Desvenda-me
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Nós ficamos abraçados no chão por um longo tempo até que nos acalmássemos. Sherlock estava com o rosto afundado em meu ombro enquanto eu continuava a brincar com os fios de seus cabelos. Algumas lágrimas teimosas continuavam a escorrer dos meus olhos mesmo eu estando mais calma.
– Nós daremos um jeito, Sherlock. Não vai ser fácil, mas nós acharemos um caminho. Eu prometo.
Ele se afasta do meu ombro e tateia até encontrar meu rosto, enxugando algumas das lágrimas que ainda estão ali.
– Não quero ninguém chorando pela minha situação, Molly... Muito menos você.
– E quem disse que estou chorando pela sua situação? — Retribuo o carinho limpando as lágrimas do rosto dele. — Estou chorando porque infelizmente você não vai me ver com meu novo cabelo loiro platinado.
Sherlock sorri tristemente para mim enquanto seus dedos descem até meus lábios, sentindo meu sorriso.
– Acho que você ficaria melhor ruiva... — Ele parece mais sincero ao sorrir e eu o acompanho.
– Deixarei isso para quando você puder me ver. Agora vamos começar a nos mexer. — Beijo-o na bochecha e me levanto, segurando sua mão para que ele me siga, mas ele continua sentado.
– Molly... Eu não sei se...
– Sherlock, se não puder fazer por você... Faça por mim.
Passam-se alguns tenebrosos segundos até que ele concorde, balançando a cabeça. Respiro aliviada e, segurando minha mão, ele se levanta do chão.
– Há alguma coisa que eu não deva ver no seu guarda-roupa?
– O que você vai fazer, Molly?
– Organizá-lo. Posso suportar qualquer coisa, mas não você usando uma meia preta e outra marrom.
Novamente ele sorri para mim e isso alivia a dor em meu peito.
– Estou tão ruim assim? Pode mexer, talvez você encontre algum pedaço de corpo, mas nada com o qual você não esteja acostumada.
– Idiota. Agora, use o seu famoso palácio mental e tente andar até a sala sem perder um pedaço da canela a cada canto dos móveis.
Ele paralisa por alguns momentos, como se não soubesse se eu estava mesmo falando sério.
– Vá, Sherlock! Caso você se machuque, por sorte temos uma médica aqui.
Vejo-o se concentrar e mover as mãos como se estivesse pensando sobre a planta da casa e é exatamente o que pretendo que ele faça. Sherlock não é uma pessoa comum. Ele pode fazer cálculos complexos e gravar qualquer número ou medida, então ele com certeza consegue andar pela casa sem esbarrar em nada se tiver calmo o bastante para se concentrar sobre isso. Quando ele finalmente sai pelo quarto sem dar de cara com a parede, eu me volto para o pequeno guarda-roupa dele e começo a organizá-lo por cores, mas tenho uma ideia melhor ainda quando começo a tarefa. Levo todas as camisas para a sala e pego o kit de costura em minha bolsa. Sherlock está sentado em sua poltrona, aparentemente em seu palácio mental. Fico feliz de ver que nenhum móvel está fora do lugar, não mais do que quando cheguei.
Sento-me na poltrona a sua frente e começo meu trabalho.
– O que está fazendo, Molly?
A voz dele me assusta, já que estamos em silêncio há um bom tempo.
– Algo que vai te ajudar a se vestir, veja.
Levanto-me com uma das camisas na mão e vou até ele.
– Aqui. — Guio sua mão até o cantinho na barra da camisa. — Está sentindo o pequeno nó? Apenas um. Sinal que a camisa é preta. Dois nós a camisa é branca, três nós a camisa é roxa, quatro nós a camisa é azul. Sorte minha que você não varia muito as cores. E pelo que vi todas as suas calças são pretas e seus sapatos também, então não teremos problemas quanto a eles. Calça jeans e tênis colocarei em uma outra parte do guarda-roupa. Também separarei o casaco e as outras peças. Farei tudo depois e te explicarei conforme for organizando. Posteriormente você pode ver qual a melhor forma, caso queira mudar.
Falo sem parar e percebo Sherlock encarando um ponto — que talvez ele ache ser eu — boquiaberto.
– Você já lidou com essa situação antes? — Ainda bem que ele não pode ver meu rosto ruborizar.
– Não... Hum... Não. Eu só estou pensando no que é mais fácil para você.
– Obrigado, Molly.
O simples agradecimento é dito com tamanha emoção que eu me sinto desmoronar novamente. Levanto-me sem dizer nada e vou até a cozinha antes que comece a chorar novamente. Tendo abaixado a guarda uma vez sobre toda essa situação, parecia que nunca mais minhas defesas voltariam e a todo momento eu me sentia propensa a derramar lágrimas. A cozinha está revirada por culpa da experiência que Sherlock fez no dia anterior. A experiência que gerou tudo isso, que fez um inferno em nossas vidas.
Seguro na pia com força, tentando recuperar o meu controle e assusto-me quando sinto a mão de Sherlock em mim.
– Está ficando bom nisso. — Sorrio, tentando disfarçar o que acabou de acontecer, mas ele está sério e segura meu braço. Quando menos espero ele está me abraçando novamente.
– Estou desesperado...
– Eu também... — Não consigo negar, apesar de tudo sinto-me perdida em um imenso vazio.
– Ter você aqui torna tudo um pouco mais... Aceitável. Mas não quero prendê-la a essa situação, como se fosse uma babá.
– Eu vou ficar, Sherlock. Seria uma filha da puta se virasse as costas e fosse embora. E não é por pena ou qualquer coisa desse tipo, é por isso é o que amigos fazem. Não vou fazer as coisas por você, mas vou ajudá-lo a se adaptar a essa situação. Sherlock... Estou fazendo isso porque gosto de você, e não porque estou sentindo dó do que você está passando. É difícil... É triste... Mas nós vamos passar por cima disso. Mesmo que tenhamos que nadar em meio às lágrimas. — Eu completo e percebo que ele sorri enquanto continua me abraçando. Escuto-o suspirar.
– Não acho que eu conseguiria sem você. — As palavras são sussurradas e me emocionam mais uma vez. Ficamos ali, em pé na cozinha, por longos minutos e eu acho que poderia ficar para sempre. — Molly... Podemos comer algo?
Isso arranca risos de mim e lembro que a Sra. Hudson me disse que ele não quisera comer nada desde que havia chegado.
– Sim, se você tiver algo comestível por aqui. Só espere eu dar um jeito nessa bagunça.
Ele ri e nós nos afastamos sem querer fazê-lo. Arrumo e limpo tudo rapidamente. Sherlock até ameaça tentar me ajudar, mas isso ainda não é viável. Depois que tudo está no lugar eu começo a buscar nos armários algo que sirva para nos alimentar e consigo preparar um chá com algumas torradas. Não faço tudo para Sherlock, peço para que ele se sente a mesa e mostro onde está cada coisa. Ele não se sai tão mal e consegue se virar razoavelmente bem para alguém que entrou nesse mundo agora.
Algumas horas se passam até que a Sra. Hudson vem bater à porta. Nós ficamos sentados na sala conversando, como fazíamos no laboratório, enquanto eu continuava fazendo pequenos nós nas roupas dele de acordo com cada cor. Insisto para que ele vá sozinho atender à porta, mas ele se nega. Diz que ainda não quer ver ninguém, então eu mesmo o faço.
Aparentemente ela só quer saber se eu continuo viva. Ou melhor, se um de nós não matou ao outro e acaba se surpreendendo ao nos ver bem. Entrega-me um bolo que fez enquanto eu estava ajudando-o e vira-se para ir embora. É aí que eu tenho uma ideia.
– Sra. Hudson, o quarto de John ainda está vago?
Sherlock move a cabeça para a direção de onde eu estou e a boca da Sra. Hudson se escancara.
– Sim, está, mas...
– Você pode arrumá-lo para mim?
– Sim, mas...
– Obrigada!
Não deixo ela completar as frase e delicadamente a expulso, voltando a fechar a porta.
– Molly... O que exatamente você está fazendo?
– Adaptação intensiva.
– Eu não preciso que...
– Fique quieto, Sherlock. Você quer discutir isso de novo? Devia ter perdido a língua, seria muito mais útil.
Sherlock faz uma cara engraçada de quem está contrariado, mas fica quieto. Quando finalmente eu termino o que estou fazendo com as roupas, volto até o quarto dele e arrumo-as por cor no guarda-roupa. Chamo-o para que venha até o quarto e explico para ele onde cada coisa está e como está organizado. Sorte que a memória dele é brilhante, o que vai ajudá-lo a se lembrar de onde está cada coisinha. Saio do quarto, pedindo para que ele se vista novamente e enquanto estou na sala a Sra. Hudson volta para me avisar que o quarto está arrumado. Despeço-me mais uma vez dela e desejo-lhe boa noite.
Aguardo na sala por Sherlock e o meu rosto se ilumina num sorriso quando ele aparece devidamente vestido com um pijama e um robe. Além, é claro, de óculos escuros. É incrível como ele está lindo assim.
– Wow! Minha ideia foi realmente genial! Você está se vestindo melhor que antes!
– Como estou, Molly? — Sherlock encosta-se na parede cruzando os braços em uma falha — talvez não tão falha assim — tentativa de parecer sensual. Ele dá o primeiro sorriso verdadeiramente divertido ao me ouvir rir.
– Perfeito, Sherlock. Parece mais um ator disfarçado do que um cego com esses óculos. Ponto para você.
– Pare de me sacanear, Molly. — Ele diz ainda sorrindo.
– Falta apenas uma coisa. Espere um segundo!
– O que você vai aprontar?
– Fique parado aí.
Corro até a cozinha e pego uma das cadeiras, levando-a até o banheiro. Volto e puxo Sherlock pela mão.
– Sente-se aqui. — O guio para que ele consiga localizar a cadeira e se sentar. — Falta fazermos sua barba.
– Não, você não vai...
– Quieto, até que eu tenha certeza que você não vai cortar o pescoço eu vou sim. — Começo a reunir o que vou precisar e só quando começo a espalhar a espuma de barbear é que percebo o quão íntimo é esse gesto. Quase me perco enquanto a espalho, mais uma vez admirando cada traço de Sherlock. O corpo dele se contrai ao meu toque como se isso de contato não fosse algo com o qual ele estivesse acostumado. Acho que realmente não era.
Trabalho de forma lenta e cuidadosa para não machucá-lo. Apenas nossas respirações eram audíveis no silêncio do banheiro. Estávamos constrangidos ao mesmo tempo em que tomávamos consciência de quanto tudo isso havia nos aproximado em tão pouco tempo.
Termino de barbeá-lo querendo continuar ali por muito tempo.
– Agora sim. Garanto que está perfeito. — Voltamos para a sala e eu me despeço. — Boa noite, Sherlock. Tente sobreviver até amanhã.
Aproximo-me dele e o beijo no rosto.
– Tentarei... Obrigado, Molls. Por tudo.
– Agradeça não sendo o idiota de costume. — Saio antes de ouvir a resposta, tentando ignorar a carga de emoção que estava novamente em sua voz e subo para o quarto que utilizarei por tempo indeterminado.
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