Destinos Improváveis
117 Futuro - Uma parte de mim: A cura
Notas iniciais
“É o bastante por hoje” seu pai havia dito, e agora ele a estava arrastando pelos corredores do castelo até os seus aposentos, aquele caminho que Shara conhecia perfeitamente bem, ela podia sentir a força de sua mão em seu braço, indicando o descontentamento e a urgência, nenhuma palavra foi dita durante o percurso, e assim que chegaram ao seu destino, Severo fechou a porta atrás de si com um estalo seco, isolando-os do mundo exterior, inevitavelmente Shara conhecia o curso daquilo e dessa vez, sim ela o merecia.
—Quantas vezes mais? — ele começou lentamente – discutiremos os mesmos motivos, quantas vezes mais, terei que repetir que tem passado completamente dos limites… que tem se portado de maneira incosequente! – ela assentiu, ele estava certo, totalmente certo — o que achou que iria conseguir agindo dessa maneira? – ele perguntou, eram muitas perguntas.
—Eu não deveria... eu sei, ter dito tudo aquilo... eu não consegui controlar, estava com raiva, decepcionada… eu... me desculpe... – ela argumentou, enquanto lutava contra as lagrimas.
—Isso não é sobre o que disse, mas me refiro unicamente ao seu comportamento... foi atroz e descontrolado, deixando com que suas emoções transparecessem e falassem mais alto do que a razão em seus argumentos – ele disse apoiando as duas mãos no encosto da poltrona à sua frente e encara-la, Shara se jogou no sofá, ela estava desolada, ela não queria... Merlin, ter ido tão longe, e ter dito tudo o que disse especialmente a Antony, ela o expôs mais do que o necessário, o deixou desconfortável e arruinou tudo com... Catie, tudo que Shara não queria era machucar ainda mais a amiga... mas estava tão decepcionada com aquilo que havia descoberto sobre sua magia, sobre as mentiras e sobre as verdadeiras motivações do diretor, que ela mal podia enxergar um palmo à frente do seu nariz – Shara – ele chamou sua atenção — Eu vejo… e entendo o que esteja sentindo – e numa fração de segundos ela elevou a cabeça apenas para lhe lançar um olhar surpreso... ele havia a chamado pelo nome e dito que entendia? – apenas tente não parecer tão surpresa – ele usou ironia, ele não estava bravo?
—É... impossível... sendo que estou surpresa – ela admitiu... e ele massageou as têmporas, buscando uma forma de continuar aquilo.
—Suas colocações a respeito de sua mãe... – ele tentou elaborar – são legítimas – ele afirmou e definitivamente não havia como não se surpreender dessa maneira, ele estava simplesmente validando o que ela havia dito – digamos que Maeva tenha sido… — ele a analisou com cautela — uma espécie de marionete em palcos e áreas distintas de sua vida... – ele fez uma pausa – e entendo que se sinta decepcionada com Dumbledore nesse sentido… já que esperava um comportamento diferente de alguém como ele — ela piscou algumas vezes, ela havia vivido para esse dia? — contudo, não se iluda há diferentes formas de ver, já que uma parte da percepção dele se concentra em traçar metas dentro de um grande jogo de interesses... algo que tenho observado desde o princípio e que em diversas oportunidades pude sinalizar, ao depositar sobre seu colo, minhas próprias frustrações e acusações a respeito disso... algo muito similar aquilo que fez essa tarde – Shara se inclinou, verdadeiramente interessada, além de validar, ele também estava abrindo algo para ela, e dessa vez não como se ela fosse apenas uma criança idiota, uma garota estupida ou algo do tipo... não... aquilo era de igual para igual, aquela era uma conversa madura... onde ele estava concordando com ela.
—Então se percebe isso, se entende... então por que?... digo é simplesmente errado, e eu não consigo aceitar a maneira como ele lida e trata as pessoas, a minha mãe e todos os outros… mas então por que confia tanto assim nele? Ele... não merece a sua lealdade dessa maneira, ele não... merece a lealdade de ninguém – ela expôs o que sentia, sendo igualmente sincera ali, já que ele havia dado algum espaço para isso... o que não era muito comum.
—Eu posso ver que esteja confusa Shara... mas quero que entenda que Dumbledore, independente de seus meios e de suas ações, ele ainda é nossa melhor opção – ele começou explicando...
—Como... como ele pode ser nossa melhor opção? Quando tudo que ele faz é manipular… manipular e manipular, como isso se torna uma boa opção... – ele ergueu a mão a fazendo parar...
—Antes de mais nada precisa aprender a controlar sua impulsividade – ele a repreendeu mais uma vez, mas ela não entendia... Shara olhou para seu pai, as vezes ele podia lê-la melhor do que ela mesma, e sim ela estava mesmo confusa, principalmente por que ele havia reconhecido suas preocupações, legitimando suas queixas e ao mesmo tempo, insistia que a aliança com Dumbledore era a melhor opção para ambos... não fazia sentido.
—O senhor não vê o quão ruim isso pode ser? Certamente deve haver outra forma... um outro meio de seguir... sem ele — Shara estava pensativa e seu pai endireitou-se e a encarou com firmeza.
—Não há – ele respondeu sério — Alvo Dumbledore pode ser muita coisa... Shara, mas ele possui uma visão bastante sensível e muito ampla do mundo mágico... Há forças em jogo que você ainda não conhece, forças que se movem na sutileza, todos os dias... e que honestamente eu gostaria que não precisasse conhecer no futuro... foram tempos sombrios, aqueles… – Shara sabia que ele se referia ao passado, a guerra, um passado em que ele esteve ativo, lutando em lados opostos, e que isso era sobre o lorde das trevas voltando e dominando o mundo... seria tolice de sua parte ignorar a influência e a ação de Alvo Dumbledore em tudo isso — Dumbledore é temido, a simples menção de seu nome muda ações e circunstâncias, não à toa... ele é poderoso, é articulado, ele luta pelo bem maior… e sendo assim ele vem sustentando o mundo bruxo em suas costas e mesmo que seus meios e formas de faze-lo não sejam em suma os melhores, mas ele tem se cercado... de pessoas e de estratégias, para alcançar o que deseja, salvar a comunidade bruxa de um colapso e, portanto, ele não é apenas nossa melhor opção... ele é a única opção – ela se mexeu desconfortável — acredite eu não estaria me sujeitando a ele por todos esses anos se não estivesse completamente convicto disso — ele concluiu e nada mais precisava ser dito.
—As vezes, teria sido mais fácil... não saber a verdade – ela lamentou – fica difícil fechar os olhos para isso tudo, afinal ela era minha mãe... e essa é a minha magia — ela puxou as pernas contra si e as abraçou – ele não necessariamente se importa comigo ou com a minha segurança no castelo... – ela parou ao ver a expressão no rosto de seu pai... – mas ele se importa com a minha magia, ele moveria céus e terra para preserva-la... como fez um dia com ela no passado... mas falhou – ela sentiu as lagrimas marcarem suas bochechas.
—Eu me importo com você – sua voz carregava uma emoção diferente – e isso deveria ser o bastante... e não pretendo falhar – ela sorriu de forma retraída – agora deve aprender a escolher suas guerras... foi o que ela, sua mãe fez — ele pontuou — e definitivamente bater de frente com o diretor não era uma delas — Shara o encarou confusa.
—Acha que ela... que ela tinha esse tipo de clareza, sobre sua situação... e sobre ele? – Shara perguntou, ela não havia pensando nessa possibilidade.
—Não deveria pensar na sua mãe como sendo uma mulher frágil ou uma bruxa deverás ingênua — o olhar dele parecia penetrar sua alma — Maeva era exorbitantemente inteligente, uma das mulheres mais astutas que conheci, ela era verdadeiramente brilhante… ou como acha que ela conseguiu manter o nosso relacionamento em segredo, posteriormente a gestação... você mesma pontuou o fato dela ter conseguido se esconder da Ordem, e está certa quando disse que nem mesmo eu poderia encontrá-la... – ela fechou os olhos, sim sua mãe sabia...
—E ainda assim ela ficou, ainda assim ela lutou… com ele – Shara concluiu.
—Sim, por que haviam pessoas aqui... que ela amava e que a amavam também, pessoas que se importavam com ela... nem tudo é como parece ser... um circo ou uma mentira completa e isso não muda nada, nem tão pouco diminui as motivações pelas quais ela lutava ou por que Alvo desejasse que ela lutasse – Shara pensou naquilo que ele havia dito, aquela era mesmo uma forma diferente de ver as coisas... talvez a verdade fosse mesmo apenas um ponto de vista... e sua mãe havia escolhido ver de um lado mais leve — A decisão de trabalhar com Dumbledore não é baseada em uma lealdade cega, a de sua mãe certamente também não foi… mas sim de uma avaliação pragmática da situação... nós dependemos dele, tanto quanto ele depende de nós – seu pai admitiu – uma troca de favores, ou manipulação como preferir chamar... embora eu não veja assim – e então seu pai havia conseguido abrir seus olhos e agora ela podia ver aquilo, ele havia virado a situação de tal maneira que não restavam dúvidas... Shara o encarou com admiração, ele sim era o bruxo mais brilhante e analítico que ela conheceu.
—Um jogo de interesses – ela sussurrou para ele — de ambos os lados… — ele assentiu.
—Vejo que entendeu – ele parecia satisfeito – sendo assim gostaria que confiasse em meus julgamentos daqui em diante e em minha capacidade de discernir o que é melhor para nós e isso inclui em relevar ou não as ações de Dumbledore, e isso não necessariamente significa que deverá ignorar seus instintos, mas sim que deve controlá-los para saber quando agir e quando esperar e definitivamente aquilo que fez hoje… não foi nada inteligente – ela o ouviu atentamente, ele era tão ponderado e tão político... Shara assentiu, reconhecendo a sabedoria nas colocações dele, aquela era uma lição completamente diferente, eles sequer estavam discutindo, mas ele a estava ensinando e ela queria aprender, pois sabia que precisava equilibrar sua paixão por justiça com a necessidade de uma abordagem mais estratégica e com o apoio e a orientação dele, ela estava determinada a se tornar uma bruxa mais sensata e astuta, como sua mãe havia sido um dia no passado, ela soltou as pernas...
—Obrigada por esclarecer – ela disse, era verdadeiro – eu não teria percebido nada disso, se não dissesse, eu realmente sou tola e estupida – ela admitiu.
—Você tem apenas 11 anos de idade e eu jamais teria uma conversa como essa, com uma criança nessa idade – ele coçou o nariz – ainda mais se ela fosse de fato tola e estupida – Shara sorriu, agora um pouco mais descontraída, mas cessou assim que se lembrou de Antony...
—Eu deveria me desculpar com Antony – ela disse mudando de assunto — ele estava certo quando disse que… a minha mãe, que ela faria tudo exatamente como fez… e eu o ataquei e disse coisas terríveis…
—Que ele merecia ouvir — ele a interrompeu — Antony não deveria ter ficado com a esfera, principalmente por conhecer suas implicações, e tenho certeza que tudo isso serviu para algo, Antony irá reconsiderar e superar – seu pai disse enquanto a estudava — até por que sua amiga trouxa me pareceu bastante encantada por ele – seu pai revirou os olhos ao disser – e não irá tardar em perdoa-lo, principalmente quando entender as estúpidas razões e inseguranças dele… — ele estava certo mais uma vez, sobre Catie perdoa-lo, sendo que ela era simplesmente a pessoa mais compreensiva que existia e capaz de perdoar que Shara já conheceu, isso por experiencia própria – e falando no artefato... a algo que preciso me certificar ao seu respeito... portanto preciso que se concentre naquilo que solicitar — ele pediu – um teste – ela arqueou a sobrancelha.
—Um teste? – ela pediu sem entender...
—Quero que tente localizar a existência de magia antiga em meus aposentos… — era um pedido bastante inusitado, mas se houvesse algo assim ela certamente já teria sentido, não teria? Shara o olhou desconfiado e depois olhou em tudo a sua volta.
—Eu acho que não – ela devolveu...
—Se concentre – ele pediu novamente – precisa exercer a força da mente — certo... ela pensou na magia e quase que instantaneamente ela sentiu aquela vibração tão familiar agora, uma adrenalina que percorreu seu corpo e parou nas suas mãos e isso a assustou – ela o olhou assustada.
—Isso... isso é impossível – e então ela olhou para as mãos — eu posso sentir… sim… mas como? — ela estava confusa – aqui? – ela finalmente perguntou.
—Accio adaga de Perseu — ele convocou e a adaga veio voando do escritório dele diretamente para sua mão…
—A adaga… — Shara disse incrédula, saltando do sofá – ela, estava aqui… esse tempo todo… — ele assentiu a segurando com firmeza — mas como eu não percebi isso antes… digo a magia e tudo mais, sendo que isso é algo que posso sentir agora... sabe, assim como foi com a espada… mais cedo… na sala do diretor — Shara encarou seu pai em busca de respostas.
—Alvo tem razão — ele a encarou sério — já pode controlar… sua magia — ele explicou – e essa é a razão pela qual não a sentiu antes — ele fez uma pausa — precisa desejar senti-la, precisa querer… do contrário, a magia não irá se manifestar, é um princípio lógico — fazia sentido, muito sentido… e ela definitivamente não estava procurando a adaga lá, até por que esse era o último lugar que Shara imaginou que ela pudesse estar, como? mesmo estando ferido… ele havia se lembrado de pegá-la naquele dia? Certamente sim…
—Eu realmente posso fazer isso — ela estava maravilhada com sua nova descoberta — eu posso controlar — ela sorriu aliviada — isso é ótimo, não é? – ela havia feito... e ele assentiu.
—De fato — ele também parecia satisfeito, controlar sua magia era uma conquista relevante, já que isso significava a ausência dos descontroles, evitando assim os desastres estratosféricos que ela costumava causar, chamando a atenção do ministério, Lucius e afins... era uma vitória.
—Merlin... esse foi um dia cheio – Shara suspirou cansada.
—Que infelizmente ainda não acabou – ele disse de forma meticulosa e nada feliz — agora… vá tomar um banho, e fique apresentável, teremos algo diferente para o jantar – ele comunicou, banindo a adaga de volta para o lugar de onde havia vindo.
—Diferente? Ficar apresentável? – ela perguntou desconfiada isso não soava bem — Não é como se eu tivesse roupas apropriadas para um evento — ela disse constrangida, apenas para deixar claro, mas ele sabia disso.
—Vista qualquer que não sejam pijamas – ele orientou, sinalizando para que ela se mexesse, ela assentiu... algo diferente para o jantar, podia ser tanta coisa... mas ela fez o que ele pediu... um banho era mesmo bem-vindo.
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Não tinha dia menos apropriado para isso do que aquele, foi o que Severo pensou enquanto abria uma garrafa de vinho… isso que ele nem costumava beber vinho, mas precisava ser um bom anfitrião, ele bufou irritado, e sua lareira crepitou quase que no mesmo instante, para sua imensa alegria, ela estava adiantada.
—Boa noite Severo — ela cumprimentou enquanto seu perfume exalava e preenchia cada centímetro quadrado do ambiente.
—Está adianta — ele disse sem se virar para ela.
—Diz isso sem o conhecimento de causa, sobre o fato de que me propus a trazer o jantar — ele se virou, e que surpresa lá estava ela, séria e compenetrada, uma postura inabalável, tão diferente do último encontro que tiveram.
—Claro… — ele disse com certo sarcasmo — que os elfos domésticos e a comida do castelo não estariam à altura da realeza – ele ironizou — não deveria ser uma surpresa que a Sra. Malfoy provodenciaria algo — era inevitável não usar o sobrenome.
—Na verdade, pensei em algo mais jovial e apropriado para o momento… — ela o encarou divertida – estou falando de hambúrguer e batatas fritas… e alguns refrigerantes é claro — Narcisa sorriu abertamente — obviamente que um bom vinho continua sendo muito bem vindo para os adultos, eu aceito — ela se aproximou dele pegando a taça que ele segurava em sua mão — obrigada — ela sussurrou, mas aquela taça era dele e ela sabia disso… ele a encarou, a desafiando com o olhar.
—Vejo que Lucius abriu mão de jantar com sua esposa nessa noite — ele alfinetou — um pouco curioso para um domingo à noite eu diria — ele a cercou, ela riu pelo nariz.
—Rússia — ela disse sem ressalvas — ele parece estar bastante ocupado com os negócios nesse país ultimamente — ela piscou para Severo que agora estava servindo sua própria bebida pela segunda vez, Rússia havia sido o último destino mencionado por ela, pelo que Severo podia se lembrar…
—Claro… problemas com o ministério da magia de lá... suponho ou algo assim — algo assim nesse caso era uma conotação mais favorável para “eu sei que ele foi ver suas amantes” aquilo era o tipo de coisa pelo que Lucius de deslocaria.
—Sim, penso que o primeiro ministro Russo, ele deve… sentar e usar muito melhor a boca na cama do que eu — ela soltou, o fazendo engasgar com a sua bebida e cuspir parte dela em suas próprias vestes, ele encarou Narcisa, maldita bruxa atrevida, de onde havia vindo aquilo?… ele estava prestes a dizer algo tão promíscuo quanto quando a porta do quarto de Shara se abriu…
—Estou curiosa para saber o que faremos… — ela paralisou se dando conta de que havia companhia, teria sido divertido se ele não estivesse lutando contra aquele constrangimento desnecessário, Narcisa conjurou um lenço e educadamente lhe estendeu, piscando para ele… o que ele devolveu com um olhar assassino.
—Shara, querida… como está? — ela disse se aproximando da criança que olhou para ele buscando uma explicação.
—A senhora Malfoy irá jantar conosco essa noite — ele informou, segundos após queimar o lenço que ela o havia oferecido e lançar um feitiço de limpeza sobre suas vestes, o que honestamente era muito mais adequado.
—É Narcisa — ela corrigiu rapidamente enquanto se virava para ele — Severo Snape, eu me recuso a acreditar que não tenha contado a ela sobre a minha visita essa noite — agora ela estava zangada — isso está agendado tem dias… e sua única e pequena função no acordo era ter dito a ela... – ela depositou as duas mãos na cintura.
—Acredite NARCISA — ele enfatizou o nome dela — mas existem coisas muito mais relevantes a serem feitas e discutidas aqui, do que os seus jantares beneficentes — ele devolveu.
—Beneficentes? — Shara perguntou, certo aquele não era exatamente um jantar assim, mas era como Severo se sentia diante daquela situação, onde sim a loira estava doando algo, o seu tempo... para conseguir aquilo que ele já deveria ter suprido a sua filha de antemão… e isso definitivamente não era sobre dinheiro.
—Nada beneficente — ela corrigiu – acredite Severo… tenho certeza que irá notar a falta de alguns galeões em sua conta, depois dessa noite — ela ironizou depositando a chave do cofre em cima da mesa, fazendo com que Shara o encarasse desconfiada… sem entender o significado daquilo — a propósito… Shara, querida, aposto que está com fome, você gosta de hambúrguer? — ela ofereceu, foi quando Severo se deu conta de que Narcisa falava sério sobre o tipo de comida… ela havia mesmo providenciado fastfood para o jantar.
—Isso é algum tipo de brincadeira? — ele interceptou, e desde quando ela conhecia e comia esse tipo de comida? — me recuso a comer essa porcaria trouxa… — ele disse irritado.
—Então não coma, simples assim — ela refutou — já eu... adoro e aposto que Shara também… — Narcisa se virou para a menina que continuava parada, imóvel, exatamente no mesmo lugar e assistia tudo com bastante curiosidade e atenção.
—Certo — Shara disse ao lançar um olhar desconfiado sobre os dois — confesso que isso é algo completamente inesperado — ela disse sem graça — e sendo assim, posso estar sendo um pouco inexpressiva… mas a verdade é que estou apenas tentando contextualizar tudo isso aqui — ela gesticulou para os dois – até por que, é... digamos que apenas um pouco diferente de como pensei que seria… a interação – ela fez uma pausa cautelosa — com todo respeito, mas vocês… parecem dois adolescentes brigando — ela entregou, fazendo Cissa gargalhar como nunca e Shara segurar um pequeno sorriso — Eu realmente amo hambúrguer — Shara admitiu, aquele era um fato novo sobre ela que ele desconhecia — mas podemos comer qualquer outra coisa… se o senhor preferir… — ela disse buscando sua aprovação o que o deixou desconcertado, já que teria que voltar atrás em sua decisão, mas ele sabia que dado a situação, esse era o certo a se fazer ali, ele não podia resistir a ela, os olhos verdes de Maeva o tinham na mão desde o princípio.
—Mande trazer os hambúrgueres — ele cedeu irritado.
—Perfeito — Narcisa disse animada, enquanto convocava um elfo doméstico que aparatou, trazendo consigo tudo que tinha direito além dos hamburgueres, lhe causando a impressão de que ele havia acabado de assaltar uma loja trouxa e levado embora todo o estoque do mês, os olhos de sua filha brilharam ao ver toda aquela abundância de sódio e colesterol… Narcisa havia sido mais do que assertiva na escolha, e ela mesma parecia bastante animada ao se servir de uma batata frita, que afogou sem pena alguma em um pote de molho verde a transformando em uma pasta pegajosa e nojenta… talvez Shara estivesse certa, eles parecessem mesmo como adolescentes assim, e ver sua amiga tão leve e descontraída, sem aqueles protocolos de puro sangues, ou aquelas malditas regras de etiqueta… era de alguma forma reconfortante de assistir, ele se sentou, se perguntando, quando ele podia imaginar que viveria para ver algo assim… Cissa e sua filha, comendo fastfood no jantar, em seus aposentos privativos, juntas — não se iluda Severo — Cissa disse o tirando do transe — isso tudo… também foi pago com o seu dinheiro — ela o provocou lhe arremessando um batata.
—Muito maduro de sua parte, Sra. Malfoy — ele devolveu, cruzando os braços, enquanto assistia Shara agarrar um hambúrguer com as mãos e o atacar com a delicadeza de um troll faminto, Cissa se sentou para fazer exatamente o mesmo, embora tivesse um pouco mais de classe. Lucius certamente teria uma síncope se soubesse que sua tão prestigiada esposa, pudesse se comportar como uma jovem mulher trouxa comum, e isso o divertiu.
—Então — Shara interrompeu o silêncio, enquanto terminava de beber o refrigerante, fazendo um barulho desagradável com o canudo — isso tudo… — ela olhou dele para... ela — é por algum motivo especial? Ou é o tipo de coisa que vocês… fazem, de tempos em tempos? — ela perguntou de forma despretensiosa.
—Certamente esse não é o tipo de coisa que faço de tempos em tempos — ele respondeu com sarcasmo puro.
—Até por que… — Cissa complementou — se esse fosse o tipo de coisa que eu fizesse de tempos em tempos, com certeza escolheria melhor companhia — ela o provocou, e aquele comentário fez Shara sorrir com o canto da boca.
—Claro… a sua irmã Bella por exemplo… — ele sugeriu para ela – tenho certeza de que ela adoraria ter um tempo de qualidade como esse, talvez ela goste tanto da comida feita pelos trouxas que resolva num ato de extrema misericórdia intercalar entre obriga-los a cozinhar para ela e tortura-los até morrer — ele ironizou, vendo a cor de Narcisa desaparecer… enquanto lançava um olhar de preocupação em direção a sua filha, Merlin… ele simplesmente havia se esquecido… Shara estava séria agora e um silêncio constrangedor tomou conta de todo o ambiente, ninguém sequer estava mastigando — Narcisa sugeriu este jantar, por uma razão única — ele retomou o assunto, numa tentativa de tirar o foco daquilo que ele havia dito — inevitavelmente, como sabe… não passou despercebido nosso vínculo parental e sendo assim ela se propôs a ajudar em algo… que posso estar... falhando aqui – ele foi honesto e o fim dos tempos era mesmo aquele, sim ali estava ele, Severo Snape admitindo ser um completo incompetente como pai, logo depois de ter sido um grande miserável e insensível também.
—Sim — Narcisa tentou ajudar – existe um motivo de fato para isso... mas antes de entrar nesse assunto especificamente… eu gostaria de saber se tem feito um bom uso do piano? — ela perguntou numa tentativa de elaborar melhor e de descontrair, mas sendo traída pela falta de informação, já que Shara ainda não sabia sobre o maldito piano que ela havia recebido como presente dela.
—Shara não sabe sobre o piano — ele respondeu antes mesmo que a menina pudesse, e novamente ele sentiu os olhos da filha sobre si… aquela noite estava fadada ao fracasso.
—Como assim, ela não sabe? — e agora Cissa parecia não apenas brava, mas também indignada — fazem semanas e eu lembro de ter feito o comunicado diretamente a Dumbledore e pedido que ele o passasse adiante… afinal qual a dificuldade em repassar informações aqui nessa escola? – ela perguntou.
—Dumbledore me informou e pediu que eu o fizesse — ele assumiu a culpa, sustentando o olhar dela, e não é como se aquilo fosse a tarefa mais importante do mundo, ela deveria rever seu crivo de exigências, ainda mais por que Dumbledore havia sido afastado logo depois e as coisas ali haviam virado num verdadeiro caos — se tivesse ao menos se dado ao trabalho de me comunicar sobre tais intenções, me consultar sobre elas… que por sinal foram demasiadamente impetuosas e extravagantes justamente por se tratar de um piano de valor imensurável e que carrega tradições familiares passadas por diversas gerações, enfim quem sabe… teria alcançado seu objetivo com maior sucesso — ele fez questão de pontuar se lembrando de como tinha sido desagradável ser pego de surpresa por Dumbledore com aquele assunto e ter que prestar explicações a respeito.
—Claro… — ela bufou irritada — como pude ser tão ingênua, é óbvio que Dumbledore iria até você com isso — ela bufou mais uma vez — e é óbvio que você não faria… afinal isso fere suas convicções não é mesmo? convicções embasadas em seu próprio preconceito doentio, além de se opor a algo onde talvez não tenha notado, mas a sua opinião não conta, e sem mencionar que está simplesmente ignorando ou menosprezando as razões pelas quais eu estou fazendo isso Severo… verdadeiramente fazendo isso – ela esbravejou — então é evidente que vai usar uma desculpa qualquer para alegar que estava tão ocupado, não tendo tempo de fazer uma simples menção — Severo se levantou… Narcisa não tinha o direito... ela se levantou também.
—EU leciono nesta escola Narcisa, EU tenho atribuições aqui, responsabilidades, que acredite vai muito além de suas tão sonhadas expectativas ao meu respeito… saiba que minhas atividades requerem o meu tempo e minha total dedicação, fazer poções incansavelmente, dia após dia até que uma delas dê certo e funcione, libertando crianças petrificadas de um coma induzido por um maldito basilisco, oriundo de uma maldita câmara secreta, aberta com a ajuda de um maldito objeto das trevas, incutido nessa escola pelo SEU maldito marido, acredite... isso dá um certo trabalho... – ele cuspiu, a vendo paralisar — isso é um pouco diferente do que tomar chá da tarde com as amigas da alta sociedade na Madame Puddifoot todas as quintas feiras por exemplo… — ele finalizou… percebendo então que havia passado dos limites e que mais uma vez Shara estava ali presenciando o seu surto de impulsividade, e que ele era tudo menos um exemplo daquilo que ele tanto exigia dela... ele suspirou – isso... foi um erro – ele disse, passando as mãos pelo cabelo, se referindo ao jantar e tudo mais…
—Me desculpem… — a voz de Shara ecoou baixa — mas não estou me sentindo muito bem… eu… — Severo fechou os olhos por alguns segundos enquanto convocava uma poção calmante para ela, se sentindo péssimo por ter sido o responsável por aquilo… Shara a bebeu, e nada precisava ser dito, era evidente o quão desconfortável ela estava ali, no meio daquele tiroteio — eu vou deixar vocês conversarem… — ela sugeriu, se levantando numa tentativa que ele entendeu, era de fuga.
—Não querida — Narcisa interveio – apenas me desculpe por isso… — ela parecia de fato envergonhada — por favor eu imploro que fique… — então ela pediu, mas Shara estava perdida… ela lhe olhou… em sinal de ajuda.
— Fique — ele pediu.
—É apenas um piano – Cissa sussurrou, voltando a se sentar — não deveria ser tão ruim... Mas entendo – ela fez uma pausa — e eu sinto muito Severo, eu realmente deveria tê-lo consultado, me desculpe – ela estava recuando, e ele deveria fazer o mesmo — eu o cedi a Hogwarts logo depois que Draco nasceu – ela contou – o piano era a única lembrança boa da minha família... da parte boa dela é claro, minha irmã... e não definitivamente isso não é sobre Bella – ela riu com tristeza ao mencionar – eu sentia tanta falta dela... – Cissa parou enxugando as lagrimas – eu não podia mais… ficar com ele sabe, e sofrer... vivendo de fragmentos do meu passado que não voltariam mais... então o cedi a escola, um artefato raro para o acervo de Hogwarts, inútil por se dizer... já que não pode ser tocado por ninguém, ou melhor... quase ninguém, então Shara apareceu... e ela podia simplesmente faze-lo, então pensei que o piano, que ele merecia um destino melhor do que estar fadado a degradação, uma nova história e quem sabe uma nova tradição com alguém tão sensível e apaixonada pela música como Andromeda foi um dia... – Narcisa olhou para a sua filha – e é por isso que eu fiz, o piano... eu o destinei a você, ele é seu – ela disse com a voz embargada – claro que com o seu consentimento Severo – Narcisa disse para ele – e vou entender se não...
—Não me oponho a isso – ele disse e Narcisa sorriu em sinal de agradecimento – desde que... – ele buscou o olhar de sua filha – Shara o aceite... – e agora a menina estava em choque – Shara – ele chamou, ela piscou algumas vezes – talvez devesse dizer alguma coisa – ele sugeriu, vendo Shara se virar para Narcisa.
—Eu... caramba – ela tentou elaborar – isso é tão... generoso e ao mesmo tempo tão nobre, que não sei como agradecer de forma adequada... mas é claro que aceito – Shara sorriu com leveza — e eu realmente sinto muito pela ausência de sua irmã, e eu... farei o possível para honrar o legado dela – Narcisa estava emocionada, e Shara parecia mais desenvolta depois de ter bebido a poção – a música é verdadeiramente magica, e não como os feitiços que lançamos, não... é muito mais que isso, a música me manteve viva nos piores momentos da minha vida – ela admitiu abertamente – e posso não entender exatamente os motivos pelos quais sou capaz de toca-lo, mas recebo e aceito isso como uma benção, uma salvação e uma esperança de futuro em novas tradições familiares... – Severo encarou a filha, aquilo que ela havia dito... mesmo que ela não soubesse a relação daquilo com Draco, era como se ela pudesse de alguma forma e ela parecia aceitar isso muito bem... – obrigado – Shara agradeceu, e ali estava o destino outra vez, provando aquilo que Narcisa havia dito, sua opinião não importava, não quando a vida insistia em puxar seu tapete, lhe pregando peças.
—Uma benção sim – Narcisa reforçou – nas mãos certas... – ela secou as lagrimas.
—E isso é muito mais emocionante quando feito pessoalmente, então talvez não tenha sido tão ruim – Shara completou – é claro, que algumas coisas poderiam não ser ditas da forma como foram... – ela disse, lhe direcionando o olhar...
—Confesso... que posso ter me excedido – Ele achou que cabia dizer e Shara assentiu satisfeita, aquela criança havia mesmo o mudado.
—A proposito o senhor ia dizendo algo sobre as razões de estarmos aqui essa noite – Shara havia devolvido o sentido e harmonia ao lugar onde havia apenas caos, e agora ela os estava conduzindo com muita naturalidade até o cerne da questão outra vez, aquilo que de fato importava e era admirável que ela pudesse ser tão centrada e perspicaz, no mesmo dia onde ela havia agido de forma impulsiva e descontrolada, haviam muitas facetas naquela criança, que o surpreendiam... Narcisa pigarreou, notando que ele estava perdido em pensamentos, e aquela era oportunidade para recomeçar aquilo da forma certa.
—De fato – ele estava mais calmo – quero supri-la – ele foi objetivo, vendo a expressão no rosto de Shara mudar de paz para algo indecifrável – supri-la naquilo que precisar, algo que... deveria ter feito a algum tempo – ele estava sendo honesto.
—Mas... o senhor já supre – ela não havia entendido — nós passamos algum tempo juntos e estamos nos entendendo, quer dizer eu acho... – ela disse sem graça — e o senhor tem me ensinado e tem cuidado de mim – ela pôs a mão sobre o colar – o que mais poderia ser além do que já é? – ela pediu confusa.
—O básico – ele respondeu – suas necessidades básicas, como roupas… sapatos, acessórios escolares… — Shara enrijeceu e ele não sabia muito bem o que esperar dali se deveria se preparar para um novo acesso, uma crise… ou talvez uma segunda guerra bruxa da qual ele sabia que sairia morto ou ferido.
—O que seu pai está querendo dizer Shara — Narcisa interveio — é que você está crescendo e assim como qualquer outra criança de sua idade, você precisa ser suprida em outros aspectos também, coisas materiais… suas vestimentas por exemplo… e eu me ofereci para lhe proporcionar um guarda roupa totalmente novo, com um olhar mais maternal e feminino – ela enfatizou.
—Roupas? – aquilo parecia ter desencadeado algo maior dentro dela, e ele agradeceu pela poção calmante já ter sido administrada – eu… eu não preciso de roupas... eu... estou bem com as que tenho, honestamente – ela estava nervosa – e os meus sapatos, eles ainda servem...
—Suas roupas são tudo, menos adequadas – ele tentou justificar, e Narcisa lhe lançou um olhar feroz, talvez ele não fosse mesmo muito bom com justificativas...
—O senhor se envergonha das minhas roupas? — ela perguntou, não com raiva ou coisa assim, mas havia algo em seus olhos, e aquilo era dor — eu não imaginei que isso pudesse ser um problema… eu sei que não são boas… que é velho e de segunda mão — ela olhou para baixo, agora constrangida com o que estava vestindo – mas ainda assim elas tem servido… só precisam de alguns ajustes…
—Shara, suas roupas não me envergonham — ele admitiu se aproximando e segurando o seu queixo com ternura, percebendo que os olhos verdes de Maeva estavam agora, cheios de água, aquele era um assunto difícil e que a machucava e ele não iria errar com ela novamente — mas posso ver e sei que você... sente vergonha delas não é mesmo? foi o que me disse certa vez, a alguns meses atrás, aqui em meus aposentos — ele a lembrou, sem se importar em estar trazendo isso à tona assim, Narcisa se aproximou também – eu deveria ter sido mais sensível e percebido e providenciado algo... essa também é minha responsabilidade, como seu pai de supri-la nesse sentido... e é por isso que Narcisa está aqui hoje, e ela se propôs e fez... algo que acordamos, ela lhe providenciou o melhor – ele encarou Cissa, que assentiu – sabe, além de Maeva, eu não poderia confiar a mais ninguém uma missão tão importante como essa... então espero que você possa aceitar isso, de forma tardia e fazer bom proveito do seu novo guarda roupa... – Shara se jogou em seus braços, soluçando.
—Eu não deveria ser um fardo… eu não quero pesar mais do que já peso — ela estava ofegante…
—Você não é um fardo — ele reafirmou, a segurando em seus braços com firmeza.
—Querida… suprir também é uma forma de demonstrar interesse, cuidado e amor — Cissa complementou – você é uma menina adorável e linda, sua mãe estaria tão orgulhosa de ver o que se tornou e ela teria apreciado isso — Narcisa disse e aquilo havia sido o bastante… Severo podia sentir que estava curando algo em Shara essa noite, inferioridade ou algo assim… e isso não seria possível sem a ajuda de Narcisa, Shara parecendo ler seus pensamentos, se afastou apenas para puxá-la para o abraço também… Cissa recuou de início, mas então se permitiu ser envolvida, aquilo era demasiadamente mental, sim ele sabia… mas quem se importava afinal? Aquela era sua filha e aquela era sua melhor, mais teimosa e insuportável amiga.
—Obrigada — Shara agradeceu… assim que conseguiu recuperar o folego.
—Deveria deixar para agradecer depois que ver suas peças novas… — ele ironizou — sem querer, acabei deixando escapar a sua preferência pelos tons vibrantes, em específico a cor rosa — ela se afastou para encará-lo, parecendo verdadeiramente preocupada, Narcisa sorriu abertamente.
—Não se preocupe querida, embora seja de meu interesse colocar um pouco mais de vida e cor nas peças… mas fui ameaçada, digo... completamente fiel ao que me foi solicitado e mantive as peças dentro de um única paleta de cores, triste e deprimente – ela fingiu decepção — tons neutros, de verde, cinza e preto — ela revelou e essa foi a vez de Shara sorrir, Narcisa havia acertado, Severo olhou para ela com certo orgulho e isso dissolvia qualquer ressentimento que aquela noite pudesse ter deixado, Narcisa retribuiu o sorriso e ele podia jurar que ela pensava o mesmo.
—Eu posso ver? – Shara perguntou animada — digo as roupas… quer dizer, se não for um problema é claro…
—Obviamente, está tudo no seu armário querida – Narcisa informou, sim o elfo que ela havia trazido, tinha feito o trabalho, e isso enquanto eles comiam – posso sugerir um vestido em especifico, que adoraria vê-la usando, esse está sobre a cama – Shara sorriu animada, se virando e correndo em direção ao quarto, Severo acompanhou o movimento com a cabeça, aliviado pelo desfecho positivo daquela que tinha tudo para ser uma noite desastrosa – acho que conseguimos – Narcissa sussurrou para que apenas ele ouvisse – mas sabe o que poderia ser ainda melhor? – ela perguntou e ele arqueou a sombrancelha em dúvida – por acaso, tens uma vitrola antiga? – e então ele entendeu.
—Tenho algo melhor que isso – ele respondeu.
—___
Aquele era simplesmente o vestido mais encantador que ela já havia visto em toda a sua vida, e era dela, sim ela tinha um vestido, Shara estava eufórica, paralisada diante do espelho, analisando a perfeição que era aquela peça, um vestido preto… de tule, rodado... ela sorriu para a imagem refletida ali e se lembrando que estava sendo aguardada...
Assim que Shara saiu do quarto... foi novamente surpreendida ao som de uma de suas músicas preferidas, espera aquele era o seu fone de ouvido? Aquela era a sua fita de música?... havia algum tipo de feitiço expansor para que a música pudesse ser ouvida por todos em um volume agradável... sua atenção naquilo quase a fez perder aquela que Shara considerou ser a expressão mais fabulosa e fácil de ser lida... seu pai sequer havia piscado, ele estava verdadeiramente maravilhado em vê-la naqueles trajes, já Narcisa suspirou satisfeita.
—Esplendido – ela aprovou – está exatamente como imaginei que ficaria — Shara não sabia dizer se era a adrenalina de estar vivendo aquele momento ali, se era a poção calmante que ela havia ingerido ou se era a própria música, mas ela girou... se soltando e sendo acompanhada pelo movimento do vestido e então ela sorriu, feliz... seu pai se aproximou dela... fazendo uma pequena reverencia.
—Será que vossa princesa me concederia sua mão para uma dança? – ele pediu, estendendo a mão para ela... Shara nunca havia sido convidada para uma dança antes, e era igualmente incrível que fosse ele a ser o primeiro a fazê-lo, ela retribuiu a reverencia, aceitando o convite... aquele sem dúvidas era um dos melhores momentos de sua vida, digno de ocupar uma pagina inteira em seu caderno de recordações.
—Precisa me ensinar o feitiço – ela disse encostando a cabeça contra o peito dele – esse que amplia a música dos fones – ela pediu.
—Jamais – ele respondeu, fazendo ela sorrir – tenho apreço pelo silencio, e certamente isso seria minha ruina – ela achou ainda mais engraçado, mas aquilo era algo que ela descobriria.
—Não sabia que o senhor gostava de dançar – ela comentou, aquele era um dia de descobertas interessantes.
—Não gosto – ele afirmou.
—Pelo visto o senhor faz muitas coisas que não gosta – ela brincou.
—De fato – ele confirmou – mas há uma boa razão para isso – ele justificou, ela afastou o rosto e o analisou... buscando uma resposta verdadeira – Você – ele respondeu, a girando com bastante destreza, e aquele movimento a fez gargalhar... Fazendo com que sua risada preenchesse todo o ambiente e de relance ela podia jurar que ele também estava sorrindo.
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