Notas iniciais
Olá, amigos.
Postei essa fic primeiro no fórum, por ser mais worth, mas vou deixá-la aqui também.
Espero que as almas que ainda vivem por aqui, gostem dela.

Já fazia ao menos um dia, desde que chegamos na ilha da luz, e ainda não havíamos chegado na tal catedral. Havia perguntado para a pequena pseudo-Thor se iríamos demorar muito, e ela apenas dizia que, como as defesas da catedral tinham de ser boas, ela não poderia ficar muito próxima do litoral, mas em breve deveríamos chegar, em outras palavras, minhas pernas choravam.

— Então, Loly, me conte sobre como as coisas funcionam nessa tal catedral. — Indaguei enquanto me botava ao lado da paladina, recebendo seu olhar torto pela forma como a chamei.

— Bom... não tem tanto mistério assim sobre o que acontece por lá, Sieg. — Disse ela em seu tom inocente, ignorando minha provocação anterior. — Por ser a sede da nossa igreja, todos lá são bem comprometidos com seus trabalhos...

— Então significa que existe um grupo de menininhas carregadoras de martelos encarregadas de se perder no deserto para serem salvas? Puxa vida, bom emprego. — Temi que a pequena fosse atirar o seu martelo em minha cabeça, e esfregar minhas tripas no chão até uma árvore nascer, mas ela apenas enrubesceu, soltando um suspiro.

— Ercnard, deixa-a em paz. — A voz do defensor vindo de trás soou tão protetora quanto se podia esperar de um viadão como ele.

— Oh não, veja só quem chegou, mamãe Erudônia. — Disse ao passo que me virava para trás, colando a minha testa no “elmo” que ele tinha. — Vai querer um beijinho também? — Fiz um biquinho quase tocando os lábios do rapaz então.

— Pa-pare! — Holy se enfiou entre mim e o cavaleiro, impedindo-o de sacar a espada de sua égide. — Está tudo bem Ronan, não precisam brigar! — A mão do rapaz congelou na bainha, enquanto me encarava.

Os chasers mais adiante já estavam interrompendo seu passos para ver o que acontecia, quando o azulado simplesmente meneou com a cabeça, desviando de nós dois e se juntando ao grupo mais adiante.

— Oh, obrigado por me proteger, valente Loly, não sei o que faria sem minha corajosa paladina, ooooh. — Atirei minha mão no cabelo da pequena, deixando-a deslizar por ali enquanto voltava a seguir em frente.

— Bom... — Ela já caminhava ao meu lado novamente, como se nada tivesse acontecido. — Nós temos mesmo muitos trabalhos por lá. Não apenas os paladinos tem que estar em guarda à todo instante, como os nossos padres tem muito trabalho á fazer, realizando cultos para os fiéis que peregrinam até aqui, arquivando a história de Ernas, ouvindo as confissões...

— Pera, existe um trabalho em que tudo que você deve fazer, é ouvir? Por quê raios eu me tornei um gladiador imortal então? — Eu realmente estava achando uma piada todo esse papo de igreja, digo, eu posso ter conhecido a civilização de Calnat, que era muito próxima aos Deuses, mas quanto mais eu ouvia sobre esse lugar de onde a Holy veio, mais eu queria que um desastre como o de Calnat acontecesse ali também.

— Não é bem só ouvir... e você inclusive devia se confessar, viu! — A voz dela agora passava de inocente para determinada, e quando a baixinha estava determinada à algo, era pavoroso. Da última vez tivemos que ficar dois dias em um vilarejo por quê um rapaz havia duvidado da existência das Deusas, e quando saímos de lá ele já estava indo para outras cidades falar sobre quão glorioso era o trio divino.

— Como funciona essa parada ai de se confessar? Eu vou lá contar sobre o que fiz nesses 600 anos para um padre? Espero que ele tenha tempo. — Não pude deixar de segurar o riso só de pensar na possibilidade.

— Não é assim que funciona! — A pequena agora se punha na minha frente, encarando-me firmemente com seus olhos verdes. — Você só precisa ir até o padre e falar do que se arrepende e dos erros que você cometeu! Ele vai te ouvir e lhe dizer como fazer para se redimir! — Holy mantinha seus punhos fechados, e falava tudo com um bico, era difícil levar isso a sério.

— Você é inocente, Holy. — Pus a minha mão sobre o ombro dela, agora devolvendo o olhar sério. — A única coisa que pode me redimir, é a morte. — Voltei à andar, enquanto deixava a pequena ali atrás. — E se fosse para falar de meus erros, começaria contando sobre minha ideia de ter essa conversa.

O resto da viagem foi silencioso para praticamente todos. Não só estávamos já cansados de apenas andar, mas boa parte de nós nem estava realmente animado em visitar este lugar, estávamos ali apenas por conta da paladina.

Ao entardecer, enquanto o sol já se punha no horizonte, finalmente havíamos alcançado a tal catedral. Não era nenhuma construção Calnatiana da vida, mas assumo que era bem imponente, e bom, logo não demorei para descobrir que seu interior era igualmente confortável.

O nosso jantar foi farto, não nego, porém o silencio na mesa era apenas quebrado pelas palavras de Holy, agora dizendo para os outros chasers se confessarem. Nenhum de nós estava se sentindo realmente em casa por ali, o Dio então que estava sendo forçado à usar um capuz para esconder o chifre e dizer que era um elfo anêmico, além de termos engessado seu braço demoníaco, provavelmente queria mandar tudo pelo espaço.

Ao chegar na hora da divisão dos quartos, pedi educadamente com a sola de meu pé que o Ronan desse o fora, pois não queria ser afetado pela doença nativa dos Erudons, e em pouco tempo, já estava confortável sobre um colchão macio e com uma gostosa coberta sobre mim. Sozinho.

Mas as palavras de Holy não saiam de minha cabeça.

Você só precisa ir até lá, falar do que se arrepende, e dos erros que cometeu.

Dos erros que cometeu.

Saltei da cama, não tinha muito tempo para fazer isso, e seria bom aproveitar que estava de noite. Perguntei à uma das senhoras que cuidavam do local onde eu poderia me confessar, e ela me disse que havia um padre em vigília naquele instante, bastava descer um lance de escadas e entrar na cabine de madeira.

Fiz o que me foi dito, e logo me encontrava sentado na escuridão, a única coisa que me ligava à realidade, sendo a voz do padre do outro lado.

— Então meu filho, o que te incomoda, que pesa em sua consciência, que você deseja por para fora? — A voz mansa de fato me acolheu naquele instante.

— É que... eu não sei. — Disse entre os dentes, me aproximando de onde a outra voz vinha.

— Desculpe... mas como assim não sabe?

— Ora essa, eu apenas não sei... — Respondi agora num tom mais sério, enquanto atravessava minha lâmina pela madeira, até sentir a ponta dela tocar o peito do padre. — Ainda.

Notas finais
Nos vemos em breve. =)