Detalhes
2 Kojiro
Notas iniciais
Cabelo
Desde sempre ele identificava Kojiro de longe, não importa quantas pessoas estivessem ao seu redor. Era praticamente impossível não saber que ele estava por perto.
Se estivessem na escola, onde todos tinham quase o mesmo tamanho, ele via na sua visão periférica um capacete de cabelo verde pairando acima do rosto dos outros alunos.
E não importava o quanto Kaoru se concentrasse, era impossível não vê-lo. Ele era quase onipresente. Por muito tempo ele amaldiçoou viver em uma área urbana, onde a cor verde era rara, destacando seu cabelo. Se eles vivessem no meio da floresta, isso não aconteceria.
A presença de Kojiro mudou de significado antes do cabelo, ou mais especificamente, o tom verde do seu cabelo. Foi em uma das suas aulas extracurriculares – conceitos artísticos, uma aula que Kojiro jamais se matricularia – que ele descobriu algo ridículo.
O professor estava falando sobre o básico de teoria das cores, e como contextualização, falou das cores complementares e da associação popular dessas as almas gêmeas.
E verde e rosa, nos tons dos seus cabelos, eram cores complementares.
Ele fechou o livro com força, no meio da aula. Que grande estupidez.
Cheiro
Kojiro usava duas colônias diferentes, uma no ambiente de trabalho e outro nas folgas e na S.
A colônia do trabalho era suave, não doce. Ela parecia permanente, como se estivesse dominando o ambiente ao redor, mas não era agressivo. Era quase “baixo”, se baixo e alto fossem características de cheiros. Kaoru pensa que faz sentido, pelo contexto. Apesar de ser o chef, ele frequentemente estava atendendo as pessoas do restaurante diretamente, e era interessante que ele usasse o olfato para marcar presença, mas não ser desagradável, e ao mesmo tempo não desviasse a atenção principal restaurante – a comida.
O outro perfume de Kojiro era, de acordo com sua pesquisa usando a Carla, certamente italiano. Ele era horrível, e Kaoru todo ano compra um perfume diferente na esperança de Kojiro trocar.
Mãos
Kaoru era um caligrafista por profissão, e apesar dos comentários de algumas pessoas sobre o uso de Carla no processo, Kaoru era essencialmente um artista. E como tal, ele tendia ao olhar mais romântico em situações cotidianas. E está tudo bem, ele já fez as pazes com essa parte de si mesmo.
Kojiro como skatista era um troglodita, verdade seja dita. O que não era necessariamente ruim. Ele usava das suas habilidades e capacidades físicas quase sobre-humanas para construir na marra seu próprio caminho nas corridas. Kaoru se surpreendia frequentemente, seja com sua tenacidade seja pela ousadia. Ele sabia que Carla, mesmo sendo uma inteligência artificial que aprende sozinha, e mesmo tendo todo o acervo de vídeo de skatistas do mundo, e ainda conhecer cada micro elevação daquela pista, não veria o caminho de Kojiro como uma possibilidade. Porque era um caminho estúpido e o fato de funcionar tornava tudo um pouco incrível.
Kojiro também tinha mãos rápidas e precisas, pelas horas que passava picando e cozinhando no restaurante. Ele deslizava as mãos nos alimentos como se já os conhecesse antes, e estivesse apenas revisitando o local. E visto como a comida ficava no fim, era como se a comida estivesse agradecendo a ele.
(Kaoru provocou Kojiro quando ele começou a fazer academia, dizendo que suas mãos iam atrofiar por ficarem tantas horas levantando supino.)
Algo surpreendente sobre Kojiro e o toque das suas mãos: ele era gentil. Contrariando todo o estereótipo de skatista agressivo, e todo seu porte físico. Ele tocava as coisas como se estivesse já bem consciente da sua presença ali, e não precisasse confirmar isso tocando demais ou forte. Ele era meticuloso e preciso, seja com a comida que fazia, seja com os machucados de Kaoru.
Isso poderia ser um fato surpreendente para outras pessoas, mas não para ele. Ele tinha visto o contrário, ele viu que essas eram as características principais de Kojiro, o restante veio depois. Como um acessório, que você escolhe para as pessoas verem, mas não define quem você é.
Peito
Kaoru estava longe de ser como as fangirls de Kojiro que admiravam esteticamente seu corpo. Não, isso estava bem longe dele. Mas ele não era o tipo que não admiraria coisas que eram esteticamente agradáveis aos outros. Contanto que fosse por outros motivos, e que ele usasse toda oportunidade que tinha para insultar essas mesmas características, estava tudo bem.
Quando Kaoru pensava que o mundo era insuportável e destruidor, Kojiro era uma muralha. Quando ele o abraçava – nas poucas vezes que Kaoru permitiu que ele o visse em um estado onde ele estivesse vulnerável emocionalmente – era como entrar em um estúdio. As paredes do seu peito e dos seus braços era uma armadura contra o mundo. O som do seu coração batendo, embora mais baixo que o seu próprio – parecia abafar todo o resto fora os dois.
Kaoru sabia o suficiente de psicologia para controlar relativamente os ataques e se acalmar com eficiência. Ele também soube o que inconscientemente havia feito. Ele associou Kojiro a conforto e segurança.
Não deveria ter sido uma surpresa como foi. Eles tinham tido uma longa construção na relação deles baseada em entendimento (através do skate) e companheirismo (através do skate?).
Ele não se permitiu afastar ao perceber isso, e Kaoru poderia enumerar uma lista de motivos racionais para justificar essa escolha.
Em vez, ele estreitou sua relação. Se aproximou, mas do seu jeito. Por anos, Kaoru passava todo o tempo de lazer no restaurante. Se alimentando desse sentimento.
Ponto de encontro
Quando ainda eram jovens, eles estabeleceram um ponto de encontro. E assim como todo o resto sobre eles, ele parecia ter simplesmente acontecido, sem ninguém falar nada.
Na maior parte do tempo era Kojiro quem o esperava depois das aulas, pois Kaoru frequentemente se atrasava para sair, então o ponto de encontro parecia de alguma forma, parte de Kojiro.
Kaoru já tentou olhar para aquele local, sem ele lá. Mas não parecia o mesmo. Era só mais uma cerejeira.
Fale com o autor