Como o arcanjo do paraíso pediu, pouco antes do anoitecer, Niffie já estava em sua casa. Dimitrius a acompanhou até a entrada do castelo e depois se despediu rapidamente dizendo que precisava ficar atento a qualquer movimento estranho em sua dimensão, caso essa invasão de demônios se tornasse um boato verdadeiro.

E por mais que ela desejasse que o arcanjo da humanidade se juntasse a eles para o jantar, não podia negar que Dimitrius estava fazendo o correto. Afinal, era em sua dimensão que a raça pura preferia viver e tudo poderia se tornar um grande caos no momento em que os demônios invadissem suas casas, já que esses imortais odiavam as pessoas que não eram mais donas de suas almas.

E se um dia perguntassem a Niffie se os imortais eram superiores aos mortais, ela provavelmente discordaria. Aparentemente a raça pura chegava a ser ainda mais preconceituosa que os humanos, pois eles nem ao menos consideravam que existiam demônios com corações bons e não aceitavam o fato de que existiam pessoas que gostavam de viver no inferno, mesmo não pertecendo a aquela dimensão.

Os aliquis, humanos que encontravam a imortalidade após a morte, eram mais aceitos entre eles, mas ainda assim existia uma certa recussa. E a imperatriz nem ao menos sabia onde começava para explicar onde Ellylan entrava nessa equação de preconceito. Pelo menos ela entrava já que ocupava um lugar importante ao lado de Maximus, diferente de Gaia que todos odiavam ouvir até mesmo a menção de seu nome.

As únicas pessoas que eram aceitas na sociedade sem nenhum questionamento, independente de suas raças, eram os tenentes dos arcanjos.

Niffie caminhou até estar no salão real, esperando encontrar Meridius no local. Desde que ela não o havia o sentindo em sua mente para perguntar onde estava, a angelical começou a procurá-lo por todos os lugares obvios que ele poderia ser encontrado. O cômodo onde aconteciam julgamentos foi o primeiro da sua lista, mas acabou estando errada nessa opção.

No momento em que a imperatriz do paraíso entrou no local, seus olhos claros se depararam com pessoas que ela não estava procurando.

Os tenentes de Meridius.

Todos eles, que antes estavam calmos e em posições relaxadas, assumiram uma postura de respeito quando viram Niffie. Até mesmo o casal, que havia se formado a poucos anos, que estavam abraçados antes dela chegar se separaram completamente um do outro como se nunca tivessem tido a chance de conversar uma única vez.

— Imperatrice.— Theo, o segundo em comando, que sempre respondia por Meridius quando o mesmo não estava presente, falou ao mesmo tempo que curvava sua cabeça em um sinal de respeito, assim como os outros.

Quando uma escala era feita sobre os soldados de confiança do seu marido, Theo era o primeiro escolhido para ocupar o topo do mais temido e sua aparência de um homem grande e frio apenas ajudava sua personalidade se tornar ainda mais medonha. Se ninguém soubesse que ele e Mitzi, a outra tenente de Meridius, mantinham um relacionamento cheio de amor, era provável que o considerariam como um insensível brutal. Além do mais...

Niffie congelou no instante em que percebeu que estavam presente somente seis tenentes a sua frentes ao invés de sete.

— Onde está Lukan?— Ela perguntou de forma cautelosa, temendo pelo pior. Afinal, Meridius disse que estaria acompanhando seus tenentes em uma busca por anjos que estavam causando problemas, esses problemas poderia muito fácilmente ter se tornado em morte.

E Niffie tinha tamanho carinho pelos soldados de confiança do seu marido a ponto de se importar se eles estavam bem ou não. Ela podia fazer parte da raça pura, mas não era egoísta como eles.

— Lukan foi ferido por dois anjos que o atacaram.— Kiara a respondeu com um sorriso calmo para não preocupar Niffie. A tenente, conhecida por ser a mais gentil, movimentou suas asas com penas incrivelmente brancas, esbarrando acidentalmente nas do seu irmão mais velho, Alex.— Foram ferimentos leves, não se preocupe com ele, imperatrice.—

Niffie não ousou perguntar o quão leve eram esses ferimentos, pois a última vez que foi tola ao fazer essa pergunta, ela acabou sendo chocada com o que esses tenentes consideravam uma ferida pequena.

E Lukan era um homem forte, apesar de ter sido atacado por dois anjos, eram poucas coisas que realmente conseguiam levá-lo para o chão. Provavelmente os anjos que o atacaram apenas estavam tendo um dia de sorte.

A imperatriz do paraíso sorriu para os soldados em sua frente, soldados que eram tão leais a ela quanto eram para Meridius.

— Eu já falei que não precisam me tratar como uma imperatriz quando estivermos sozinhos.— Niffie os lembrou.— Vocês chegam a ser são mais velhos do que eu para me tratarem de forma tão respeitável.—
O tenente mais jovem entre eles, Oliver, sorriu de maneira sarcástica. Ele podia ser mais velho que ela, mas tinha uma aparência tão juvenil com seus cabelos de um loiro escuro e olhos claros que era impossível levá-lo a sério.— Nós jamais ousariamos descartar um pedido seu quando lembramos exatamente o quão chata você era quando pequena, imperatrice.—

Niffie revirou seus olhos, já não podendo mais contar em seus dedos quantas vezes tinha ouvido que ela era chata quando não passava de uma criança. E tudo isso apenas a fazia acreditar que todos sorriram no momento em que a sequestraram quando era mais nova, afinal, algumas pessoas conseguiram se livrar dessa “criança chata” por algumas horas.

— Lembrarei disso quando tiver que tratá-lo como um mero soldado, Oliver.— Ela disse para ameaçá-lo, mas nem mesmo os tenentes do seu marido sentiam medo dela.— De qualquer maneira, eu vim até aqui para procurar Meridius. Vocês sabem onde ele está?—
— Quando chegamos no castelo Gaia estava o esperando para conversar.— Theo foi quem respondeu.— Eles estão na sala de artes agora.—

Niffie se sentiu um pouco preocupada naquele momento, não podendo negar esse sentimento quando sabia qual era o papel dessa mulher solitária nas dimensões.


Gaia era conhecida como filha dos elementos e desde que foi o primeiro ser vivo a ser criado, ela estava a cima de qualquer pessoa que respirasse perto dela. Ninguém sabia ao certo o quão poderosa podia ser, mas todos sabiam que ela tinha ao seu poder a própria natureza e como foi criada por base dela, ninguém questionava isso.

Essa imortal tão misteriosa era a única que se comunicava com os anciões também e se Gaia havia vindo até seu marido, era obvio que eles foram procurá-la para transmitir alguma mensagem ao arcanjo do paraíso.

Niffie encarou os soldados a sua frente e tentou sorrir para não mostrar nenhum tipo de preocupação, mesmo estando claro em sua mente que eles entendiam o fato de que Gaia apenas trazia problemas quando aparecia diante de algum arcanjo.

— Irei me retirar agora.— A angelical falou, pois não queria ser um incômodo para os tenentes que acabaram de voltar de uma missão.— Desejem melhoras a Lukan em meu nome, por favor.—

A imperatriz do paraíso saiu do salão real após dar alguns segundos para os soldados se despedirem dela, ela caminhou para a sala de jantar e esperou até que a servissem. Niffie já estava ciente de aquele dia seria um daqueles em que jantaria sozinha, então não viu por que esperar mais tempo para se alimentar agora que a noite dominava o céu do paraíso.