Notas iniciais
Depois de quase dois meses estamos postando. Espero que goste porque é um dos nossos capítulos favoritos. Beijos.

A chuva salpicava no chão, deixando todo ele, aos poucos, tomado por uma camada úmida.

Meus cabelos estavam encharcados, assim como minhas roupas e meus pés dentro dos sapatos. Meus passos eram ritmados e rápidos. Sabia o quanto essa intenção soava inútil, em que mundo pés seriam mais eficazes do que asas? Entretanto, ainda assim, a mente humana insistia em fantasiar cenas para manter a ansiedade nos aprisionando.

Olhei para cima em mais um desses estranhos reflexos humanos. Não havia nada além das nuvens escuras. Suspirei e desci as escadas de modo veloz.

O metrô estava no seu habitual aglomerado de pessoas indo e vindo, desejando incessantemente se esconder da chuva e chegar ao seu destino.

Sem muito esforço eu avistei aqueles que desejava. Eles estavam um de frente para o outro, se encarando com tanto amor e tanta intimidade que parecia até errado observar, como se fosse invasão de privacidade.

A loira de longos cabelos platinados não demorou a sentir minha presença e logo se virou, abrindo um sorriso deslumbrante assim que eu acenei com a mão. Seu companheiro sendo sempre mais reservado, escolheu me esperar chegar perto deles o suficiente para que me cumprimentasse com um simples manear de cabeça. Ri internamente com isso, ele nunca mudaria.

Respirei fundo, dando um sorriso frouxo em seguida. Mantive o silêncio, assim como eles. Procurava guardar cada mínimo detalhe deles dentro da minha memória.

“Então, tudo pronto?”, perguntei depois de um estimado tempo, enfim quebrando o silêncio.

“Sim.”, afirmou a morena. Estreitei os olhos, procurando um resquício de mentira e ela riu, revirando os olhos. “Nós vamos sobreviver, Sebastian, relaxa.”

Olhei para Carter e ele sorria de modo encantado e ao mesmo tempo orgulhoso de sua mulher. Ele fez que sim para mim, comprovando o que ela disse e em outra situação eu poderia gargalhar. Ele nunca diria que ela estava errada.

“Ok”, aprovei e voltei minha atenção para os meus bolsos, à procura do objeto que demorei tanto tempo para conseguir. “Aqui está. Como prometido.”, estiquei o colar para Gael e no mesmo instante ela arregalou os olhos.

“Como você conseguiu?”, questionou incrédula, pegando o colar entre os dedos.

“Há coisas que vocês não precisam saber.”, disse travesso e recebi um olhar debochado de Carter. “Você sabe como usa, não é? Isso vai manter vocês escondidas por tempo suficiente, até vocês se estabilizarem e eles duvidarem da existência de vocês.”.

Gael afirmou, olhando atentamente o colar na mão e involuntariamente passou a mão pela barriga, que quase não aparecia. Ela se voltou para mim e vi seus olhos marejados e um agradecimento explicito ali. Carter logo a envolveu em seus braços, beijando o topo de sua cabeça.

“Me desculpe. São os hormônios da gravidez.”, se explicou e rimos.

A capacidade que Gael tinha de arrancar risadas mesmo em momentos como aqueles me faria falta.

“Está tudo bem.”, falei e espiei o relógio da plataforma, me arrependendo de imediato. “Eu realmente queria prolongar o momento, mas o tempo está acabando. Vocês precisam ir.”, disse sereno.

Os dois comprovaram o que eu estava dizendo, olhando no relógio e logo lágrimas começaram a jorrar dos olhos azuis escuros de Gael. O olhar triste de Carter também denunciava o quanto ele sentia.

“Obrigada, Sebastian. Eu nem sei como te agradecer.” Gael disse, me abraçando.

“O melhor jeito de você me agradecer é prometendo que vai partir daqui, criar sua linda menina e ser feliz.” sussurrei, tentando ao máximo ignorar o aperto no peito que se instalava em mim.

Gael me soltou com relutância e logo, eu e Carter trocamos um forte abraço de despedida também, expressando ali toda nossa cumplicidade.

“Se cuida, garoto.”, disse bagunçando meu cabelo de um jeito fraternal. “A gente se vê.”

Assisti-os até sair da minha vista e entrar no metrô. Pensei em orar por eles, desejar que os anjos os protegessem ou algo do tipo, mas logo desviei essa ideia. Aquilo parecia hipócrita e provavelmente não acabaria bem.

Eu fiquei, observando o metrô partir e rapidamente outro chegar. Não sabia quanto tempo havia se passado desde o momento que cheguei ali, mas sabia que o tempo que eu tinha para simplesmente ir embora e me esconder havia se esgotado assim que senti a presença angelical aguçada atrás de mim.

Virei-me com toda prepotência que me foi herdada e lancei-lhes um sorriso vitorioso.

“Parece que vocês chegaram tarde demais.”, contei vantagem, lançando-lhes um sorriso vitorioso.

O Guardião torceu o nariz em desagrado e trancou o maxilar, no segundo seguinte me vi sendo erguido pela gola da camisa. O Sub Arcanjo ao seu lado fez uma expressão neutra e balançou a cabeça como se estivesse decepcionado.

“Bastardo, insolente.”

Eu parecia ter sugado todo o ar do ambiente pela forma na qual tomei uma longa e profunda respiração. Passei a mão pelos cabelos, tentando normatizar as batidas frenéticas que meu coração dava e olhei para o lado, encontrando Mary sentada com as pernas em estilo borboleta e as sobrancelhas arqueadas.

“Pesadelo?”, ela perguntou com a calmaria de sempre.

Fiz que sim com a cabeça, não confiando exatamente na minha voz para pronunciar qualquer coisa e alto tom. Ela sorriu frouxo e eu fui capaz de perceber as marcas de travesseiro em seu rosto, delatando que ela também estava dormindo. Demorei alguns segundos para voltar ao normal, enterrando meu rosto entre minhas mãos e Mary esperou pacientemente isso acontecer em silêncio.

Tirei a mão do rosto e chequei o relógio pendurado na parede. Levantei em um pulo, notando que a ideia de consolar Mary e sem querer cair no sono não foi uma das melhores. Não que eu tivesse escolha uma vez que o meu sono falou mais alto do que qualquer outra vontade minha, mas ainda assim, não deveria ter deixado isso acontecer.

“Eu tenho que ir. Disse que ia encontrar Adriel a meia hora atrás. Você vai ficar bem?”, perguntei, olhando para Mary que por sua vez apenas assentiu.

Sorri e depositei um beijo em sua testa antes de caminhar até a porta do quarto tentando desamassar minha camisa.

“Simon?”, ela chamou.

Parei com a mão na maçaneta e girei os calcanhares, esperando Mary falar.

“Será que eu posso ir com você?”, ela perguntou e mordeu o lábio inferior, hesitante. “Eu posso não ajudar em nada, quando esse assunto parece ser para gente grande, mas Harper é minha amiga. Eu devo isso à ela e, além de tudo, eu posso ser capaz de ajudar, já que estive no lugar que ela e, provavelmente, Daniel estão.”

Fiquei alguns segundos olhando para Mary que já calçava os sapatos e vestia uma jaqueta, sem deixar de me fitar, esperando a resposta.

Suspirei e dei de ombros.

“Tudo bem, mas nós temos que ir agora.”, avisei e vi a pequena passar por mim como um vulto, abrindo a porta e aparecendo no corredor.

Franzi o cenho, fechando a porta atrás de mim e fiz todo o caminho até o dormitório masculino junto com Mary.

Eu estava acostumado com os olhares caindo em cima de mim enquanto passava pelos corredores para chegar ao meu quarto, principalmente quando passava com alguma garota. Mas aquela quantidade de olhares que cercavam meu corredor em específico e diretamente para a porta do meu quarto, levou-me a crer que algo ali estava bem estranho. Eu não passei despercebido por ninguém, nem daqueles que mais me desprezavam.

Abri a porta do meu quarto no arranque, já me preparando psicologicamente para o que viria a seguir. Quando vagueei minhas íris pelo ambiente, arregalei os olhos e obriguei-me a fechar a porta, impedindo que os presentes no corredor visualizassem ali dentro.

“Porra, Adriel!”, esbravejei. “Quando você me disse que ia trazer alguns amigos para ajudar eu não imaginei que fosse fazer uma festa dentro do meu quarto! Aonde você está com a cabeça para trazer esse bando de gente aqui?!”

Esfreguei minhas têmporas já imaginando a falação que ia ouvir da inspetora sobre as regras dos dormitórios. Tirei a mão da frente e observei as quatro cabeças dentro do meu quarto.

Havia uma mulher de cabelos loiros e lindos olhos azuis, que aparentava não ter muito mais do que a minha idade, mas que pela vestimenta me levou a chutar uns belos vinte anos. Na minha cama estava sentada Aliel Sky, a melhor amiga de minha irmã. Seus cabelos eram cacheados e batiam quase na cintura.

E então, escorado na minha janela, estava Adriel, que por sua vez, era envolvido por pequenos braços. Esses pertenciam a uma garota de olhos quase cinza, o cabelo negro preso em um coque atrapalhado.

Se a maioria do dormitório já dizia que eu era um galinha apenas pelas poucas coisas que fazia, depois daquele dia, eu definitivamente ia ser acusado de atentado ao pudor ou algo assim. No mínimo ia perder o direito de me estabelecer no dormitório masculino. Aquilo tudo de mulher bonita no meu quarto deveria ser algum crime, eu tinha certeza.

Minha expressão de indignação só ficou pior depois que eu notei que todos os ali presentes tinham semblantes divertidos no rosto.

“Agora eu entendi porque ele e a Harper de deram tão bem.”, afirmou a loira, em um tom risonho e todos concordaram. Ela se levantou e estendeu a mão na minha direção. “Sou Caliel Crista.”, estreitou os olhos analisando-me por alguns segundos. Dei um passo involuntário para trás até que ela assentiu consigo mesma suspirando. “Queria ter os meus poderes de volta.”, lamentou.

“Não se preocupe, Caliel.”, a garota de olhos cinza disse soltando-se de Adriel e indo abraçar Mary. “Como você está?”, ela perguntou.

“Estou bem, Mellany, pelo menos o máximo que posso ficar nessa situação.”, abaixou a cabeça com a expressão triste. “Não acredito que Harper se sacrificou por mim.”, sussurrou.

Mellany balançou seus rebeldes cabelos escuros que se soltaram do coque.

“Não fale como se ela tivesse morrido.”, pediu com a voz fraca. Deu para perceber o vínculo que ali existia entre as duas e Harper também. Senti meu estômago com um nó e o empenho em encontrá-la se estalou no fundo de minha mente. Mellany me encarou e percebi o quanto as duas era parecidas fisicamente. “Sou Mellany Brown.”, apontou para Caliel. “Sou cunhada dela e namorada dele.”, sinalizou para Adriel que sorriu.

“Prazer.”, eu disse com a voz confusa. Era por ela que ele havia caído?

Aliel se levantou e percebi Mary ficando tensa ao meu lado. Encarei-a de canto e vi seu semblante fechado e os olhos estreitos. Assim que Aliel parou na nossa frente com o rosto impassível, Mary recuou e cruzou os braços soltando um bufo.

Ela é um anjo depois de tudo o que fez?” murmurou.

“Desculpe a bagunça, não queríamos chamar a atenção, porém Adriel disse que precisavam do máximo de ajuda possível. Tem mais dois anjos chegando, espero que não se importe. Vai ser melhor pois eu e Caliel não temos mais nossa ligação com o céu.”

Franzi o cenho.

“Por que não?”

Aliel deu um pequeno sorriso cúmplice.

“Desistimos por algo mais importante.”, seu sorriso se alargou e pôs a mão no pescoço em um colar de prata com seu nome cravado. Mary praticamente rosnou ao meu lado. Aliel ficou séria novamente e encarou a loira. “Mary, sei que te devo todas as desculpas do mundo e que talvez nem isso funcione, mas a questão é mais importante do que nossa rixa por causa de Jeremy. Precisamos saber do lugar em que foi mantida e cativeiro, porque de algum jeito eles estão retendo qualquer reza que usamos.”

Mary a encarou de cima a baixo e abriu a boca pronta para dar uma resposta, porém preferiu ignorá-la passando direto por Aliel – trombando em seu ombro consequentemente e parando ao lado de Mellany.

“Não me lembro muito bem.”, ela disse e coçou o cabelo loiro. “Sei que não era muito longe.”, ela olhou para Mellany e abaixou a voz. “Você avisou a Gael?”

Aquilo atiçou minha atenção.

“Gael?”

As duas me encararam.

“A mãe de Harper.”, Mellany explicou. Passei a mão por meu rosto atraindo a atenção de todos para mim. “Aconteceu alguma coisa?”

Adriel se apressou na minha direção.

“Simon, se você sabe de alguma coisa...”

Ergui minhas mãos.

“Não deve ser nada. Foi só um pesadelo.”

Caliel interveio.

“Nicolas se lembra de sua vida passada periodicamente.”, explicou em voz baixa. “É uma habilidade dos Quase Anjos, por serem reencarnações.”, sentou-se cruzando os calcanhares. “O que sonhou, querido?”

Tive vontade de rir pela maneira como ela falou comigo, como se eu fosse uma criança. Só que diante do que Daniel tinha me dito – que os anjos aparentavam a idade que queria e precisavam – talvez eu realmente fosse uma criança para ela. Recostei-me na porta e passei os dedos por meus cabelos castanhos.

“Eu estava em uma estação de metrô com essa Gael e um tal de Carter ajudando eles a fugir de anjos, eu acho. Dei um colar para eles e os deixei ir.”, franzi o cenho querendo e não querendo lembrar o sonho. “Fui pego logo em seguida. Ah, sim. Meu nome era Sebastian.”

Isso fez os três anjos se encararem em silêncio e espanto.

“Como era essa pedra?”, Adriel perguntou.

“Verde como uma esmeralda e com um pingo de ouro no meio, como uma lágrima. Espere um momento.”, pedi indo em direção a minha escrivaninha e rascunhando o que vinha em minha mente. Demorei uns cinco minutos e levantei o desenho. “Mais ou menos assim.”

Aliel arfou pondo as pequenas mãos na boca. Caliel se aproximou junto de Adriel e analisaram o desenho em silêncio.

“Lembra da última vez que viu a Pedra do Silêncio?”, Caliel perguntou.

Adriel se virou para mim sério.

“Há quase dezenove anos.”, ele disse e balançou a cabeça. “Mas ele tem... Qual a sua idade?”

“Vinte e um.”, respondi prontamente.

Caliel pôs uma mão no ombro de Adriel.

“Ele pode ter entrado no corpo de uma criança que se acidentou e iria morrer.”, Caliel disse. “Por isso perdeu a alma e Sebastian entrou. Seria uma quebra de regra para um anjo, mas para ele não.”

Aliel me encarou.

“Você se acidentou quando era mais novo, não foi?”, ela disse. “Sarah me contou que você foi atropelado quando tinha dois anos e que os médicos acharam que foi um milagre você ter sobrevivido. Mas não foi isso, não é?”

Pisquei confuso com todas as informações que estava recebendo.

“Do que vocês estão falando? Eu nem me lembro desse acidente.”, na verdade não lembrava de nada de antes do acidente também. “Mas o que isso tem a ver com Harper e essa pedra que sonhei.”

Mellany revirou os olhos.

“Gênio, você é a reencarnação desse tal de Sebastian.”, ela destacou o óbvio e se virou para seu namorado. “Mas por que isso é tão importante.”

Adriel continuou me encarando.

“Por duas coisas: Primeiro, a Pedra do Silêncio é o único objeto que faz qualquer anjo nunca ter a localização de quem o possuí. E segundo, foi roubada a quase dezenove anos por um Nephilim.”, apontou para mim. “Você é a reencarnação de Nephilim, Simon. Por isso estavam atrás de você.”

Aliel estalou a língua em choque, assim como todos ao redor.

“Mas eu pensei que os Nephilim não poderiam reencarnar, assim como nós.”, ela disse.

Mellany pressionou os lábios juntos.

“Parece que vocês estavam enganados.”

Notas finais
Comentem o que acharam.