Destino ou não - Brittana
2 Só Brittany
Notas iniciais
Quando a jovem, Santana Lopez, levantou aquela manhã, não imaginava que iria discutir com os pais, muito menos encontrar com alguém naquele lugar que ela podia jurar ser inabitado e esquecido.
Surpresa! E o universo brinca mais uma vez.
Chegando ao topo da trilha de terra, a morena voltou um passo para trás quando percebeu a presença de um ser humano parado na ponta do penhasco, ao lado do farol abandonado de Rosefield.
Mas que merda é essa?! Pensou, mas prosseguiu andando, curiosa, com a imagem que presenciava.
A mulher, na ponta do penhasco, usava uma calça jeans num tom azul clarinho, um all-star preto, e uma blusa de frio branca, ela vestia o gorro da mesma, na cabeça, o que ocultava a visão de seus cabelos.
E Santana? Estava com uma blusa preta, calça jeans vermelha e um sapato (sem cadarço) preto.
Repentinamente a figura no penhasco jogou a touca para trás, revelando os fios loiros. Abriu os braços para os lados, enchendo o peito de ar, Santana estava bem perto e assustou-se com a ação, foi quando ela chamou a atenção da outra, que quase caiu, e ela, sem pensar no que fazia, voou até a garota e a agarrou pelas costas, impulsionando os corpos delas para trás. Para a terra firme. Para o chão... Para aquele gramado nada confortável.
Dor, dor, dor. O encontro ao chão não foi muito amigável as costas de Santana, porém, só quando ela gemeu algo, Brittany saiu de cima dela.
Agora as duas se encaravam em total silêncio, e o clima estava começando a ficar estranho.
Brittany coçou os olhos para ter certeza de que seu cérebro não estava provocando miragens desnecessárias a ela, pois estava acordada desde muito cedo e a tarefa de permanecer de olhos abertos começou a parecer difícil demais. Na verdade, tinha dúvidas se havia dormido, de fato, na noite anterior. Confusões a parte, à medida que voltou a abrir os olhos azuis, encontrou olhos castanhos fixos nos seus.
— Desculpa! – Brittany pronunciou cortando o silêncio entre ambas. – Quer dizer, desculpa pelas costas...
— Tá tudo bem. – A morena sorriu, e subitamente segurou um dos ombros fazendo uma careta. – Argh...
Será que estava tudo bem mesmo? Ou Santana havia apenas esquecido, por um instante, que acabara de bater as costas no chão? Bom, a segunda hipótese era a correta... Que vergonhoso, não?
— Tem certeza? – A loira voltou a perguntar inclinando a cabeça para o lado direito, como um cãozinho intrigado. – Até o ombro?
— Uhum, relaxa...
Santana soltou o ombro esquerdo e endireitou a coluna, tentando não pensar no desconforto.
— Fico feliz que evitei uma tentativa de suicídio hoje, pensei que meu dia estava perdido. – Ela disse rindo, mas parou instantaneamente quando não obteve reciprocidade nos risos. – Você...
— Quem tentou se matar? – Brittany perguntou inocentemente, seus olhos azuis estavam preocupados e ela inclinou o corpo para perto da morena. – Isso é muito sério...
— Ué, você tentou! – Santana afirmou, apontando para outra.
— Quem? Eu? – Brittany colocou a mão no busto, meio chocada. – Quando eu tentei me matar?
— Agora, caralho! – A garota respondeu, rapidamente, em tom ríspido. – Você tem amnésia?!
Não era chocante o fato de Santana ter pensado tal coisa. E Brittany, deveria ter parado para analisar isso, antes de se irritar. Afinal, quão bizarro era uma pessoa de olhos fechados e braços abertos na ponta de um penhasco? Sem mencionar que o corpo dela já estava doido para “encontrar” o mar momentos antes de a latina chamar sua atenção.
Enfim, ela ficou um pouco ofendida com o que a outra deduziu.
— Claro que não! E eu não estava tentando me matar...
— Sério? – A morena abriu um sorriso irônico. – Porque parecia...
— Você tá cega! Não é possível...
— Eu sei o que eu vi... Uma doida querendo se jogar do precipício, um clássico. Não vou te julgar... Só admita.
— Doida é você! Me deu um susto do caramba... – Brittany pôs uma mão sobre o peito esquerdo. – Meu coração ainda tá batendo...
— Que bom gênia! Sinal de que está viva né?
— Eu quis dizer disparado...
— De nada. – Santana piscou a provocando.
Brittany bufou ao notar o divertimento da garota, e passou a perceber a dificuldade que estava tendo para respirar.
— Eu só queria parar de tremer. – Admitiu observando as próprias mãos. – Ainda não caiu a ficha que tudo isso aconteceu...
— Pode acreditar que estou bem mais chocada que você.
— Duvido, eu podia abraçar o chão e ficar aqui para sempre de tanto nervoso...
Brittany retornou a olhar a garota. Por que a latina não parava de sorrir? Por acaso seu estado de choque parecia engraçado para ela?
— Quer parar de rir, por favor? – Pediu.
— A propósito, meu nome é Santana... Santana Lopez.
A morena estendeu a mão amigavelmente para a loira ignorando completamente o pedido que ela fizera, pois ainda possuía um sorriso no rosto.
— E você é?
Brittany encarou a mão oferecida, subiu os olhos de novo. Quanta formalidade, quem ainda faz isso? Questionou-se, enquanto permanecia fitando a morena como se a outra estivesse a desafiando, mal sabendo que o que Santana queria, na realidade, era checar as batidas do coração dela.
— Brittany. – Respondeu, enfim pegando a mão da outra.
A loira estava sendo muito séria em relação ao seu coração disparado, Santana sentiu uma forte pulsação combinada a tremedeiras presente na mão de Brittany, o que ficou ainda mais evidente quando elas sentiram um choque térmico por conta da diferença de temperatura em seus corpos.
Uma tinha a mão gelada de nervoso, e a outra, a mão quente de adrenalina.
— Só Brittany? – Indagou Santana, apertando sutilmente a mão fina, arqueando a sobrancelha novamente.
E foi naquele instante que os problemas da Pierce voltaram a martelar sua mente, ela acabara de conhecer uma nova pessoa, e essa pessoa não sabia do status de sua família, absolutamente nada, por que a loira estragaria isso revelando a ela seu sobrenome? Para surgir mais um vampiro em sua vida? Assim tão ligeiramente? Mais uma pessoa cega por dinheiro, status e coisas fúteis?
Não, não, e não.
Ela não queria isso. Ela nem dormia mais por isso. Disso ela já estava cheia até demais, e essa era uma ótima oportunidade de permanecer em sua bolha pessoal ali naquele penhasco, sendo apenas Brittany, não uma Pierce podre de rica.
Pelo menos, enquanto a outra garota não descobrisse a verdade.
— Sim... – A loira avisou, por fim, soltando a mão morena. – Só Brittany pra você.
— Ok, “só Brittany”. – Santana lançou um riso pelo nariz, pousando as mãos nas pernas de índio que fizera. – Seu coração tá bem acelerado mesmo, eu é que devia perguntar se está bem...
— Eu disse. É tudo culpa sua... Mas eu tô bem.
— Claro que você tá, esse é o poder do toque das minhas mãos. – Santana tocou os dedos gelados de Brittany, de novo. – Percebe? Você nem lembra que estava tremendo...
Brittany riu com a brincadeira da outra, no fundo ela sabia que um dos motivos para seu coração estar daquele jeito era porque a morena despertou algum interesse nela, mesmo que não quisesse admitir.
Aqueles olhos castanhos eram maravilhosos demais, ela facilmente podia se perder dentro deles pelo resto do dia, que ainda sim iria parecer algo novo e viciante.
— Você me encarando assim é bizarro, sabia? – Santana avisou afastando sua mão. – Mas então, o que te trouxe aqui a essa hora da manhã Brittany? – Ela conteve sua vontade de rir. – Já que não foi... Você sabe, o seu encontro com a morte.
Santana estudou as feições da outra, a loira estava claramente cansada, às vezes parecia até chapada, mas não era o caso.
— Engraçado... Eu ia fazer a mesma pergunta pra você, Santana.
— Ah é? Bom, eu perguntei primeiro... – Após falar, a Lopez lançou uma piscadela para a outra. – Estou esperando.
— Você é uma chata... – A loira murmurou.
— Obrigada. – Agradeceu ironicamente.
Brittany se ergueu e acomodou-se, ao lado da morena. Seus olhos azuis passaram a observar o mar abaixo do penhasco, repentinamente ela jogou os braços para trás de si para prender as mãos no chão. Será que agora ela tinha medo de altura? Só um pouco, talvez.
— Gosto de esquecer que o mundo existe. – Disse a loira soltando o ar pesadamente. – E de manhã não tem muita gente conhecida andando por ai.
— Pelo menos não adolescentes, muito menos em penhascos...
Brittany permitiu-se rir junto a Santana. Como era boa a sensação de se sentir livre, desocupada e calma. Sim, calma. Estranhamente calma após toda a adrenalina de minutos atrás.
— Mas aqui estamos nós, estranho né? Quem me dera se essa fase da minha vida já tivesse acabado. – Disse Santana, bufando em seguida. – Meus pais me acordaram aos gritos hoje, tem noção?
— Imagino como deve ter gostado. – Brittany brincou.
— Ah sim, você sabe como é... Pessoas podem ser muito complicadas, ainda mais quando elas querem ser.
A Pierce apenas concordou com a cabeça.
— E o que exatamente te incomodou tanto pra você vir esquecer o mundo aqui nas “colinas” Brittany?
— Bom... – Ela encarou as unhas. – Algo relacionado ao meu namoro... Espera aí.
A loira virou o rosto, passando a enxergar a morena morta de curiosidade, arqueou a sobrancelha.
— E como fica o nosso acordo? – Questionou.
— Que acordo? – Santana rebateu entre risadas. – Eu nem te conheço.
— Simples Santana, aquele que a gente fez com os olhares no momento em que você perguntou primeiro, eu respondi, e agora é a sua vez de me dar às respostas.
A cada frase de Brittany, Santana podia jurar que a outra tinha usado algo ilícito, era tão engraçada. Impossível alguém ser assim no dia-a-dia, pensou sozinha.
A verdade é que Brittany não queria falar muito sobre si.
— Mas você nem sequer respondeu direito...
— Respondi sim. Falei que venho pro farol pra esquecer o mundo.
— Ok... Então eu vou jogar esse seu jogo. Pra cada pergunta uma resposta, né?...
— Não esquecendo que é uma de cada vez. – Explicou. – Tipo, eu pergunto e você responde. Você pergunta e eu respondo. Não pule a vez, é trapaça.
— Sim, sim, eu entendi. – Afirmou Santana sorrindo para a loira.
— Sua vez de me dizer por que está aqui.
— Eu venho para cá de vez em quando, tenho parente na cidade, ai quando não estou no clima de família me escondo aqui, simples. Não é tão diferente de você.
Brittany fez um bico e cerrou os olhos.
— Então você não mora aqui? Sorte sua. – Brittany desviou o olhar, e passou a observar os barcos que voltavam ao porto da cidadezinha. – E quando você vai embora?
Santana ficou impressionada com a falta de foco da outra.
— Hey garota, você está burlando as regras do próprio jogo. É minha vez de perguntar. Lembra? – Questionou a latina franzindo a testa.
Santana arrancou algumas risadas de Brittany.
— Pensei que você não fosse perceber. – Declarou Brittany.
— Eu só bati as minhas costas no chão, então sim, eu percebi. Agora não sei você, se bateu algo no chão antes de eu chegar...
Brittany riu e Santana continuou.
— Mas já que a brincadeira foi sua ideia, se quiser parar...
— Não, tudo bem, a bola é sua. Vai, pode perguntar. Sou um livro aberto.
Santana apertou os olhos e fez uma voz engraçada.
— A pergunta que não quer se calar é: Qual seu sobrenome?
Normalmente, Brittany teria rido da voz que a outra fizera e, em seguida, falado o seu sobrenome. Só que desta vez, devido aos últimos meses, a risada havia sido bloqueada bruscamente, por seus sentimentos, como uma maldita bola de vôlei descontrolada, e as palavras para pronunciar o sobrenome perderam-se de propósito pelo caminho.
Pelo jeito, ela não era um livro tão aberto assim no momento. A latina achou que talvez a outra estivesse a provocando quando não revelou o sobrenome da primeira vez, só que ao notar a reação da loira por conta da pergunta, deduziu que o mesmo pertencia ao grupo de sobrenomes “constrangedores” que fazem as pessoas serem zoadas pelo resto da vida.
— Não, isso não. – Brittany levantou do chão aos olhares confusos de Santana. – É melhor a gente parar a brincadeira por aqui, né?
Talvez a loira estivesse começando a ficar um pouco paranoica em relação a aquilo.
Inspira, expira.
E o drama começou... Brittany balançou os braços no ar, como quem se aquece para uma corrida, porém tratava-se apenas da ansiedade e nervoso, do inicio do dia, voltando a manifestar-se sem dó, nem piedade, em seus membros não descansados.
Por que o penhasco parecia bem mais alto agora?
— Não durou nem cinco minutos, que triste. – Ironizou Santana, ela levantou-se também. – Você é estranha.
Brittany não ouvira realmente, estava ocupada demais balançando os braços, chegava a ser hilário. Santana revirou os olhos, juntou as mãos e levou para o alto, arqueando sutilmente o tronco para trás, alongando-se.
— Eu preciso ir. – Disse Brittany.
Santana não respondeu, por que iria? Obviamente aquela Brittany não batia bem da cabeça. A loira olhou para trás após uns cinco passos.
— Tá tudo bem com você? – Perguntou ao perceber Santana fazendo caretas ao estralar as próprias costas. – Hein?
— Pode ir, tchau.
— Não, eu não vou agora.
— Mas, você acabou de dizer que...
— Tá tudo bem, sim ou não Santana?! Responde.
— Sim! Tirando a parte que me sinto uma velha... Com escoliose.
— Me desculpa! – Brittany implorou com a expressão de culpa. – Sério.
— Tá tudo b...
— Já sei! – Brittany exclamou interrompendo Santana. – Vou te pagar um sorvete, e a gente conversa sobre qualquer coisa, desde que não seja sobre meu sobrenome. Pode ser?
Os olhos azuis da loira brilhavam com a “grande ideia” que ela tivera, para dessa forma compensar a dor de sua salvadora e, ela poder se sentir menos culpada por cair em cima da mesma.
Ok, sem dúvidas ela era um ser bipolar (Agora ambas tinham algo em comum).
Santana se surpreendeu com a proposta da loira, que acabara de conhecer de modo tão... Peculiar, mas não perdeu tempo e se apressou a responder.
— Olha, não é álcool, mas acho que vou aceitar seu convite, “miss sem sobrenome”.
Brittany sorriu satisfeita com o que ouvira (E com o apelido).
— Preferia álcool é?
Santana a encarou com um sorriso nos lábios, sem dar indícios de responder a pergunta que ela fizera... Talvez a loira devesse descobrir sozinha, coisa que no fundo, nem Santana sabia dizer.
— Bom... – Brittany riu sem graça. – Quem sabe uma próxima vez.
— Gostei de você... Mas acho que, antes disso, vai ter que conseguir espaço na minha agenda superlotada...
— Sem problemas, senhorita Lopez.
— Você não tem o direito de me chamar assim, “só Brittany”. – Santana afirmou em tom brincalhão.
— É verdade, nada mais justo... Vamos?
As duas garotas caminharam lado a lado em direção à trilha que as levaria para fora da rota do farol, até chegarem finalmente à estrada, onde o conversível, cor prata, de Brittany estava estacionado quase que colado a uma árvore.
— Você veio de carro até aqui? – Brittany dirigiu a pergunta à Santana. – Ou sei lá?!
— Não, eu vim andando.
— É uma boa caminhada daqui até a cidade. – Concluiu a loira, rindo.
— Quinze minutos, o que não é nada. Eu gosto bastante de andar...
— Então somos duas. – Cortou Brittany.
Santana identificou uma chave de carro pendurada na calça jeans da loira, e notou a forma que ela olhava para o carro sem parar, certificando-se de que estava tudo bem com o mesmo. Ninguém nutria um “amor” assim por um carro caso o mesmo não fosse seu, ou estivesse com intenções de rouba-lo... Mas Santana achou que Brittany não se encaixava nesse último perfil.
— Conversível bonito. – Santana observou o veiculo. – Comprou sozinha?
Não, ela não havia comprado sozinha, o conversível foi um presentinho de seu pai, o qual ela não queria mencionar no momento, ou talvez nunca. E caralho, ela era tão obvia assim? Sim.
— Uhum, foi sim. É bem ali o quiosque, olha! – Mentiu Brittany, logo tirando a atenção da latina. – Vamos!
A loira passou na frente de Santana e atravessou a rua indo em direção ao pequeno quiosque presente na praia. Após pedirem seus respectivos sorvetes, chocolate para Brittany, creme para Santana, as duas concordaram que o melhor a se fazer era: Tirar os seus calçados e caminhar beira mar, mesmo com o friozinho que fazia.
Quão clichê isso parecia?
Típica cena romântica de filme. Pareceria ainda mais se a areia não tivesse a textura semelhante a cacos de vidro. Ou era só Brittany que achava isso?
Sem deixar com que a outra percebesse, a loira foi jogando o corpo sutilmente para mais perto das ondas, até que desfrutou do conforto provocado pelos pés submersos na água, junto a areia macia.
— Amo sorvete. – Revelou Brittany, se curvando, para sua língua toca-lo mais uma vez. – Muito bom!
— Eu também amo essa coisa. – Santana confessou.
— Melhor coisa inventada pelo ser humano... É uma pena que a gente não possa sobreviver só disso, apesar... Que eu também gosto muito de salgados.
Santana sorriu ao perceber a indecisão da loira.
— Parece que você não toma sorvete há muito tempo. – Santana comentou.
— Faz meses, acredita? Não sei como sobrevivi.
— Por que se privou disso então?
— Esporte, minha treinadora não simpatiza muito com doces... Enfim.
— Entendi, trocando um amor por outro...
— Exato.
(...)
Alguns passos, em silêncio, depois...
— Então Brittany, você cresceu por aqui? – A morena perguntou lhe lançando um sorriso curioso, havia se cansado das conversas superficiais, e queria se ariscar um pouco mais.
— Não mesmo, eu sou de Seattle.
— Sério? Realmente... Olhando agora, você não tem a cara de “caipira morto de fome”, típica do povo inútil daqui.
Brittany arqueou a sobrancelha, afastando o sorvete da boca.
— Isso foi meio ofensivo...
— Foi um elogio, você que não capta as coisas, bobinha. – Santana riu e fitou o horizonte. – Nossa, o tempo tá passando rápido.
— Não é? – Brittany concordou. – Isso é raridade aqui.
Após terminar seu sorvete, a morena pescou no bolso de sua blusa preta, com a mão direita, seu celular, deslizou o dedo ligeiramente sobre a tela, enquanto a outra mão ocupava-se de segurar seus calçados entre os dedos. Santana estava usando apenas um lado de seus fones de ouvido, e não ouvia nenhuma melodia desde o momento que botou os pés no farol, mais cedo.
— Gosta de música Brittany? – Perguntou com um olhar convidativo à loira.
— Quem não gosta?
— É, foi uma pergunta idiota, eu admito... Mas vai saber. Você quer fazer as honras de me acompanhar?
— Pra onde? – A loira perguntou, seus olhos observavam o mar, perdidos.
— Andar até o próximo quiosque, ao som de... – Santana colocou um dos fones no ouvido da loira. – Brittany S. Pierce, em sua homenagem.
— Hã?! – Brittany pronunciou, encontrando os olhos castanhos, assustada. – O que você disse?
— Britney Spears.
— Ah... Tá.
Brittany engoliu a seco, aquele nome a lembrava tanto o próprio nome. Quando criança, ela adorava mencionar para as pessoas como o seu nome soava quase idêntico ao da cantora pop, pois ela sempre foi sua fã, mas agora, depois de Rosefield, a loira apagara a memória com prazer da sua cabeça.
Disfarçou bem o desagrado inicial das palavras em seus ouvidos e relaxou os ombros, antes tensos, a partir do momento em que a música começou.
— Você gosta? – Santana perguntou após mais alguns passos pela areia.
— Adoro... Agora nem tanto. – A última parte da frase mal pode ser ouvida pela latina, de tão baixo que a loira falou, e continuou. – Você vai embora hoje?
— Ah sim, eu vou... Você está indo comigo até o meu destino, ou quase isso, nesse instante.
— Pela praia? – Brittany gargalhou. – Estou sentindo, vou ficar com cãibra de tanto andar para buscar meu carro depois.
— Pensei que gostasse de caminhar. – Rebateu a latina. – Você anda mentindo para estranhas por ai?
Brittany riu e balançou a cabeça dando-se por vencida.
— Talvez... E onde você mora, Santana?
— Em Lima, Ohio.
— Bastante longe... – Comentou Brittany. – Acho que eu não vou conseguir te acompanhar até lá. Meu corpo não está nas melhores condições agora...
Brittany se referia a sua falta de sono, e o claro cansaço que isso estava causando. Santana riu novamente e enroscou o braço direito no braço esquerdo de Brittany. As texturas de suas blusas de frio se roçaram.
— É do outro lado do país, por isso não venho com frequência pra cá... Isso só dá dor de cabeça, mas quando a gente gosta...
Brittany percebeu Santana engolir a seco entre a pausa de suas palavras.
— Não tem o que fazer... Quando a gente gosta. – A latina repetiu, parecendo afirmar aquilo para si mesma.
Para alguém que se considerava “fria”, Santana estava com uma intimidade gigantesca para cima da outra, não intimidade corporal, mas sentimental, o que estava acontecendo em sua cabeça? Estava doida, era a única explicação plausível.
Breve silêncio. A morena se afastou da loira, pensativa.
O que estava esquecendo?... Por que não lembrava? Que porcaria.
Sacou o celular e subiu o aparelho à altura dos olhos castanhos e enxergou o horário, era quase dez e meia da manhã, seu coração agitou-se um pouco, ela estava atrasada.
O trem, puta que pariu, pensou a latina.
Ela iria perder o trem das onze se continuasse andando lerdamente pela areia com Brittany, apesar de estar apreciando bastante.
Mas, Brittany era uma estranha.
Uma estranha que ela nunca mais veria na vida. Para que prolongar mais isso? Que idiotice. Sem perder um único segundo a mais, Santana entrou no campo de visão da outra.
— Adeus, “só Brittany”. – Ela se despediu sorrindo. – Não precisa mais me acompanhar, eu preciso voar agora.
— Ok... – Brittany sibilou, parecendo um pouco confusa com a despedida. – Tchau.
— Foi muito bom te conhecer.
— Igualmente, Santana. Espero te ver mais vezes por aqui...
— Não vai acontecer.
Brittany franziu a testa.
— Como assim?
— Meus parentes estão de mudança, finalmente. Não vou mais botar os pés nesse lugar.
— Ah...
— Enfim, tchau.
A latina virou-se para ir embora, despedidas sempre são estranhas. Ainda mais despedidas sentimentais com uma estranha.
— Ah, eu quase esqueci! – Exclamou Brittany.
— O que? – Santana virou-se para encara-la.
— Muito obrigada por me salvar lá no farol. De verdade.
— Não foi nada...
— Claro que foi. – Brittany afirmou sorrindo. – Obrigada.
Santana levantou uma das sobrancelhas e, o canto de sua boca também, revelando a covinha, presente em sua bochecha, que Brittany ainda não tinha tido o privilégio de perceber... Até aquele momento.
— Ok... Então a partir de hoje, você vai ficar me devendo uma... – A morena sorriu brevemente e piscou para a loira. – Miss sem sobrenome.
Sem mais avisos prévios, Santana passou a correr para fora da praia.
— Claro. – A loira gritou. – Pode deixar!
Brittany sorriu um pouco cabisbaixa, observando Santana desaparecer no horizonte, pois ela sabia que agora voltaria a ser Brittany Susan Pierce, a garota rica, popular e líder de torcida invejada do colégio McKinley. A adolescente que todos querem ser... Exceto ela mesma.
Aquela “pobre coitada” que precisava se esconder em um penhasco para ter paz de seu próprio sobrenome, do prestigio de sua família nos negócios, da fortuna gerada em consequência, da inveja, do interesse, do olho gordo alheio.
Enfim...
Podia até ser que tudo isso era bem mais evidente em sua imaginação, pois estava atordoada... Como explicar para alguém o que ela estava sentindo sem que parecesse puro drama? Ela não conseguia se expressar. Talvez, sentisse falta de uma personalidade própria, ultimamente ela era uma Pierce, popular e... Mais nada? Só isso?
Pierce, Pierce, Pierce, o pesadelo em Rosefield, e quem Brittany mais culpava por isso era seu pai. Por que ele tinha que ter dado aquela maldita entrevista ao jornal local?
Inferno!
Fale com o autor