Destiny (HIATUS)
15 A Dor
Notas iniciais
“O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade.”
Epicuro
— Ao se transformar, seu cérebro desativou parcialmente algumas áreas, ao mesmo tempo em que colocou outras para trabalhar mais arduamente, mas todas elas tiveram sua capacidade aumentada – Amanda explicou, enquanto eu prestava total atenção, mesmo não gostando da ideia de depender dela, que era muito menos do que eu, mas não tendo outra opção, pois, segundo Cameron, ela era quem realmente poderia me ajudar com aquilo, já que era a "especialista" da história e a pessoa que desenvolvera aquele método. -, por isso sua capacidade de sentir verdadeiramente algo é quase nula — principalmente quando nos referimos a outras pessoas -, enquanto seus sentidos são extremamente aguçados.
— E como faremos o processo inverso? – Perguntei, já cansada de tanto papo igual e sem avanço. Era como se quanto mais o tempo passava e conversávamos, mais distante de meus objetivos eu ficava.
— Você vai passar por alguns estágios, onde você vai aprender a lidar com tudo o que seu cérebro faz, de forma mais consciente e eu vou usar aparelhos para o estimular e verificar os avanços. — Ela sorriu sem mostrar os dentes, antes de começar a falar novamente em tom de aviso. – Olha, eu poderia dizer que vai ser simples, mas estaria te enganando. Quando fiz estes mesmos procedimentos com Cameron, ele quase não aguentou a dor e a pressão que vem depois de cada “porta” aberta.
— Que tipo de pressão? – Quis saber, não compreendendo essa parte do que me era dito.
— Ele não te contou? – A garota questionou, colocando suas mãos em seu quadril e balançando a cabeça em desaprovação logo após, antes de voltar ao assunto. – Pressão é como eu chamo a dificuldade que vocês têm de lidar com tudo aquilo com o qual nunca tiveram contato, nem mesmo quando eram humanos, já que a intensidade de tudo aumenta. Você vai ver por si só.
— Ok, agora me fale mais sobre como iremos proceder. – Solicitei, com esperança de que começássemos logo com aquilo, afinal, quanto mais rápido aprendesse, mais rápido me livraria dos itens citados por ela e também teria mais chances de fazer o mesmo com Cameron e toda minha precária situação.
— A primeira parte é estar acima da dor, fome, desejo e medo. – Informou-me com seriedade, como se fosse uma verdadeira professora. – Essa é a base de tudo. Precisa fazer isso para conseguir as demais, mas devo dizer que essas são as mais difíceis de todas as etapas.
— E como farei isso? – Quis saber de imediato, ignorando a parte da dor, afinal esta eu já havia aprendido a suportar, mas fome e desejo eram duas coisas que eu não sabia enfrentar muito bem, principalmente porque estas duas pareciam sempre estar interligadas dentro de mim.
— Eu vou te testar, fazer com que você sinta tudo através de alguns mecanismos criados especialmente para esse fim e vai aprender aos poucos a lidar com cada uma delas. – Falou sem rodeios, me fazendo rir.
— Provavelmente se me fizer passar por algo assim eu te matarei, sabe que somos facilmente irritáveis. – Respondi cética com relação ao resultado deste método.
— Se me matar não terá o que deseja, pois sou a única que sabe te conduzir pelos caminhos certos. – Rebateu ela, com um brilho superior extremamente irritante.
— Eu sei, mas talvez seja inevitável. – Afirmei, abrindo um sorriso falso para ela. – Eu não sei encarar muito bem esse tipo de coisa.
— Já imaginava, mas pode ficar tranquila, não costumo brincar em serviço. – Comunicou-me com um sorriso ainda mais fingido que o meu. – Você não terá chances para me matar e fico feliz que se importe.
— E o que estamos esperando para começar? – Inquiri um pouco irritada com seu comportamento.
Aquela garota realmente parecia não gostar de mim, mesmo que desta vez eu não tivesse feito nada que pudesse explicar aquele seu jeito emproado de ser e ainda que aquilo não fosse realmente importante para mim, sua postura faria, com toda a certeza, eu perder a paciência com ela, mais cedo ou mais tarde.
Ela se levantou e pediu que a seguisse e deixando meus pensamentos de lado, assim o fiz. Descemos o lance de escadas que subira há pouco com Cameron. Direcionamo-nos para o porão, que mais se assemelhava a algum tipo de câmara de tortura.
— Primeiramente vou retirar quase todo o sangue de seu corpo, para me proteger. – Anunciou, apontando para que me sentasse em uma maca, onde algumas amarras se encontravam e só então entendi o porquê dela estar tão certa de que não iria machucá-la.
Deitei-me no local indicado, esperando para que ela começasse os procedimentos e não demorou muito para que os cabos que vira anteriormente fossem unidos, me prendendo. Logo após, várias agulhas penetraram meu braço, olhei para elas e vi que se tratava de uma máquina, uma que nunca tinha visto antes, mas que provavelmente seria a que apanharia meu sangue.
— Levante a cabeça. – Pediu firme e o fiz, me sentindo péssima por ter que obedecer aquela criatura inferior, que tinha a audácia de agir como se fosse melhor. – Agora a apoie na minha mão e fique o mais relaxada possível.
Segui sua orientação e ela enfiou mais um daqueles objetos pontiagudos na minha nuca, percebi que este era diferente dos outros, um tanto quanto maior e mais fino, o que me fez ter a impressão de que aquele não era para a drenagem.
Minhas suspeitas se confirmaram assim que o sangue começou a deixar meu corpo, provocando cansaço, como se toda minha energia estivesse sendo sugada e realmente era isso que acontecia naquele instante e minha pele começou a ficar mais branca do que o normal.
Todo vampiro era carente de Ferro, substância em que o sangue é rico e este é um importante componente para o funcionamento de nosso organismo, assim como para o dos humanos, por isso a falta do mesmo fazia com que nossa capacidade corporal diminuísse relativamente, nos deixando fracos e também era o que fazia algumas pessoas pareceram mais interessantes do que outras quando procurávamos nossas presas, pois tinha o mesmo papel de um “tempero especial” cuja concentração maior era extremamente bem vinda.
— Agora podemos começar. – Ela disse assim que constatou que havia tirado o suficiente para garantir sua segurança. — Vou te deixar no seu limite, primeiro da dor e depois trabalharemos o resto.
Assenti com a cabeça e ela se virou para poder mexer no aparelho no intuito de liga-lo, se voltando para mim logo em seguida, somente para trocar alguns dos fios conectados ao meu corpo, prendendo-me a outra máquina.
— O que exatamente isso faz? — Perguntei, enquanto ela se ocupava com o processo preparatório.
— Como eu já disse, pretendo te causar dor. — Explicou-me de forma simples. — Essa belezinha tem uma utilidade enorme quando se trata de torturar pessoas e foi adaptada para vampiros, para servir ao propósito. — Ela parecia se divertir um pouco com tudo aquilo. — Começaremos com uma carga mais fraca e depois aumentaremos gradativamente, até que você não aguente e... Bem, nós continuaremos mesmo depois disso.
— Ok... — Acabei bufando por precisar passar por aquilo, pois apesar de ter uma habilidade maior para aguentar qualquer tipo de agonia, não era uma masoquista.
— Pronta? — Amanda quis saber, analisando-me.
— E isso importa? — Devolvi friamente, fazendo com que ela sorrisse de lado e se virasse para a máquina novamente.
Menos de um minuto depois senti como se uma corrente elétrica passasse por mim, e aos poucos ela ia aumentando, deixando minha musculatura inteira contraída. Não era nada que não pudesse ser suportado, mesmo que eu estivesse um pouco debilitada pela falta de sangue, o que fazia a dor ter uma proporção maior do que teria em meu estado normal.
— Se concentre, mas não na dor, é isso que faz com que ela se amplifique. — Instruiu, mas eu não assenti, apenas joguei toda a minha atenção para um ponto da sala, como se só aquilo existisse no momento e devo dizer que fui bem sucedida, pois já não sentia mais aquilo, pelo menos até a dor aumentar. — Tente sentir o que está acontecendo dentro de você, mas focando no que o seu corpo e a sua mente estão fazendo e não realmente no que estão causando.
Era um tanto quanto difícil manter minha atenção voltada para a causa e não o efeito. Falhei por diversas vezes, principalmente quando a dor aumentava. Não podia acreditar que aquela atividade estava sendo tão melindrosa, principalmente depois que o choque ser substituído por uma sensação de fogo dentro de mim, mostrando que a primeira fase tinha sido realmente só para me acostumar aos poucos.
Tinha a impressão de que tudo dentro de mim estava se dissolvendo, mas isso logo passou para uma ardência bem semelhante à do ácido em contato com a pele, mas por debaixo da mesma.
Eu tentava com todas as minhas forças fazer o que ela tinha dito, isolar a dor, não pensar naquilo, somente na atividade de meu corpo, afinal era o que eu sempre fazia automaticamente quando me feria e era exatamente por isso que não deveria ser tão trabalhoso, mas o que aquela máquina estava me sujeitando a sentir era muito forte para aguentar, até mesmo para mim.
Mas o fato de que sempre que eu conseguia estabelecer-me no estado "meditação", a intensidade crescia, deixava tudo mais insuportável e frustrante e a cada instante me sentia que mais fraca, até que houve uma hora, não me recordo exatamente depois de quanto tempo após darmos início, em que não consegui mais suportar aquilo e me entreguei, desmaiando.
(...)
Ainda sentia a dor por todo o meu corpo e não tinha vontade nem ao menos de tentar me mover, apesar de esta ser bem menor do que a que experimentara há pouco e isso me fez imaginar se já havia sido desconectada da maquina de tortura em que Amanda me prendera.
Antes de qualquer outra coisa, ouvi uma voz conhecida chamar meu nome com um tom de urgência, me trazendo um certo sentimento de proteção, segurança, ao mesmo tempo que um um pouco desorientação pelo fato dele estar ali. — Katlyn! O que aconteceu? A pergunta não parecia estar dirigida à mim.
— Ela não tolerou o sofrimento pelo qual passou, respondendo isso com um desmaio. — Ouvi a voz de Amanda. — Mas devo dizer que não é para menos, afinal, ela suportou bem mais do que pensei que seria capaz.
— E quanto tempo ela vai ficar assim? — Quis saber, claramente preocupado.
— Não sei. — Confessou a garota, indiferente. — Já era para ter acordado, por isso liguei para Drew vir buscá-la.
— Eu sei, ouvi a conversa e vim o mais rápido possível. — Disse e um momento de silêncio se seguiu.
— Que coisa feia... — A morena fez um barulho com a língua indicando desaprovação, mas pelo sua entonação dava para ver que ela estava apenas brincando. — Ficar escutando a conversa dos outros.
— Eu nunca fui muito bom em respeitar esse tipo de coisa, muito menos quando minha irmã está envolvida no assunto. — Declarou e aquilo me fez sorrir mentalmente.
— Eu realmente não compreendo. — Confessou, depois que senti Rick passar um de seus dedos por minha bochecha, me parecendo estar realmente surpresa pelas palavras de Rick.
— O que? — Questionou-a e esperou por um instante, para obter a resposta, mas como esta não veio, ele continuou. — Agora quem não entendeu fui eu. — Na verdade nem eu havia conseguido encontrar alguma lógica no que ela dissera.
Ouvi-a respirar fundo antes de começar a falar. — Eu não compreendo essa coisa entre vocês. — Explicou, me deixando levemente atordoada, afinal ela era humana e apesar de conviver com vampiros, deveria compreender o amor, até porque tecnicamente eles têm maior capacidade para vivenciar este sentimento.
— Como assim? — Meu irmão quis saber, provavelmente estando da mesma forma que eu.
— Essa ligação, entre vocês. — Amanda esclareceu um tanto quanto atônita. — Eu sempre vivi entre vampiros, mas nunca presenciei uma conexão como essa. Sempre pensei que era humano demais para ser possível existir entre dois indivíduos da sua espécie, pelo menos de uma forma natural.
— Sinto te informar de que estava errada. — Falou irônico. — Já fomos humanos, você sabe disso e qualquer um que você realmente amou antes da transformação, continua tendo um lugar especial dentro de você, isso é algo que nossa mudança não consegue tirar de nós.
— Não funciona bem assim — Contextou, elevando um pouco o tom de voz. -, eu estudei vocês por anos, sempre observando e tendo mais certeza de que essa parte sentimental praticamente morre dentro de vocês. Já vi pessoas boas matarem suas famílias logo depois de se tornarem vampiros.
— Então pode ter certeza de que essas pessoas não amavam realmente a família, porque senão não as teriam matado. — Concluiu e recebeu dela um riso de descrença.
— Não acho que seja isso. — Rebateu, deixando transparecer um pouco de ferocidade e incerteza ao pronunciar aquilo. — Talvez vocês sejam a exceção.
— Talvez — Concordou ele e pude imaginá-lo dar de ombros. -, nunca me preocupei com esse tipo de coisa então não tem como saber, mas eu posso te dizer que quando se tem um vínculo forte com um outro alguém, independentemente de qual o tipo, ele não se quebra tão facilmente.
— Acho melhor vocês irem. — Mudou de assunto, praticamente nos expulsando.
— Eu sei — Ele afirmou e pude ter a certeza de que sorria. — Já teriamos ido se não tivesse feito tantas perguntas.
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