorriso — acho que você pode ficar mais um pouco.

Tento não deixar tão na cara que eu estou impressionada com sua beleza. É só um cara, repito para mim mesma, me concentrando em problemas maiores.

— Obrigada! — sorrio também, mascarando minha cautela por ele claramente não gostar de Ares — eu sou Solari.

— Eu sou Hefesto.

Paraliso por um momento. Não pode ser. Olho bem para ele, surpresa com sua aparência. Todos pintam Hefesto como um homem horrível, feio que dói, como dizem em português. Mas esse homem a minha frente é belo...

— Senhor — faço uma reverência.

— Isso não é necessário — dispensa com um acena de mão — pode ficar a vontade.

— Com licença — digo, procurando um lugar para sentar.

É claro de quem os filhos dele puxaram. Esse lugar deve ser a forja do deus, uma bagunça organizada. A janela pela qual eu entrei era a única aberta do cômodo, observo. Esse lugar deve estar fervendo, mas meu corpo não deixa transpirar nem uma gota de suor.

— Não parece incomodada com o calor — observa Hefesto em voz alta, mexendo em algumas ferramentas em cima de uma das mesas.

— Sou filha de Apolo — explico.

— Uma semideusa — Hefesto me olha, desta vez dando uma inspeção mais profunda. Me mantenho imóvel e impassível — por que tem a essência de Afrodite com você?

— Essa é a pergunta de um milhão de dólares — bufo e então o conto tudo que aconteceu.

— Típico — Hefesto passa a mão distraidamente pela barba por fazer — Eros é uma peste e Afrodite uma desmiolada. De tempos em tempos eles fazem alguma besteira homérica.

— Eu gostaria que eles reduzissem suas aventuras ao Olimpo — comento.

— Envolver deuses é contar com a sorte. Nunca sabemos até onde um conflito pode ir quando ambas as partes são poderosas — diz.

— É muito mais fácil envolver nós, pobres semideuses — suspiro, apoiando o braço na mesa e a cabeça na mão. Droga de deuses egoístas...

— Quer algo para beber? — Hefesto diz após um tempo. É evidente sua hesitação e desconforto. Ele não parece saber o que fazer comigo. Bom, ele poderia fazer comigo o que quisesse com esse rosto tão belo...

Opa! Foco, Sol!

— Um guaraná geladinho seria bom — sorrio um pouco envergonhada, mesmo sabendo que ele é um deus e não será trabalho nenhum conseguir isso.

— É para já — ele se vira e começa a andar para fora do cômodo escuro. É clara sua deficiência, sua dificuldade ao andar, o fazendo mancar. Não comento nada, claro, apenas o sigo em silêncio, desta vez prestando atenção em seu lugar.

O templo é simples, mas tem sua beleza. Parece uma casa normal, assim como a de Ares, entretanto mais confortável. Cores quentes me cercam, com alguns quadros de paisagens tranquilas e móveis de madeira.

— Sua casa é acolhedora — elogio.

— Obrigado, decoração não é o meu forte, mas acho que fiz um trabalho decente — agradece. Quando finalmente chegamos a cozinha, me sento em frente a bancada enquanto ele abre a geladeira e tira de lá um refrigerante, me entregando em seguida. Para si ele faz surgir uma taça com néctar.

— Eu acho que deveríamos conversar, certo? — ele diz, hesitante, depois de um tempo calados.

— Um silêncio confortável é melhor que uma conversa vazia — comento, percebendo qual sua vibe — conversas forçadas por etiqueta não tem graça.

— Concordo — sorri e ficamos em silêncio novamente.

Minha mente não para de trabalhar, pensando em quando poderei entrar em contato com os meus campistas para checar como tudo está indo. A ideia de procurar por Afrodite também passa pela minha cabeça, mas parece imprudente demais. Preciso evitar Apolo, descobrir por que Ares está agindo estranho comigo, desfazer seja lá o que Eros fez ao me fechar e voltar ao acampamento...

— Eu realmente não gosto disso, mas... — Hefesto diz, chamando minha atenção. Olho para ele curiosa — acho melhor se encontrar com Ares. Consigo sentir sua frustração daqui. Ele está se cansando de te procurar.

— Alguma chance dele cansar de vez de mim e me deixar em paz? — resmungo, cansada dessa confusão.

— Improvável — faz uma careta — não antes de ele conseguir o que quer com você.

— Sexo? — sugiro, desconfortável.

— Geralmente é isso — concorda Hefesto, igualmente desconfortável — mas eu não sei... É claro que se tratando dele eu sempre espero o pior, mas há algo diferente... — balança a cabeça, pensativo.

— É estranho o jeito que ele me olha — comento — eu não sei. Não parece querer meu mal. Só...

— Te querer — completa Hefesto, com uma ponta de nojo — me parece familiar.

Levanto uma sobrancelha, um pouco surpresa.

— Você e ele...?

Hefesto faz uma careta horrorizada.

— Nunca! Solari... — ele fecha os olhos por um momento, parecendo chocado demais — jamais!

— É que o jeito que você falou...

— É por causa de Afrodite! — Hefesto se adianta — apesar de tudo, mesmo estando em lados oposto por milhões de vezes, ele nunca quis o mal dela. Mas sempre a desejou.

— E voltamos a Afrodite — bufo, inconformada. Como uma pessoa só arruma tanta confusão?

— Seguindo a lógica — Hefesto se levanta, confortando a bancada e ficando a minha frente — você está com a essência de Afrodite e isso poderia atrair Ares, já que ele gosta dela — é claro o desprezo dele falando dos dois.

— Mas está claro que eu não sou ela — rebato.

— E ele sabe disso. Mas não o impede de deseja-la assim como deseja minha esposa — murmura — é instinto, até mesmo em um nível subconsciente.

— Eu sinto muito — é a única coisa que consigo dizer.

— Você não é a primeira a dizer isso — estranhamente, ele sorri — mas é a primeira completamente honesta. Obrigado, Solari.

— Não precisa me agradecer por ser eu mesma — sorrio também.

— Acredite, pessoas como você são um frescor eventual nessa vida imortal — diz e vejo sinceridade nele.

— Já pode roubar o lugar de Apolo — brinco, me levantando e ficando mais perto dele — é bom com as palavras.

Com isso ele ri, mas é uma daquelas risadas gostosas que a gente até joga a cabeça um pouco para trás e fecha os olhos. Rio um pouco também.

— Isso ninguém nunca me disse — comenta, após a crise de risos passar — aceito o elogio, mas deixe seu pai com o cargo. Ele gosta de aparecer.

— E você não. Céus, já tenho meu preferido — brinco.

— Acho que deveria ficar chocado a você me preferir ao seu pai, mas levando em conta o jeito que os deuses tratam seus filhos... — ele suspira e muda de assunta — é melhor mesmo você ir até Ares.

— Onde ele está agora? — pergunto.

— Eu não sou onisciente, querida — bem no coração!, penso, um pouco derretida pelo seu sorriso irônico e o querida — mas posso conseguir essa informação — ele vai até sua sala e me surpreendo ao ver a tecnologia estranha que tem. Mexendo aqui e ali, ele mostra que tem centenas de câmeras secretas espalhadas pelo Olimpo. Uma delas mostra Ares em frente ao templo de Apolo, discutindo com ele. Hermes e Atena observando tudo, parecendo se divertir — vai até lá?

Penso um pouco.

— Não. Não ligo se ele brigar com Apolo. Vou esperá-lo em seu templo. Dizer que me perdi dele e acabei voltando para lá — decido.

— Muito bom — aprova o deus, estendendo a mão para mim — quer que eu te leve?

Sorrio agradecida.

— Claro — seguro sua mão e em um piscar de olhos estamos na sala de estar de Ares — obrigada.

— Gosto de ajudar semideuses — ele dá de ombros — e gostei de você, Solari. Espero vê-la novamente e que Ares não faça nada de errado contigo.

— Eu não deixaria. Preferiria virar uma planta — falo.

— Admiro isso — sorri e enfim solta minha mão — Boa sorte, Solari.

— Obrigada, Hefesto — sorrio e observo ele desaparecer.

Me jogo no sofá de Ares, que é tão fofo que afunda um pouco. Pelo menos algo bom. Fecho os olhos, estressada. Quando isso vai acabar?

Meu momento é interrompido por passos vindo até mim de repente. Abro os olhos e me ponho de pé em defensiva com rapidez.

Ares me encara com desconfiança e seus olhos brilham vermelhos por trás dos óculos escuros.

— O que Hefesto estava fazendo aqui?

Notas finais
ladies and gentlemens, and something in between... HEFESTO: (imaginem o Henry Cavill) decidi fazer ele fora do convencional. mais para frente será explicado o por que ele ter fama de ser feio Ares sentiu a presença de Hefesto no templo dele... Com Sol rsrsrs chances de rolar barraco no próximo capítulo? 100% capítulo grandão pra compensar a demora de att