Destinos
3 Capítulo 03. La Parisienne
Notas iniciais
1920. Atenas, Grécia.
Chegara enfim o dia da partida. Milo sentiria saudades de Atenas e, principalmente, de todas as pessoas queridas que deixaria para trás. Sua mãe tomou a decisão de mudar-se com o filho para sua cidade natal, na ilha de Milos, local onde o menino nasceu e morou por um curto período até a família se mudar para a capital grega.
A mãe acreditava que se retornasse ao arquipélago reencontraria seus familiares, na esperança de que a ajudariam a seguir em frente, bem como pensava que Atenas era uma cidade insegura de se viver caso a guerra tomasse outro rumo. Sem falar que se encontrava profundamente abalada com acontecimentos recentes.
Apenas algumas semanas após a morte do marido, um rapaz próximo da família fora assassinado por um grupo de adolescentes que vinha causando muitos problemas ultimamente. Para tirar satisfação, Aiolos, sobrinho de seu esposo, se envolvera em uma briga contra a gangue e saíra brutalmente ferido, tanto que semanas se passaram e ele ainda permanecia inconsciente no hospital.
Ao que parece, por uma falha de comunicação, o exército se confundiu quanto aos documentos e registrou Saga, o jovem morto, como filho único. Todas as provas do mundo não foram capazes de convencer os oficiais de que Kanon era na verdade seu irmão gêmeo e o rapaz fora obrigado a ir no lugar do mais velho à guerra, sob a ameaça de ser executado por deserção.
A jovem viúva também temia que o filho se envolvesse em alguma tragédia desse tipo. Mais que tudo, desejava a segurança de Milo, a única família que lhe restara agora. Já no porto, de malas feitas, mãe e filho esperavam a partida do barco que os levaria para longe dali. A atenta mulher não pôde deixar de notar o ar preocupado de seu pequeno.
— Sei que é triste, mas não precisa se preocupar. Com sorte encontraremos os parentes da mamãe e tudo se ajustará, certo? – Tentou encorajar o menino, mas logo percebeu que ele permanecia perdido em pensamentos. Apressou-se em lhe questionar o que o afligia tanto.
— Mãe, a senhora acreditaria se eu lhe contasse? – Perguntou incrédulo.
Com a resposta positiva, Milo contou dos acontecimentos na tenda, os acordos de Kanon e Aiolia, a promessa do reencontro... Teve medo de que a mãe duvidasse da veracidade da história, mas, por sorte ou não, se tratava de uma pessoa que não subestimava o sobrenatural.
— Acho que o preço que eles pagaram por seus desejos era justamente a vida dos irmãos. Mas e se não for suficiente? – O garoto estava preocupado. – E se o Lune achar que não bastou acabar com o Aiolos e fizer algum mal pro Aiolia?
— Creio que isso não acontecerá. Uma vida possui um preço inestimável, quem dirá duas? Já supre qualquer dívida, filho. Mas, se for como você diz, esse senhor Lune é realmente uma língua ferina. Tome cuidado. No fim das contas, ele cumpriu sua palavra a Kanon, o substituindo pelo irmão, e Aiolos não foi, de fato, à guerra – Dito isso, ela percebeu que estava assustando ainda mais o filho. — Apenas me prometa que nunca cairá nesse tipo de tentação, sei que você forte.
— Posso tentar, mãe.
1933. Paris, França.
Milo caminhava afobado, abrindo espaço entre os transeuntes, ainda empolgado com as novidades. Acabara de voltar de uma bem sucedida entrevista de emprego num conceituado laboratório parisiense. Sabia que sua estadia na cidade dependia unicamente da impressão causada àquele austero senhor de óculos.
Terminara o ginásio¹ na Grécia com o apoio da mãe, apesar de relutante em continuar os estudos devido aos impedimentos financeiros que surgiriam. Em meio às aulas de ciências², Milo descobriu uma grande paixão por fórmulas, tanto que passou a nutrir forte amizade com o professor que, impressionado pelo fascínio do rapaz, logo lhe arranjou um emprego de meio período numa farmácia local. Viu, no entanto, que aquilo não era suficiente para suprir todo o potencial do jovem e enviou secretamente uma carta a um amigo seu na França, sócio de um renomado laboratório de farmacologia.
Insistiu para que agregasse tal talento a seu negócio, de forma que o rapaz tivesse como minimamente bancar uma faculdade.
Era um pedido extravagante. Ah se era... Mas Dégel não pôde deixar de concordar que se tratava de alguém cujas habilidades não eram de se ignorar. Caso contrário, Kardia o recomendaria um de seus colegas gregos qualquer apenas para se ver livre do ex-aluno³ e, ao que parece, a iniciativa do pedido veio do próprio amigo.
Decidiu dar uma oportunidade ao jovem. O receberia em seu escritório para uma entrevista e, dependendo de como se saísse, definiria os termos do acordo.
Apesar do nervosismo inicial, Milo se saiu excepcionalmente bem na conversa, tanto que Dégel lhe propôs bancar metade de seus estudos enquanto trabalhasse para si. Afinal, entrar para a École Normale Supérieure de Paris era para poucos, ainda mais se tratando de estrangeiros.
Milo possuía algumas economias guardadas, mas decidiu deixar a maior parte com a mãe caso ela necessitasse, e certamente precisaria. Procurou por um apartamento que pudesse alugar a um preço razoável e que não fosse longe demais do laboratório, nem da universidade. Após alguns dias pesquisando, encontrou um que lhe pareceu perfeito no Petit-Montrouge, o qual se situava a meia hora a pé da Normale.
O proprietário mostrou-se bastante simpático. Faltando uma semana para o fim do mês e, portanto, para que iniciasse o trabalho de Milo, permitiu que permanecesse aquela semana sem lhe cobrar nada. Afinal, também era estrangeiro e sabia das dificuldades de começar do zero em uma cidade nova.
— Mas você não segue o estereótipo de brasileiro, Aldebaran. Parece mais um escandinavo com toda essa altura – Brincou Milo.
— Acha mesmo? – Riu o locador. – Mas você cumpre perfeitamente o estereótipo de grego atraente.
Ao ouvir aquilo Milo corou até as orelhas. “Ele está me flertando?” pensou.
— Bom, vou deixá-lo acomodar-se melhor. Fique com as chaves e boa sorte, até mais – Disse enquanto fechava a porta do apartamento, deixando Milo a sós com seus pensamentos.
“Paris... O que essa cidade guardou para mim?”
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