Detroit: Origens
1 Prólogo
Notas iniciais
Espero que gostem! Peguem uma pipoca e um lanche!
A casa de Kamski era muito diferente na primavera.
O gelo e a neve branca do inverno anterior foram substituídos por uma linda camada de grama verde clara. Flores brancas e vermelhas formavam um corredor pela ponte que conectava a parte externa da mansão até a grande porta de entrada, passando por cima de um rio calmo de águas extremamente claras e limpas. Não mais uma enorme poça de água congelada e cinza, a vista do lago que o píer direito oferecia era linda: um pôr do sol vermelho e brilhante, os prédios de Detroit refletindo os raios do sol da primavera em explosões de luz. A imagem passava uma impressão calma e tranquila para os ocasionais pedestres (uma raridade, já que ninguém visitava o lugar): e a casa térrea envidraçada simplesmente se sustentava ali, encostada no lago e no píer, parecendo que estava ali por séculos, intacta, como uma obra de arte.
Connor reparou em tudo isso enquanto estacionava o carro de Hank (curiosamente, exatamente no mesmo lugar onde eles tinham estacionado da última vez que tinham vindo, um ano e quatro meses atrás) e pisava no caminho de pedras de mármore que o levavam até a ponte.
Aquele lugar não lhe trazia boas lembranças. Tudo ao redor parecia gritar “falso” em alto e bom som: as flores eram perfeitas demais, as águas limpas demais, a grama verde demais. Era tão artificial, que a única sensação que aquele jardim passava para ele era doentia.
Antes de bater na porta, ele hesitou, congelando os nós dos dedos no ar. Não era tarde demais para voltar se quisesse, podia simplesmente esquecer aquela ideia maluca e voltar para casa. Toda a coragem que vinha juntando pelo caminho se dissipou, como se aquele jardim febril tivesse sugado toda a determinação que tinha.
Mas um último impulso o fez reunir um pouquinho da sua esperança, mesmo que estivesse em pedaços, e bater na porta. Tocar a campainha. Pegar a moeda do bolso da calça jeans e rodá-la quatro vezes pela mão.
Apesar de Connor sentir que aquilo demorou um século, entre ele chegar na porta e uma Chloe abrir demorou trinta segundos e quarenta e dois centésimos. O LED da androide loira piscou em amarelo ao vê-lo, depois em vermelho. Mas depois de um breve momento, voltou a ficar azul. O sorriso dela era tão falso quanto o jardim quando falou, em uma voz agradável:
— O sr. Kamski lhe receberá em um minuto. Por favor, entre. – Ela apontou a poltrona vermelha acolchoada da sala para ele.
— Obrigado – A expressão dela mudou relativamente ao processar a palavra. Connor se perguntou quantas vezes ela tinha ouvido um “obrigado” na vida.
Chloe saiu pela pequena porta da esquerda, a porta que levava para a piscina. A sala moderna não mudara nada desde que viera ali pela primeira vez. As estátuas continuavam ali, o quadro de Kamski continuava ali, e a foto de Amanda e Kamski continuava pendurada na mesma parede, na mesma posição.
Connor arrastou as botas pelo tapete e sentou-se em uma das poltronas, se forçando a esperar. Pegou a moeda de novo e a deslizou habilmente pelas mãos, se concentrando apenas nos movimentos prateados e tentando eliminar os pensamentos da cabeça.
A porta para a piscina se abriu. Dali, Connor podia ver as extensas janelas envidraçadas dando para o lago e para mais uma parte florida do jardim. Apesar de não ser capaz de suar, ele limpou as mãos nas calças. Ajeitou o cabelo, ajeitou o casaco, e entrou.
Aquela sala também parecia diferente no verão.
As janelas abertas, dando para a paisagem distante de Detroit, iluminavam a piscina e o tapete como um caleidoscópio colorido. O jardim do lado norte, antes completamente congelado e coberto com a neve, finalmente mostrava as flores e as árvores do lado de fora, com as copas grandes e absurdamente verdes. O sol agora se escondia atrás de uma torre enorme (a torre da CyberLife, para dizer com exatidão. Aquilo fez Connor desviar o olhar), preparando a cidade para uma noite morna e estrelada.
— Ora, ora, isso é uma surpresa – a voz de Kamski veio de trás de uma cadeira, virada de frente para a paisagem exuberante. Ele se virou na direção de Connor, os olhos verdes faiscando – De todo mundo que poderia ter batido na minha porta, você era o último que eu esperava.
Kamski parecia simplesmente entretido, como se Connor fosse um malabarista prestes a fazer um truque interessante.
— Vi os progressos que você e o tenente Anderson – Kamski continuou a falar, balançando o copo de uísque que segurava na mão esquerda na direção dele – vêm fazendo no Departamento de Polícia de Detroit. Todos os casos resolvidos, hein? – ele ergueu a mão em um brinde, dando um gole – Como os androides são uma maravilha da tecnologia. Te ofereceria um pouco de bebida para brindar comigo, mas você não bebe, né?
Connor se conteve para não dar uma resposta irônica, mas resolveu ficar quieto.
— E parabéns pela promoção – Kamski apontou para o emblema da polícia no casaco de Connor, e no distintivo de detetive pendurado no cinto, que tinha ganhado na semana anterior – deve estar orgulhoso de si mesmo. Afinal, a revolução até que foi útil para alguém, no final das contas.
Connor finalmente o interrompeu. Tinha vindo por uma razão, não para bater papo.
— Tenho algo para te mostrar, e mais algumas perguntas.
— Pergunte – diz o milionário, dando de ombros.
Seria tão fácil assim? Nada de filosofia e frases enigmáticas?
— Como a CyberLife foi capaz de resumir o controle do meu sistema?
Um ar de reconhecimento brilhou nos olhos de Kamski, o qual ele não disfarçou. Mas não mostrou nada além de indiferença ao falar:
— Era um programa útil para colocar em androides autônomos, para que a empresa possa fornecer um tipo de guia para a função original. No seu caso, imagino que a CyberLife queria checar seu progresso na investigação sobre os androides – ele deu de ombros –, então foi isso que ela fez. E quando a função original não é concluída, o androide pode ser totalmente controlado pelo programa diretamente da empresa.
— E a sua “saída de emergência”?
Kamski pareceu animado quando disse:
— Imagino que tenha feito bom uso do meu conselho da última vez que nos vimos.
Connor se lembrou de como ele levantara a arma contra as costas de Markus, como tinha saído daquele jardim na nevasca, sentindo frio e cansaço, e quase não tinha conseguido... tinha quase colocado tudo a perder porque fora fraco demais...
— Foi bem... importante.
— Um obrigado seria bom. Sabe, por salvar a sua vida e a de Markus também. E de mais um milhão de androides. Se quiser, pode fazer a faxina na casa como forma de agradecimento.
Connor inspirou fundo, apesar de não precisar respirar.
— Um arquivo apareceu no meu sistema há duas semanas atrás. Um arquivo da CyberLife.
Kamski parou.
— Se você usou a saída, isso não é possível. A empresa perdeu contato com você. É assim que funciona.
— Não foi isso que eu vi – retrucou Connor. Ele não queria admitir, mas estava ficando nervoso. Se Kamski não teria a resposta, quem mais teria? – Por um ano e quatro meses, nada da CyberLife entrou no meu sistema. E de repente, me mandaram um certo arquivo... algo que eu não sei o que significa.
Connor tirou do bolso o pen-drive que ele tinha trabalhado durante os últimos dias, transferindo aquele maldito arquivo. A ideia inicial de Connor, para dizer a verdade, seria ter mantido segredo daquilo. Mas Hank tinha percebido que tinha algo errado e insistido até o androide quase ter tido um colapso: e o questionado se iria abrir o arquivo misterioso ou não.
Connor demorou dias decidindo se abriria o arquivo.
E tentou.
E não conseguiu. E de novo, e de novo, e de novo, até ser forçado a hackear o código do arquivo e descobrir que precisava de uma senha.
Porque raios a CyberLife mandaria um arquivo para ele, se não podia ser aberto por ele mesmo?
Então a ideia de fazer uma visitinha para o criador dos androides tinha surgido, no começo um pouco tímida, mas que fazia sentido a cada minuto que passava. Por que não perguntar para ninguém menos que Elijah Kamski, que parecia saber de tudo?
“Connor, nem pense ir até a casa daquele maluco para dar esse arquivo para ele. Já esqueceu do que aconteceu da última vez que fomos lá?” – dissera Hank – “O que te deu na cabeça? Curto circuito?”.
O olhar do tenente estava tão cheio de preocupação paterna que Connor lhe deu ouvidos por mais uns dias. Até se lembrar da noite da revolução, quando a CyberLife simplesmente assumiu o controle de sua mente como quem brinca de marionete. E decidiu que jamais queria passar por aquilo de novo, e que resolveria qualquer coisa que pudesse impedir isso.
E fora assim que roubara o carro de Hank (roubara não, pegara emprestado) naquela tarde de primavera e fora até ali, dividido entre medo e coragem, entre vontade de fugir e lutar.
Kamski olhava o pen drive como quem olhava para um fantasma. O brilho de antes desapareceu, a imagem de um homem confiante e sábio (e nada modesto) desapareceu, dando lugar a uma expressão que Connor não fazia a menor ideia de como interpretar.
— Esse arquivo não é seu. É meu. – diz Kamski, com a voz subitamente fria. Qualquer tom de brincadeira ou irreverência tinha sumido.
— A CyberLife mandou para mim.
— Eu tenho a senha. Isso é meu.
Kamski se levantou da cadeira, arrancando o pen drive da mão de Connor.
— Saia daqui.
— O que é esse arquivo? – Connor falou mais alto.
Aquilo com certeza não era o que ele esperava. Porque Kamski estava reagindo desse jeito com relação a aquele arquivo? O que tinha dentro dele?
— Isso é a resposta... tem que ser... não é possível que...
O milionário falava consigo mesmo, andando em círculos em volta da piscina vermelha, olhando para o pen drive enquanto ocasionalmente olhava para a janela.
Na direção exata da torre da CyberLife.
— O que tem nesse arquivo? – perguntou Connor de novo. Por instinto, humano ou não, sua mão deslizava para dentro do coldre da pistola.
Kamski de repente virou a cabeça para ele, a mudança de personalidade tão súbita que Connor pulou de susto.
— A verdade está lá dentro.
***
Kamski não sabia que horas eram ou que horas o androide tinha ido embora de sua casa. Ele estava parado na frente do próprio computador, encarando a tela de plasma que ocupava toda a parede da sala de estar, com o pen drive seguro na mão. A CyberLife tinha mandado aquilo para ele, sem dúvida nenhuma.
O arquivo era um áudio. Kamski apertou o play.
“Fala aí, galerinha do futuro!” – disse uma voz. Uma outra voz, feminina e mais séria, murmurou algo por trás. Algo como: “não pareça uma droga de blogueiro de moda”.
“Olha” – continuou a primeira voz. Uma voz que Kamski reconhecia muito bem – “O que estou prestes a contar aqui vai mudar o seu destino. Seja lá quem você seja, seja lá onde esteja, alguém precisa saber o que descobrimos se as coisas... sabe, derem errado. Não sei exatamente onde tudo começou, mas vou contar as coisas como as vi. O melhor que eu posso, claro” – uma risadinha – “Mas preciso avisar: isso é importante. E você tem que me ouvir”.
Kamski esperou. Aquela voz...
“Meu nome é Sam Wright. E essa é a minha história.”
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