Destiny, Um Quase-Anjo Apaixonado
15 Capítulo 14 – Simon Burke
Notas iniciais
Cruzei os braços na frente do peito, fitando Harper que observava qualquer coisa ao redor que não fosse eu, bem na sua frente. Estava implícito o quanto ela não se sentia confortável. Ela não era a única. Minhas mãos estavam tão fundas em meus bolsos que corria o risco de rasgá-los e por mais que tivesse uma pose descontraída, meu coração estava acelerado ameaçando quebrar meus ossos.
“Então…”, falou maneando com a mão de forma impaciente, quebrando o silêncio.
“Então?”, pressionei.
“Ok! Isso é totalmente desnecessário.”, exclamou, jogando as mãos para o ar, perdendo o resto de paciência. Agradeci por tal ato, era bem mais fácil conversar com uma Harper sem filtro. “Foi apenas um beijo.”, afirmou me causando certo incômodo. Era assim que ela via o que tivemos? “Nós somos grandinhos o suficiente para dar um basta nesse drama adolescente.”.
“O problema não foi o beijo e sim o significado que ele trouxe.”, rebati, tombando a cabeça e arqueando uma sobrancelha.
“Não sei bem qual significado dele.”, ela deu de ombros, se fazendo de indiferente.
Estreitei os olhos, lembrando de cada conselho vindo de Mary. Harper nunca seria completamente sincera sobre suas emoções se não tivesse um retorno para elas. Reparei em cada minucioso detalhe de seu rosto pálido, desde os olhos azuis escuros até sua boca pressionada em linha reta. Ela mantinha os braços cruzados na frente do peito. Seu semblante era sério e suas íris nunca iam diretamente de encontro com as minhas. Tão bonita e tão difícil de lidar.
Abri um sorriso de lado ao observar o movimento constante que Harper fazia com a perna.
“E é por isso que está nervosa ao ponto de mexer a perna sem parar?”, perguntei sarcástico, indicando sua perna incontrolável com o dedo.
Harper bufou e parou de mexer a perna, encostando o pé na parede em sua melhor pose marrenta. Era como ver um reflexo meu naquela garota. Eu poderia afirmar com todas as letras que o destino era uma vadia por ter posto uma pessoa que parecia perfeita para mim na minha frente, mas nas piores condições.
Tínhamos limites e por mais que gostássemos de brincar nessa linha, nós nunca teríamos a ousadia de ultrapassá-lo. Pelo menos nunca admitiríamos isso em alto e bom som. Era exatamente o que estava acontecendo naquele momento. Estávamos testando os nossos limites e até onde um poderia impulsionar o outro.
“E de ter me evitado todos esses dias?”, perguntei sorrateiro, aproveitando a deixa.
“Eu não estav…”, ela começou, porém se interrompeu, provavelmente notando o quanto sua voz encontrava-se esganiçada, uma vez que até pigarreou em seguida. “Eu... não estava te evitando, Simon. Você não é o centro do mundo, eu tenho coisas para resolver que não envolvam estar beijando um Quase-Anjo Reencarnado no meio de uma zona de ataques.”.
Abri a boca para protestar, mas logo fechei-a, deixando um minuto de silêncio prevalecer para Harper refletir um pouco sobre sua fala. Ter paciência era essencial para manter um diálogo pacífico com ela, entretanto fazer isso estava se tornando uma missão impossível. Eu não sabia exatamente o que havia dado em mim quando nos beijamos. Poderia dizer que foi apenas o calor do momento, mas sabia que havia algo a mais e acreditava que para ela também, de acordo com todos os pressentimentos de Mary e a altura na qual me correspondeu.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.
“Estamos produzindo bastante com essa conversa.”, disse irônico, observando o teto como se ali tivesse a resposta para todos os meus problemas.
“Nós podemos só… Esquecer o que aconteceu?”, Harper propôs sorrindo falsamente e, logo, apanhou sua bolsa do chão, evitando contato visual comigo. Ela parecia tão vulnerável, de um modo que eu nunca pensei ver. “Viu só? É simples. Não houve nada!”, afirmou quando parou bem na minha frente. Não me movi e permaneci com a expressão séria, observando a cor azul de suas íris de perto. Ela piscou, quebrando o contato visual e se despediu com um sorriso de lado. “Nos vemos por aí, Quase-Anjo.”.
Balancei a cabeça em negativa, revirando os olhos e, antes mesmo que Harper desse seu terceiro passo, puxei seu braço, voltando-a para onde não deveria ter saído.
“Quer começar de novo?”, perguntei com calma, como se estivesse mexendo nos fios de uma bomba capaz de explodir se algum deles fosse cortado errado. Ao meu ver, estava funcionando. Pelo semblante, ela, pelo menos, não aparentava mais vontade de me socar.
Harper assentiu depois de alguns instantes. Ela tomou fôlego, não sabia se era para se preparar para o que iria dizer ou se apenas naquele momento ela havia conseguido respirar com conformidade.
“Tudo bem, olha… As coisas estão bem confusas por agora. Eu sinto algo por você, algum tipo de afeto, só que eu não tenho muita experiência no ramo de emoções pra te dizer exatamente o que é. Sei que existe algo, mas… Eu não sei… Está cedo demais para simplesmente nomear o que quer que seja e tomar uma decisão.”, deu de ombros. Suas íris carregando uma quantidade de emoções nas quais eu não sabia identificar. “A gente podia só… Dar tempo ao tempo. Deixar fluir pra conseguir, pelo menos, descobrir o que é.”.
“Eu só não quero que o clima fique estranho entre nós.”, disse, depois de alguns segundos de silêncio torturantes. “Eu sei que você significa alguma coisa apenas pelo fato de que eu quase surtei com a hipótese de que poderia ter te perdido. Pode até ter sido o calor do momento, mas foi um momento quente que eu não me esqueci até agora.”, completei, observando o alisar do meu polegar em sua pele. “Nós não podemos negar que temos uma ligação. E essa não é uma daquelas frases clichês utilizadas apenas pela intensidade que causam. Nossas histórias envolvendo assuntos celestiais que o digam…”, ressaltei e foi impossível não sorrir vendo Harper fazer o mesmo.
“Então, eles tem paciência para resolverem as coisas.”
“E séculos para isso. Tempo que garanto que nós não temos.”, suspirei soltando seu braço e vi a marca da minha mão ali antes de sumir, deixando apenas sua pele pálida. “Olha, não estou pedindo para casar comigo. Apenas para que sejamos pessoas normais de vez em quando e tenhamos um encontro. Pode nem ser isso. Podemos ser amigos e ver no que dá. Você me conta os seus segredos e eu conto os meus, sabe?”
Ela ficou me observando por segundos angustiantes como se procurasse um duplo sentido em minhas palavras. Existia sim, um duplo sentido em cada sílaba que eu tinha pronunciado, mas tinha deixado bem claro. Não iria forçar Harper a nada, mas ela também não poderia abandonar a possibilidade sobre nós dois.
“Amigos?”, perguntou como se para ter certeza. Assenti e a vi estreitando os olhos. Riu um pouco balançando a cabeça como se estivesse tendo uma batalha interna. “Sei que isso não vai durar por muito tempo, mas vai ser divertido ver quem vai ceder primeiro.”
Foi a minha vez de estreitar os olhos.
“Isso foi um desafio?”
Ela sorriu de canto virando de costas.
“Nosso primeiro jogo entre amigos.”, gracejou adiantando-se pelo corredor.
Eu fiquei parado vendo-a se afastar com um sorriso incrédulo nos lábios.
+++++
“Acha que eles podem vir atrás de nós por isso?”, perguntei a Daniel.
Estava jogado em minha cama e depois de uma rodada cansativa de aulas, eu só queria fechar os olhos para dormir. No entanto, encontrava-me deitado de bruços com parte da atenção direcionada ao meu novo protótipo de desenho dos olhos de Harper e a outra parte no que meu Guardião tinha a me dizer.
Daniel tinha acabado de sair do banho e estava secando seus cabelos escuros. Eu nem tinha o deixado me cumprimentar antes de relatar minha conversa com Harper no corredor. Queria ter certeza que o medo dela tinha fundamento e se era realmente melhor para nós dois que nos afastássemos, porque se fosse o caso eu o faria sem hesitar. Nunca teria coragem de colocar a vida de Harper – ou de Daniel – em perigo novamente. A pior parte era que tudo isso acontecia por uma coisa que eu não podia controlar. Uma vida passada que eu não tinha controle e um sentimento rebelde.
“Por que você quer saber isso, Simon?”, ele perguntou vestindo uma camisa e vindo na minha direção para que sua expressão descontente ficasse evidente. Abaixou-se até que ficasse totalmente na minha visão. “Você não acha que já passou por confusão demais?”
Bufei.
“Eu perguntei primeiro, mas não, não acho. Até porque eu não sabia que sentir algo por alguém era proibido.”
“E não é. Sentir algo pela pessoa errada que é.”, explicou. Levantei uma das sobrancelhas com o sarcasmo pronto para pingar de minha língua, mas meu Guardião foi rápido em me cortar. “Mas acho que não iria acontecer nada com você e com Harper por enquanto. O céu tem muita coisa para consertar, o que vai levar um tempo, e como vocês dois não tem o nome Na Lista, acho que os Anjos não iriam prestar tanta atenção no que estivessem fazendo. Mas vocês também teriam que tomar cuidado para serem discretos.”
“Claro que não sairíamos com uma placa pregada em nossos peitos dizendo quem éramos e que somos um casal, Danny.”, suspirei deixando o desenho de lado – não tinha encontrado a cor para os olhos dela, de novo. “Não sei nem o motivo de estar perguntando isso. Ela disse que quer um tempo.”
Daniel se levantou.
“Talvez seja medo de que tudo possa se repetir.”
“Talvez.”, murmurei e comecei a observá-lo de cima a baixo. “Onde você vai?”
Ele desviou os olhos do meu rosto e seu rosto ficou vermelho.
“Hoje é domingo, vou para a missa. Mary se solidarizou a vir comigo.”
Reprimi uma risada.
“Parece que não sou eu que vou aproveitar a falta de atenção dos Anjos para fazer o que bem entendo.”, gracejei e o vi ficando ainda mais constrangido. “Estou brincando. Vá se divertir.”
“Você vai ficar bem?”, ele perguntou em dúvida.
Mexi a mão sem prestar muita atenção.
“Prometo tentar me comportar.”, disse.
Daniel riu se despedido e saiu pela porta. Aproveitei que estava sozinho para focar no desenho e tentar mais uma vez encontrar o tom certo de azul para os olhos de Harper. Frustrado, levantei-me carregando o rascunho e um punhado de lápis de cor, rumando até o dormitório feminino. Demorei um pouco em meu caminho para que desse tempo de Daniel e Mary saírem.
Quando os vi saindo sorrindo um para o outro e mantendo o máximo de proximidade possível, sorri. Em determinado momento, seus dedos se roçaram e ambos deram um salto, assustados. Ficaram se encarando por poucos segundos antes de Daniel estender a mão na direção dela e ela aceitar. Eles entrelaçam as mãos e seguiram.
Aproveitei a oportunidade e entrei no hall do dormitório feminino vendo algumas garotas que estavam sentadas no sofá olhando para mim. Algumas me cumprimentaram e eu retribuí seguindo rapidamente em direção as escadas antes que alguém viesse me parar. Parei em frente a porta entre aberta do quarto e debati comigo mesmo se seria educado apenas abrir e entrar.
Resolvi dar uma leve batida de aviso e entrei vendo Harper inclinada sob a sua gaveta com um objeto na mão. Quando vi a pedra verde em suas mãos recuei e ela me encarou surpresa.
“Isso esteve com você o tempo todo?”, perguntei boquiaberto quando vi o colar repousando entre seus dedos. O colar de prata que hospedava a Pedra do Silêncio.
“Minha mãe me deu no meu sexto aniversário.”, explicou, observando a pedra brilhante. “Foi logo quando entrei para o ginásio. Ela disse que ia me proteger.”, deu um sorriso de canto involuntário, parecendo se perder em lembranças. “Na época achei que era apenas uma coisa de mãe sentimental.”
Aproximei-me dela e pus a mão em seu ombro.
“O que vai fazer com isso agora?”
Ela me olhou com um sentimento que não pude entender por um segundo e eu pude finalmente decifrar a cor de seus olhos. Nenhum dos lápis que eu carregava chegaria miseramente perto da realidade e lamentei por isso. Harper pôs o colar ao redor de seu pescoço e se inclinou na minha direção, beijando-me. Deixei todos os objetos que eu carregava caírem no chão e passei as mãos ao redor de sua cintura, puxando-a para mim.
Meu coração entrou em guerra com os meus pulmões já que ambos não conseguiam realizar suas funções da maneira exata. Harper me puxou com força contra si, como se tivesse medo de que eu me afastasse e repousou a cabeça em meu peito, ouvindo a força com que meu coração batia. Beijei o topo de sua cabeça e ela ergueu o rosto na minha direção.
“Acho que vou dar uma nova função a esse colar.”, ela sorriu.
E não havia mais medo de ultrapassar o nosso limite.
Fale com o autor