Destiny
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Depois de sair do spa às pressas dois dias atrás Arizona não sabia o que pensar. Sua cabeça estava tão confusa... em um minuto elas estavam se beijando e no outro Callie estava se afastando dizendo que não podia fazer aquilo. Como assim não podia? Arizona continuava a se perguntar. Claramente ela queria, porque depois de relutar um pouco no começo Callie se entregou ao beijo, Arizona pôde sentir isso, não haviam dúvidas de que aquele beijo tinha acendido uma chama dentro das duas, estava claro pra qualquer um ver; Callie queria aquilo tanto quanto Arizona.
Antes de decidir voltar ao spa naquele dia Arizona passou por uma grande briga interna entre cabeça e coração. Seu coração a incentivava a voltar naquele lugar e descobrir mais sobre a mulher que havia bagunçado sua cabeça, mas seu cérebro dizia repetidamente que aquilo seria estúpido, que ela deveria focar apenas no trabalho e em sua pesquisa, que aquele não era o momento de se apaixonar por ninguém.
Apaixonar? Tudo bem, talvez esta tenha sido uma palavra muito pesada, mas o que Arizona havia sentido foi tão forte que a assustou... ela nunca havia sentido algo como aquilo antes, pelo menos não a primeira vista, e Arizona não era mulher de acreditar em "amor a primeira vista" ou qualquer coisa do tipo. Aquilo não era amor e nem paixão, ela se sentiu atraída por Callie e aquilo era normal, Callie era atraente... ela deve ter uma fila de pessoas esperando por ela.
O que tirou Arizona de sua miséria foi uma conversa que a mesma teve com sua melhor amiga Teddy no dia anterior ao acontecido. Teddy havia lhe dito que ela parecia estar bem como não aparentava desde a morte de Wallace, ela não sabia se isso se devia a massagem que relaxou Arizona ou a Latina que a massageou, mas independente do que fosse, Arizona deveria ir de novo.
Estúpida! Ela ouvia seu cérebro gritar dentro de sua cabeça repetidas vezes, ela deveria ter o escutado, pois se assim tivesse feito ela não estaria nesta situação neste momento: estressada e com o ego um pouco ferido por ter sido rejeitada.
– Eu já falei pra você colocar a porcaria da maca no canto da sala! — Ela grita com um interno. — Será que é tão difícil de entender? Como você pretende salvar vidas se nem um pedido simples como colocar a maca no canto você consegue entender?! — O interno apenas a olha com seus olhos arregalados, Arizona nunca fora de gritar assim.
– Eeeei! — Teddy diz se aproximando dela. — Vai com calma, o que está acontecendo?
– Nada, Teddy. — Arizona retruca com um tom ainda irritado e se joga na cadeira que ficava atrás do balcão da emergência.
– Isso é por causa da... — Teddy tenta citar o que havia acontecido, mas Arizona logo a interrompe.
– Isso não tem nada a ver com aquilo. — Ela diz dando um olhar duro para Teddy. — Você só pensa nisso? Você tem me enchido a cabeça com esse assunto durante esses dois dias, será que dá pra esquecer? Eu fui rejeitada, e daí? Quem nunca foi?
– Arizona, vai com calma. — Teddy diz novamente, surpresa com o jeito da loira. — Eu só estava brincando com você, Deus, qual é o seu problema?
Arizona evita olhar para sua amiga e apenas fixa seu olhar na tela do computador que estava a sua frente. No fundo ela sabia que ainda estava chateada com a situação e ser a escolhida para comandar a emergência em plena segunda feira não ajudava muito. Era muito trabalho pra fazer, internos estúpidos para direcionar... ela estava sem paciência.
– Me desculpe. — Ela diz envergonhada. — É só que... eu estou com dor de cabeça e ficar de plantão na emergência não é bem como eu gostaria de começar minha semana.
– Tudo bem, apenas se controle. Eles são estúpidos, mas um dia serão grandes cirurgiões... — Teddy responde enquanto observa os internos atrapalhados que vagavam pela emergência, que estava estranhamente tranquila para uma segunda de inverno, quando seu olhar cai de volta em Arizona ela não pode deixar de perceber a loira mordendo as bochechas por dentro tentando segurar sua gargalhada.
– Grandes cirurgiões... — Arizona repete começando a rir e Teddy junta-se a ela segundos depois.
– Como você está? — Teddy pergunta depois que as duas conseguem voltar a respirar normalmente. — Digo, hoje...
– É eu sei...
Outro razão para o mau humor de Arizona era que naquele dia completava-se um mês desde a morte de seu paciente mais querido.
– Os pais deles me ligaram hoje. — Arizona diz. — Foi bem difícil, Mary chorou quase o tempo todo, mas por incrível que pareça era choro de felicidade... ela disse que mesmo não tendo mais seu anjo ali com ela onde ela podia o abraçar e beijar quando quisesse ela sabia que ele estava com ela a todo momento a protegendo... e ela disse que ele estava comigo também. Que eu era a irmã mais velha que ele sempre quis. — Arizona conta com a voz um tanto trêmula ao se lembrar da ligação. — Ela disse que havia ido ao cemitério hoje colocar umas flores e fazer a tradição deles para que o menino não tivesse pesadelos. Me lembro até hoje que todas as noites antes dele ir dormir ela esticava suas mãos sob a cabeça dele e dizia com uma voz bem soava "sonhos ruins, sonhos ruins, vão embora, sonhos bons, sonhos bons cheguem agora.", ele as vezes tinha que a corrigir porque ela falava apenas uma vez e, segundo ele, aquilo precisava ser repetido três vezes para funcionar... sempre achei bonito ele acreditar nisso, que aquelas palavras fossem livrar ele de todos os sonhos ruins. Nós repetimos isso quando eu a levei para ver o corpo dele... lembro que ele estava tão frio e sua boca já havia perdido a cor, mas sua face era serena, como se estivesse dormindo, foi aí que eu estiquei minhas mãos para desejar-lhe bons sonhos e logo Mary e Carl se juntaram a mim. Foi um momento bem triste, mas pelo menos tenho certeza de que agora ele está tendo sonhos tranquilos. Mary disse que ela fez isso hoje só pra ter certeza disso, de que nada estaria atrapalhando os sonhos do filho dela, para ter certeza de que apenas luz chegasse até à ele, nada de escuro.
– Nossa... — Teddy diz com uma voz emocionada. — Fiquei até arrepiada agora. — Ela estica seu braço esquerdo para mostrar seus pelos levantados. — Você acredita nisso?
– No quê?
– Que existe um lugar pra onde a gente vai depois da morte?
– Não sei... não sou uma pessoa religiosa, mas tenho minha fé... na arte, na medicina... eles acreditam nisso e acho que é o suficiente. — Teddy apenas a observa. — Não, quer saber? Acho que para eu ter feito aquilo no necrotério... alguma parte de mim acredita, mesmo que ela esteja bem escondida, ela está ali.
– Isso é bom Arizona, ter um pouco de fé, não importa no que seja. — Teddy sorri.
– Eu acho que sim.
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Uma hora havia se passado desde que Teddy esteve ali, Arizona ainda estava entediada, porém mais calma, a conversa que teve com Teddy de certa forma a acalmou e a fez perceber que não adiantaria soltar suas frustrações em cima de um interno. Ela tinha que engolir o choro, mesmo que aquele choro fosse metafórico, e começar a viver.
Não demorou muito para que a emergência começasse a encher, era inverno e com a neve e a chuva que caia sob Seattle era normal que acidentes de carro acontecessem, Arizona havia terminado de indicar um interno para limpar o corte na testa de uma senhora quando uma voz conhecida a chamou.
– Arizona! — Chamou a voz um tanto nervosa.
– Addison? — Arizona pergunta confusa, o que Addison estaria fazendo no hospital 20h da noite? — Você está bem, aconteceu alguma coisa? — Ela diz já entrando em seu modo automático procurando qualquer tipo de ferimento na mulher.
– Não. Não, eu estou bem. — Addison diz tirando a mão de Arizona de seu rosto. — É a Callie.
Ao ouvir aquelas palavras o coração de Arizona dispara. Como era possível se sentir daquele jeito só por causa da menção de um nome? Arizona nunca foi assim, ela nunca havia agido daquele jeito, mas com certeza havia algo misterioso naquela mulher que a fazia sentir diferente.
– O que aconteceu? — Ela pergunta assustada.
– Um... evento no trabalho. — Addison diz um pouco incomodada. — Você pode olhar ela, por favor? Um interno tento examiná-la, mas eu não deixei... meu ex marido é cirurgião e sei que quando um interno está na emergência é porque ele fez alguma besteira e eu não quero um interno descuidado tocando no rosto da minha amiga.
– Não é bem assim que acontece, mas... — A fixa de Arizona finalmente cai. — No rosto?
– Por favor, vem logo! — Addison diz e começa a andar em direção a um dos leitos.
– O que está acontecendo? — Arizona pergunta e quando ela passa pelo pano que separava a cama do resto da sala e ela se depara com a imagem de Callie com o rosto ensanguentado seu corpo congela.
– Dr. Robbins eu tentei ajudar, mas essa mulher louca não deixa! — Uma interna que Arizona não lembrava o nome reclama.
– Olha lá como você fala comigo! — Addison ameaça.
– Já chega! — Arizona diz para as duas quando seu cérebro começa a funcionar novamente. — Wilson, vá arrumar outra coisa pra fazer.
– Mas...
– Agora! — Arizona grita e a mulher sai reclamando.
– Calliope... o que aconteceu? — Ela pergunta se aproximando mais e começando a examinar o rosto da mulher; um de seus olhos estava roxo e havia um corte na testa dela que estava deixando bastante sangue vazar embora não parecesse ser profundo.
– Eu vou pegar um café... você está em boas mãos agora. -Addison diz com um sorriso antes de sair.
– Um cliente... — Callie começa a explicar com uma voz trêmula.
– Um cliente fez isso?! — Arizona indaga assustada. Como alguém teve coragem de fazer aquilo?
– Eu tentei explicar a ele que... não somos um daqueles lugares... mas ele se irritou dizendo que eu o havia provocado e acabou me dando um soco, o anel que ele tinha no dedo acabou cortando minha testa.
– Um daqueles lugares? O que você quer dizer com isso? — Ela pergunta confusa, ainda examinando o corte de Callie.
– Existem algumas casas de massagem que... fazem serviços especiais. — Callie explica.
– Especiais? — Arizona a incentiva a continuar.
– É... pra proporcionar prazer ao cliente, se você entende o que eu estou falando.
– Tipo prazer sexual?
– Isso... — Callie confirma. — Ele pensou que fossemos um desses lugares e quando eu estava trabalhando ele acabou ficando um pouco animado demais... — Ela explica envergonhada. — e quando me recusei a fazer o que ele havia me pedido... bem, eu já disse, ele ficou com raiva e me deu um soco.
– Ele queria que você... transasse com ele? — Arizona pergunta sentido nojo do homem no qual Callie falava.
– Arizona, por favor... — Callie pede. — Não quero pensar mais nisso, eu só quero limpar logo isso e ir pra casa.
– Agora eu entendo o que você quis dizer. — Arizona diz, começando a limpar o corte de Callie, o preparando para os pontos. — Nossa, me sinto horrível agora... você pensou que eu fosse...
– Arizona, não. — Callie diz segurando o braço de Arizona e a olhando nos olhos. — Eu jamais pensaria isso de você, não tente se comparar ao porco que fez isso comigo.
– Você prestou queixa? — Ela pergunta.
– Prestei, mas fui obrigada a ouvir um "com a sua profissão você deveria estar acostumada com isso", me senti uma puta naquele momento. — Ela faz uma pausa ao perceber o que disse. — Deus, nossa, isso saiu errado... muito errado, me desculpe, acabei falando besteira. Eu não quis dizer que putas... você entendeu, certo? — Arizona penas balança a cabeça.
– Odeio quando eles colocam a culpa na vítima. — Ela diz voltando a limpar o corte de Callie.
– Arizona... — Callie chama com uma voz suave. — Eu não quero que você pense que...
– Está tudo bem. — Arizona repete as palavras daquela noite. — De verdade.
É claro que naquele dia Arizona tinha ficado ofendida, mas agora sabendo o tipo de situação que Callie enfrentava no trabalho ela não tinha mais raiva, ela entendia porque Callie não podia misturar sua vida profissional com sua vida pessoal e por mais que aquilo a magoasse, pois ela não teria nenhuma chance com a Latina, ela entendia.
– Será que a gente pode pelo menos ser amigas? — Callie pergunta esperançosa.
– Claro. — Arizona responde com uma voz doce.
Se ela não teria uma chance com Callie da forma que seu corpo mais desejava, ela não deixaria Callie escapar de maneira alguma.
– Sabe, se você estiver muito ocupada eu posso dar os pontos, eu falei pra Addison que não precisávamos ter vindo aqui, mas ela insistiu.
– Ela estava certa, isso pode infeccionar se você não limpar direito e de maneira alguma vou deixar isso estragar seu rosto. Você é muito bonita para ter tal descaso. — Ela deixa sair sem querer e Callie cora. — Me desculpe, eu...
– Tudo bem. — Callie diz sorrindo, aparentando não ter se importado. — É bom receber uns elogios de vez em quando. E... você é muito bonita também.
Ai, senhor! Arizona pensa. Manter aquilo como amizade seria mais difícil do que ela havia imaginado.
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