Detenção de Março
10 Esforço
ROMANCES MENSAIS
LIVRO III — DETENÇÃO DE MARÇO
CAPÍTULO VIX — ESFORÇO
— Vocês são realmente uns desgraçados! — Afirmo, fingindo estar furiosa. Evie me segurava, como se estivesse tentando me impedir de avançar contra Audrey e Ben. — Por que ao invés de ficar esbanjando dinheiro de forma estúpida e inútil apenas para humilhar as pessoas, vocês não vão atrás de alguma coisa de especial com o dinheiro de vocês? Tipo comprar uma passagem para a puta que pariu e sumir para sempre da minha frente.
— Para com isso, Mal! — Implora Evie, cansada. Sem Carlos e Jay aqui, ela estava tendo dificuldades para me "controlar". — Vamos embora. Se você se envolver em mais problemas pode acabar sendo suspensa.
— Você e seus amiguinhos pobres e sem educação é que deveriam sair, afinal, já viram o nível dessa escola? Vocês são o lixo da sociedade. Não deveriam estar aqui. — Responde Audrey, indignada. Ben me lança um olhar divertido. Eu tinha certeza de que ele estava se controlando para não rir da falta de criatividade dos insultos de Audrey.
— Já chega, Audrey. Vamos embora daqui. Não vale a pena brigar com ela. Isso só nós fará ter problemas maiores. — Pede Ben, fazendo o seu papel de pacifista, enquanto fingi me encarar com julgamento. — Você viu o que aconteceu da última vez. Eu não posso mais me envolver em problemas.
Mesmo sem querer, eu tenho que admitir que Benjamin Florian é uma pessoa bastante interessante. Quase uma semana se passou desde que ele começou a treinar comigo e ele estava se saindo muito melhor do que o esperado. Ben parece realmente interessado em aprender e se esforçava ao máximo para pegar as partes complicadas da coreografia que a treinadora Lisa preparou para o campeonato nacional.
Enquanto isso, nós não tínhamos mudado muito os insultos e as implicâncias na frente das pessoas da escola. Para evitar problemas e que acabassem revelando sem querer que nos tornamos amigos, decidimos esconder de todos, inclusive meus melhores amigos, sobre a ajuda de Ben com o meu treino de patinação artística. As únicas pessoas que sabem nosso segredo além de Ben e eu são Austin, Barry, Ron, a treinadora Lisa, minha prima Kara e o padrinho de consideração de Ben, Mon-El, que coincidentemente é namorado da minha prima.
Eu não imaginei que ele daria conta da rotina exaustiva, onde ele precisa estudar de manhã, treinar com o time de hóquei da escola de tarde, ir para o Roller Jam à noite para aprender a coreografia de minha apresentação para o campeonato nacional e ainda precisava cuidar da mãe quando estava em casa, já que o pai está sempre atolado de trabalho. Ambos os treinos são pesados e exige muito do físico do atleta, o que é perigoso e muito desgastante.
Isso estava começando a me preocupar também. Austin e Barry têm dado bastante apoio ao amigo, sempre cuidando para que ele se alimente e se encarregaram de levá-lo da escola para o Roller Jam e de lá para casa. Tudo com o objetivo de não levantar suspeitas com o diretor Adam e a mãe de Ben. Ainda que eu achasse que o homem entenderia a situação se explicassem, os rapazes não queriam arriscar ter problemas com o pai de Ben e acabar preocupando a mãe dele.
— Por que você é quem tem que pagar pelas merdas que essa garota faz? Isso é injusto! — Reclama Audrey, abraçando Ben, enquanto me encara com todo o ódio dela.
— Você quer falar de injustiça? — Questiono, rindo sem acreditar no que eu estava ouvindo. — Injustiça é você atacar as pessoas por não terem as mesmas condições financeiras que você. Injustiça é machucar inocentes só porque você não é feliz e acredita que isso vai mudar se ver outras pessoas sofrendo. Injustiça é enganar, manipular e se aproveitar dos mais fracos. Então não venha dizer essas bobagens, enquanto age como a serpente demoníaca que você é.
— Você vai deixar ela falar assim com a sua namorada, Ben? — Instiga Chad com aquele sorriso desafiador dele.
— Apenas vamos para a aula. — Pede Ben, cansado. Ele não parecia muito bem. O rosto estava começando a ficar pálido e estava piscando com mais frequência. — O professor Jafar não vai ficar feliz com o atraso.
— É assim que você me defende? Eu sou a sua namorada! Eu mereço ser defendida! Você só pensa em você, Ben! Eu estou sendo destratada por essa versão horrível da Monster High e tudo que você pensa é em como o professor vai ficar se nos atrasarmos para aula? — Questiona Audrey, indignada, dando um tapa no peito de Ben.
E antes que dissesse qualquer coisa, Ben desmaia bem na nossa frente, assustando a todos. Ele cai inconsciente e tudo o que os idiotas dos populares fazem é ficar olhando. Audrey se aproxima do corpo do namorado e ao invés de pedir ajuda ou algo do tipo, começa a dá vários tapas no rosto de Ben, exigindo que ele acordasse.
— Evie, vai atrás do Austin e fala que o Ben desmaiou. — Sussurro para minha melhor amiga, alarmada pela situação.
— O quê? — Ela questiona, confusa. — Nós não deveríamos ajudá-lo?
— Acha que algum desses panacas vão fazer algo? Austin é o único nesse lugar que vai tomar alguma atitude. A sala dele é no fim do corredor. Corre lá e avisa que ele desmaiou. Eu prometo que te explico tudo depois. — Prometo, ficando cada vez mais nervosa. Era difícil fingir que não estava preocupada com a saúde de Ben.
— Tudo bem. — Evie concorda, suspirando em seguida.
Ela corre para ir atrás do loiro, enquanto eu permaneço parada, sentindo um grande aperto em meu peito. As pessoas continuavam em cima de Ben e os que estavam mais afastados, usavam seus celulares para filmar a cena. Eu também me sentia culpada por saber que o motivo de seu desmaio é o excesso de cansaço, causado principalmente pelos exercícios exaustivos que ele tem feito.
— Ben! — Ouço o grito de Austin, que corre desesperado até o amigo. Ele empurra as pessoas que estavam em cima de Ben, tentando se aproximar.
— Graças a Deus. — Sussurro, um pouco mais aliviada por ver o garoto. Evie me encara desconfiada, sem entender o que estava acontecendo.
— Saiam de cima dele! Saiam! — Assim que ele finalmente consegue afastar as pessoas, ele passa o braço do melhor amigo e encara Audrey com fúria. — O que você fez com ele?
— Eu?! Nada! Ele simplesmente desmaiou! — Exclama Audrey, parecendo ofendida com a acusação de Austin.
— Merda! — Sussurra Austin, preocupado. Ele se vira para mim, enquanto ajeita Ben para carregá-lo. — Mal, vem me ajudar a levar o Ben a enfermaria. Evie, avise ao diretor que ele desmaiou.
Evie e eu trocamos olhares e após assentir, fazemos o que Austin havia pedido. Eu me sentia aliviada pelo loiro inventar uma desculpa para que pudesse acompanhá-los sem levantar suspeitas e descobrir a real situação de Ben.
Depois de carregar o rapaz inconsciente pelos corredores de Auradon até a enfermaria da escola com muita dificuldade, rapidamente Ben é examinado pela enfermeira. Enquanto isso, Austin e eu ficamos do lado de fora, aflitos pela situação. Ao mesmo tempo, a culpa se tornava cada vez maior. Ele estava fazendo de tudo para me ajudar, mesmo tendo uma vida tão complicada.
— Não é sua culpa. Ele está fazendo isso porque ele quer. — Austin quebra o silêncio entre nós, enquanto me observa com seriedade.
— O quê? — Pergunto, surpresa por ele saber exatamente o que se passava em minha mente.
— Você está se culpando pelo que aconteceu com Ben. Posso ver pela forma como remexe e encara suas mãos. — Explica Austin, dando de ombros. — Pode não parecer, mas ele é muito teimoso. Não é a primeira vez que o vejo desmaiar por exaustão. Foi assim quando ele fez ballet e hóquei ao mesmo tempo e também quando ele começou a trabalhar meio período e treinar hóquei, porque descobriu que o pai estava muito endividado. Ele sempre dá o melhor de si em tudo que faz. Acredita que ele está chegando na escola às seis horas da manhã para ensaiar a coreografia de vocês? Tudo isso porque ele tem medo de acabar atrapalhando você com a falta de experiência dele.
— Como esse idiota vai conseguir me ajudar se ele se matar de exaustão? — Questiono, furiosa pela falta de controle de Benjamin.
— Eu sei como você se sente, mas o Ben é assim. Ele sempre foi assim. Desde que éramos crianças, Barry e eu tínhamos que ficar de olho nele. A tia Bela quase enlouquecia com o exagero de Ben. Fosse no ballet ou no hóquei, ele continuava treinando até acertar o passo ou conseguir passar por algum oponente. — Responde Austin, sorrindo nostálgico. — É por isso que eu o admiro tanto. Essa força de vontade absurda dele é impressionante. Ben é o tipo de pessoa que acredita que trabalho duro compensa talento. Então, eu não tenho dúvidas de que ele será capaz de ser o seu parceiro na apresentação do campeonato nacional.
Suspiro, pensativa. Eu já nem sabia mais se poderia pedir para ele continuar a ser meu parceiro de treino. Não depois de ver o quanto isso está sobrecarregando ele. Por outro lado, eu entendia bem esse desejo de se superar. Benjamin jamais aceitará que o afastemos da patinação artística. Eu também já havia perdido as contas de quantas vezes fiquei com ferimentos em meus pés por passar tempo demais treinando. Ou como machuquei meus joelhos nas minhas inúmeras tentativas de alcançar a perfeição nos saltos. Como atletas, muitas vezes nos desesperamos tanto em busca de resultados, que deixamos de lado o cuidado e paciência para não extrapolar nossos limites.
— Austin! Malvina! Onde está o Ben? — Pergunta o diretor Adam, aproximando-se de nós, apreensivo. — Evie me contou que ele desmaiou.
— A enfermeira Lily está examinando ele. Nós não sabemos ao certo o motivo dele ter desmaiado. — Conta Austin, dando um sorriso cansado. O som da porta sendo aberta chama a nossa atenção. — Parece que o exame finalmente terminou.
— Lily, como está o meu filho? — Questiona o homem, sem esconder sua preocupação.
— Olá, diretor Adam. Benjamin está bem. Ele apenas teve uma queda de pressão. Provavelmente não está dormindo o suficiente e se alimentando direito. Isso é bem comum em garotos da idade dele. — Tranquiliza a enfermeira, sorrindo gentil. — Agora ele está dormindo, então não se preocupem. Foi apenas um susto.
Todos respiramos aliviados, ainda que Austin e eu soubéssemos bem que o desmaio era a culpa do cansaço dele. O diretor e o melhor amigo de Ben permanecem mais um tempo fazendo perguntas a enfermeira, enquanto eu apenas ouvia tudo atentamente. No entanto, meu celular vibra no bolso de minha calça, notificando que eu havia recebido uma mensagem.
Provavelmente era Evie, querendo saber notícias de Ben e o que estava acontecendo. Pego meu celular e desbloqueio, pronta para responder minha melhor amiga. Entretanto, o que eu não esperava era que a mensagem era de um número desconhecido. Curiosa, abro a mensagem e me surpreendo ao identificar o autor.
Mal, eu sei que você não quer falar comigo e tem todo o direito de estar com raiva de mim. Mas eu realmente preciso conversar com você. Eu sei que você tem muitas dúvidas e que minha partida deixou marcas terríveis em você, mas eu imploro. Me dê uma chance de me explicar. Se depois de ouvir o que eu tenho a dizer, você ainda quiser que eu desapareça de sua vida para sempre, assim eu farei. Eu prometo. Então por favor, fale comigo.
Com amor,
Hades.
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