— Estão todos aqui? — pergunto. Enquanto os novatos estão em um grupo a minha frente, atrás de mim há um grupo de veteranos, um de cada chalé, que me ajudará a encontrar seus irmãos.
— Bom, as ordens eram para mandarem todos os não reclamados — Andressa diz, escrevendo algo em sua prancheta — então acho que sim.
Encaro o que são provavelmente quase vinte pessoas. Meus deuses...
— Ok, vamos começar. Meu nome é Solari e eu sou a líder desse acampamento. Eu represento vocês aqui, eu mantenho tudo em ordem e eu dito as regras — explico, observando a ficha de cada um no caderno em minhas mãos, organizado por Quíron.
— Se vocês estão aqui, é porque são incrivelmente azarados. Mas isso não é de todo mal. Aqui, somos uma família. Nos ajudamos como podemos e fazemos de tudo para dar certo — Faye complementa. Ela é uma filha de Iris, meu braço esquerdo e namorada da Andressa.
— Todos aqui já viram o vídeo de boas vindas? — Andressa pergunta e todos respondem que sim — meus pêsames.
— Mas agora vocês já sabem o básico do nosso mundo — continua Brooke — e serão classificados para tentarmos descobrir quem são seus pais divinos.
— Nossos pais não deveriam nos reclamar, ou seja lá o que for? — um garoto pergunta.
— É, eles deveriam — diz Brooke, ainda com um sorriso.
— Mas a verdade é que eles não dão a mínima — Andressa diz — então nós vamos dar um empurrãozinho. Primeiro, aquecimento. Vamos lá!
E então ela começa a se alongar, demonstrando como. E então começa a correr. Alguns se destacam, então esses tem uma disputa com Fabíola, mostrando a clara habilidade com corrida.
A pequena Lina fiscaliza com seriedade um exercício de charme, onde os novatos foram separados em duplas e precisam convencer um ao outro a sentar no chão. Vários traços de personalidade dos deuses gritaram: um garoto que tentou forçar outro a sentar a força, uma garota que apenas com um sorriso conseguiu fazer sua dupla sentar, vários tentando negociar e vários sentando no chão simplesmente por não quererem conflito.
Seguimos até o campo, onde algumas reclamações são dadas. Susan, uma filha de Demerter, explica que o que os novatos tem que fazer e se senta, colocando as mãos na terra e olhando atentamente para eles (ela explicou que assim poderia localizar mais facilmente quem usar os poderes de sua mãe). Uma garota faz um cacho de uvas crescer do nada só por reclamar. Observo Damien, que se afasta das plantas ao perceber que elas estão morrendo ao seu redor. Sorrio consoladora para ele, que sorri sem graça.
Depois, vamos para parede de escalada, onde os novatos encaram com desconfiança.
— Ninguém será obrigado a ir desta vez... Só os valentes tem a escolha de ir — dou de ombros, avaliando as reações.
Vários deixam de lado, aproveitando para sentar e descansar. Alguns topam o desafio, temendo ferir o orgulho. Alguns observam os mais imprudentes subir a parede. Mas quando a lava começa a cair, vários recuam ou desviando, mas uma garota acaba entrando em pânico e se soltando. É claro que todos são presos por cordas especiais, mas ela não se liga nisso. Em um segundo ela está caindo e no próximo está planando, indo lentamente até o chão.
Os comentários fervem ao redor, todos de olho nela.
— Ela está voando?! — Brooke diz, chocada.
— O vento está ajudando ela — sussurra Faye, fascinada.
— O vento? — passo na minha cabeça os deuses que tem a ver com o vento. Zeus? Improvável. Apolo? Difícil um filho dele voar.
— Tem deus pro vento? — Andressa questiona. Enquanto isso, os novatos ajudam a garota voadora.
— Eu acho que sim? — murmuro, confusa.
— Ok, vou colocar "estudar deuses menores" na lista para fazer — Brooke comenta.
Depois disso, vários outros mostraram seus dons, o que facilita para nós. Fazemos pausas para o almoço e lanche da tarde. Faye se separa de nós ao entardecer, indo conferir os preparativos para noite. Quando o jantar finalmente chega, a mesa de Hermes está abarrotada. Algumas pessoas estão de pé com suas bandejas. Pego a minha e me sento no chão, em frente a mesa dos coordenadores. Sr. D se digna a olhar para mim com estranhamento, mas logo volta sua atenção para o seu prato, com tédio.
Andressa se senta ao meu lado, apoiando a bandeja em suas pernas. Faye fica ao seu lado e chama os novatos para ficarem conosco. Eles vem, aliviando a mesa de Hermes. Luke me olha com agradecimento. Sorrio para Damien, que se senta ao meu lado. Ele retribue o sorriso. Começamos a conversar e quando termino de comer, me levanto e bato palmas para chamar atenção de todos.
— Amanhã teremos a segunda parte da avaliação. Por hoje, faremos uma festa do pijamas de boas vindas e todos irão dormir na arena — sorrio, tentando passar animação para eles.
Os mais novos comemoram e parecem se divertir, mas os mais velhos carregam no olhar aquele abatimento que eu conheço bem. A tristeza de não termos espaço para todos dormirem e a impotência diante da situação de crianças não reclamadas.
O alvoroço continua e ao ver a decoração que os filhos de Afrodite fizeram na arena, sorrio encantada. Está tudo iluminado por pequenas luzes por toda parte, pufes fofinhos espalhados, algumas mesas cheia de comidas deliciosas — bolos, mashmellow, biscoitos, salgadinhos...
Os semideuses chegam logo, todos trazendo colchões e barracas, cobertores e travesseiros, vestidos de pijamas e parecendo estar se divertindo com a bagunça. Alguns sátiros também ficam conosco. Quíron não está de pijama, mas ajuda os campistas a arrumar tudo.
— Já chequei tudo com meu pessoal, todos estão aqui — Andressa me fala. Eu não faço ideia quem é o pessoal dela, mas assinto.
Jogamos Twister e várias outras brincadeiras. Uma fogueira foi acesa no centro e um filho de Hefesto a cercou para não nos matar queimados durante a noite.
Quando nos aquietamos ao redor da fogueira, conversamos começam a rolar e o assunto da vez é tudo que passamos por ser semideuses.
— Nós realmente somos heróis por aguentar tudo essa... — olho para os mais novos, pensando melhor — porcaria. Somos muito mais que pessoas do mundo inteiro que teve a infelicidade de ser semideus e é forçado a vir aqui no verão para sobreviver a morte iminente. Somos uma família.
— É! Nós somos um família — Luke me apoia — uma extremamente problemática...
— Esquisita — continua Michael.
— Doida — Travis e Connor dizem ao mesmo tempo.
— Complicada — Quíron suspira.
— Mas uma família mesmo assim — digo — e família é para sempre.
Como se lesse minha mente, Erick, um dos meus irmãos, começa a dedilhar e eu sinto a música me embalar. Delphine, minha irmã mais nova, está sentada no cajon e, mesmo tendo apenas treze anos, ela mostra habilidade e força para lidar com o instrumento. Dylan, com apenas catorze, toca flauta de maneira suave e segura.
— Estou sentando na estação de trem
Consegui uma passagem pro meu destino, oh oh — começo. Luke passa o braço pelo meu ombro e eu sorrio para ele.
— Numa viagem de uma noite com minha mala e meu violão em mãos — Michael continua, mostrando que o dom para música está no sangue das crias de Apolo. Cada nota é como uma viagem ao Elísio.
— E todas as paradas são habilmente planejadas para um poeta e uma banda de um homem só — Katie, filha de Deméter e Annabeth, filha de Atena cantam também. A loira claramente faz isso porque é uma conselheira e precisa dar o exemplo, já que cantar não parece exatamente seu tipo de hobbie.
— Nessa Onda... está nos amarrando — Silena, uma filha de Afrodite e Beckendorf, um filho de Hefesto, cantam juntos. Ele canta timidamente, enquanto ela é bem expressiva. A morena anda até ele e completa — juntos.
Os risinhos que os filhos de Afrodite dão não são nada discretos. Mas nenhum dos dois pombinhos parecem ligar.
Uma breve vocalização minha faz a postura de todos mudar. Como uma magia no ar.
Se eu amo o poder que os filhos de Apolo tem de contagiar os outros não só a cantar, mas a cantar bem? Sim, eu amo.
— Só saiba que você não está sozinho — canto com Pollux, filho de Dionísio, que levanta sua taça de vinho com empolgação. Risadas são dadas.
— Porque eu vou fazer deste lugar o seu lar — Luke canta, sorrindo para os irmãos, que brincam entre si.
E então todos cantamos juntos e eu posso sentir uma energia que não sinto há tempos. Algo parece despertar no íntimo de cada um de nós. Temos sangue de deuses em nossas veias, somos poderosos. Merecemos muito mais que uma morte precoce ou uma vida só fugindo.
O sorriso de Quíron é tranquilo, orgulhoso. Ele parece olhar para o rosto de cada semideus, quase emocionado. Faço o mesmo. Eles são mais que crianças no acampamento em que eu trabalho. Mas que primos e primas e irmãos. São minha família. Só eles sabem toda a dor que eu sinto, porque eles também a sentem.
Olho para Erick e ele para, enquanto eu dou uns passos a frente, girando ao redor da fogueira e cantando para cada um deles.
— Acalmem-se, tudo vai ficar claro
O problema pode arrastá-lo para baixo
Se você se perder, você sempre pode ser encontrado — canto como uma promessa.
— Só saiba que você não está sozinho — Quíron se arrisca a cantar, seus olhos brilhando. Isso arranca algumas risadas baixas. Sorrio para ele.
— Não, você não está sozinho — canto.
— Porque eu vou fazer deste lugar o seu lar — todos cantam e então Erick toca novamente. Delphine toca com tanta força o cajon que eu fico impressionada.
Abraço Andressa, que ri e bagunça meu cabelo, mas eu não ligo. Ela resmunga algo como boba sentimental, mas eu também não ligo. Todos estão assim agora. Faye vem até nós e eu deixo as pombinhas abraçadas, enquanto vou até Michael, que segura minha mão. Isso parece gerar uma reação em cadeia, já que todos começam a dar as mãos.
Ficamos juntos, segurando as mãos uns dos outros, até a música acabar. Um silêncio é feito, enquanto observamos a fogueira.
— É tempo de mudanças, pessoal! E ela vai começar por nós! — grito, causando certo alvoroço. Todos gritam e comemoram como se fosse algo realmente importante. E é. Porque nós vamos fazer ser importante.
Vamos ser notados.
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