Details in the Fabric
1 Details in the Fabric
Diz pra mim. Mente pra mim. Abaixa a cabeça e tenta esconder seus olhos de mim. Respira fundo e prepara teu depósito de desculpas. Diz, diz que não sente saudade de mim.
Me conta o que cê faz quando ouve uma música e sabe que eu ia amar ouvi-la. Me ensina! Me ensina a desfrouxar nós, desembaralhar as cartas, colocá-las na mesa e abrir o jogo. Não me ensina. Nem você sabe.
Eu sei que você ouve a música de novo e repassa a cena de como seria o momento da mensagem: "amor, o que tá fazendo? to atoa também... ei, olha o que eu descobri. Ouve! eu acabei de ouvir e só lembrei de vc, me conta se gostar".
E eu ouviria no mínimo umas três vezes antes de te responder que só não amo mais essa música do que amo você. Amava. Amaria. Se essa cena tivesse acontecido. Se essa cena acontecesse.
Olha no meu olho e engole o choro. Não, não olha senão quem chora sou eu.
Tenta passar por mim e seguir teu caminho, mas por favor, passa devagar. A pressa vai te fazer sentir o que não quer, o vento vai soprar meu perfume e eu sei que você não quer sentir esse cheiro doce de novo e mais uma vez demorar a esquecê-lo. Se esquecê-lo. Se o esqueceu.
Cuidado ao passar, mantenha a calma e faz o possível pra não tropeçar. Se se encostar em mim, você sabe... A nossa gravidade vai mudar, e eu vou voltar a ser vítima de você e você de mim. Não faz isso com a nossa pele, elas não merecem um arrepio tão grande e uma corrente elétrica tão potente.
Promete pra mim que quando passar, não respirar e não esbarrar... Me promete, que não vai olhar pra trás. Eu prometo se você prometer. Eu sei que você vai conseguir, afinal, da última vez que houve o "embora", quem não olhou pra trás foi você. Isso sim, você poderia me ensinar. Mas obrigada mesmo assim, eu aprendi na marra.
Eu preciso que você prometa que não vai hesitar o passo, virar o corpo e mirar os olhos para encarar minhas costas uma última vez. Eu não vou conseguir sentir essa imensidão castanha me encarar por trás nem poder retrucar. Não dá pra pensar em você notando meu cabelo bagunçado, olhando minha nuca aparente no cabelo curto, perseguir minha vertebral e lembrar pra sempre dos sapatos que eu estarei usando nesse momento. Não olha pra trás. Você consegue.
Continue andando, vá em frente e vida que segue. Né?
Vire a esquina e continue na sua direção, eu posso apostar que há alguém te esperando no seu destino e provavelmente você está atrasado por eu ter te pedido calma ao andar. Por ficar calmo também, qualquer um que esteja a sua espera não vai sair enquanto você não chegar. Tenho certeza que você mostrou aos outros assim como a mim como a sua presença é ilustre e merece ser esperada.
Eu? Ah, que isso. Você já tem experiência em se preocupar a distância. Se se preocupa. Eu vou ficar bem. Eu sempre fico. Você me ensinou, lembra? Uma coisa de cada vez. Você já teve a sua vez. Eu já tive a minha vez com você.
Eu continuo querendo te mostrar músicas e continuo não mostrando. Eu permaneço no meu caminho sem mudar a velocidade dos passos. Vou ficar paradinha ali mais um pouquinho, rebobinando a cena e repassando os detalhes. Nunca se sabe quando vou precisar desse arquivo de memórias para mais um texto. Você é uma fonte inesgotável de inspiração! Obrigada!
Eu vou dar uma respirada, arrumar o cabelo atrás da orelha, fingir que nada aconteceu e guardar mais um trauma na caixinha-de-pandora. Don't worry.
Diz, diz pra mim que não sente mais saudade de mim. Não, não diz. Por que se você disser que sente eu vou ter de dizer também. Deixa assim, tudo como está.
Detalhes guardados na nossa fábrica de histórias.
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