Destiny
1 Nossa história
Notas iniciais

Dois meninos estavam agachados em uma caixa de areia, brincando com suas pazinhas e construindo um grande castelo, ou o que imaginavam ser grande comparado aos seus próprios tamanhos. Era uma fria manhã de inverno e os cabelos das crianças balançavam com o vento, seus rostos vermelhos queimados pelo frio, os lábios rachados e as pequeninas unhas já começavam a azular, mas nada disso tiravam-lhes o sorriso do rosto.
O contraste entre as crianças era gritante, um tinha intensos cabelos negros e a pele tão branca quanto a neve que começava a cair em pequenos flocos no chão, seus olhos eram negros e intensos, pareciam sempre estar um pouco tristes, mesmo quando um sorriso lhe aflorava os lábios. O outro menino tinha o cabelo loiro, que reluzia e criava uma aura dourada ao seu redor mesmo com a pouca luz daquele dia, a pele era bronzeada, como se passasse seus dias sob o sol, os olhos de um azul intenso, a mesma cor do céu no dia mais quente de verão. Na verdade, todo o menino parecia ser a personificação do verão, quente e feliz, enquanto seu amigo lembrava o inverno, triste e melancólico, mas com sua própria beleza inegável.
Enquanto brincavam, os meninos estenderam a mão para o mesmo brinquedo, e quando seus dedos se tocaram, eles ergueram os olhares e se entreolharam, sorrindo. Deram as pequenas mãozinhas e riram, passando um bom tempo com seus pequenos dedos entrelaçados. Naquela época, eles já se amavam, não o amor romântico, esse ainda lhes era desconhecido mas aquele amor profundo e antigo, que faz com que aquela pessoa especial tenha sempre um espaço em seu coração, que seja uma parte sua.
Anos se passaram e os meninos tinham agora 13 anos, e se encontravam sentados em um banco no pátio da escola, comiam seus lanches em silêncio enquanto ao seu redor diversas outras crianças conversavam e gritavam, corriam e pulavam, se comunicando umas com as outras daquela maneira enérgica e eufórica que parece ser a única maneira que conhecem nessa idade. Mas muitas vezes, eles não precisavam falar para estarem se comunicando, a ligação entre os dois era tão forte que muitas vezes um olhar ou um movimento já contava mais que uma palavra e não era difícil as vezes em que passavam horas em silêncio um ao lado do outro, se comunicando de seu único jeito especial.
O loiro ergue os olhos para o amigo e sorri, sendo correspondido timidamente pelo outro, que em seguida franze a testa e ergue a mão, retirando, delicadamente, uma folha que havia se embrenhado no cabelo dourado do outro. O menino sorri e abre a boca para agradecer, mas antes que possa falar, seus olhos seguem para algo atrás do amigo e se endurecem, e o que sai da sua boca em seguida não é um agradecimento e sim palavras duras, aquele tipo especialmente difícil de esquecer, ditas com tanta aspereza que magoam profundamente o pequeno “Sai de perto de mim, seu bichinha!”, o pobre menino é então empurrado do banco pelo loiro. Ele encara o amigo com um olhar machucado, por entre os grossos fios negros de seu cabelo, sem entender o porquê daquela atitude repentinamente agressiva, mas a compreensão o atinge quando escuta risadas a suas costas e alguns outros xingamentos. Com a pouca dignidade que lhe resta, se levanta e vai embora, sendo seguido todo o tempo por intensos olhos azuis.
Mais alguns anos se passam e agora os meninos não são mais garotinhos, estão no último ano do colégio, prestes a se formarem. Ainda são tão amigos quanto antigamente, mesmo que em seus corações um sentimento maior grite para ser ouvido, o qual nunca deixaram aflorar, escondendo-os tão profundamente em seus íntimos que quase acreditavam nas mentiras que contavam a si mesmos. O garoto de cabelos negros se encontra encostado em uma parede, virando o que deveria ser seu quarto ou quinto copo de bebida naquela noite, ele começava a se embriagar, mas não ligava, a visão turva e os pensamentos embaralhados causados pela bebida tornavam mais fácil encarar a cena a sua frente. Seu amigo, essa palavra ressoa de forma amargurada e irônica em seu peito, encontrava-se agarrado com uma garota, uma das várias daquela noite, puxando-a insistentemente contra seu corpo, ao que ela agarrava-se aos seus cabelos loiros, agora na altura dos ombros. O outro revirou os olhos, desejando que arrumassem logo um quarto e ele pudesse privar seus olhos de ver essa cena torturante. Não que ele estivesse com ciúme, não que ele quisesse que fosse ele a escorregar os dedos pelos macios fios loiros ou pelo peitoral bronzeado igual a garota fazia agora, não! Ele só se preocupava com seu amigo, preocupava-se que ele pudesse fazer alguma besteira ou se deixar levar, era apenas uma preocupação fraternal, isso, apenas uma preocupação fraternal...
Enquanto repetia isso várias vezes para si mesmo, tentando se convencer, o garoto se vira e começa a sair da casa, jogando o copo de plástico na primeira lixeira que vê. Por estar de costas, ele não percebe quando o loiro abre os olhos em meio ao beijo com a garota e o acompanha com o olhar até que não seja mais possível vê-lo. Nem que poucos minutos depois ele daria o fora naquela mesma garota, indo para a sua casa em seguida, mesmo sendo ainda dez horas da noite.
Avançando, pela última vez, mais alguns anos, agora os garotos são homens, com seus trabalhos e suas vidas, mas por um ironia do destino, voltam a se unir em uma manhã de inverno, como a tanto anos atrás, os flocos já estão cobrindo o chão, quando o homem de cabelo preto suspira antes de se sentar perto do de cabelo loiro. Longos minutos se passam sem que nenhuma palavra seja emitida e por incrível que pareça, não é estranho. Ao mesmo tempo, eles viram a cabeça e se encaram, olhos negros contra olhos azuis, ambos com as bochechas e narizes vermelhos pelo frio, mas, lentamente, um sorriso começa a surgir no rosto de cada um, um sorriso genuíno. Sem pensar em seus atos, sem precisar esconder o que sentem pela primeira vez, já que agora tinham a certeza de ser correspondido, o loiro estica a mão e entrelaça os dedos no seu companheiro colocando em seguida as suas mãos entrelaçadas dentro do próprio bolso, o puxando para perto, o qual em resposta deita a cabeça no ombro do outro e ali eles ficam por mais longos minutos até que, finalmente, se levantam e seguem juntos em direção as suas casas, que em breve se tornariam uma, para compensar todo o tempo perdido.
Eles seguem em direção ao destino, que ri com eles, feliz por finalmente terem aceitado que não havia outra maneira daquela história terminar senão com eles juntos, não há como lutar com o que está predestinado, quando duas vidas são entrelaçadas desde o início, como a deles foram, por mais que se afastem, se embaralhem e se torção, as linhas dessas duas vidas sempre terminaram juntas, se conectando no final.
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