Detenção de Março

13 Explicações


ROMANCES MENSAIS

LIVRO III — DETENÇÃO DE MARÇO

CAPÍTULO XII — EXPLICAÇÕES


Conforme nós nos aproximávamos do restaurante, mais nervosa Mal ficava. Como se tentasse controlar os nervos, ela segurava a alça de sua mochila com força e mordia o lábio inferior diversas vezes. Eu observava a tudo em silêncio, sem saber o que fazer para acalmar a garota.

Quando enfim chegamos ao local marcado, ela respira fundo e me encara temerosa. Essa era a primeira vez que eu via Mal tão fragilizada. Ela se assemelhava a uma criança em busca do consolo da mãe prestes a chorar. Por instinto, pego na mão da garota e a aperto com firmeza, oferecendo todo o meu apoio. Incerta, ela corresponde ao aperto, entrelaçando nossos dedos e sorri nervosa.

— Vai dar tudo certo. Você vai ver. — Afirmo, sorrindo confiante, ainda que não soubesse o que esperar de Hades. Eu apenas torcia para que ele tivesse uma boa explicação para ter abandonado Mal e para ter voltado agora após quase dozoito anos.

— Tudo bem. Vamos entrar. — Decide a garota de cabelo púrpura, puxando-me em direção ao restaurante.

Assim que entramos, não demoramos muito a encontrar o homem de traços semelhantes ao de Mal e cabelo azul claro. Ele parecia nervoso e encarava o copo de água em suas mãos com intensidade. Ver o pai parece ter deixado Mal intimidada e é preciso que eu a conduza para que ela saísse do lugar. Cautelosos, nós nos aproximamos da mesa em que ele estava e logo somos notados.

Hades se levanta de uma vez e quase derruba a cadeira. O restaurante inteiro o encara, mas logo viram o rosto ao receber o olhar intimidade do homem. Mal se encolhe contra mim, ainda mais nervosa e esse gesto parece não passar despercebido por Hades, que me encara de maneira nada amigável.

Tento não demonstrar o medo que sentia do homem, agora que finalmente sabia quem ele era. E apenas para garantir que eu continue vivo, afasto-me um pouco de Mal e dou um sorriso forçado. Aquela situação estava começando a me deixar nervoso também.

E então alcançamos a mesa. Eles se encaram em um silêncio pesado e incômodo. Mal continuava a segurar minha mão com firmeza e eu me questionava se deveria fazer alguma coisa ou continuar sendo alvo do olhar mortal de Hades por estar de mãos dadas com sua filha.

— Nós deveríamos nos sentar. — Sugiro, tentando aliviar um pouco do clima pesado que estava entre nós. Hades bufa, irritado.

— O que esse mauricinho metido a besta está fazendo aqui? Vai tentar chamar a polícia para mim mais uma vez? — Pergunta o homem de cabelos azuis, lançando um olhar raivoso para mim. — Não me diga que está namorando um filhinho de papai como ele.

— Nós não... — Tento me explicar, mas sou interrompido por Mal, que parecia bastante irritada pelo comentário do pai.

— E se nós fomos? Desde quando isso é da sua conta? — Questiona Mal, apertando meu braço com firmeza, enquanto encara o pai em desafio.

— Você merece alguém muito melhor do que um mimadinho, Maly. — Resmunga Hades, contrariado e intimidado com a resposta da filha.

— Eu decido quem ou o que eu mereço. Você não me conhece e menos ainda ao Ben. Não tem o direito de se meter na minha vida depois de passar tantos anos longe. — Acusa Mal, fazendo Hades se encolhe, entristecido.

— Mal, acho melhor a gente se sentar. — Sussurro para a garota, notando que estávamos sendo alvos da atenção dos outros clientes.

A garota suspira e assente, concordando. Não adiantaria nada ficar gritando no meio do restaurante. E eu tenho que confessar que estava curioso para saber a versão da história por Hades. Diferente do que ele se mostrou no dia em que nos vimos pela primeira vez, o homem de cabelos azuis parecia bastante intimidado com os olhares e palavras de Mal. Nem mesmo parecia um homem alto e musculoso, capaz de colocar medo apenas com um olhar em qualquer pessoa.

Contrariada, Mal se senta de frente para o pai e eu me coloco ao seu lado. Um garçom se aproxima e nos entrega cardápios para que escolhêssemos o nosso almoço. O clima continuava pesado, mas a garota ao meu lado parecia muito mais calma do que quando chegamos ao restaurante. Hades estava emburrado, mas a discussão parecia ter quebrado um pouco do gelo entre os dois. E parando para observar pai e filha, era absurda a semelhança de personalidade.

Mesmo que carreguem expressões perigosas e intimidadoras, no fundo, Hades e Mal são bastante sensíveis. Não que isso os façam menos capazes de arrancar a cabeça de alguém, mas quando se passa mais tempo com eles, é possível perceber que eles são pessoas muito mais justas e amáveis do que aparentam ser.

— Obrigado por ter vindo. — Agradece Hades, de repente. Mal desvia o olhar do cardápio para encarar o pai. — Você tem razão. Eu não tenho direito algum de interferir em sua vida. Mesmo que eu não goste desse mauricinho, eu perdi a chance de ser o seu pai quando eu deixei você e sua mãe.

— Por que você foi embora? — Mal parece finalmente criar coragem para fazer a pergunta que provavelmente tem a incomodado desde que ela era criança. — Por que você nos deixou? Por que você voltou?

— Eu não tive escolha...

— Sempre há escolhas! — Interrompe Mal, demonstrando toda a mágoa que sentia pelo abandono paterno. — Você podia não ter nos deixado. Podia ter escolhido ficar ao lado da minha mãe e do meu lado quando a gente mais precisava de você. Ao invés disso, você escolheu o caminho mais fácil e fingir que eu nunca existi.

— Isso não é verdade. A decisão mais difícil que eu já tomei na minha vida foi ter que te deixar, mas se ficasse, você correria perigo. Eu devia muito dinheiro para uns homens barra pesada e para te proteger, eu tive que ir embora. Sua mãe e eu já não estávamos muito bem no nosso casamento. Quando começamos a receber ameaças, ela me mandou ir embora. Ela não aguentava mais lidar com os agiotas e temia pela sua vida. — Conta Hades, surpreendendo Mal, que o encara sem reação. — Assim que eu descobri que ia ser pai, eu decidi arranjar um emprego de verdade. Eu queria te dar uma vida melhor, ser alguém que você tivesse orgulho de chamar de pai. Então deixei a música de lado e peguei dinheiro emprestado para abrir uma loja de instrumentos musicais.

"O problema é que eu não tive o retorno esperado. O que eu ganhava dava apenas para colocar comida na mesa e pagar o aluguel de casa. Os agiotas começaram a fica impacientes e passaram a me perseguir. Um pouco antes de você nascer, eles ficaram mais violentos em suas cobranças. Eles destruíram nossa casa, roubaram minha loja e quebraram nosso carro. Cansada dessa vida, sua mãe me colocou para fora e disse que eu não poderia ver você até que eu tivesse acertado minha divida com os agiotas.

Eu lutei com todas as minhas forças para ficar, mas sabia que tinha que assumir a responsabilidade pelos meus atos. Eu agi errado em pegar dinheiro emprestado com agiotas sem falar com sua mãe e mais ainda por não ser capaz de cumprir com a minha palavra. Dois anos depois, eu finalmente consegui me livrar das dívidas e voltei para tentar cuidar de você, recuperar o tempo perdido, mas sua mãe não permitiu. Ela foi embora de National City sem deixar rastros. Eu passei a procurar por você desde então. Sinto muito por ter perdido quase dezoito anos da sua vida. Eu sei que desculpas não vão reparar nada do que eu fiz ou o tempo em que passei longe de você, mas implorar seu perdão é tudo o que eu posso fazer no momento." — Explica Hades, suspirando de maneira dolorosa. — Eu te amo, Maly. Eu te amei desde o momento em que descobri que sua mãe estava grávida de você, amei mais ainda quando ouvi seu coração bater fortemente pela primeira vez. E não teve um dia sequer que não pensei em você durante todos esses anos.

Mal aperta minha mão por debaixo da mesa e vejo seus olhos se encherem de lágrimas. Ela abre e fecha a boca várias vezes, mas não consegue dizer nada. Aperto sua mão de volta, tentando transmitir forças a garota. Apesar de não saber o que ela estava sentindo, era nítido em seus olhos o quanto ela estava enfrentando um caos dentro de si.

— Como você descobriu onde ela trabalhava? — Exponho a dúvida que tenho desde o momento em que descobri a história da família de Mal.

— Depois de anos procurando por Mal, eu finalmente a encontrei na rua. Eu demorei um tempo para ter certeza de que era ela e... mais ainda para ter coragem de ir falar com ela. Talvez, só talvez eu tenha exagerado na maneira como eu tentei conversar com Maly, mas...

— Você exagerou demais. Depois de tantos anos longe, você aparece do nada no local onde ela trabalha, dizendo que não iria embora até falar com ela, enquanto tentava invadir a casa. Não existe talvez nessa abordagem. — Respondo e ele bufa, como um adolescente mimado que foi repreendido pelos pais. Encaro Mal, que corresponde ao olhar, parecendo um pouco mais calma. Sorrio para ela e limpo uma lágrima que escorre de maneira teimosa pelo rosto dela. — Mal é uma garota incrível. Ela é bonita, determinada, inteligente, talentosa e muito justa. Não conheço ninguém que lute tanto pelos direitos das pessoas menos favorecidas. Mesmo sem a presença dos pais, ela se tornou uma mulher forte que luta pelo que acredita. Se você está mesmo disposto a entrar na vida dela, que seja de maneira definitiva.

— O que quer dizer com isso? — Pergunta Hades, desconfiado. — E será que dá para se afastar da minha filha? Essa melosidade de vocês está me deixando irritado.

— No dia em que você tentou falar com Mal, disse que precisava da ajuda dela. — Relembro, afastando-me da garota de cabelos roxo. Pai e filha me encaram surpresos. — Eu não estou duvidando de sua história. Você parece estar sendo sincero sobre sua busca por Mal, mas eu sinto que você continua escondendo informações importantes. Então, já que você veio aqui para dar explicações sobre o que aconteceu, que faça por completo.

— Você tem cara de ser um filhinho de papai, mas é esperto. — Comenta Hades, dando um fraco sorriso. — Tem razão. Eu não estou dizendo toda a verdade.

— Como assim? — Pergunta Mal, preocupada.

— Eu não menti sobre o que aconteceu. Sua mãe realmente foi embora e eu precisei de anos de busca para finalmente te encontrar. Mas eu não te encontrei naquele dia. — Confessa Hades, engolindo em seco. — Depois de cinco anos procurando você como um louco, eu conheci uma garota. Eu me apaixonei por ela e tivemos um filho, Hadie. Infelizmente, Perséfone tinha uma saúde frágil e após uma forte pneumonia, acabou falecendo. Eu tenho cuidado de Hadie sozinho nos últimos oito anos e não tem sido fácil.

— Eu tenho um irmão mais novo? — Pergunta Mal, surpresa.

— Sim. Ele tem oito anos e é a criança mais estranha que eu conheço. Acredita que a brincadeira preferida dele é fazer experiências científicas? — Comenta Hades, rindo levemente. — Hadie também é extremamente teimoso e temperamental.

— Acho que isso é de família. — Deixo o comentário escapar e recebo um tapa doloroso de Mal em meu braço. — Ai.

— Cala a boca. — Repreende Mal, lançando seu olhar ameaçador. Ela então encara o pai e sorri sem graça. — Pode continuar.

— Como eu estava dizendo, seu irmão é uma criança única e para o meu azar, puxou a saúde frágil da mãe. — Revela o homem e logo entendo a urgência de Hades de querer conversar com Mal. — Eu descobri sua localização no seu último campeonato de patinação. Quando disseram seu nome, eu te vi brilhar naquela pista de gelo, eu não tive dúvidas de que era a minha pequena Malvina. Depois disso, eu te procurei nas redes sociais e descobri que você estudava na Auradon High School. Como um covarde, eu observei você todos os dias de longe, esperando criar coragem para falar com você.

— O que Hadie tem? — Pergunta a garota de cabelo púrpura, ansiosa.

— Anemia Aplástica Grave. Bom, a medula óssea é responsável por fabricar as células sanguíneas, ou seja, é ela que produz os leucócitos, plaquetas e hemoglobinas. A anemia aplásica acontece quando a medula óssea passa a não mais realizar suas funções corretamente. — Explica Hades, parecendo sofrer bastante ao lembrar do problema que seu caçula tem enfrentado. — Apesar dessa doença não ser um câncer, ela é mais fatal que uma leucemia aguda, já que a quantidade das células apresenta uma queda muito agressiva. Diferentemente da leucemia na qual podem ser feitos vários ciclos de tratamento, na anemia aplásica essa melhora precisa acontecer assim que os medicamentos são administrados. O problema é que Hadie não tem melhorado, então teremos que partir para o transplante de medula óssea. As pessoas mais prováveis de ter compatibilidade são os pais, o que infelizmente não foi o meu caso. Perséfone morreu, então não posso contar com ela.

— Você quer que eu faça o teste de compatibilidade para doar medula óssea para Hadie. — Deduz Mal, em uma expressão indecifrável.

— Você é a minha maior esperança. Você fará dezoito anos amanhã e estará apta a fazer a doação. Eu sei que estou sendo um babaca, aparecendo depois de tantos anos. Pior ainda, com um pedido tão complicado quanto esse. Mas eu realmente não sei mais o que fazer, Maly. — Hades parecia realmente desesperado. — Eu estou cansado de decepcionar meus filhos, de continuar errando com vocês. Por favor, ajude-me a salvar a vida de Hadie. Você pode me odiar pelo resto de sua vida, mas não deixe que seu irmão pague pelos erros que eu cometi.

— Está disposto a ter o meu ódio para salvar a vida de Hadie, mesmo depois de ter me procurado por tantos anos? — Questiona Mal com imponência.

— Eu... sim. Por mais difícil que seja para mim, eu estou disposto a aceitar qualquer que seja a punição que queira me dar, contanto que me ajude a salvar a vida de Hadie. — Responde Hades de forma determinada. Eu conseguia sentir seu desespero para salvar o filho.

— Tudo bem. — Concorda Mal, como se não fosse nada demais.

— O quê? — Questiona o homem de cabelos azuis, surpreso.

— Eu farei o teste de compatibilidade. Se formos compatíveis, eu farei a doação de medula óssea para Hadie. — Responde Mal, dando um sorriso gentil. Hades a encara, emocionado. — E não se preocupe. Eu não te odeio. Obrigada por ter voltado, pai.