Notas iniciais
Essa estória pode ser um pouco longa e não posso garantir com que frequência postarei. Se puderem comentar, ficarei muito feliz e agradecida.

Era uma noite tempestuosa de 2003 quando o rapaz invadiu a sede da TV Fuji. Ele pedira para ser levado até lá, mais especificamente até o local em que Wizarmon morrera em 1999. O frio da chuva não incomodou o garoto, que trajava um casaco marrom sobre as roupas. Ele afastou os cabelos negros cacheados de seus olhos castanhos. Queria chorar, mas já havia chorado demais. Colocou a mão direita no bolso do casaco e de lá retirou o ioiô vermelho. Aquele pequeno objeto, que passaria despercebido por qualquer pessoa, tinha um valor inestimável para o jovem, a ponto de ter trazido à tona as memórias de sua vida anterior.

Ele ainda tremia de choque. Havia sido uma das crianças escolhidas para salvar o Mundo Digital, mas abrira mão de tudo. Em um ato de imenso egoísmo, ou de amor incondicional, ele desejou ser capaz de salvar a pessoa que mais amava. Para isso, no entanto, precisava fazer o maior de todos os sacrifícios: ser apagado do tempo.

Era para o rapaz ter deixado de existir, mas aquele que concedeu seu desejo não concordou com aquilo. “Não vou deixar que criança alguma morra por causa do Mundo Digital” o concedente dissera. A solução encontrada foi simular a morte daquele menino pouco depois de seu nascimento, e fazê-lo ser criado longe de seus pais. Medidas foram tomadas para assegurar que ele jamais se tornasse uma criança escolhida. Todos os eventos foram modificados por aquele desejo; o universo original deixou de existir e o menino não só não se lembrava de nada, como tampouco existia nas lembranças de todos aqueles que o amaram na realidade extinta.

Até ele ter encontrado o ioiô vermelho e recuperar suas memórias.

O rapaz se lembrou de toda a dor e desespero que motivaram sua decisão. Ainda podia vê-lo, enxergava aqueles olhos perdendo o brilho característico das coisas vivas, ouvia aquela voz fraca dizendo “vai ficar tudo bem, Oni-san”.

Lágrimas que ele achava não mais possuir escaparam de suas orbes antes de o rapaz começar a falar.

“Wizarmon, sou eu. Não sei se você pode me ouvir. E mesmo se pudesse, não sei se você me reconheceria. Nós nunca nos tornamos parceiros... eu nunca o fiz evoluir quando Vandemon o atingiu. Não pensei que você ainda seria amigo de Tailmon nessa realidade. Desculpe por não ter previsto isso.”

O garoto suspirou fundo antes de prosseguir.

“Desculpe-me, mas eu não posso lhe ajudar. Eu preciso fazer com que tudo dê certo. Se eu falhar... não, eu não posso falhar! Preciso evitar que o meu irmãozinho morra de novo...”

Grandes lágrimas continuaram a cair de seus olhos e sua voz começou a quebrar.

“N-nem sei porque vim aqui. Mesmo que, de alguma forma, você consiga me escutar, nem deve saber que eu sou! As pessoas me chamam de Zenkichi agora. Minha vida nova não é ruim, eu até fui feliz por muito tempo. Mas aquele dia está chegando... o 31 de agosto. Disseram que eu não podia fazer nada para mudar os eventos, mas eu não acredito em destino. Eu com certeza o protegerei dessa vez!”

Zenkichi tentou enxugar os olhos com a manga encharcada, sem sucesso. O ser que o havia levado até lá lhe aconselhou:

“Você deveria voltar para casa.”

“Aquela não é minha casa e sabe disso.” O jovem contestou com irritação. “Essa vida é de mentira e eu sou apenas um cliente que contratou seus serviços.”

“Eu já te trouxe para se despedir do seu amigo. O que planeja fazer agora?

“Eu não sei.”

O silêncio caiu sobre eles, tão frio quanto a chuva.

“Mercador...” Zenkichi se referiu àquele que lhe concedera o desejo, “... eu posso mesmo salvá-lo, não é?”

“Se tudo ocorrer conforme o planejado, sim, você pode. Mas sua vida vai estar em grave perigo.”

“Não importa.” O garoto sorriu melancolicamente. “Tudo o que importa é protegê-lo.”

Os dois deixaram aquele lugar pouco depois de terminarem a conversa e Zenkichi guardar o ioiô de volta no bolso, provavelmente sem notar a presença fantasmagórica daquele Digimon que se comovera com as palavras do estranho. Ele não sabia quem o rapaz era, mas não podia ignorar o que escutou.

“Preciso ajudá-lo.” Wizarmon estava apreensivo. Sentia que o conhecia, mas não conseguia se lembrar do menino. Aquela conversa sobre parceiro e universo alternativo soava demasiado fantástica, mas ele sentia que todas aquelas palavras havia sido sinceras. “Preciso falar com Tailmon.”

Notas finais
Então, o que acharam? Por favor, me deixem saber. Obrigada por lerem minha estória.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.