Desventuras de Fim de Ano
1 Desgraça nunca vem só
Um café da manhã agitado se estendia pelas quatro longas mesas apinhadas de estudantes esfomeados. A conversa preenchia o Salão Principal e trazia a sensação de crescente expectativa. Era o último dia de aulas antes do recesso de dezembro, e lá fora os campos estavam cobertos por um belo tapete de neve.
Na mesa da Corvinal, a monitora se destacava ao dar os avisos das primeiras aulas da manhã, mas Sarah mantinha a cara enfiada no livro avançado de Poções e não prestou atenção. Estava tão compenetrada na leitura que sequer viu Frida, sua elegante gata branca, devorar o seu mingau de aveia.
Nem tão elegante assim.
Sarah lia para se distrair. Estava tentando evitar olhar para a carta que jazia aberta em cima da mesa logo após o correio daquela manhã. O gosto amargo da notícia de que teria de passar o recesso na escola lhe arrancou o apetite. Qualquer leitura densa era melhor do que pensar em seu fatídico futuro.
Um pedaço de pão atingiu sua testa. Ela ergueu os olhos do livro e viu Jamie apontando para a tigela de mingau.
— Frida!
— Vai passar o Natal limpando o vômito da sua gata se não cuidar dela, Sinskye.
Sarah achava Jamie Hartman particularmente grosseira. E irritante. Ambas eram do primeiro ano, mas Hartman agia o tempo todo como se fosse mais velha e mais inteligente, como se soubesse mais sobre Hogwarts e, por isso, merecesse algum tipo de “adoração”. Ela não merecia, é claro. Mesmo assim, era difícil não se sentir acuada.
No fim de setembro, Jamie viu Sarah falando sozinha no banheiro feminino. Antes da metade de outubro, a colega havia presenciado outro momento estranho: um episódio de terror noturno no dormitório que dividiam. No entanto, Jamie não contou a ninguém, não fez piada abertamente, não criou situações humilhantes. Apenas se tornou particularmente presente e irritante.
Quando Jamie terminou de comer e se levantou da mesa, Sarah resmungou baixinho:
— Nem Heloise é chata como você!
Mostrou a língua, lembrando-se da irmã mais nova — Helô —, que às vezes era bastante desagradável, como qualquer criança mimada por duas mães e quatro avós.
— Que, por sinal, vai fazer falta no Natal… É, Frida. Pelo jeito seremos só eu e você.
Frida miou, saltou da mesa e foi embora. Sarah observou a cena com incredulidade e suspirou. Fechou o livro, pegou um bolinho e o enfiou praticamente inteiro na boca antes de partir para a primeira aula da manhã.
Feitiços.
❆
No jantar, Sarah estava exausta. Passou o dia se ocupando com qualquer coisa que a impedisse de pensar no recesso. Mas, vez ou outra, perguntas pontuais surgiam:
O pessoal vai sentir minha falta? Minhas mães vão enviar presentes? Como elas vão fazer a decoração ficar bonita sem Heloise e eu trabalhando juntas? Quem vai vestir o Lumus e o Nox com roupinhas de Krampus? E os rituais de Yule? Não quero fazê-los sozinha!
— Você parece mais estranha que o normal, Sinskye.
A voz de Jamie se destacou entre a falação no salão, e Sarah a encarou.
— Eu sei. — Não ia lutar contra as provocações da colega de casa. Deu de ombros. — Não vou pra casa no recesso e estou chateada com minha família. Me sinto excluída.
Jamie arqueou as sobrancelhas escuras, e seus olhos adquiriram um brilho diferente. Sarah achou curioso e a observou com atenção.
— Uh-hum… — A garota ficou sem graça, coçou a cabeça e começou a encher os bolsos do uniforme com comida, levantando-se em seguida. — Que pena pra você, Sinskye. Ter que passar o recesso nesse castelo velho e fedorento! Uff! Não queria estar na sua pele nunquinha!
Sarah entendeu tudo bem rápido. Jamie era uma péssima mentirosa.
— Bem-vinda ao clube, Hartman.
— Quê!? Clube? O seu é o dos perdedores, eu não faço parte desse!
E saiu, deixando Sarah com uma expressão de divertimento. Um quase sorriso de satisfação.
Um sussurro gelado. Um arrepio na espinha. A presença do Além Véu bem pertinho e…
— Ah, pela sabedoria de Morgana! Eu não estou feliz porque ela vai ficar aqui no recesso, beleza?!
Falou alto para ninguém, olhando para o lugar vazio ao seu lado. Dois alunos da Corvinal a encaravam com os olhos arregalados, mas o pior veio da mesa da Grifinória.
Alanis Ziegler. A ruivinha do primeiro ano. A das aulas de voo. A melhor duelista da turma dos novatos. Provavelmente a menina mais bonita da escola, do ponto de vista de Sarah. Ela a encarava, incrédula. Sua expressão não mudou por três segundos, mas o que veio em seguida fez o estômago de Sarah revirar. Alanis explodiu em risadas junto com os colegas próximos. Um deles até fez uma péssima imitação de Sarah falando sozinha.
Que dia terrível!
Sarah rolou os olhos, empurrou o prato vazio e se levantou. O espectro no banco, que só ela podia ver, deu um sorriso largo — parecia contente por tê-la colocado em maus lençóis.
— Eu disse mais tarde! — vociferou para o ser, que tinha a aparência translúcida de um moleque de oito anos, aproximadamente.
Além da presença desagradável de Jamie, Sarah agora também tinha um espírito zombeteiro de criança querendo sua ajuda. Um presságio maravilhoso de como seu recesso seria fantástico!
Só que não.
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