Desventuras do Reverendo Lovehart
2 Sagrada Tentação
Notas iniciais
Horas. Já faziam horas que eu estava ali. Eu já havia gravado cada arranhão na madeira, cada milímetro pelo qual eu podia me movimentar por ali, assim como ansiosamente seguia com os olhos os pequenos feixes de luz que entravam, aguardando eles desaparecerem de vez para eu sair dali.
E o pior de tudo, eu simplesmente não havia conseguido absolutamente nada até agora. Todo o meu trabalho, tanta coisa que pus em risco, e isso sem falar no gigante esforço em ficar ali aquele tempo todo, apenas para ouvir histórias de camponeses que traíram suas mulheres, roubaram vegetais do mercadinho ou até esqueceram de frequentar o culto. Baboseira, baboseira, e baboseira.
Não só havia tudo sido um fiasco, mas eu não podia me levantar e sair dali, se o grupo não estivesse já atrás de mim, ao menos poderia estar vagando pelos corredores da catedral, e bom, eu definitivamente não podia ser pego vestindo essas roupas, ou muito menos estando onde eu estava.
Bati a minha cabeça na parede de madeira. O sono já estava quase me dominando, não ia aguentar muito tempo, porém se dormisse ali e fosse encontrado por alguém, tinha a certeza absoluta que iam encontrar alguma forma de me matar.
Já estava com meus olhos fechados, mentalizando imagens de mulheres quando ouvi a porta se abrir novamente. Lá vamos nós para mais um caso de batata furtada. Me sentei corretamente, aproximando meu rosto para ouvir melhor a pessoa do outro lado.
— Bo-boa tarde... —HOLY SHIT. Ou melhor, só Holy... ou só shit, dependendo de como fosse o decorrer desta conversa. É verdade que eu estava apenas aguardando por alguém da grand chase vir ali contar seus tenebrosos segredos, mas o que uma garotinha sem graça e tão fiel a sua religião como ela poderia fazer de mal?
— Boa tarde, minha filha. — Engrossei um pouco minha voz, ainda assim um pouco receoso que ela pudesse suspeitar de algo. Meu tom já era naturalmente mais grosso e sexy como eu, talvez fosse até melhor fazer uma voz mais Erudônica afeminada, bom, agora é tarde.
— Oh... acho que não reconheço o senhor pela voz... — Engoli em seco. Como assim essa garota gravou a voz de todos os padres daqui? O tempo que eu passei deitado sob a sombra de uma árvore foi mais bem gasto que a vida toda desta garota ao que parece. — O que é muito bom. — Sim, muito bom para você, e muito bom para mim, boa garota.
— Não precise se envergonhar. Já é corajosa o suficiente em vir aqui e aceitar seus erros. —
Eu realmente não sei como estava fazendo isso, e se estava fazendo certo. Me perguntava “O que o Ronan faria.” e então saia algo assim, me parece uma estratégia legítima.
— Sim... bom, já faz muitos anos em que eu não me confesso, mas ontem à noite ocorreu algo... — Eu não sabia distinguir perfeitamente, mas creio que podia ouvir alguns soluços de onde ela estava. De fato a Holy sempre pareceu bem infantil, competindo com a Arme nesse aspecto, mas não me lembro de tê-la visto chorar nenhuma vez, e devo dizer que já passamos por tragédias o suficiente para abalar a maioria das pessoas.
— Prossiga. — Não nego, agora estava curioso sobre o que havia acontecido. Se ela não se confessava havia tanto tempo, e somente por algo que aconteceu na noite passada a levava até ali, chorosa deste jeito, bom, parecia interessante o suficiente para mim.
— Foi durante a noite... eu estava dormindo no mesmo quarto que a minha amiga. — A voz da pequena estava fraca, e por isso tive que me aproximar ainda mais para ouvir direito o que ela estava dizendo. — Bom, nós fomos dormir na mesma hora, ou assim eu pensei ao menos. Até que de madrugada, eu senti meu colchão afundar um pouco mais, e uma...
Naquele ponto a paladina já gaguejava. Eu estava um pouco assustado com a história, assumo. Não queria pensar na possibilidade dela ter sido violada de alguma forma, isso seria bem mais sério do que o que eu esperava ouvir por ali, digo, uma coisa é eu atacar garotinhas indefesas, meus propósitos são puros, mas imaginar que alguém de má-índole o faça, bom, espero que ele seja imortal como eu.
— Respire fundo e continue, estou ouvindo. — Naquele instante eu de fato sentia um pouco de pena da garota. A Holy havia sido treinada para muitas coisas, para suportar hordas de demônios matadores sem hesitar, para proteger com sua vida seus amigos, mas não imagino que a prepararam para algo dessa forma.
— Tudo bem. — Disse ela, dando uma profunda fungada. — Então eu senti o colchão afundar, e o braço de alguém me envolver, e logo depois me puxar na direção de seu corpo. Ainda estava sonolenta na hora, mas antes de pensar em reagir, eu senti... você sabe, seios em minhas costas. Por isso imaginei que era apenas a minha colega com insônia, e decidindo se deitar comigo para dormir. — Um minuto de silêncio para a minha sanidade mental.
SIM, SIM, SIM, SIM, SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM. É PRA ISSO QUE EU VIM PRA DENTRO DESSE INFERNO DE CABINE, ESSE É O TIPO DE HISTÓRIA QUE EU TAVA QUERENDO OUVIR, QUE AS DEUSAS SEJAM LOUVADAS, ESSE MALDITO TRABALHO DE OUVIR HISTÓRIAS DE BATATAS E REPOLHOS ROUBADOS FINALMENTE VALEU A PENA.
— Bom. — Disse, me recompondo mentalmente. — Não vejo nada demais nisso, não precisa estar tão aflita assim minha filha. — Eu sabia muito bem que se fosse só isso ela não estaria assim. Mas também não podia ficar em silêncio, então vamos simplesmente dizer algo mas não dizer nada.
— Mas é que não foi só isso... — Novamente o tom choroso se fazia presente, e dessa vez eu não me preocupava mais com ele. — Eu achei que ela queria dormir, mas... ela começou a fazer coisas estranhas no meu pescoço. — Gente, quem raios estava no quarto com a Holy, eu quero essa pessoa na minha cama essa noite, ou melhor, nessa cabine, agora e pra já.
— Que tipo de coisas? — Indaguei, enquanto ainda me esforçava para deixar a voz mais grossa. Minha vontade era de deixar um pouco de meu riso escapar, e até dizer algo como “Oh menina, já passou da hora de você aprender essas coisas, se quiser eu posso te ensinar o restante.”
— Coisas... com a boca. — Ela falou a última palavra tão baixo que eu mal pude escutar. — Ela estava me mordendo, mas não para me machucar sabe... digo, eu não estava sentindo dor, mas outra coisa que eu não sei dizer o que é. — Aimeusantothanathostodopoderoso. Eu achando que a minha neta é quem ia seguir por esse caminho, fazendo jus aos meus talentos, talvez tenha até sido ela, vai que herdou de mim.
— Você estava gostando? — Era obvio que ela estava gostando, quem não gosta de uma mordidinha provocante no pescoço? Talvez o Erudon, mas ele é uma mocinha, mais mocinha que essa que está na minha frente.
— Isso importa? — A voz dela soou um pouco mais alto, mas ainda preocupada.
— Sim, isso importa muito. Daqui para frente, tudo que você me contar importa, por isso eu vou precisar de todos detalhes para saber o que fazer com você. — Essa parada de poder divino é realmente muito bom. Tá certo que as mulheres adoram um imortal gostoso, mas olha isso, eu tenho essa garota na palma de minha mão.
— Eu... talvez tenha... sentido algo... que não fosse ruim. — A voz dela diminuiu bruscamente, no escuro eu não podia ver muito bem, mas podia jurar que ela tinha enfiado cabeça em algum lugar.
— Muito bem, prossiga. — Eu até poderia me acostumar com essa vida, sabe, sentado todo dia, falando “Prossiga, Continue, ok meu filho, agora vá rezar essas preces aqui e ali.”
— Bem. — Novamente, a voz dela ficou um pouco mais alta, creio que ela se ajeitou na cadeira, talvez estivesse perdendo um pouco da vergonha. Talvez. — Depois de um tempo, ela simplesmente parou de me morder e... — Novamente o tom baixo, em outras palavras, vinha a parte interessante. — Ela... pôs a língua em meu pescoço, e a levou até o meu ouvido, onde sussurrou... algo que não me lembro agora. —MENTIRA. Eu tenho certeza que ela se lembra mas não quer contar. Dane-se, o detalhe realmente interessante foi revelado.
— Oh, entendo... continue. — O meu julgamento só viria no fim, e eu esperava realmente um final feliz.
— Então... ela meio que mordeu a minha orelha, e... — Agora não só a voz dela voltou a ser baixa, como parecia que iria chorar. — Ela, ela... enfiou a mão por dentro de... de minha blusa. — Praticamente cada palavra da pequena era interrompida por um soluço, qual é, não tem nada demais nisso. — Ela começou tocando o meu... u-umbigo, e então foi subindo só com o dedo até... chegar... — Ela havia terminado a frase, porém novamente tinha enfiado a cabeça em algum lugar, por isso não consegui ouvir absolutamente nada.
— Até chegar...? — O lado bom de ser um padre, é que eu posso forçar perguntas como essas sem parecer malvado ou enxerido.
— Padre... eu... eu não durmo com sutiã. — Ok, acho que mesmo um padre mongolzinho poderia entender o que isso significava.
— Tudo bem, entendo. Algo mais? — Vamos lá parceira de cama da Holy, eu sei que você chegou na segunda base, não me decepcione.
— Quando ela... terminou de fazer o que queria, eu estava virada para ela. — Pela forma que ela falava, a mesma tinha pulado muitas partes interessantes da história. Mas tudo bem, minha imaginação também não é lá tão ruim. — Ela estava... me... ela... tinha posto os lábios dela junto dos meus. — Achei incrível como ela conseguiu terminar essa frase sem enfiar a cabeça em nenhum lugar, wow.
— Você retribuiu o beijo? — É isso ai, eu quero saber se a Holy enfiou a língua na boquinha da amiga, WEEEEEEEHOOOOOOOOOOOOOOOYEAAAAAAAAAAAAA.
— Eu... — Agora parecia que ela estava prestes a cavar um buraco no chão para se enfiar. — Eu não consegui... quando ela me beijou, os meus lábios... só conseguiam ficar abertos. — Ok ok, eu já entendi muito bem o que aconteceu por aqui.
— Depois disso então ela foi dormir? — Vamos, continue me contando, eu sei que ela deu o próximo passo agora.
— Infelizmente não. — Eu notei que o infelizmente dela não foi tão sincero assim, mas vamos deixar isso quieto. — Enquanto ela... me beijava, foi se pondo sobre mim, e me abraçando com força. — Ah, imagine só a cena, as duas suadas sobre a cama, ambos seios imprensados uns aos outros, as coxas tão entrelaçadas quanto as línguas delas. Que maravilha.
— Você devolveu o abraço? — Vai Holy, diz que sim e eu penso em um castigo bem mais leve para você.
— Eu devolvi, mas... não foi por quê eu estava gostando, só achei que seria o certo. —Sim Holy, já entendi que você detestou muito ser atacada por essa garota, com certeza.— E bom, depois foi que... Ela começou a mover sua mão de novo, dessa vez para baixo, e... — Ouvi um estrondo, e de fato desta vez a Holy devia estar cogitando a possibilidade de cavar um buraco. — Eu realmente preciso dizer o que aconteceu, senhor?
— Seria bom ao menos eu ter uma ideia. — Vai Holy, eu quero detalhes, me dê detalhes. DETAAAAAAAAAAAAAAAALHESS.
— Então... eu vou ter de me desculpar, e pedir para que acrescente isso no meu castigo. Aconteceu o que o senhor talvez possa imaginar, m-mas... eu realmente não quero mais falar sobre isso... eu não consigo.
— Tudo bem, minha filha, pode se sentar agora. — Se eu não fosse um padre bonzinho, talvez estivesse ainda tentando arrancar dela o que aconteceu, mas acho que já forcei o suficiente. — Antes de tudo, me diga, essa sua amiga, ela era alguém pura? — Pensando bem no assunto, talvez até mesmo a Elesis poderia ter atacado a Holy, se for o caso, nada mal, orgulho do vovô.
— Bom... ela é uma sacerdotisa. — MAS O QUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE? Lin? Amy? Qual das duas? Argh, preciso descobrir isso depois.
— Oh... nada bom. — Disse com certo pesar na voz, agora era a hora da verdade, se eu conseguiria ou não jogar meu coringa. — Holy, creio que isso significa que não existe um meio certo de se redimir...
O choro começou então do outro lado. Digo, ela já havia passado da idade de berrar e espernear, mas não passava um segundo sequer sem ouvir um soluço dela. Me sentia um pouco estranho, por não me sentir mal ao fazer isso, e ainda não sabia bem o por quê.
— Tem que existir alguma maneira, por favor! — A pequena gaguejava sem parar, repetindo “Por favor, por favor, por favor.”— Eu faço o que for necessário! —Touché.
— Filha... infelizmente o necessário... não nego, existe algo, mas ao mesmo tempo não existe. — Ok, era a hora de minhas ótimas habilidades de contar histórias entrar em ação. — A verdade é que, o ritual para se purificar, exige uma pessoa pura, divina... —Tcham tcham tcham tchaaaam.— Imortal.
— Como assim? — O choro já havia parado, e agora eu notava até um pouco de dúvida em sua voz, mas bom, era hora então, da história improvisada.
— Em tempos antigos, quando uma filha de um camponês era violada, o ritual consistia em fazer uma prece para as deusas e pedir para que elas se deitassem com a garota por uma noite. Se ela não tocasse na menina, é por quê na verdade ela ainda era pura, mas caso contrário, e a Deusa a tomasse em seus braços, a garota devia se entregar, pois depois daquela noite, ela voltaria como uma donzela para casa. — Suspirei ao acabar a primeira parte, agora bastava completar. — Como sabe, as Deusas se foram faz algum tempo, mas existem boatos de que criaturas próximas da divindade, ou imortais, também sejam capazes de fazer o papel delas. Mas como sabemos, bom, não se pode encontrar um imortal dormindo por ai sozinho em algum lugar, não? —Eu. Sou. Foda.
— De fato, não... — A-há, alívio! Era isso que tinha na voz dela. Parece que terei de por para fora o Erudon de novo esta noite, isso claro se eu conseguir sair desta cabine sem desmaiar de sono no chão. — Padre, posso saber o seu nome? —Ó pelo amor dos.... pera.
— Love. —Ahn... acho que Padre Love é muito vago. — Hart. Lovehart. — Que nome digno de benção.
— Obrigada por tudo, senhor Lovehart. Não sei se vou conseguir me redimir... mas tenho que tentar! — E lá estava ela, determinada. Oh sim, eu definitivamente teria companhia naquela noite, e se duvidar, ela mesmo vai chutar o Erudon de meu quarto.
Ouvi então a porta se abrindo novamente, indicando a saída dela, agora bastava esperar mais alguns minutos, esses quais eu estaria rezando para não entrar outro ladrão de batatas, e eu estaria indo para o meu quarto.
Entreabri a porta da cabine, vendo como a escuridão já tomava conta do lugar, sendo quebrada apenas pelas luzes tênues das velas que ficavam espalhadas por pequenas aberturas nas paredes. Segui o meu caminho pelo piso de mármore, evitando quaisquer ruídos que fossem, e em pouco tempo já me encontrava nas escadas. Eu queria ir para o meu quarto naquela altura, na verdade, fazia horas que eu desejava ir para o meu quarto, e dormir, mas antes eu precisava visitar um certo cômodo no andar mais alto da catedral. E assim fui subindo, não apenas sendo engolido pelo ambiente majestoso que era o local, como me mesclando com ele, devido às roupas que eu trajava.
Logo estava lá em cima novamente, abrindo a porta do pequeno cômodo escuro, e encontrando ali, entre a poeira que caía, os móveis rústicos e o piso de madeira já mostrando sinais de ser devorado por cupins, o padre que sequestrei.
— Booooooooooooa noite, senhor... esqueci o nome. —Disse enquanto entrava, fechando a porta atrás de mim, e acendendo uma pequena chama negra na ponta de meu indicador, bastava para iluminar o local. — Ou ao menos, será uma boa noite para mim. — Pisquei o olho para ele.
Fui até onde havia deixado as minhas roupas, e logo apaguei a chama em minha mão, fazendo um belo esforço para me trocar naquele escuro, e com sono, temendo que quando acabasse a pequena paladina já tivesse desistido de me encontrar em meu quarto. Mas fiz um pequeno esforço para não pensar nessa possibilidade, pois ainda tinha que alimentar o velho que estava por ali, já bastava ter roubado o lugar dele, não precisava virar um assassino também.
— Muito bem, vou tirar essa corda de sua boca, se eu ouvir um pio, bom, não me responsabilizo pelo que vai acontecer com o senhor e essa catedral, você já conhece as lendas sobre mim, não? — Quem não conhecia as histórias do lendário Sieghart? Só o meu nome bastou para ele se entregar sem reclamar na noite passada, não era agora que ele faria uma loucura. — Tome, peguei um pouco de pão com as caseiras daqui, aparentemente sempre tem pão para todos.
Estendi a minha mão com o pão até a boca dele, e em pouco tempo o mesmo já havia sido completamente devorado. Entornei um pouco de água da garrafa que eu carregava comigo então em sua boca.
— Não é de meu feitio dizer isso, mas realmente sinto muito por coloca-lo nesta posição. Pensarei em como te compensar ao fim disso tudo. Quando eu vier aqui pegar as roupas novamente, você vai ter a chance de ir ao banheiro, até lá... — Apenas deixei as palavras ao ar, enquanto saia novamente do cômodo.
Assim que fechei a porta atrás de mim, era como se todo o peso de meu sono tivesse decidido me atacar naquela hora. Me apoiei na parede, enquanto começava meus lentos passos na direção da escada, precisava chegar no meu quarto, precisava ver o que a Holy faria, preci...
Sieg? Sieg está tudo bem? Oh não... espere, eu vou cuidar de você. Ugh, você é mais pesado que meu martelo, o que você come? Apesar de quê... não te vi no café, ou no almoço e nem na janta... não me espanto de te ver caído por ai... tanto quanto não me espanto de estar falando com alguém dormindo, hah...
Minha cabeça doía, muito, quando finalmente acordei. Entreabri os meus olhos, até deixar que eles se acostumassem com a escuridão do quarto, quebrada apenas pela tênue luz do luar que atravessava as cortinas. Estava no meu quarto, e aparentemente, nada de presença Erudônica por ali, felizmente. Acabei me deparando com um prato vazio sobre o criado mudo, assim como um copo, o que me fez lembrar que a comida que eu havia pego para passar o dia na cabine, eu havia deixado para o padre. Acho que me superestimei, pensando que por passar o dia todo sentado não precisaria comer nada, mas bastou subir aquelas malditas escadas... ou será que abusei ao usar um pouco de minhas chamas negras? De qualquer forma, todo meu plano estava acabado, havia dormido, e a essa altura eu tinha que subir para me preparar para mais um longo dia naquele cubículo infernal.
Inclinei o meu corpo para a frente, ouvindo alguns gemidinhos atrás de mim, para só então notar que um par de braços me envolvia.
Tive de me segurar para não surtar completamente naquele instante. Eu sabia muito bem o quem é que estava me abraçando, e ainda não podia acreditar que isso realmente deu certo. Subi uma de minhas mãos, até sentir a pele lisa da pequena, e deixei que meus dedos sentissem os dela. Afinal, como que alguém com mãos tão pequeninas era forte como ela?
De qualquer forma, ela estava ali, e eu poderia fazer o que quisesse com ela, não haveria objeções nem nada, tudo bem que foi tudo um grande improviso, mas agora eu só precisava reclamar meus espólios depois da guerra que foi ficar sentado o dia inteiro lá.
Mas eu realmente quero?
Claro que eu quero, ora essa, mesmo sendo reservada a Loly tem o seu charme próprio, e eu adoro garotas fofinhas,.
Mas isso está realmente certo?
Bom, quem veio até a minha cama me abraçar foi ela, eu só estou reagindo naturalmente, agora por favor, senhor subconsciente, cale a boca pois eu preciso aproveitar esse instante.
Me virei na direção dela, agora com os olhos apenas semicerrados, não queria que ela pensasse que eu estava acordado, entretanto, a mesma parecia estar dormindo, inocentemente.
Padre... eu... eu não durmo com sutiã.
As palavras dela voltaram em minha cabeça naquele instante conveniente, e só então pude dirigir atenção ao seu corpo.
Era a primeira vez que eu a via sem armadura, e devo dizer que, naquele instante poderiam jurar que eu era apenas um moreno dormindo que baba no seu travesseiro. Holy vestia uma camisola branca, que ia até um pouco acima de seus joelhos, mas curta o suficiente para a luz tênue iluminar suas coxas. Seu corpo aparentava ser tão frágil, tão fofo, tão... santo.
Mas a minha curiosidade tinha de ser sanada, levei minha mão lentamente até a gola de sua camisola, puxando-a suavemente para baixo, até que...
Soluços? Ela não estava dormindo? E ainda assim vai me deixar simplesmente ver seus seios sem nem contestar ou nada?
Não está satisfeito, Sieghart? Já a trouxe até sua cama, provou que seu plano deu certo, e agora já tem certeza que ela se entregou mesmo a você, mesmo não querendo.
Mas esse é o problema! Olhe para essa garota! Olhe para o que ela está fazendo, e tudo isso por quê? Por quê um padre disse para ela que para se curar de ter praticado algo como o amor, ela precisava se deitar com um imortal. É patético. Se eu tivesse dito para ela que sua única cura era a morte, seria bem capaz que ela tirasse a própria vida, e tudo isso em sua crença cega nesta desgraça. E sabe o que é pior de tudo? Ela não fez nada de errado. Ela apenas aproveitou de uma das melhores coisas que a vida pode oferecer, o carinho, o amor, e você sabe, ela gostou, talvez até nutra sentimentos de verdade pela sua companheira! E por conta da religião dela, está em conflito, e acredita que fez algo errado, que precisa ser perdoada, ah por favor, não só Armenia, Ernasis e Lisnar devem ter muito mais com o que se preocupar onde quer que estejam, como não duvido nada que elas mesmo se pegavam, é isso ai. Ela honestamente merece isso! Nenhum tipo de pessoa pode ser tão passiva assim, aceitar tudo que te dizem simplesmente por quê você acredita cegamente neles, as pessoas tem que tomar suas próprias decisões, a ingenuidade dela a trouxe até aqui, ela merece isso, ela merece, ELA MERECE!
Estava num debate muito interessante comigo mesmo, até ser trazido de volta à realidade por algo úmido em meu rosto.
Eu havia puxado Holy para cima de mim. Podia sentir o leve peso de seu corpo de encontro com o meu, suas pernas balançando um pouco mais abaixo junto das minhas, assim como seu peito tremia de encontro ao meu por conta dos soluços. Uma de minhas mãos segurava em sua cintura com firmeza, enquanto a outra se fechava na raiz de seus cabelos, estes cujos fios que desciam pelo canto, acariciavam minha pele. Seus lábios, inquietos pelos soluços, roçavam suavemente de encontro aos meus, quase como se convidassem minha língua para entrar, mas que por outro lado, as lágrimas que desciam de seus olhos e molhavam a minha face, parecia desmentir o delicioso convite.
Ah, foda-se.
Aproximei meus lábios então, tocando-os em sua testa, e pondo a pequena de volta ao meu lado, ao passo que ouvia a mesma murmurar algumas preces de agradecimento em meio aos soluços.
Me virei novamente, apenas para senti-la atirar seus braços em volta de mim de novo, e colar o seu corpo de encontro ao meu. Bom, eu acho que consigo me satisfazer com isso.
Fiquei acordado por mais algumas horas, até ter certeza que ela estava dormindo, e então me levantei. Não só tinha um padre querendo mijar me esperando, como eu precisava voltar ao meu digníssimo trabalho de senhor das batatas e dos repolhos roubados.
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