Desvenda-me

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Aí está, apressadas... :P

Portando meu crachá, não tive dificuldades em chegar até o quarto mesmo que só tivesse sido liberada uma visita permanente e aquele não fosse o horário das outras visitações. Encontrei Mycroft sentado no sofá e olhando fixamente Sherlock, que estava na cama ao lado e parecia dormir tranquilamente com o curativo em seus olhos. Tudo que eu via era como espinhos me torturando lentamente, mas eu estava decidida a não enfraquecer.

Deixei minha mochila no chão, próximo ao sofá e seite-me sobre minhas pernas ao lado de Mycroft.

– Oi...

Ele não me respondeu, apenas virou-se para mim e isso já era o bastante na atual situação, principalmente vindo de alguém como ele. Ficamos em silêncio e acho que cheguei a cochilar em algum momento, porque acordei com os movimentos de Mycroft ao se aproximar da cama de Sherlock. Ao que parecia, ele estava acordando e se debatia na cama, parecendo desesperado.

Levante-me num pulo, ignorando a dor das minhas pernas dobradas por tanto tempo sob o corpo. Percebi que Mycroft estava sem ação e coloquei uma mão sobre seu braço, pedindo que se afastasse enquanto eu apertava a campainha que nos traria uma enfermeira.

– Sherlock... Está me ouvindo?

Segurei uma de suas mãos, tentando passar uma tranquilidade que eu não sentia.

– Molly?

– Sim, Sherlock... Eu estou aqui.

Ele para de se debater e parece se acalmar aos poucos. Meu coração está tão disparado que parece que vai explodir a qualquer momento. Já espero pelo o que virá a seguir e eu não me engano.

– Por que meus olhos estão tampados, Molly? — Sherlock leva a outra mão automaticamente até eles, sentindo as gazes que ali estão. Olho para Mycroft, vendo pela primeira vez a máscara de frieza que ele usa ruir de forma catastrófica.

– Houve um acidente... Seus olhos foram feridos, Sherlock. — A enfermeira entra no quarto nesse momento e eu vejo tudo em câmera lenta. Na verdade, Sherlock demora menos de dois segundos para deduzir o que aconteceu e tirar a mão do curativo, mas tudo parece durar uma eternidade.

– Molly... Se eu tirar esse curativo agora, o que eu verei?

Vejo pelo canto do olho Mycroft virar-se de costas com um som, como um ganido, que me lembra um animal sendo ferido. Aperto a mão de Sherlock, sabendo que a enfermeira está a postos e preparada para uma reação difícil vinda dele. Respiro fundo porque sei que de nada vai adiantar mentir para alguém como ele.

– Sherlock...

– A resposta é nada, Molly?

Aperto inconscientemente sua mão, que já não segura mais a minha.

– Ainda há exames a serem feitos e...

– É nada, Molly? Responda.

– Sim, provavelmente nada. — Respondo exasperada, vendo como Sherlock parece encolher diante dos meus olhos. Ele solta minha mão definitivamente e se coloca em um silêncio resignado.

– Sr. Holmes, o senhor está... — A enfermeira se aproxima, mas Sherlock a corta antes que a frase seja concluída.

– Sim, eu estou ótimo. E se você, Molly e Mycroft puderem sair, eu ficaria muito melhor. Sim, irmão, eu sei que você está aí porque posso sentir o cheiro do bolo que você ingeriu à distância.

– Mas... — Mycroft tenta dizer algo e é a minha vez de cortá-lo.

– Estaremos aqui se precisar, Sherlock. — Eu seguro o braço de Mycroft e o levo para fora. É necessário dar um tempo para que a notícia se assente. Não será fácil. Nunca é. Em nenhuma situação é fácil, e é pior ainda para alguém como Sherlock, para alguém cuja visão pode ser tudo. A enfermeira sai um pouco depois de nós e eu sei que ela colocou algum tipo de calmante no soro dele, pelo menos para que ele não tente cometer alguma besteira enquanto está sozinho no quarto. — Vá para casa, Mike... O que Sherlock não precisa agora é que ele veja as pessoas tendo pena pelo o que aconteceu, desmoronando como se a culpa fosse dele. Vá e se recupere, eu cuidarei de tudo por aqui.

Mycroft apenas assente, desorientado. É como se todo o mundo tivesse virado de ponta cabeça e eu precisasse arrumá-lo. Vejo-o indo embora e caminho pelo hospital até chegar à lanchonete. Compro algumas coisas e me alimento de forma calma, dando um tempo considerável para Sherlock antes de voltar para seu quarto.

– Molly, seu perfume é inconfundível. Eu falei que prefiro ficar sozinho, caso você não tenha entendido. — Ele parece tranquilo, mas eu sei que é só efeito do remédio, que na realidade ele deve estar caindo em um buraco sem fim.

– Fico contente pelo perfume. E entendi muito bem, mas você não está exatamente em condição de escolher. — A primeira coisa que tento fazer é tratá-lo da forma habitual, sem escancarar que as coisas estão ruins. Muito ruins.

Sherlock se coloca em um silêncio sem fim, provavelmente fazendo birra por eu estar ali. Não posso negar, eu o entendo, mas não posso deixá-lo sozinho agora. Arrumo-me o melhor que posso no sofá e passo horas olhando-o. É estranho poder observá-lo assim... Sem ser interrompida. Sem correr o risco de que ele veja. Quão irônico é isso?

Presto atenção em cada detalhe do seu rosto, ainda que esteja encoberto. Percorro com os olhos o caminho através de seu pescoço, passando pelo ombro e chegando até as mãos. É impossível ignorar que ele é muito atraente. Volto a olhar para os cabelos que sempre quis bagunçar e sorrio com tristeza. Por que? Por que isso tinha que acontecer justo com ele? Por que isso acontecia com qualquer pessoa do mundo?

Demoro a pegar no sono no não tão confortável sofá e sou acordada de manhã por um Mycroft já recomposto. Graças a Deus.

– Bom dia, Molly. Bom dia, Sherlock... Quer adivinhar do que era o bolo hoje? — Ah, as trocas de farpas habituais. Elas farão bem a Sherlock.

O silêncio continua e eu me levanto, recolhendo tudo o que trouxe e me preparando para partir. Acho que posso deixá-lo com Mycroft agora que ele se refez do choque. Despeço-me e não tenho resposta de Sherlock.

Alguém resolveu ser mudo também.

Notas finais
Até! :v