Destiny (HIATUS)
2 O Conselho
Notas iniciais
"Confie e sera traido. Descuide-se e será morto. Mate antes que te Matem" — Makoto Shishio
Sentada à mesa, não prestava atenção em nada a minha volta. Não que realmente tivesse algo para prestar atenção, já que o silêncio reinava, a não ser pelo barulho dos copos sendo depositados em seus respectivos lugares e o ranger dos dentes.
Mas eram coisas tão ordinárias que não se faziam suficientes para chamar minha atenção, que neste momento estava voltada para o sonho da noite passada. Não propriamente no sonho, mas no quão real pareceu a experiência e também por ter tido o mesmo sonho por semanas seguidas.
Percebi por minha visão periférica uma cadeira ser arrastada, mais precisamente a de Rick, que se levantou e se dirigiu para fora do cômodo. Aproveitando a oportunidade, fiz o mesmo, precisava de algo que deixasse o sono turbulento que tivera na noite anterior realmente para trás.
Andei até a sala esquecida, espaço um tanto quanto branco, a não ser pelo equipamento que ficava alojado em um canto da parede, se destacando em preto e azul. Naquele lugar podia extravasar e treinar sossegada.
Preparei um saco de pancadas, vesti rapidamente minhas luvas e comecei a fazer o que mais me permitia pensar com mais clareza. As imagens da figura à janela e de seu sumiço misterioso após pular a mesma me vieram à cabeça.
E o que mais intrigava era o quão perturbante aquilo estava sendo para mim, me fazendo perder o sono. Sabia que não passava de uma criativa história formulada por minha mente, mas já estava ficando ridícula a tamanha repetição.
(...)
O som de uma batida firme na porta ecoou pelo espaço e finalmente parei de lutar contra o objeto inanimado a minha frente, levantando a voz para que a pessoa do outro lado entrasse. Já sabia quem seria, a única pessoa além de mim que ainda vinha aqui.
Meu irmão abriu a porta e sorriu, um sorriso carinhoso, aquele que reservara especialmente para mim. — Tem passado muito tempo aqui, senti sua falta. — Argumentou antes de revelar suas intenções. — Não quer se juntar a mim em uma nova votação? Adoro ter seu apoio.
— Acho que adora mesmo os argumentos que tenho contra aqueles velhos insuportáveis. — Respondi convencida, gargalhando logo após.
— Sim, adoro ver todos eles sofrendo em sua mão, mesmo que não tenha direito ao voto, você sabe entrar na mente deles como ninguém. — Rick se aproximou mais, assim como eu e pude enxergar que ele estava com seu olhar repleto de maldade.
— E eu amo fazê-los comer na palma de minha mão. Mesmo que demore um pouco. — Conclui, conseguindo assim provocar nele uma breve risada.
— Na última reunião você bateu o recorde. Em menos de dez minutos já os tinha convencido do que queríamos. — Falou com orgulho, me dando um beijo na testa.
— Devo isso a meu querido Daros. — Disse com simpatia fingida, mas o sarcasmo era explícito em minha voz.
— Coitado, ainda pensa que um dia vai conseguir algo. — Mesmo com o uso da palavra "coitado" o que via em sua face era zombaria pura.
— Até que ele não é tão ruim... — E na realidade não era, a única coisa que tinha de errado com ele era o fato de querer ser importante demais enquanto era apenas mais um dos velhos nojentos do Conselho, por isso sempre preferi seu irmão e isso o deixava louco.
— Isso não importa, não vou deixar você ficar com aquele idiota e... — Fez uma pausa para olhar em seu relógio de pulso. — Faltam apenas sete minutos para nos reunirmos na biblioteca.
— Antes, preciso me trocar, afinal, não vou ser levada a sério com essas roupas. — Disse apontando para mim.
— Então vamos rápido. Uma das coisas que eles mais abominam é o atraso. — Instruiu-me enquanto subíamos as escadas.
— Tudo bem, mas enquanto faço isso, quero informações. — Exigi, antes mesmo de chegarmos ao último degrau.
— Não é algo novo para você. Lembra-se do acordo que falava sobre os bancos de sangue? Aquele aumento significativo que propusemos? — Este tinha sido um acordo relativamente fácil de conseguir. Apenas dois dos imbecis foram contra, pensando no que poderia acontecer caso pegássemos mais pessoas para extração, mas não conseguiram convencer a maioria.
— Se já foi votado... Qual o problema? — Quis saber, não entendia a mania inútil de sempre voltarem aos mesmos assuntos sem motivo algum.
— O problema é que o cretinino do Keenan e sua mulher fizeram a cabeça deles novamente e vamos ter que voltar a bater nesta tecla.
— Só espero que isso seja discutido pela última vez, pois senão vou ter que tomar minhas próprias providências. — Informei à ele, que apenas abriu um sorriso de lado.
Chegando no quarto, peguei um conjunto mais formal e Rick se deitou em minha cama. — Se eu pudesse escolher não lidar com eles, com toda a certeza não o faria, essas reuniões sempre acabam com meu dia e o pouco de paciência que tenho.
— Nada é tão ruim assim, eu até gosto. — Contrapus enquanto trocava rapidamente.
— Não. Você gosta de fazer uso da manipulação. — Afirmou e eu sorri minimamente. Era clara a minha habilidade para conseguir o que queria e que limites não me seguravam.
— Tem razão, se eu pudesse, já teria enterrado todos. — Lembrei-me de cada um dos que compunham o conselho e também das tantas vezes em que me imaginei degolando, queimando, ou enterrando vivo cada um que se opôs a mim.
— Até mesmo seu querido padrasto? — Perguntou com zombaria. Ele sabia muito bem o que pensava sobre seu pai e o fato de que só nos entendíamos em questões políticas, mas fora isso, era difícil ficarmos no mesmo cômodo.
Me limitei a dar de ombros, tendo a certeza de que isso era suficiente para que ele entendesse, descemos novamente e adentramos à sala onde já se encontrava boa parte das onze figuras arcaicas — que em nada aparentavam a idade. Rick se sentou em uma das pontas, do lado oposto de seu pai e eu fiquei de pé ao seu lado. Assim que Keenan e Tácia me viram, em seus rostos se estampou uma insatisfação tremenda e isso me alegrou ainda mais.
Contive o sorriso que ameaçava se formar e me concentrei ali, precisava escolher desde já minha abordagem, para poder calá-los, acabando com a discussão de uma vez por todas. Observei todos que estavam sentados em seus respectivos lugares, faltando apenas Moritz, Enyra e Amellie.
Começaria apenas escutando e absorvendo informações, até que todos os pontos fossem expostos, isso facilitaria muito no desfecho e na formação de argumentos concretos. Depois, usaria os mais propensos a nós apoiar, o que seria extremamente útil para fazer a cabeça da grande maioria logo após e se isso não desse certo, partiria para uma abordagem um pouco menos convencional e relativamente mais eficiente.
Olhei para Carl, seus cabelos loiros bem penteados e seu rosto com os mesmos traços marcantes que o de Rick davam-lhe um ar jovial e forte e seu semblante sério não negadas posição como chefe do conselho.
Ele me olhou por alguns minutos e pude perceber o fantasma de um sorriso surgir, isso era o máximo que alguém conseguira arrancar dele e nesse caso se devia ao fato de eu estar ali e da reação de Tácia ao me ver.
— Podemos começar? — Indagou Carl, dando início a reunião. — Estamos aqui pela enorme dúvida quanto à decisão já tomada sobre os bancos de sangue. Como todos sabem, o número de nosso povo, mesmo sendo controlado, tem aumentado, inclusive o número de nobres, que precisam de sangue para sobreviver.
— Não é exatamente assim Carl. — Replicou Tácia, com sua arrogância e prepotência de sempre.
— Na verdade é, Sra. Counot. Sabe bem que uma parte considerável do que nos faz o que somos, é o sangue humano, o que nos dá energia o suficiente, diferente dos alimentos que comíamos até nossa transformação.
— Sim, tenho conhecimento de como funciona nosso organismo, Carl, mas o número de nobres não é tão grande para ser necessário tal mudança. — Ela contextou e devo admitir que concordava, na verdade, vendo os dados registrados de nosso povo por todo o mundo, cheguei a conclusão de que o problema não era não ter sangue o suficiente e sim o fato de muitos optarem pela caça, o que era completamente compreensível, já que é um esporte que nos permite liberar nossa verdadeira natureza, além de nos proporcionar um gosto melhor do sangue.
Mas o foco da ideia não era fazer com que isso acabasse, mas sim que com o banco de sangue tendo uma quantidade maior de estoque, nã houvessem mais desculpas para eventuais crimes que pudessem revelar nossa existência e consequentemente, possíveis tentativas de extermínio da taça toda fossem realizadas, porque assim teríamos de matar os humanos e era cômodo mantê-los vivos, pelo simples motivo de precisarmos deles.
— Será que já viu o quanto os crimes graves cresceram? — Foi a vez de meu irmão se pronunciar. — E temos sempre a mesma desculpa, de que os bancos de sangue não são o suficiente, ou ao menos tão saborosos, então nosso dever é solucionar isso.
— Estaríamos nos arriscando também a nos expor se seguirmos essa idéia estúpida. — Rebateu com categoria fazendo com que todos olhassem de Carl para Rick, esperando por alguma reação, me fazendo ter ainda mais certeza do quão inúteis o resto se fazia.
— Acho que não compreendeu a proposta, Tácia. — Pronunciei seu nome com escárnio contido. — Não é como se fossemos começar a entrar nas casas e sequestrar pessoas para usarmos. Há muitas pessoas na rua que podem servir, gente com nada na vida, que não vai fazer falta a ninguém.
Esperei para me certificar que toda a atenção estivesse em cima de mim e continuei. — Além do mais, se o que te preocupa são os brinquedinhos que você e seu marido usam, pode ficar tranquila, a única coisa que irá mudar é que não teremos mais problemas em questão de resolver tantas imprudência.
— Mas que absurdo! Como ousa dizer tal calúnia? Eu e meu maridos nos alimentamos de forma correta. Com que direito afirma isso? E qual o motivo de estar aqui, se nem ao menos tem um lugar no meio de nós? — Disse, me deixando levemente enfurecida e com mais vontade de afronta-la.
O inconveniente de fazer oque eles faziam não era o fato de estarem usando tais humanos, afinal, sempre os usamos, mas a promessa de que iria fazer deles vampiros como nós era algo com que o conselho não concordaria em nada. É muito sério trazer novos integrantes à nossa raça e não se deve nem ao menos insinuar isto, ou revelar para um humano o segredo de nossa existência sem realmente ter em mente transformá-lo ou deixá-lo viver após isso.
— Minha irmã está aqui, porque pedi para que ela viesse e mesmo que não faça parte desse conselho, tem mais direito de estar aqui do que você. — Rick me defendeu, fazendo todos se lembrarem da suspeita dela ter matado o primo para chegar ao poder, ou seja, que ela não tinha o real direito de estar entre eles em questão de linhagem.
— Basta! — Carl ordenou em voz firme. — Vamos esfriar a cabeça um pouco, vou pedir para Ginna nos servir e logo após continuaremos.
Olhei para Rick, comunicamo-nos apenas pelo olhar e o mesmo assentiu, entendendo perfeitamente o que se passava em minha cabeça, era uma conexão devida a anos de convivência e parceria.
Todos, inclusive eu, se levantaram. Diferente do restante, me direcionei para a ala onde ficavam as escadas, indo diretamente para meu quarto, sabia o que ia acontecer, tudo estava de acordo com o plano, inclusive a presença da ruiva logo atrás de mim.
Adentrei em meus aposentos e me olhei no espelho, esperando por ela, que não demorou a adentrar e me observar. Fingi surpresa por sua presença e entrei no papel de desentendida, me virando para encará- la
Sempre tão elegante, nem parecia uma vibora dentro daquele vestido, principalmente se levássemos em conta o rosto angelical. Tínhamos tantas semelhanças, isso não podia ser negado, não só pela cor do cabelo, mas pela personalidade em si, talvez fosse o motivo de não nos suportarmos.
— Oh! Já estão voltando? Acho melhor não nos atrasamos... — Falei, dando alguns passos em direção à porta, mas assim que passei por ela, a mesma me segurou pelo braço, não simplesmente me impedindo de continuar, mas no intuito de me machucar. O único problema era que eu não sentia a dor que Tácia gostaria de me causar, não era como seus empregados, que eram frágeis, ali, éramos iguais, com uma diferença de idade apenas.
— Não quero ouvir a sua voz depois que voltarmos para aquela sala, está me ouvindo garota? Se você não se calar, talvez amanheça definitivamente morta, você não é nada e a não ser por seu irmãozinho, ninguém sentiria sua falta, então não mecha comigo, não sabe do que eu sou capaz. — Sua voz saiu lenta e feroz, contudo, não me atingiu em nada, apenas atiçou minha vontade de acabar com ela.
— Não se preocupe, não falarei mais nada, mas pode ser que um outro alguém fale... — Insinuei, vendo a fúria dar lugar à curiosidade.
— O que quer dizer? Que outro alguém? — Perguntou desconfiada.
— Que tal a Greace? — Ao tocar em seu nome, os olhos de Tácia se arregalaram levemente, me causando um certo prazer. — É esse o nome dela, não? A empregada que acha que vai ser transformada? — Fiz uma pausa para que minhas palavras ecoassem um pouco em sua mente, dando tempo para darem o efeito esperado.
— Ela não abriria a boca contra mim. — Afirmou e meu sorriso irônico se abriu e o medo de que fosse entregue sumiu de suas feições com essa certeza.
— Ela não te contou? Nós viramos melhores amigas. Ela me disse tantas coisas que eu até fiquei abismada. — Respondi com sinismo, pensando em como ela ficaria quando lhe mostrasse o que tinha preparado em nossa última discussão, como garantia caso ela se metesse comigo novamente. — Aliás, gravei uma de nossas conversas e tive um resultado bem interessante, quer ouvir?
Pus o vídeo para que Tácia pudesse compreender melhor e ver que eu não estava blefando. Assim que ouviu a voz da garota se espantou, mas o mais gostoso de se ver foi quando a garota disse que em breve seria uma de nós e comecei a gargalhar.
— Tão ingênua. — Comentei balançando a cabeça de um lado para outro dramaticamente, em desaprovação. — Se isso chegasse às mãos do conselho e eles tivessem que investigar o fato de estar prometendo fazer transformações e revelando o que somos para humanos, seria um desastre.
— Me dê isso sua... — Ela não terminou de falar e fomos interrompidas por Rick.
— Estamos retomando, vamos? — Questionou como se não soubesse de nada do que estava acontecendo aqui anteriormente.
Assenti para ele e passei por ela e antes de me juntar a meu irmão, parei e terminei em voz um pouco baixa. — Nem pense em me desafiar novamente, basta um clique para que todos saibam e você seja exonerada de suas funções. Seria tão bom não ter mais que te ver, então pense bem no que vai fazer, querida.
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