Destiny
1 Capítulo um
Notas iniciais
A brisa soprava um agradável calor contra o rosto austero do jovem; era uma noite bonita e claramente veraneia, com estrelas dançando ao redor da grande lua que enfeitava a escuridão. Infelizmente aquela beleza apenas entristecia Mallyn Wine. Seu coração batia apertado entre os pulmões, parecendo encolher-se a cada segundo que passava. Já era mais de 3 horas, mas o jovem ainda observava as diversas constelações que se exibiam com tanta exuberância no céu.
A noite bela parecia aprovar todas as medidas que o Reino tomou; aquele desafio sem sentido ao qual Mallyn sabia que fora lançado apenas por sua causa. Um pequeno rebuliço entre a divisa, uma simples pergunta e bum! Os Reis já decidiam silenciar a voz do povo de maneira tão cruel e nojenta quanto uma competição! Mas Mallyn não ia se calar; de maneira alguma que os Reis sufocariam sua voz. Aquilo ia além de um simples contrato escrito há mais de 500 anos; aquilo tinha a ver com sua mãe e o motivo pelo qual fora presa.
O garoto levantou-se de súbito. A cicatriz em sua mão esquerda ardeu com a lembrança, mas Mallyn lançou-a para fora da mente em segundos. Pensar na mãe não o ajudaria em nada agora; precisava de um plano para que não fosse morto aonde quer que o levassem durante o tal desafio. Sabia que ele mais vinte e três garotos e garotas competiriam apenas por uma coisa: tomar o lugar ao lado de Lorien Savant. Não que Mallyn acreditava ser possível ser tão bom quanto o campeão dos Reis. Lorien era tudo o que os rebeldes temiam; e Lorien era tudo o que ele mais temia. Sabia, no fundo, que o campeão dos Reis era fatal; um assassino treinado em diversos campos de treinamentos de toda Inleah, sem qualquer misericórdia; apenas crueldade.
O boato era que Lorien estaria nesta competição. Mallyn sabia melhor sobre a participação do campeão; ele estava lá com um único propósito: silenciar aquele que ousou questionar a Aliança, Mallyn Wine. O Assaltante cuja mãe fora acusada de invocar um elfo residente do Reino Médio; àquele cujo boato afirmava ser um híbrido. E, de fato, as orelhas levemente pontudas e os olhos circulados por um anel de prata não ajudavam a desmentir. Claro que não havia provas de que o jovem tinha sangue proibido nas veias, mas pouco importava. Todas as pessoas do Orfanato passavam longe dele e outros garotos de sua idade cochichavam às suas costas.
Após uma última bisbilhotada nas estrelas, o jovem resolveu que estava na hora de voltar ao quarto. Ao que sabia, era proibido sair dos aposentos durante a noite, mais proibido ainda era ir ao Jardim Real sem a permissão de alguém da realeza. Mas o fato de o castelo estar cercado de guardas e as portas do jardim estarem abertas o tempo todo, com apenas um guarda de sentinela... Ah, isso apenas o encorajou a seguir o longo e escuro caminho silencioso até o lugar cobiçado; isso e o fato de que soubera que o jardim fora criado de maneira totalmente capaz de abrigar, bem no centro do teto envidraçado, o auge da lua, enviando a pálida luz luar para todas as flores que floresciam ao anoitecer. Um pouco de magia para um reino sem magia. Quanta ironia.
O caminho de volta foi rápido, diferente do caminho de ida. Passou pelos inúmeros corredores, que mais lhe lembravam dum labirinto – será que uma das provas era aprender a circular pelo castelo? –, até que parou em frente à porta de madeira branca rústica, mas bonita, onde abrigava o selo real do Alto Reino. Era um dos aposentos mais espetaculares que Mallyn já tivera a oportunidade de entrar e mesmo assim não se sentira confortável; sabia que estava em território inimigo. O rei não mostraria compaixão quando chegasse a hora. Estava apenas esperando o momento que o jovem Wine baixaria a guarda; e não seria tão difícil com todas aquelas riquezas e belezas disponíveis no castelo.
Mas Mallyn não estava interessado nas riquezas ou em qualquer coisa dessas. Por isso em vez de adentrar o quarto, o Assaltante deu meia volta e retornou pelo mesmo caminho que recém fizera. Não sabia aonde iria e tão pouco conhecia o castelo, mas não ficaria naquele quarto, naquele luxo que não lhe pertencia. Vagou por minutos – ou foram horas? –, passando de corredor a corredor – e todos lhe pareciam imensamente iguais. Chegou a pensar se o rei usava um mapa para transitar através dos inúmeros corredores daquele lugar. Por que havia tantos caminhos diferentes?
Por fim parou, suado, em frente a uma das tapeçarias que decoravam os corredores. Era uma obra esplêndida, feita com tanta delicadeza e sutileza que parecia um retrato da família real. Nela, a única coisa que faltava era o rei. Não que ele fizesse falta, já que a princesa Amélia e o príncipe Luxor captavam tanta atenção que o rei ficaria ofuscado. A rainha Antieta, por exemplo, mal era percebida; sentada em um banco, com um filho em cada lado, parecia pálida diante da pele dourada da filha e seu cabelo parecia sem vida diante das madeixas escuras que o filho adornava em cima dos ombros. Os gêmeos reais eram o orgulho do reino; gêmeos, mas não parecidos. Enquanto Luxor exibia sua expressão séria e imponente, rivalizando beleza com o pai, Amélia era delicada e bronzeada, com cabelos ruivos como fogo.
Mallyn observou cada detalhe com atenção. O modo com que as linhas foram tecidas com exatidão e como os fios vermelhos alaranjados do cabelo ruivo real parecia queimar contra a pele pálida da rainha. Não conseguiu resistir ao impulso de tocar o rosto aveludado da princesa; ela era ainda mais linda do que comentavam. Sabia que não devia pensar em nada desse gênero em relação à herdeira – afinal era inimigo dos reinos –, mas de repente ficou fácil pensar na estabilidade de uma casa regida por aquela mulher. Felizmente o sentimento passou ao se fixar sobre o olhar frio que o príncipe suportava. Era como se todo o gelo do norte tivesse se concentrado nos olhos azuis daquele homem.
O Assaltante se afastou da tapeçaria segundos antes dos sons o alertarem que não estava sozinho. Ele era ótimo em esconder-se nas sombras, mas não havia muitas por ali, então apenas ficou parado, observando a entrada do corredor com o canto do olho. Se fosse um dos soldados do rei, estaria encrencado; se fosse um criado apenas diria que se perdeu a caminho do quarto. O que mais lhe surpreendeu é que não foi nenhum dos dois. Princesa Amélia adentrou o corredor por uma porta invisível – uma passagem secreta – com seu cabelo esvoaçando e sua camisola enrolada por um manto grosso de lã. A surpresa foi mista, mas ninguém se atreveu a falar por vários minutos; avaliaram-se cuidadosamente, tentando encontrar perigo um no outro, e, no entanto, Mallyn se recuperou primeiro.
– Boa noite, alteza. — Cumprimentou-a com uma reverência. O jovem sentia-se levemente aturdido com a presença estonteantemente bela da princesa, mas tentou esconder isso ao baixar a cabeça e encarar os pés.
– Olá... Você seria...? — A princesa não o deixou responder. Deu um passo para perto e o garoto se endireitou, sabendo que seria considerada uma falta de respeito continuar olhando o chão com a princesa tão perto. — Deve ser um dos jovens escolhidos para o Grande Desafio. Ah, sim, Mallyn Wine, o Assaltante. Deveria saber. O que faz nesse corredor? Está bem longe de seus aposentos.
– Eu... — Mallyn engasgou, pensando numa desculpa. Será que...? — Eu me perdi, estava procurando meu quarto. Alteza. — Acrescentou antes que fosse tarde, mas mesmo à luz dos candelabros ainda era visível o franzir no cenho da ruiva.
– E por que estaria à procura de seu quarto às quatro horas da madrugada? Tenho certeza que todos os Integrados foram deixados em seus aposentos às 11 horas em ponto, depois da Festa de Chegada.
– A senhorita tem razão quanto ao horário de recolher, alteza, mas não me senti confortável no quarto que me concederam.
Embora fosse parte da verdade, não queria admitir que temia que todo aquele conforto que lhe fora oferecido abalasse sua determinação de descobrir a verdade sobre a Aliança. A princesa claramente duvidava disso; afinal, ele era o Assaltante ali. O olhar frio que tomou o lugar da expressão acolhedora de Amélia fez Mallyn arrepiar-se.
– Deve retornar aos aposentos imediatamente antes que um guarda assume que deseja assassinar a família real. — Sua voz foi cortante e Mallyn pensou que, talvez, Luxor não fosse o portador de toda a frieza imperial que o Rei exibia.
Com um aceno contido e uma reverência apressada, Mallyn ultrapassou a princesa com rapidez. O fato de estar alerta para sua retaguarda o aliviou internamente; aquela história de estabilidade familiar já parecia tão distante e impossível que o Assaltante quase suspirou alto. Com um breve olhar sobre o ombro, concluiu que a princesa Amélia tomara seu rumo. O reflexo prateado de uma adaga nas mãos da garota lhe enviou um calafrio pelo corpo e uma ansiedade lhe assombrou o coração até que encontrasse o caminho para o quarto.
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