Notas iniciais
Olá meus queridos leitores!!!! Mil desculpas por não cumprir com o prazo de sete dias, demorando dois dias a mais para postar este capítulo, mas ocorreu um problema com relação ao mesmo e tive que recorrer, mais uma vez, à minha amiga, companheira e Ômega (Sim, é este o nome mesmo, porque Beta já era utilizado pelo site), Samara, à quem eu dedico este capítulo. Muito obrigada por estar sempre me apoiando e ajudando, não só em relação às minha histórias. Bjs e uma boa leitura!

Os defeitos da alma são como os ferimentos do corpo; por mais que se cuide de os curar, as cicatrizes aparecem sempre, e estão sob a constante ameaça de se reabrirem.
François La Rochefoucauld

Não me atrevi a abrir os olhos, mas pude ter uma idéia básica de como era o local onde me encontrava, usando meus sentidos. O ambiente era silencioso, apesar de saber que um outro alguém se fazia presente ali — minha percepção aguçada me dizia isto.

O cheiro era uma mistura de mofo e madeira, o primeiro sugeria que provavelmente não era um lugar muito frequentado e o segundo, que esta era a matéria prima predominante no cômodo onde me colocaram, não só no chão, onde minha pele sentia a textura da mesma, mas também em outros pontos.

Passou algum tempo sem que arrumasse coragem de abrir os olhos e encarar qualquer que fosse minha realidade, pois sabia que não seria nada de bom, mesmo sem ter ideia de qual motivo me trouxera até ali, aliás, meu medo era paticularmente justificado por não ter informações suficientes para me defender.

Por fim, escutei o leve barulho de um isqueiro sendo utilizado e logo chegou até mim o cheiro forte de tabaco, se juntando aos outros dois, assim como as vozes fortes e masculinas, que por mim já eram conhecidas.

– Não devíamos ter feito isso, nem sabemos se ela realmente é a culpada. — Argumentou o dono da voz, que identifiquei como sendo a de Daros, me deixando ainda mais curiosa para saber o porque de ter sido atacada pelos Fortis e levada até ali.

– Se não fosse, então porque fugiu? — Inquiriu a outra voz, a qual tinha plena certeza ser a de Carl, pai de Rick, que como sempre, estava contra mim.

– Eu não sei, talvez porque já soubesse que a acusariamos. — Ponderou Daros, tentando convencer o outro, o que eu sabia ser extremamente difícil, ainda mais quando ele apresentava tanta certeza como naquele momento.

– Talvez, mas a testemunha que ela deixou pra trás, deixa claro o que aconteceu naquela noite. — Respondeu meu padrasto, me causando certo estranhamento, pois não era meu estilo deixar testemunhas, então mesmo que eu tivesse cometido o tal crime do qual era acusada, seria difícil acreditar que alguém havia restado para contar a história.

– Aquela garota? — O outro riu ruidosamente, antes de continuar. — Ela nunca serviria de testemunha, estava em estado de choque e foi praticamente induzida a falar que tinha sido Katlyn quem os matou. — Disse a última parte como acusação e por fim compreendi que se tratava de um assassinato e provavelmente de alguém importante, senão não teriam tido o trabalho de procurar culpados.

– Ela estava bem quando reafirmou isto, após se recuperar de seu estado traumático. — Argumentou Carl, não querendo ceder.

– A quem você quer enganar? Sabe muito bem que Katlyn não faria este trabalho sujo, apesar de estar acostumada a fazer esse tipo de coisa, ela é inteligente o suficiente para saber que a melhor alternativa era tercerizar. — Daros contra atacou, parecendo cansado de tentar debater sobre isso. — Além disso, ela é competente, nunca deixaria testemunha.

– Mas deixou, desta vez ela errou e fez o serviço ela mesma por ter sido um acerto de contas. — Afirmou Carl, com voz elevada, sem aceitar a consideração lógica que o outro fizera.- Já discutimos isto com o conselho.

– Porque quer tanto condená-la? Sempre soube que tinha certa raiva dela, mas nunca pensei que era tanta. — Daros colocou, após ficar calado por um instante, tentando compreender a situação que nem mesmo eu compreendia.

Lembrei-me de como havia sido minha vida após nossa mudança para a casa dos Campbell, meu treinamento. Enquanto o de Rick era rígido, mas aceitável, o meu era bruto e doloroso, sempre era feito da pior forma possível, até mesmo quando era criança e não tinha tanta resistência física às coisas que me eram exigidas.

Muitas vezes quebrava perna, braço, ou qualquer outra parte de meu corpo que fosse possível, pois não me era dada a instrução de como fazer, apenas do que era para ser realizado, então muitas vezes, não conseguia e com a pressão que me era feita, além de minha própria exigência, por saber que eu era capaz, forçava muito minha estrutura corporal e acabava por adquirir sempre novas lesões, uma pior do que a outra.

Isso perdurou até o dia em que resolvi fugir, cansada de tudo aquilo, de nada aprender, ao mesmo tempo em que me lesionava. Já havia adquirido problemas em minha coluna, dentre vários outros, devido a falta de preparo para fazer aquilo que era obrigada a fazer.

Depois que fugi, encontrei um vampiro que acabou por me ajudar, depois de ter me visto lutar na rua, que reconheceu meu potencial e me treinou até depois de minha transformação, já que tinha certeza de que não teria o mínimo auxílio em minha própria casa, então não fazia sentido voltar.

O único que manteve contato comigo e que sabia minha localização, era meu irmão, a única pessoa que realmente já se importou comigo, mesmo não tendo laços de sangue, ele era minha única família, ainda que me restasse uma "mãe", ela nunca havia me mostrado o que era o amor, em nenhum momento de minha vida, não que eu me recordasse e que sequer me importasse com isso.

Após algum tempo, até mesmo as visitas de Rick ficaram escassas e depois não eram mais realizadas pelo mesmo, pois na época de sua transformação e no período posterior, ele teve de ser reeducado para se adequar ao novo corpo e às novas habilidades, sem poder sair antes que aprendesse a lidar com este "mundo novo", assim como acontecia com todos os vampiros recém transformados e eu fiquei completamente sozinha.

Após um longo período afastados, voltei a ter contato com Rick, que acabou por me convencer a retornar para casa e foi aí que as brigas com Carl deram início e várias outras fugas, inclusive a que conheci Drew e aprendi como me virar no mundo dos negócios.

Mas é claro que isso não era de conhecimento de todos, meu padrasto, com a ajuda de minha querida mãe, tinha tido o enorme cuidado de esconder isso, para que não se tornasse um escândalo em frente ao Conselho, disfarçando o fato de não saber onde eu estava, com a desculpa de viagens a lazer, uma grande piada em minha opinião, se visto o que passei para não voltar para casa, pelo menos até Rick entrar para o conselho e alegar precisar de mim, arrumando assim, uma única coisa em que Carl e eu nos entendíamos.

Mesmo assim, ainda não nos suportávamos e o fato de eu não conseguir encontrar um real motivo para isso, só piorava as coisas, afinal, eu nunca fizera nada para que ele agisse assim comigo, mas apenas fazendo contato visual, dava para perceber que minha existência era razão suficiente para ele.

– A questão não é querer punir, mas como chefe do conselho, sou obrigado a mostrar que independente de quem cometa um crime contra nós, a justiça será feita. — Replicou, hipócrita como sempre.
– E o que exatamente pretende fazer com ela quando estiver consciente? — Daros questionou o outro, parecendo bem curioso com a resposta, talvez não acreditando que aquilo realmente seria feito da forma tradicional.

– Não se preocupe, sei lidar com essa garota. — Demorou um certo tempo para que Carl voltasse a falar, mas quando suas palavras saíram, mesmo que tivessem sido ditas em um tom leve, me deram a certeza de que, de mim, ele não teria a menor condolência e que, na realidade, teria um certo prazer em fazer o que fosse preciso para me fazer admitir o crime, do qual eu quase nada sabia.

Permaneci imóvel como uma múmia, sem querer apressar o processo de "extração de informações" que certamente aconteceria logo mais, até porque não conseguiria fingir inconsciência por muito tempo, havia adquirido apenas uma nova contusão, que se comparada com as tantas outras que já tinha como parte da coleção, não era nada.

Tentava incansavelmente buscar em minha memória quem poderia ser a vítima de meu suposto crime. Pelo tom usado e sua referência como "nós", tive a certeza de que se tratava de alguém do conselho e alguns rostos me vieram em mente, mas o que mais me chamou atenção foi o de Tácia.

Ela havia sido a última a me confrontar e por ter sido algo recente, ainda uma lembrança fresca para todos, era bem provável ter sido ela. Por um instante, me esqueci do fato de estar em uma situação delicada e comemorei internamente sua morte, mas logo voltei ao meu foco.

Se era ela realmente, seria uma afronta ainda maior a acusação, até porque não faria realmente sentido eu tê-la matado, se poderia tirá-la de meu caminho de uma forma mais simples e segura para mim e mesmo que eles não soubessem disso, não deviam subestimar meu intelecto dessa forma.

Recordei-me de Rick e Drew, ambos não estavam me contando a verdade, provavelmente sabiam daquilo, de que estavam me atribuindo a culpa por aquele crime, ainda assim não me disseram nada, não me proporcionando uma chance de defesa, tanto no metrô, quanto ali.

Não entendi o porquê de não terem me contado, era uma coisa séria, poderia me levar a morte definitiva se não conseguisse provar o contrário do que acreditavam e isso seria bem mais complicado sem saber de mais detalhes.

Me lembrei dos pormenores que ignorei anteriormente, mas que no momento faziam total sentido, como o fato de não ter roupas minhas para usar. Provavelmente tivemos que fugir para que eu não fosse julgada.

Pois apesar de meu estado de coma poder ter servido como prova de que não tinha culpa do ocorrido, ouvindo as palavras de Carl, tinha certeza de que arrumaria uma forma de encaixar aquilo no cenário dos assassinatos e ainda tinha boa parte do conselho que me odiava.

– E sobre seu filho? O que pensa em fazer? — Daros inquiriu, em seu tom, pude perceber desafio.

– Ele foi cúmplice, deve ter seu castigo, mas como é meu único herdeiro, não vai ser algo tão severo — Isso era lógico, ele nunca iria se voltar contra o próprio filho, mesmo que este tivesse desafiado as leis. -, até porque não foi ele quem a assassinou, apenas foi induzido a ajudar a verdadeira culpada.

– Seu filho não é um santo, e é a única pessoa que Katlyn respeita de verdade, não o usaria — Daros declarou e pude perceber que seu interesse em mim tinha mais vantagem do que eu pensava, afinal, ele tinha reparado em muitas coisas que estavam servindo para minha defesa. — Além do mais, ele a ama como irmã, eles têm uma conexão tão grande que seria difícil encontrar algo que ele não fizesse por ela, para protegê-la.

– Isso não importa, já disse que ele terá sua devida punição. — Carl se irritou e o escutei bater em uma superfície, certamente uma mesa. — Agora pare de me importunar com tantas perguntas sem nexo.

– Só estou tentando compreender a situação. — Daros apontou com um pouco de ironia.

– Não acha que ela está demorando demais para acordar? — Carl questionou, ignorando o que o outro havia dito.

– Talvez, mas pelo que entendi, a luta foi um pouco complicada, ela quase acabou com um de nossos Fortis e depois foi nocauteada pelo outro. — Daros comentou, claramente impressionado. — Sempre soube da capacidade dela, mas conseguir derrubar um Fortis? Isso realmente me espantou, você deve tê-la treinado bem.

Tive que me segurar para não rir da última frase pronunciada. Fiquei esperando a resposta de meu padrasto, mas ela não veio, o silêncio se instalou novamente no ambiente, mas durou poucos minutos, pois logo pude escutar passos, vindos em minha direção.

Não demorou para que sentisse uma mão pegando em meu rosto, que logo apertou com força meu maxilar, provocando dor, mas era suportável, então permaneci como estava, sem demonstrar, mantendo minha farsa.

– O que fez com o garoto? — Daros questionou, mas não compreendi de quem ele falava.

– Eu o estou usando como fonte de estudos — Replicou, tirando a mão de meu rosto e se afastando novamente. -, não temos tanta informação sobre bastardos, eles não são tão numerosos, difíceis de serem identificados, devido ao fato de muitos dos vampiros se divertirem e depois sumirem do mapa, temos apenas coisas antigas sobre eles, quero ver o que é real nas histórias

Demorei um pouco para entender, mas acabei por me lembrar do garoto moreno que estava comigo na estação, o bastardo que Drew havia mandado para ficar de olho em mim. Ele era a última coisa com que iria me preocupar naquele instante, mas fiquei surpresa por ainda estar vivo.

– Já descobriu algo sobre isso? — Quis saber Daros.

– Ainda não, mas espero descobrir. — Tive a impressão de que aquilo não era a total verdade, mas não tinha como saber e nem era um de meus focos.

Decidi que não adiantaria mais fugir daquilo que viria, não obteria mais informações do que já havia conseguido, então meu teatro tinha que acabar, pois mais cedo, ou mais tarde, eles iriam fazer o que estavam esperando e era melhor se aquilo acabasse logo.

Me movi lentamente, tentando colocar a mão em minha cabeça, que realmente estava doendo, fingindo um despertar, para que pudessem começar com o que quer que fossem fazer para extrair a "verdade" de mim.

Notas finais
Sei que não teve ação neste capítulo, nem seguiu o mesmo ritmo dos anteriores, mas isto foi necessário para explicar algumas coisas e assim poder prosseguir sem que se percam. Espero vê-los logo mais! Bjs mil!!!