Detesto o que sinto por você
1 Capitulo Único
Há seis meses, de forma despretensiosa, ele a conheceu num bar. E pela primeira vez desde a separação se sentiu livre e motivado, como um adolescente que acabara de conquistar a independência com seu primeiro emprego. De certa forma, isso o assustava. Lia era cinco anos mais jovem, autárquica, misteriosa, totalmente o avesso de sua ex-mulher; havia nela uma valorização pessoal, um amor próprio. Nathan não se sentia mais experiente quando estava com ela, e isso era uma das coisas que mais o atraía na moça.
Lia morava no bairro vizinho — onde era situada a periferia da cidade -, e trabalhava por 44 horas semanais em uma gráfica, isso era tudo o que ele sabia. Não por falta de curiosidade, nem de longe. Nathan ficava mais aguçado a cada encontro, cada turbulenta noite de sexo, cada fetiche realizado. Era tudo muito erótico e viciante para ambos. Entre os intervalos, com ela descansando sobre seu peito ou até mesmo distraída na janela de seu apartamento, discutiram sobre experiências passadas, momentos engraçados, constrangedores. Argumentaram sobre perguntas misteriosas acerca da morte, que nos obriga a crer em alguma resposta que engane aquela sensação de estar sozinho no universo. Ela até tinha teorias interessantes, bem singulares, mas suas resenhas cessavam toda vez que Nathan perguntava sobre qualquer detalhe de sua vida particular. Era difícil extrair qualquer coisa dela, e impossível não querer conhecê-la melhor.
Enigmática, Lia às vezes sumia por dias sem dar qualquer notícia, assim de repente. Não havia como achá-la quando ela queria desaparecer; nem celular, nem conhecidos, nada. Isso o deixava louco, se perguntando o que poderia ter feito de errado, pensando por dias em todas as conversas que tiveram. No trabalho repassava na memória cada palavra e nuance, por vezes se distraindo entre conversas com amigos ou até deixando de falar. De súbito ela ressurgia em sua porta, com aquele comportamento destoante e o atacava. Mesmo confuso, Nathan se rendia sem questionar. Sabia que horas depois tudo voltaria a acontecer, contudo preferia continuar dando tempo ao tempo na esperança de um dia conquistar sua confiança, para ouvir sua história, suas angústias, seus medos. Afinal eles eram amigos, não eram? Não havia e nem poderia haver qualquer cobrança de um relacionamento sério ali. Era apenas sexo e eles sabiam disso de maneira subtendida. Eram livres para terem a vida que quisessem sem ter de dar satisfações um para o outro. O respeito era mútuo e ninguém ousou argumentar contra isso.
Numa manhã em que ela vestia-se para ir embora, Nathan ponderou se o que sentia por ela estava além do sexo.
“E se eu conhecer alguém por aí?”
Alguns segundos de silêncio depois sem se interromper, ela respondeu.
“Já falamos sobre isso.”
“Não, falo sério. E se eu conhecer alguém e me apaixonar de verdade?”
Lia colocou a calcinha sob a saia, e ajeitou-se de maneira preguiçosa, como se calculasse o que faria na situação narrada.
“Você está apaixonado?”
“…Não sei.”
Ela o fitou por uns instantes devagar, o avaliando, depois voltou a vestir-se pondo uma blusa. Abotoava os botões.
“Então por que está falando disso?”
“Quero saber se vamos continuar nos vendo”, ela ficou muda, as mãos trabalhando. Nathan continuou, “Se o que acontece aqui ainda é o que era no começo.” Havia momentos que Lia não sabia o que falar e simplesmente não respondia. Era desconfortável. Por esse motivo Nathan costumava evitar aquele assunto. “Deixa pra lá, esquece.”
E quando havia esses tipos de conversa ela costumava sumir. No outro dia Nathan se arrependia, torcendo pra que fosse apenas um de seus sumiços frequentes. Quando Lia voltava, Nathan a imitava; fingindo que nada tinha acontecido. Sabia que isso a deixava menos reticente, mais solta, e era assim que gostava de vê-la. Todavia essa situação o preocupava. Não havia intenção de apaixonar-se de novo, muito menos casar-se pela segunda vez, mas Lia reacendia nele essa vontade, e saber o quão distante ela estava o deixava mal. Esses episódios faziam com que Nathan se sentisse usado, entretanto não havia do que reclamar, ele também fazia o mesmo ainda que indiretamente.
Dessa vez passaram-se duas semanas sem visitas, ligações ou qualquer contato. Lia não respondia suas mensagens e o celular estava sempre fora de área. Aborrecido, Nathan começou a distrair-se com as atividades que costumava fazer, com seu trabalho de analista numa agência de viagens e com seu cão, que andava meio triste pelo súbito abandono. Sentindo-se culpado, desfez-se de suas ocupações para dar algumas voltas com ele pelo bairro, e logo correr com o animal à noite voltou a ser um hábito. Os passeios sempre aliviaram suas preocupações, ele havia se esquecido de como fazia bem para sua mente e corpo alguns exercícios, os quais havia abandonado devido aos encontros com a estranha do bar. Por vezes a jovem voltava a sua memória. Cinco semanas sem vê-la... Teria o abandonado de vez? Talvez fosse melhor seguir a vida.
Lia tinha saudades, mas também medo. Temia se envolver demais, passar dos seus limites, infringir as próprias regras. Não queria se machucar de novo nem complicar a vida de ninguém. Acostumada a raciocinar muito antes de agir ou falar, começava a ter dificuldades em lidar com Nathan. A aproximação era inevitável, e a incomodava esconder-se tendo em vista que sabia tudo sobre ele. Era injusto, e sua atitude: covarde. Quando o escutava falar do antigo casamento lembrava-se do seu. Atenta, conectava situações semelhantes na mente, porém evitava comentar e apenas acenava. Era sua maneira de manter-se oculta. Nathan parecia ser totalmente diferente de qualquer homem que já conheceu, contudo seu charme a deixava tão insegura, que melhor seria saciar seus desejos sem envolver-se para não perdê-lo.
Deste modo desejou visitá-lo novamente. Além de sentir falta de sua voz, seu corpo também ansiava por ele e por vezes flagrava-se relembrando momentos libidinosos, num banho, assistindo a um filme, trabalhando... As lembranças a perseguiam. Mas era cedo e estava longe de encerrar seu expediente. Esperou até a hora do almoço e, enquanto comia, retirou seu celular do estado offline e fez uma visita à rede social. Lia não era muito ativa quando se tratava de redes sociais, nem possuía muitos amigos; sua lista de contatos era limitada e composta por conhecidos que insistiam em fazer parte da sua vida, por simpatia ou até mesmo curiosidade. Muitos deles eram suportados por educação, afinal, trabalhava e possuía uma vida comum. Chamar a atenção por parecer esnobe ou anti-social seria negativo e a deixaria exposta, todavia não se sentia na obrigação de ser extrovertida ou comunicativa. Reservada, preferia manter-se a uma distância segura. As pessoas não eram confiáveis.
Deslizando o polegar pelas novidades da rede, Lia era só mais alguém que apenas observava sem se manifestar dentro daquele universo lotado de pessoas patéticas cheias de opiniões sobre tudo, donas da verdade, carentes de atenção. De pronto, foi direto ao perfil de Nathan, e lá teve uma surpresa.
Havia uma foto postada às 22h45 do dia anterior. Na foto estava ele, dois cachorros e uma mulher. Uma mulher linda.
Para que ela foi fuçar o perfil dele? Pra se estressar, se respondeu. O restante do dia acabou virando um verdadeiro inferno em sua cabeça. Quem era aquela mulher? Por que estavam tão felizes? Pareciam um casal! Será que fiquei tanto tempo assim longe? Ele já me esqueceu? Mas já?, eram algumas das perguntas que a atormentavam. Precisava conversar com ele, a moça poderia ser apenas uma amiga… ou não. Que besteira! Eles eram livres! O que Nathan fazia ou com quem andava não era problema seu, não tinha que se preocupar. Era apenas sexo, certo? Ou não? Cansada e confusa, Lia foi pra casa pensando em mudar o caminho e ir direto para a casa daquele traidor. Mas se conteve, não queria dar uma de louca ciumenta, e isso nem fazia o seu tipo. Melhor seria avaliar mais de perto a situação antes de tomar qualquer decisão. Espera, que decisão? E assim transcorriam seus pensamentos repletos de questões que ela não compreendia.
Nathan havia reencontrado Jordan, sua antiga colega de faculdade, quando dava uma volta com seu cachorro. Ela havia acabado de mudar-se com a família para o bairro e passeava com o cão para conhecer o lugar. Na época, eles haviam saído algumas vezes e até se relacionaram por um tempo, mas por terem vidas muito corridas, acabaram se distanciando aos poucos. Porém assim que se viram, a felicidade foi mútua e logo estavam rindo e conversando sobre situações que curtiram juntos no passado. Logo, encontrar-se com Jordan ou falar com ela por mensagens voltara a fazer parte de sua vida. Foi nesse momento que ele acabou lembrando mais vezes de Lia. Era estranho sentir-se traindo alguém. Mesmo com toda a liberdade que tinham, com o súbito abandono dela ou com o tácito acordo de não terem um relacionamento sério, ele se sentia mal quando a conversa com Jordan começava a esquentar. Era um misto confuso de sensação erótica, ansiedade e preocupação, tudo junto. Assim, por vezes ele preferiu ser mais ponderado e não avançar o sinal. De alguma forma, ainda estava muito ligado a Lia, mas onde ela estaria? Por que sumiu assim dessa vez?
Ao voltar para casa depois de uma noite divertida e delicada em companhia de Jordan — afinal, precisou de muita habilidade para driblar a amiga com finesse—, Nathan abriu a porta de seu apartamento, louco por um descanso. E numa mistura de susto e alegria, viu Lia no escuro da sala, sentada sobre o sofá junto com seu cachorro, assistindo TV.
Sem saber bem o que fazer e cheio de perguntas sondando a mente, Nathan aproximou-se a passos lentos, colocou o molho de chaves sobre uma mesa e sentou-se na poltrona adjacente sem tirar os olhos dela. Havia esquecido que uma cópia da chave estava com ela.
“O que aconteceu?”, perguntou. “Por que… desapareceu assim?”
Esperar pacientemente por resposta após uma relutância já era uma virtude que Nathan desenvolvera naquele relacionamento.
“Estava com ela?”
A estranha pergunta o fez conectar alguns pontos.
“Está falando… da Jordan…?”
Lia não precisava mais da resposta. Sabia que era “sim” pela entonação. Espirou o ar.
“Eu sumi porque precisei dar um tempo.”
“Hum… Te irritei com alguma coisa que eu disse? Fiz algo errado? Sério, porque estou me perguntando isso há semanas.”
“Não”, só tinha virado a vida dela do avesso.
“Então o que é?”, sem resposta. “Escuta, Lia, estou cansado disso. No início era apenas sexo, mas nós dois sabemos que não é mais”, ela ficou escutando, atenta a cada palavra. Ele continuou, “Você sabe tudo sobre mim, eu não sei nada da sua vida, quem você é, nada. Por que não confia em mim? Não sei, talvez esteja passando por problemas e estou disposto a ajudar, eu gosto de você, mas assim não dá!”
“Foi por isso que você falou sobre estar apaixonado naquele dia?”
“Eu me referia à você quando perguntou se eu estava.”
“Você disse que não sabia.”
“E eu não sabia! Não sei!” e se conteve por um instante a fim de organizar os pensamentos, “Na verdade não quero estar, mas não consigo simplesmente te esquecer! Acredite eu queria te esquecer, detesto esses sumiços e detesto ser descartável!”
Ouvir isso a deixaria triste em outro contexto, mas aquilo na verdade a excitou. De algum modo, ela sentia um paradoxo de sentimentos vibrando nele. Lia recolheu as mãos sobre o cão que cochilava, foi até Nathan e afagou sua cabeça contra seu ventre, recebendo um abraço contido, que foi se apertando gradualmente.
“Detesto seu silêncio…” ele resmungou com voz abafada, “Detesto sua indiferença… Detesto o que sinto por você”.
Ainda mais apaixonada, sentou-se sobre ele e o beijou com ardor. Nathan não a detia, fisgado, sentindo a avidez trasbordar da mulher que atormentava seus pensamentos. Os sexos se tocavam lá em baixo, deixando os dois mais acesos a cada movimento, e logo as mãos que Lia tanto desejava, a seguravam com firmeza, a encaixando nele. Em poucos segundos estavam se despindo, aflitos um pelo outro. A libido estava com um sabor diferente, a sensibilidade maior e o raciocínio longe, apenas o instinto os dominava, um sentimento estranho para ambos, contudo inebriante.
O sexo daquela noite foi o mais intenso que já tiveram um dia, o mais apaixonado, muito distante de uma relação incitada apenas pela atração física. Naquela noite Lia perdeu o medo e teve a certeza de que poderia confiar nele. Na verdade, o medo de perdê-lo sobrepujara o medo de se envolver e se machucar. Poderia ser um caminho sem volta. Sim… Mas dessa vez ela seria completamente dele, e ele só dela.
Na manhã seguinte Nathan despertou nu sob os lençóis da cama. A claridade do dia já invadia o quarto, incomodando sua vista embaçada. Consultou o relógio, era sábado, dia de folga. Imaginou que veria Lia ao seu lado, mas não havia ninguém. Ele examinou o quarto tentando achá-la. Nem sinal dela. Soprou o ar frustrado, e lembrou-se da mulher estranha por quem tinha se apaixonado.
E sorriu.
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