Desventura Divina: A Jornada de Ouro

7 Conheço a versão monstruosa do País das Maravilhas


Notas iniciais
Olá sweeties, quanto tempo *O* Voces já sabem o blá-blá-blá de desculpas e tal, mas gente, me perdoem pela demora, sério mesmo :) Motivos: falta de tempo, esse capitulo é bem complexo, porem é um dos melhores, então por isso foi difícil e demorado de ser escrito. Fiz 5.747 palavras para compensar o tempo que fiquei sem postar. Acho que depois de quase 2 meses voces querem finalmente ler não é?

Ronnie

— Será que monstros não podiam escolher um lugar melhor para seu esconderijo? — Resmunguei ao abrir a tampa de um bueiro, era impossível ver o que tinha lá no fundo. Eu não esperava que pegar o tal vaso fosse uma missão fácil, mas entrar dentro do sistema de esgoto já é demais.

— Esse não é o esconderijo deles. Ainda não chegamos — Nico apareceu na minha frente. Estávamos em uma rua deserta de uma cidade no meio da noite

— Achei que iriamos para um lugar com brinquedos e algo ligado a altura, como você disse.

— Era mentira, só criei isso para fazer você vir, pois se eu contasse a verdade para onde estamos indo, sei que nunca teria vindo — Ele respondeu.

— Vou me arrepender de dizer isso, mas você tem razão — Tá legal, eu não queria contar o fato de que estava ainda mais com raiva, o que mais ele estava escondendo? — Qual o plano?

— A algum tempo, o Labirinto de Dédalo ainda existia bem debaixo dos Estados Unidos, até que ele foi destruído. Quando o acampamento foi destruído, não existiam mais semideuses para lutar contra monstros e mata-los, isso fez com que o numero deles crescesse ainda mais, principalmente com toda essa coisa de Gaia se reerguer e seu todo exercito do mal estarem saindo do tártaro e tudo mais. O que eles fizeram? Aproveitaram o espaço que o labirinto ocupava entre a superfície e o Mundo Inferior e criaram uma espécie de cidade para eles, pois não há espaço para tanta coisa ruim no mundo mortal. — Ele explicava tudo tão normalmente quanto um professor de biologia explicando a reprodução das espécies. E eu como uma boa aluna, fingia que estava entendendo tudo.

— Então, quer dizer que, a única pessoa que tem o vaso vive aqui, então por isso vamos ter que ir para lá e pegar ele?

— Acho que sim. Agora vá — E me empurrou para dentro do bueiro.

Durante a queda devo ter falado todos os tipos de palavrões possíveis. a. Senti quando o buraco se transformou em um longo cano de ferro, minha velocidade só aumentou. Se continuasse assim até o fundo, as chances de me quebrar toda com a força do impacto eram enormes. Arranquei meu relógio de dentro do bolso e abri sua tampa, Contratempo virou um machado de bronze e o finquei na parede, pouco antes do cano acabar e eu cair lá em baixo. Fiquei pendurada por um bom tempo. Salva pelo relógio. Literalmente.

Nico, você me paga.

Lá em baixo, o chão não era muito bem chão, ele era escuro e se mexia com pequenas ondinhas. Era água, poluida, mas ainda sim era água. Algumas balsas passavam ali em baixo, então pulei na caçamba que uma delas carregava, caindo em um monte de lixo. Uma performance que deixaria James Bond com inveja.

— Belo salto – Disse Nico aparecendo sentado na lateral da caçamba. Ele sorriu e ficou parecendo O Gato de Cheshire.

— Você. Me. Paga. — Joguei um aparelho de televisão quebrado que estava no meio do lixo (sou mais forte do que vocês pensam) nele que infelizmente desviou. Estava pronta para jogar uma frigideira quando a balsa parou bruscamente. Sai de lá e quase gritei de susto quando vi que o cara que guiava o barco era completamente feito de madeira e espinhos, mais parecia uma arvore com formato humano.

Isso não me assustou nem um pouco comparado com a vista do resto da cidade: as construções eram deploráveis, feitas de madeira, palha, tijolos ou eram apenas ruinas escuras. Ao fundo era possível ver grandes chaminés que soltavam fumaça no topo e uma fortaleza negra. Não havia nenhum centímetro sequer daquele lugar que não estivesse ocupado, ou por monstros, ou carroças detonadas carregadas por vacas vermelhas, cavalos esqueletos ou cachorros gigantes com corpo de morsa. Era tão grande que mal dava para saber onde que terminava, provavelmente monstros haviam feito seu país em baixo de todo os Estados Unidos. Parecia uma versão demoníaca do Pais das Maravilhas.

— Deixa me adivinhar... Temos esse lugar enorme e o que precisamos esta no castelo? — Ele concordou — Será que pedir uma tarefa fácil é muito?

— Isso só torna as coisas mais divertidas — Que ótimo, seu sorriso de psicopata havia voltado. Tive que puxa-lo para atrás da caçamba quando um exercito formado de ogros, ciclopes, homens metade escorpião, polvo e uma grande variedade metade animais, mulheres cobras e cachorros gigantes passaram marchando no inicio do caís, parando um ou dois mercadores de vez em quando, um deles foi a arvore humana. Eles pareciam querer algo para “Vossa Alteza”, procurando alguém que soubesse fazer algo para a grande patrona (eu não sabia quem era).

— Qual seu plano agora, sr. Fantasma-que-sabe-tudo? — Perguntei baixinho

— Já é ruim demais saber que estou morto, não precisa ficar me lembro disso toda hora.

— Só estou tentando ser gentil.

— Você é tão gentil quanto um gigante de bronze com raiva.

— Vou fazer de tudo para não considerar isso como uma ofensa. — Rebati

— Mas foi uma ofensa.

— Que se dane. — tirei um parafuso do meu bolso mesmo sem saber o que iria fazer com um parafuso contra 30 coisas monstruosas, com mais de 2 metros ainda — Só estou pensando em sair daqui sem virar jantar deles, pegar o vaso e voltar lá pra cima. Onde tem comida, iluminação, wi-fi e nada de exércitos de brutamontes comedores de gente. Shhhhh — Pontei para uma bola dourada do tamanho de uma bola de boliche que um dos ogros segurava com luvas de cozinha. Ela soltava um click-click-click. O interior dela tinha um mecanismo cheio de fios que disparariam uma corrente elétrica que com contato com um liquido verde explosivo (acho que era algo chamado fogo frevo, trevo ou algo assim), essas duas coisas juntas causariam uma explosão caso a esfera levasse um pequeno choque com algo solido. Ronnie + Um parafuso + Uma bola explosiva = Ops.

Uma grande explosão laranja sacudiu todo o país quando acertei o parafuso na esfera – mira não era bem o meu forte, mas dessa vez me superei –, o que era uma grande bagunça só ficou pior, toda a marcha ficou atordoada e monstros foram pisoteados, jogados na água ou simplesmente estavam perto demais da bola de boliche.

Passar por eles foi moleza, fomos ziguezagueando por lugares escuros e vazios, outrora se escondendo em carroças abandonadas quando uma ou outra criatura saia correndo em direção ao cais. As tochas com fogo trevo eram péssimas em iluminar, isso só facilitou as coisas.

— Como você...? — Nico disse, ele parecia surpreso com o que fiz. Eu gostei de deixa-lo assim.

— Não me pergunto, digamos que posso localizar e estudar qualquer mecanismo ou arma feita de qualquer material em um raio de 5 quilômetros. Também posso controla-los, mas isso não funciona muito bem com coisas que explodem, as consequências são desastrosas se dar errado. Tenho que treinar isso.

— Me avise para eu me afastar uns 300 metros quando você estiver treinando. — Ele disse por fim.

— Não prometo nada. — Foi a ultima coisa que falei antes de sermos cercados e eu acabar sendo atingida em cheio por um dardo. Em poucos segundos estava completamente desacordada.

Até que acordei em uma sala lilás muito estranha.

Uma mesinha de chá branca estava na frente de duas portas amarelas com os números 1 e 3 do lado de cada. Em baixo de uma tigela de porcelana lilás cheia de cubos de açúcar havia um papel dourado. Meu corpo congelou ao ler o que estava escrito apesar do doce calor que o cartão soltava:

“Querida Ronnie, são duas portas, a primeira te tirará dessa sala e a terceira a mostrará a verdade que você tanto quer saber. Somente uma pode ser escolhida. A decisão é sua.”

Aquilo parecia ser algo muito idiota, mas acho que aprendi que tentar entender coisas idiotas sempre acabava mal. Por mais que aquela mensagem fosse vaga — e não também explicava o que aconteceu com a segunda porta —, ela parecia ser bem objetiva. Por mais que quisesse sair daquele lugar, uma pergunta me atormentava durante toda a minha vida. Isso deveria ser um teste, mas não tinha o mínimo de sentido. Mas, eu era uma semideusa, estava em uma cidade somente de monstros para pegar um vaso e participava de uma jornada que custaria minha vida. Sentido não era mais algo tão importante assim.

Meus dedos agarram a maçaneta e abri a terceira porta.

Ela dava para o corredor de uma cabana de dois andares, apesar do chão de madeira estar completamente estragado e com alguns buracos, podia caminhar sobre ele sem nenhum problema ou rangido sequer vindo dele. Até que percebi que estava flutuando uns dois centímetros acima dele. Meu corpo também havia ganhado uma tonalidade mais transparente, me lembrei que estava em uma visão do passado e por isso era uma espécie de fantasma. Tentei parecer tranquila pensando assim, só tentei mesmo.

O barulho de uma porta abrindo e sendo trancada no andar de baixo, me escondi no topo da escada. Um garoto estava jogado contra ela, julgar pelas roupas sujas e com alguns rasgos, e aparência cansada que tinha, parecia estar fugindo de alguém a dias.

Em sua mão estava uma espada negra, quase tão grande que mal dava para imagina-lo lutar com ela com aquele tamanho, seu cabelo era negro assim como os olhos, pele era cor de oliva e não devia ter mais de 10 anos. Eu já a tinha visto aquele garoto, talvez 7 anos mais velho e mais pálido, e não tão vivo.

Não tinha percebido antes, mas a versão mais nova de Nico estava acompanhada por uma mulher com cabelos escuros presos em um coque, pele morena e um olhar desafiador e inteligente a fazia ter uma postura intimidadora, bonita, porém durona. Usava um casaco cinza, botas de alpinismo, cachecol vermelho e brincos de prata muito familiares. Tirando diferença de altura e alguns detalhes, ela era quase idêntica a mim.

Não estava entendendo nada.

— Não temos muito tempo, em poucos minutos eles terão chegado até aqui — Disse minha mãe, espiando por um buraco na cortina esfarrapada que cobria a única janela da cabana.

— Ela morreu por minha culpa... — Choramingou ele.

— Sua irmã decidiu se sacrificar por vontade própria, criança.

— Esta mas Bianca morreu ao tentar pegar algo que eu queria... Como fui idiota — E então voltou a chorar, por um momento senti um pouco de pena dele, até me lembrar que aquela visão não terminaria de uma forma boa. E eu sabia como terminaria.

A verdade que eu tanto queria saber era essa. O que havia acontecido com minha mãe antes dela desaparecer.

A roupa dela era a mesma que tinha visto da ultima vez, quando havia dito que iria a uma reunião importante com donos de empresas interessadas nas coisas que ela criava em sua oficia, mas para isso teria que pegar um voo e atravessar o país, me prometendo que voltaria no máximo em dois dias já que havia dispensado minha babá na semana passada. Não acho que deixar uma criança de 7 anos hiperativa sozinha por 48 horas não fosse uma boa ideia, mas não podia falar nada.

— A única coisa que te faz ser um idiota é ter fugido daquele jeito do acampamento. Você não sabe o que poderia ter acontecido se eu não te seguisse e te salvasse várias vezes deles, eles poderiam pegar você e leva-los para você-sabe-quem... — Repreendeu ela.

— Você quer dizer Cronos. Mas eu precisava ter fugido... Ele descumpriu a promessa! Ela morreu por culpa dele! Além do mais, eu não pedi para ser seguido, nem salvo.

— Olha garoto, eu sei muito bem o que aconteceu com você, sua irmã e aquele tal famoso filho de Poseidon, mas eu não te disse que não iria te seguir. Esse é o meu trabalho garoto, estou te levando para seu pai, talvez ele consiga fazer com que você não cause mais problemas. — Ela se ajoelhou e pegou a mão dele, em um gesto carinhoso. — Criança, escute, muitos de vocês não tem a mesma sorte em missões protegidas, quanto mais em fugas. Devia-se considerar-se sortudo só por isso.

Derramou um pouco do liquido dourado que estava dentro de um frasquinho de metal preso ao seu cinto no corte feito por uma garra em uma das pernas dele. Assim como fazia quando eu era pequena e fazia uma machucado ou uma nova cicatriz aparecia, Néctar quando era ingerido ou colocado sobre um ferimento em pequena quantidade, era capaz de curar rapidamente graças a suas propriedades mágicas.

— Por que esta fazendo isso? Me ajudando? Seu trabalho não era vigiar os mortais para os deuses? Por que esta ajudando semideuses agora? — Ele perguntou.

— Shhhhhhh, fale mais baixo. — Mamãe Sim, eu ainda estou trabalhando para eles, porem de um jeito novo. Ainda sou a boa e velha Agente dos deuses.

— Você é uma mortal, então como...? — Talvez devesse agradecer Nico pessoalmente por estar fazendo todas as perguntas que gostaria de ter feito.

— Ser mortal não significa ser menos poderoso. Desde que sabia usar seus verdadeiros poderes, podemos ser melhores que monstros, semideuses e até mesmo... deuses. — Ela pareceu estar medindo as palavras, como se tentasse não dizer algo que não devia. — Enfim, alguns mortais ganham dons especiais através do século, por exemplo, alguns são capazes de hospedar o espirito de Delfos, podem ver através da nevoa e muito raramente conseguem controlá-la. Digamos que eu me encaixo nos dois últimos casos.

Aposto que ele iria fazer mais uma pergunta (é, mais uma) quando uma batida do lado de fora faz toda a cabana balançar. Minha mãe correu para janela quando Nico pegou uma cadeira e colocou ela contra a porta, tentando impedir que fosse aberta por um tempo.

— Eles nos cercaram, pode ser um exercito inteiro atrás de você! — E então sacou uma adaga de bronze celestial do cinto. Provavelmente ela mesma havia feito o punhal há muito tempo, a lamina estava torta e mesmo assim parecia ser muito boa para perfurar coisas. — Tenho um plano.

— Qual?

— Saia pela porta dos fundos, esconda-se e tente chegar ao lago sem ser visto. Siga ao sul, terá um posto do guarda do parque, fale para ele que você é se perdeu dos seus pais e então peça para te levarem para Los Angeles, fuja quando chegar e vá para os Estúdios M.A.C. Faça isso e chegara bem, isso é, se nenhum manticore brotar do chão e te atacar. — Ela deu um sorriso encorajador, em seguida vestiu uma capa com capuz preta que estava pendurada na cadeira.

— Não é engraçado.

— Não disse que estava achando engraçado. Agora vá, vou tentar atrasar essas coisas! — Mamãe retirou a cadeira e agarrou a maçaneta bem na hora em que uma mão humana verde e com garras atravessou o resto da janela. O único som vinha de fora, uma série de sibilos reptilianos agudos.

— Espera, eu vou sozinho? Você vai lutar contra um exercito inteiro de dracaenaes só para eu poder ir? — Perguntou Nico, perplexo.

— Somente um pode ir, o outro tem que ficar. Agora corra garoto. — Ela ficou surpresa quando ele a abraçou. — Me perdoe por isso. — O garoto deu um grito quando ela fez um pequeno corte em seu braço, a adaga ficou completamente vermelha — Desculpe, vou precisar fingir que sou você para ir com eles, então preciso do cheiro do seu sangue para confundi-los.

Achei que ele iria chorar, mas não, apenas usou a manga da jaqueta para estancar o resto do sangue. Um pedaço de papel que ela havia colocado em seu bolso caiu no chão.

— Para que isso? — Perguntou lendo

— Preciso que depois que faça o que eu te mandei, você promete procurar uma pessoa para mim? O endereço é esse ai, quando a encontrar, cuide dela e diga que vai ficar tudo bem.

— Juro pelo Rio Estinge.

— Então adeus. — Por causa das lagrimas que embaçavam minha vista, só consegui ouvir passos apressados e o barulho das portas abrindo. O som dos sibilos estava começando a se afastar até não ser mais possível saber onde as tais dracaenaes estavam.

Estava tão chocada que não tinha reação nenhuma, apenas soluçava e tentava impedir o impulso de chorar para fazer alguma coisa. Apenas um grito feminino soou muito longe daqui momentos depois, quando já era tarde demais e a casa começava a derreter lentamente, minha visão chegou ao fim.

Aquela porta me levou até a resposta, justamente no dia em que morrera ao escolher salvar um garoto em troca da sua própria vida.

Despertei com um dos meus ombros sendo apertados por unhas que mais pareciam ser garras. Uma mulher estava bem atrás de mim, com um sorriso doce e ao mesmo tempo gélido, olhos verdes e madeixas negras balançavam lentamente com a brisa gelada que vinha das grandes janelas moldadas com arcos de prata com vista para O País do Caos em chamas.

— Tudo bem, querida? — A falsidade era bem destacada em sua voz. Minhas mãos treiam apesar de que meus pulsos estavam presos a correntes e continuava soluçando, só que desta vez todas as lagrimas havia sido consumidas por uma onda flamejante de raiva.

— Bem? Acha que eu pareço esta bem? — Me virei e tentei prender seu pescoço usando as correntes, a mulher apenas estalou os dedos e as fez me puxarem para trás com uma descarga elétrica verde.

— Não, não, não. Calminha ai, nervosinha. Não tenho culpa se te colocaram nisso tudo. Me chame de Vossa Majestade. — Limpou as mãos na saia do vestido e sentou-se no trono de cristal vermelho que estava a minha frente, guardado por um tigre dente-de-sabre azul gigante deitado aos seus pés. Para o meu azar, seu bichinho exótico de estimação não se importava em ficar em coleira — se é que existe uma coleira para o tamanho dele — por ai.

Toda vez que tentava controlar os mecanismos que prendiam as algemas, recebia uma descarga elétrica mágica ainda mais forte em resposta. O mesmo aconteceu com o resto das coisas mecânicas ou metais encantados dali.

— Seus poderes tecnopatas não funcionam contra minha magia.

— Então por que você não retira sua magia para eu poder usar meus poderes? Seria bem melhor, não seria? — Se não dava para usar os poderes, era hora de apelar para o meu falso bom humor.

— Sei que você esta com raiva. Eu a entendo. Por isso a trouxe aqui, minha mestra precisa que você faça algo para ela. — Vossa Majestade sorriu novamente e acariciou a cabeça do mascote, aquela era a tentativa mais clichê de tentar me intimidar usando medo. Pobre coitada, mal sabia que meu sistema emocional estava tão abalado que não sabia qual era a diferença de coragem ou medo, estava apenas ligada no modo pronta-para-matar-com-o-olhar.

— Sua mestra? Deixa eu adivinhar: Gaia. Só fala para sua mestra que eu não faço nada para ninguém. Incluindo ela — Retribui o sorriso.

— Não seja tão burra, Ronnie. Você será recompensada, muito bem recompensada. O que acha que essa jornada vai trazer de bom para você? Nada! No fim você vai ter que morrer! Então aceite minha proposta, livre-se da sua maldição, te ensinarei a ser uma feiticeira poderosa... Tudo isso se você apenas fazer alog pequeno— Vossa Majestade usava algo na voz, uma tentativa fracassada de me persuadir a fazer o que queria. Isso não daria certo, chame só funciona com quem tem alguma sombra de sentimentos ou uma pequena esperança sobre algo, ele te convencia que era real.

Esperança e algum sentimento não eram coisas que fazia parte de mim agora.

—Não obrigado, eu entrei nisso e vou ir até o fim. Além do mais, o que me garante que vou ganhar tudo isso? — Xeque-mate, eu havia anulado todas as suas chances de dar uma resposta.

— Menina esperta, como sabe que isso é uma farsa?

— Vivi sozinha grande parte da minha vida, aprendi a me virar, a dar um jeito nas coisas, a usar meus poderes, precisava sempre aceitar propostas e muitas delas davam errado. Não creio que essa seja uma das 5% que deram certo.

Tudo isso era um truque para ganhar tempo enquanto tentava usar meus poderes além da fortaleza — presumi que fosse ela —, talvez no meio de todo o lixo da cidade eu conseguisse encontrar alguma coisa, controlar um autônomo ou coisa parecida.

— JÁ CHEGA DO SEU JOGUINHO! — Gritou e lançou um feitiço contra mim, me prendendo a alguns centímetros do chão contra a parede. Por mais forte que fosse a batida, não senti nada. — O que você quer? Minha mestra me trouxe de volta pela 3ª vez, mesmo tendo falhado na segunda, não vai acontecer o mesmo na terceira, não vou ser enganada e morta por nenhum semideus. Nunca mais.

— Você fala tudo como se tivesse certeza do futuro? Por mais que tenha certeza, o futuro é algo incerto. Uma vez você pode achar uma coisa e acontece algo completamente diferente.

Como seu único aliado seja o seu pior inimigo. — pensei.

Não queria pensar nisso, não naquela hora. Estava muito furiosa com Nico, a lista de motivos era infinita, estava furiosa com ele por não te me contado a verdade, por ter mentido, pela minha mãe morrer para salva-lo sendo que todos aqueles monstros estavam atrás dele e não dela, e ainda mais por ter sido covarde por dois motivos: ter fugido com medo sem ter coragem de ajudá-la ou impedir que fizesse a burrada e por te escondido isso o tempo todo.

Mas eu não podia pensar em um acerto de contas agora, afinal estava sozinha e ainda tinha me livrar daquela louca. Ainda por cima, precisava pegar o vaso.

Como eu poderia ter esquecido do vaso? Eu havia ido até ali e não iria voltar sem ele.

— Posso fazer uma pergunta?

— Você já fez, mas fale. — Confirmou com um ar entediado

— O que é um Vaso Estelar?

— Ah, isso? O nome certo é Cálice Lunar, um artefato raro roubado da deusa Selene. Ele tem poder de reverter poções ou líquidos mágicos se colocados em seu conteúdo. Se por exemplo, você colocasse veneno mortal, ele automaticamente se transformaria no contrário, uma cura capaz de trazer de volta vida. Pode parecer algo simples, mas essa coisa causou guerras e muitas mortes, todos o queria. Até que depois de milhares de milênios, eu o consegui, com muito custo, por isso mudei seu nome para Vaso Estelar, assim ninguém o que verdadeiramente é.

Se uma coisa tão simples como essa era capaz de causar tudo isso, imagino o que uma mais complexa era capaz de fazer.

Espere, se o cálice era capaz de reverter coisas, a água do Rio Lete fazia as pessoas esquecer e perder as coisas, então se colocássemos a água nele, encontraríamos algo que tinha sido perdido e esquecido. A localização das adagas. Sem querer me gabar nem nada, mas eu era um gênio.

— E onde ele está? — Perguntei inocentemente.

—Acha mesmo que eu vou contar onde ele está? Francamente, Ronnie. Tenho planos para ele e eles envolvem você. Primeiro, irei usa-lo para converter uma das minhas mais novas poções dignas de deixar Hécate com inveja — Ela deu um risinho comportado e apontou para umas das estantes cheias de frasquinhos coloridos e borbulhantes. — Vou coloca-la ele e oferecer a alguém, antes o que trazia energia, vai roubar toda ela de quem quer que esteja bebendo. Quando der certo, digamos que vou mandar fazerem um brinde de “reconciliação” exclusivo no Olimpo.

— Seu plano é roubar o pode dos deuses? Uau. Estou impressionada, você é tem realmente uma mente fria, inteligente e calculista. Uma das melhores, se posso dizer — Não, eu não estava blefando. Era mais um dos meus truques.

— Generoso dizer isso da sua parte, talvez você não seja tão ruim não é? Ah, mas chega de bajulação! Ainda preciso dos seus poderes para algo, quero que concerte ele — Vossa Majestade apontou para um lençol branco que cobria algo grande ao lado da parede que não tinha percebido antes, com algumas palavras o pano voou para longe revelando outro trono bem maior, talvez para alguém com 3 metros de altura, uma armadilha. — Foi a única coisa que eu consegui recuperar que tinha conseguido na minha segunda vida, quando tinha uma loja. Dessa vez, ele vai prender outra deusa.

Não estava quebrado coisa nenhuma, só precisava que alguém soubesse ativa-lo. Esse era o mesmo trono que Hefesto havia usado para prender Hera. E era a única coisa naquela sala que não estava enfeitiçada.

— Então me tire daqui majestade, não posso trabalhar sem ter as mãos livres — Ela me tirou da parede, infelizmente não tirou as correntes. Caminhei atrás dela até chegarmos perto do trono. Hora de por meu plano em ação.

Quando Vossa Majestade chegou mais perto dele e se virou de costas para retirara camada de poeira que o cobria, a empurrei com o pé, quando caiu sentada sobre ele que rapidamente obedeceu meu comando, seus pulsos e pernas foram envoltos pulseiras e tornozeleiras que prenderia ela nele para sempre, já que mais ninguém além de mim ali sabia como fazer isso.

— Consertado, Medeia. Foi uma pena que você ficou presa ai não é? — Disse ironicamente, estava cada vez mais gostando dos meus poderes. — Onde esta o vaso? — Ela olhou para cima, para a torre.

Finalmente consegui lembrar seu nome, aquela era Medeia, uma das piores vilãs da mitologia. Isso explicava muita coisa. Agora era ela realmente uma rainha, sentada no lugar de uma rainha.

— Me tire daqui sua insolente! Socorro! Sua miserável... — Vossa-não-mais-majestade lançou um feitiço em mim. Ela estava tão desesperada para sair dali que acabou falando as palavras erradas. Minha roupa se transformou em um vestido com corset vermelho rodado que iria até os joelhos, saltinhos pretos e joias de ouro puro.

— Eu não acredito! Isso foi horrível! — Gritei para ela — Você poderia ter me transformado em um sapo, menos isso!

As portas que antes estavam trancadas se abriram e dois guardas adentraram no local. Da cintura para cima eles eram homens normais e embaixo tinha um corpo completo de escorpião, isso incluía pinças mortais e uma cauda com ferrão nada amigável.

O primeiro fez uma reverencia enquanto o outro aproveitou e cravou uma espada nas costas doamigo. Não tinha tempo para entender o que isso significava, eu precisava achar o vaso e fugir.

Corri em direção as prateleiras onde tinha visto uma daquelas entradas de ar, tirei a grade soltando o parafuso com a unha — que estava grande e pintada de esmalte vermelho — e fui engatinhando e me espremendo pelo túnel estreito por alguns metros. Usar a escada naquela hora seria muito obvio, outro exercito de monstrengos hominídeos poderia estar vindo graças aos berros que Medeia dava, eles nunca saberiam onde eu estava pelo sistema de ar.

Sai por outra entrada, dessa vez estava no segundo andar da fortaleza. Por sorte não havia ninguém por ali, fiz meu relógio voltar à forma de machado, não sabia por quanto tempo essa maré de sorte iria durar. Subi 6 níveis —tropeçando muito graças aos saltos — de estada até chegar ao topo (tinha conseguido se livrar das correntes no caminho), uma torre de observação inteiramente dourada, com mais frascos coloridos e objetos estranhos espalhados pelo chão e um cofre com várias gavetas. Alguém entrou em seguida, na hora em que estava quebrando os cadeados do cofre, o trono fez Medeia perder os poderes.

Me aproximei do escorpimano (decidi o chamar assim) e dei-lhe um tapa na cara, tão forte que o fez torcer a cabeça para o lado. Sua forma começou a se dissolver em névoa fantasmagórica, até se tornarem um velho e odiado conhecido.

— Por que fez isso? — Nico perguntou, fingindo que estava sentido dor no lugar em que minha mão bateu.

— Porque você merece, seu traidor, coverde, filho de uma gorgona, mentiroso...

Levou um tempo até ele entender o que eu estava falando.

— Como você descobriu?

— Porque você não me contou? Ou melhor, por que você não voltou para ajudar ela?

— Eu não podia, tinha só 10 anos, estava confuso, com medo, tinha fugido do acampamento depois de saber que minha irmã estava morta, havia um grupo de monstros inteiro atrás de mim, queriam que eu fosse um servo de Cronos, ficasse do lado dele. Mas eu não queria, queria apenas me livrar de todo esse peso, de ser semideus, ser um semideus filho de um dos Três Grandes, ainda por cima, ser filho de Hades. Tem ideia o que isso quer dizer?

— Não justifique seus problemas com os do seu pai. Não importa de quem você seja filho, não são poderes que te fazem ser um herói, são as ações e o que você faz com eles. — Respondi — Ela era mortal, você um semideus, você tinha poderes, ela não. Ainda mais contra um bando de mulheres cobras!

— Estamos falando sobre poderes ou sobre eu e a Alex? — Disse ele.

— A questão não é essa, você agiu como um covarde quando deveria agir como um herói. Agora entende por que sua vida nunca dava certo? Estava muito acostumado a agir com a ajuda da sua irmã, e quando ficou sozinho, perdeu a noção do que poderia fazer. Ou seja, você ainda é culpado. Foi egoísta.

— Eu não queria ser herói, nem nada. Mas quem é você para falar de mim? — Rebateu.

— Alguém que cresceu sozinha por sua culpa, por culpa do seu egoísmo, que aprendeu a se virar sozinha e não precisa de ninguém. Alguém que aceitou entrar em algo mesmo sabendo que iria morrer para isso. Eu cometo muitos erros, mas não fico jogando a culpa deles em ninguém.

Vozes no corredor nos fizeram para de brigar.

— Onde eles estão? — Parecia que ele havia saído do transe raivoso em que estamos.

— Talvez na escada, feche as portas, eu vou procurar o vaso. — Voltei para o cofre, abrindo todas as gavetas, algumas tinha papeis, outras eram cheia de dracmas, joias ou artefatos antigos. Depois de procurar por dezenas delas encontrei o Cálice Lunar, pareceria ser de prata, mas era mais esbranquiçado e pesado, com algumas marcas mais escuras, assim como a superfície da lua.

Provavelmente as escadas estariam tomadas por guardas, então qual seria a nossa saída?

Dei um grito quando alguma coisa agarrou o meu pé, era um guaxinim um tanto peculiar, um autônomo inteiramente feito de bronze, os olhos davam lugar a rubis vermelhos brilhantes. Provavelmente havia sido desperto pelos meus poderes.

— É só um guaxinim — Empurrei-o com o pé e voltei a procurar uma maneira se sair, talvez pérolas ou até mesmo uma máquina de tele-transporte. Ele pareceu ficar bravo com isso e me mordeu em resposta.

Achei que ele fosse me incinerar viva quando abriu a boca cheia de engrenagens e dentes, colocando dois canos para fora, seu corpo animal foi se desmontando, remontando e expandido até voltar em um tamanho e forma completamente diferente, incluindo com rodas, guidão e um motor. Tinha acabado de ver um guaxinim se transformar em uma moto.

— Tudo bem, mas como eu vou sair de uma torre pilotando uma moto? — Ela emitiu um ruido, talvez um “se vire”. Cada vez gostava menos daquele bichinho.

— É loucura isso, mas você pode descer as escadas de moto, não é algo seguro. — Nico disse, apontando para porta — Eles não estão preparados para enfrentar Ronnie e uma moto-guaxinim-de-bronze.

— Faz sentido. — Por que eu ainda estava falando com ele? — Tudo bem, eu desço as escadas nessa coisa aqui, fazendo algo que deixaria os heróis da Marvel com inveja, atravessaria a cidade inteira e encontraria uma saída que me levaria para a superfície. Faço isso facinho — Estava sendo irônica, é claro. — E quanto a você?

— Achei que não se importasse comigo.

— Eu realmente não me importo, mas você é importante na jornada, precisamos do nosso guia irritante — Respondi indiferente.

— Ronnie Vega esta realmente admitindo que precisa de mim — Que ótimo, ele sorriu — Devia gravar esse momento.

— Cala a boca. Agora vamos, o tempo corre, sabe? — Revirei os olhos. Ah meus deuses, que garoto infantil.

— Prefiro ir do meu jeito, desaparecendo e aparecendo. Vantagens de ser fantasma. E é mais rápido e seguro. — Não acho que uma alma vai precisar de segurança, mas enfim.

— Não acredito que esta achando que eu quero que você vá na moto comigo? — A ideia era hilária demais para não rir — Acho que acertei um tapa forte demais.

A guarda real estava apressada lá fora. Montei em minha carona, não sabia como iria pilotar de vestido e salto alto, mais daria um jeito. Com o vaso devidamente guardado no porta-capacete, então a liguei. Mentalmente comecei a cantar a musica do Bob Esponja: Estou pronta, estou pronta...

Nem pensei em abrir as trancas antes de acelerar. Os últimos segundos se resumiram a pedaços de madeira voando, escadas, roncos de motor e coisas monstruosas explodindo em pó ao serem atropeladas. A adrenalina era muita para me importar com a velocidade. Sai da fortaleza em pouco tempo, para meu azar, as pontes que ligavam a fortaleza ao resto da cidade sobre um grande abismo estavam erguidas. Avancei até grandes guindastes presos entre as margens, eles deviam puxar algo de dentro do abismo que cheirava a enxofre e era extremamente fundo. Isso era loucura, mas precisava tentar.

Graças a potencia inimaginável a moto, consegui chegar facilmente na extensão do guindaste que estava mais próximo da outra margem. Achei melhor acelerar mais ainda e não olhar para dentro daquela imensidão alaranjada. Quase dancei de velocidade quando cheguei ao fim e a suspenção de Caça-Trufas — no meio da loucura escolhi um nome pro guaxinim — deu conta de amortecer o salto. Não parei até finalmente ter cruzado a cidade, desviando de ruinas em chamas e deixando um grande rastro de fumaça negra e ácida que saia do escapamento. Acho que teria que me virar em fogo grego para abastecer aquela moto. Logo encontrei um túnel largo e entrei, subindo sua rampa em alta velocidade, estava tão escuro lá dentro que nem mesmo o farol dava jeito. Mal percebi que aquele túnel terminava em uma rampa de estacionamento normal, entrei facilmente em uma avenida movimentada, comemorando e gritando de felicidade.

Parei quando vi algo caído na pista, um garoto. Ele parecia estar apenas dormindo, se não fosse pela ponta de uma lança cravada em seu abdômen, mesmo assim ainda respirava. Valentine pulou de uma sombra ao mesmo tempo em que Nico se materializou ao meu lado.

— A Ordem. Esta. De volta... — O garoto tossiu. Havia um espada de bronze celestial em suas mãos. Não sei o que mais me chocou: o que ele dizia ou o fato de que também era um semideus. Mas todos eles não haviam morrido com o acampamento?

— Saim de perto do nosso amigo. Vocês não querem mais motivos para serem mortos alem de te-lo ferido não é? — Disse a líder de um grupo de pessoas de armaduras lançando a luz da lanterna na nossa frente.

Notas finais
::::::::::GLOSSÁRIO::::::::: - Gato de Cheshire: É aquele gato meio roxo dos filmes de Alice no País das Maravilhas. Aquele que tem um grande sorriso estranho e vive desaparecendo/aparecendo. - Tecnopatas: São pessoas que dominam e controlam qualquer meio de tecnologia ou metais, fazem armas e tem uma inteligencia avançada. Controladores de Tecnopatia - Para os desentendidos, o flashback se passa depois que o Nico foge do acampamento depois de receber a noticia do Percy que a Bianca havia morrido na missão de A Maldição do Titã Podem me bater, me matar se quiser (só lembre-se que se me matarem não terá mais historia hahahahahaaha) por dois motivos: pela demora e por ser uma bela de uma mente maldosa. Eu deixo -snq jksjksjfksjfksjksf E ENTÃO O QUE ACHARAM? Alguém aqui gosta de Alice no País das Maravilhas? Deixem reviews me contando :) Bjos