Destinos Entrelaçados

10 O passado de volta


Estávamos no maior clima e eu nem lembrava mais das coisas estranhas que Naruto me disse sobre nos conhecermos antes. Pelo contrário, só focava no gosto dos seus lábios nos meus e no movimento firme das suas mãos pelo meu corpo. Quando o telefone dele vibrou no bolso e Naruto deu um pulo, pegando o aparelho.

Seus olhos relançearam a tela e eu quase bufei, quando sua voz rouca indicou que tudo estava acabado:

— Me desculpe, preciso resolver um assunto.

— Agora? — eu quase gritei.

— É muito importante, do contrário… — ele hesitou passando o dedão pelo lábio inferior. — Com certeza eu não te deixaria sozinha aqui.

Aquele sozinha soou estranho, parecia conter um duplo sentido na palavra. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, Naruto já estava de pé, pegando um moletom e vestindo rapidamente.

Cruzei os braços inconformada.

— Você me deve algumas explicações.

— Eu sei e prometo que te conto tudo quando eu voltar. Acho que a hora chegou. — respondeu misterioso e fiquei ali com a boca aberta e a respiração ofegante. — Por favor, não deixe ninguém subir aqui e não vá a lugar algum até eu voltar, está bem? — não esperou resposta, cruzou a porta e saiu do apartamento.

Contrariada, abandonei o filme e passei a editar as fotos do ensaio que fiz mais cedo, tentando manter minha mente ocupada, sem sucesso. Eu repassava toda a minha conversa anterior com Naruto repetidas vezes e sentia-me cada vez mais agoniada com todo aquele suspense. Naruto agira muito estranho comigo e quando mencionei Shion como minha entrevistada ele nem ficou surpreso. Eles eram namorados até pouco tempo, e Naruto garantiu que eram amigos acima de tudo. Ela contou a ele, será? Podia ser Sakura também, mas ela não mencionou nada pra mim.

Minha mente estava confusa com aquelas insinuações de nos conhecermos antes. Muitas informações rodando e rodando sem parar na minha cabeça. Estou grilada e aflita só de imaginar ter me enfiado em alguma roubada com essa ideia de alugar o apartamento.

Levantei-me num ímpeto e tomei uma decisão, iria descobrir o que Naruto me escondia por conta própria. Eu tinha o direito de saber se corria algum perigo, por este motivo, fuçar as coisas dele não seria errado. Considerando que Naruto me escondia algo, aparentemente grave ou no mínimo muito importante.

Tomei fôlego e segui até o quarto, agora totalmente masculino, e fiquei parada. Sem saber como começar a procurar, ou melhor, sem saber o que eu deveria procurar. Comecei mexendo em seus poucos livros que estavam em uma pequena estante ao canto do quarto. Passando em seguida para as gavetas do guarda-roupa de solteiro que já estava no apartamento, mas que agora jazia abarrotado de roupas do Naruto. Foi quando eu peguei uma camiseta azul dele e a levei junto a meu corpo, sentindo meu estômago revirar.

Aquela peça cheirava a colônia masculina e Naruto, no entanto, ao mesmo tempo, me trazia uma sensação de aconchego, de nostalgia. Fechei os olhos, sentindo meu coração arder, era como se eu tivesse uma estranha ligação com ele, que eu não sabia de onde vinha e aonde me levaria. Pois praticamente acabara de conhecê-lo. Contudo, parando para analisar, era como se eu sentisse que precisava escolhê-lo ao invés de Shion. Mesmo Naruto indo contra meus pré-requisitos totalmente. E, repentinamente, senti como se soubesse o que devia procurar. Fui buscando com mais afinco, revirando tudo dentro do quarto. Eu tinha esse direito, não tinha? Foi quando toquei em um caderno escondido ao fundo da última gaveta do guarda-roupa. Retirei o objeto e o encarei, em dúvida sobre o que fazer. Eu estava indo longe demais na minha busca por respostas, bisbilhotar a agenda dele já era passar dos limites. O que eu diria quando Naruto chegasse? Aliás, por que me importava? Eu com certeza deveria rescindir esse contrato e chutá-lo para bem longe de mim. Foi uma péssima ideia enfiar um desconhecido sob o meu teto. Trabalharia em dobro se fosse necessário, mas era mais seguro morar sozinha. Só que e àquele beijo? Eu conseguiria esquecer?

Respirando fundo, abri a agenda e de início parecia ser apenas o local onde ele anotava seus compromissos, trabalhos da faculdade etc. Indo mais a fundo, entretanto passei a encontrar frases desconexas que me intrigaram.

"Eu a encontrei, tenho certeza, eu jamais esqueceria aqueles olhos."

"Ela continua linda, aliás, muito mais do que antes."

"Por que Hinata me esqueceu? Eu devia esquecê—la também. A questão é: será que eu conseguiria?"

Fechei a agenda com força e a larguei na cama, com o coração aos pulos e as mãos trêmulas, Naruto falava de mim. Era irracional, mas eu sabia que era verdade, que nos conhecíamos. Massageei as têmporas, buscando na memória de onde eu poderia conhecer Naruto. E ainda mais confusa do que antes, fechei os olhos, mentalizando que precisava me acalmar. Isso mesmo, eu me acalmaria e chamaria Sakura, claro. Ela me ajudaria a desvendar esse mistério. Por fim, irrevogavelmente mais calma, levantei-me e fui em direção ao telefone, para pedir que Sakura viesse ao meu auxílio. Ela poderia enxergar algum ponto daquela loucura que eu não conseguia. Ver um sinal invisível que eu não localizei. Afinal, Sakura conhecia Naruto melhor do que eu, que cai de paraquedas naquela história. Quer dizer. Será que conhecia? Eu estava tão confusa!

Fosse quem fosse Naruto, ele teria de se explicar assim que chegasse. Peguei o celular na sala, tentando manter a calma, apesar de tudo, quando algo chamou minha atenção. Enquanto eu mexia na agenda, atenta, não devia ter notado quando uma fotografia caiu no chão.

Fui até ela apressadamente e a resgatei, primeiro olhando a dedicatória atrás, com uma letra infantil e muito duvidosa:

"Estaremos sempre juntos, eu te amo Hinata."

Assustada, virei a fotografia, dando de cara comigo por volta dos meus cinco anos em frente à entrada do orfanato que eu cresci. Só que eu não estava sozinha, ao meu lado lado jazia outra criança. Um garotinho de olhos muito azuis e cabelo loiro todo arrepiado, que ostentava um sorriso gigante nos lábios. Enquanto seu braço curto me envolvia pelo ombro. Minha mente imediatamente projetou àquele dia, antes de eu ser adotada pela vovó Chio. Eu conhecia aquela criança, era Menma, meu melhor amigo no orfanato Raio de sol.

Menma... O nome ecoou pela minha mente, com algumas lembranças surgindo. Olhos azuis, cabelo dourado como o sol, risquinhos nas bochechas.

Comecei a chorar descontroladamente, passando a entender tudo, ou quase tudo. Eu o esqueci, ao longos dos anos, simplesmente apaguei da minha memória tudo o que me remetia àquela época de abandono da minha vida. Fiz questão de afastar todas as lembranças que eu tinha de quando morava no orfanato, porque aquilo doía demais. E eu não conseguia entender porque meus pais haviam me largado lá, sozinha e desamparada. Por isso preferi esquecer na base da força, foi meu mecanismo de defesa. Todavia, o meu passado resolvera voltar para me assombrar.

Larguei aquela foto no chão e aos prantos liguei para Sakura, implorando que ela viesse ao meu socorro o quanto antes. Não deu outra, em menos de dez minutos ela estava no meu apartamento.

— Hina, o que houve? — Sakura, um bocado desesperada, me abraçou assim que abri a porta do apartamento me debulhando em lágrimas.

— Amiga, o Naruto... — eu fungava — Eu sou uma pessoa horrível.

— Por que você seria uma pessoa horrível? — questionou, me apertando contra si. Afastei-me dela a contragosto e corri até o quarto, voltei com a agenda e a foto e entreguei à Sakura, que imediatamente reconheceu nós dois na fotografia. — Meu Deus, são vocês... Nessa época... — ela crispou os lábios, sem concluir a frase.

— Sim, eu ainda não tinha sido adotada, era no orfanato. — respirei fundo, tentando buscar meu autocontrole. — Olha a agenda.

Sakura obedeceu e logo encontrou as mensagens subliminares de Naruto. Ficando cada vez mais séria a medida que lia. Devia haver outras, mas eu não quis invadir mais a privacidade dele.

— Precisamos descobrir do que se trata — ponderou, tirando o celular do bolso. — Vou ligar pro Naruto e ordenar que venha aqui, eu sabia que ele escondia algo do passado. Mas nunca liguei, sempre fomos bons amigos, eu achava que tudo bem Naruto ser reservado.

— Ele trocou de nome, Naruto se chamava Menma, eu não sei porque ele mudou. Mas é ele mesmo, eu o esqueci, assim como fiz com quase todas as lembranças do meu passado no orfanato. — me joguei no sofá, desolada. — Se Naruto lembrava de quando éramos crianças, órfãs, por que não me contou? Eu não entendo, não consigo compreender como não me lembrei dele quando o vi. Nós sempre nos protegiámos, ou melhor, Menma... Naruto — corrigi — , me protegia. Como eu pude esquecer do meu amigo, Sakura? E por que ele veio morar comigo guardando esse segredo?

— Calma, Hinatinha. — Sakura acarinhou meus cabelos. — Suas lembranças eram dolorosas, você simplesmente foi esquecendo ao longo dos anos para se poupar, é um mecanismo de defesa, você foi adotada aos seis anos, certo? — fiz que sim com a cabeça — então, você já tá cavala velha, como iria lembrar dele? — brincou, tentando me animar, mas eu não via graça em nada. — Agora entendo porquê Naruto me perguntou se você conhecia algum cara chamado Menma. Ele falava de si mesmo. — refletiu pesarosa.

— Naruto lembrou de mim. — protestei — E eu, como a pessoa horrível que sou, não me lembrei dele.

Sakura mordeu o lábio inferior, fazendo uma expressão de solidariedade. — Naruto te viu na faculdade comigo e no outro dia me encheu de perguntas sobre você. Achei que fosse apenas um interesse romântico na época e até fiquei no pé dele e no seu, né. Para apresentar vocês dois. Agora eu entendo tudo. Talvez Naruto tenha ficado chateado por você não se lembrar dele. Tanto que logo após assumiu um namoro com Shion e nunca mais falou de você. — eu apenas balançava a cabeça, ouvindo com atenção sua explicação. Sabia que Sakura queria me apresentar um amigo, mas eu também nunca quis. — De qualquer forma precisamos entender melhor essa história, porém antes que isso aconteça, fico aqui com você. — assenti. — Se ele omitiu já te conhecer e se aproximou de você. Precisamos descobrir porque, se é só por interesse sentimental. Ou se há algo mais por trás dessa decisão.

— Será que eu deveria ligar para o Naruto e exigir uma explicação? — divaguei.

— Acho que sim, eu iria ligar. Só que talvez seja melhor você mesmo falar com ele, peça para o Naruto explicar o motivo de ter escondido que já te conhecia. Te ajudo a colocá-lo na parede. — começou a discar no celular para me entregar, quando a porta se escancarou num rompante e um cara que eu nunca vi na vida entrou com todo o impeto no meu apartamento.

Dei um grito e Sakura gelou, olhando para ele como quem via um bicho.

— Você tá louco? — gritou, indo em direção ao homem. — O que faz aqui, Sasuke? Como entrou no apartamento da minha amiga sem ser anunciado?

— Não tenho tempo de explicar, pegue a Hinata e leve-a até meu carro, vocês tem cinco minutos. — ficamos paralisadas, eu ainda mais, que diabos estava acontecendo, cacete? — Agora! — ordenou e começou a jogar minhas coisas no chão, procurando por algo.

— Você enlouqueceu? — berrei, enfurecida. — Como entra no meu apartamento desse jeito e começa a quebrar minhas coisas? Eu nem te conheço! — fui até ele, agora sabendo que Sakura o conhecia, que era o crush dela e entendi porque eu não gostava de nenhum macho que conhecesse minha amiga.

Ela tinha dedo podre para homens.

— Hinata, sei que tudo isso é confuso. Mas não tenho tempo de explicar nada agora. Você corre perigo e eu sou o único que pode te ajudar no momento. Já que o Naruto foi baleado e eu nem sei se vai sobreviver. Provavelmente têm várias escultas aqui no seu apartamento, temos menos de dez minutos para tirar vocês duas daqui, estão me entendendo? — seus olhos negros recaíram em mim por alguns segundos. — Sakura, se ama sua amiga, leve-a até meu carro nesse segundo e eu explico tudo quando estivermos longe o suficiente.

— Eu vou chamar a polícia. — ela revidou, discando no celular.

— Desliga — Sasuke ordenou, colérico. — Toneri é a polícia, ninguém pode ajudá-la, apenas eu e Naruto, se ele sair dessa. Agora faz o que eu estou mandando, agora! — e com isso Sakura começou a me arrastar para o andar de baixo.

Eu parecia um boneco de pano, estava prestes a desmaiar, mas me mantive firme. Pelo menos até encontrar o porteiro do prédio desacordado na entrada e eu bater os olhos em Naruto no banco de trás do carro do tal de Sasuke, coberto de sangue e com o rosto totalmente machucado.

A. MEU. DEUS.

O que está acontecendo?

— Naruto! — Sakura chiou e eu imediatamente me enfiei no banco de trás.

— Eu cuido dele. — informei, ajeitando-me com cuidado para não machucá-lo ainda mais.

Naruto estava deitado desajeitadamente no banco. Suas mãos pressionavam o abdômen e seu rosto estava contorcido em uma careta de dor.

Meu estomago revirou ao analisar melhor seu estado. Havia tanto sangue ali que eu senti uma vertigem. Como eu poderia ajudá-lo? Meu material de primeiros socorros estava no apartamento. E nada na minha caixa seria suficiente para cuidar de um ferimento de bala.

Que merda estava acontecendo?

— Precisamos levá-lo ao médico — Sakura proferiu, olhando pelo retrovisor. — Amiga, que loucura, eu não estou entendendo nada, o que Sasuke tem a ver com tudo isso? Ele era só um cara que eu estava saindo, lembra que falei dele pra você?

— Lembro sim. — concordei, sem emoção, tentando verificar a extensão do ferimento de Naruto.

— Hi-Hinata? — ele chamou meu nome com certa dificuldade.

— Eu estou aqui... — sussurrei baixinho. Eu deveria estar possessa com Naruto por me esconder algo tão grande e por me beijar, mas não conseguia.

Não se ele fosse Menma, aquele garotinho adorável que sempre me protegeu e cuidou de mim na infância.

— Me desculpe por tudo, eu só queria te proteger... — e apagou.