Destino ou não - Brittana
34 Restaurante
Notas iniciais
Treze anos atrás...
A loura, acomodada no banco de motorista, governava seu Gol preto por através das ruas familiares de Seattle, caixas de som ligadas, os cabelos soltos e compridos ao vento fugaz que vinha das janelas escancaradas, e na face seus óculos de sol, cobrindo os olhos cintilantes cor de âmbar. Balançava a cabeça, feliz, descabelando-se ritmada. Estava dentro de sua rotina de sempre. Este “sempre”, há alguns poucos anos de sua vida, na verdade.
Era difícil se acostumar.
Enquanto a mulher voltava para a sua casa naquela tarde, o sol encontrava-se abaixando aos poucos ao horizonte, quase sumindo. Porém, com as mãos no volante, ela permanecia com seus óculos-escuros, mesmo que já não precisasse mais usá-los no dia, gostava deles, não tinha explicação, aparentemente, assim como curtia acelerar a velocidade do seu carro de vez em quando, sem necessidade.
Cinquenta, sessenta, setenta quilômetros por hora...
Às vezes aquela moça esquecia-se de que podia ser livre dentro da rotina “imposta” pela vida, também. Todos podiam e podem ser. Esquecia-se de que era possível respirar, sem pensar em respirar. Esquecia-se que não precisava viver de cara fechada, triste, estressada, cansada. Esquecia-se de que tinha sua própria identidade como indivíduo perante a sociedade.
É...
Ela respirou fundo, e percebeu certo lamento baixinho vindo de trás, ecoando cada vez mais alto, embora claramente aquele choro estivesse sendo segurado. A mulher pegou o retrovisor central, curiosa, enquanto dirigia com a mão esquerda e observou a menininha loira sentada no meio do banco traseiro, lágrimas pelas bochechas rosadas e os bracinhos cruzados. Ela riu da figura e voltou os olhos na rua, erguendo os óculos escuros como um arquinho na cabeça, para enxergar a tonalidade correta do ambiente, estava bonito, mas a criança lá atrás ainda a chamava a atenção, resolveu se manifestar:
— Aconteceu algo, Brittany?
— Não, mamãe... – Ela fungou. – Nada.
— Eu sei que está mentindo, B. – A mulher afirmou encarando-a pelo retrovisor. – Olha pra mim... Aconteceu algo na escola, meu amor?
A criança correu para negar, à medida que encarava a mãe pelo pequeno vidro.
— Não adianta mentir pra mim, você não me engana. Vamos... – A adulta avisou, rindo levemente, e em seguida encostou o carro na lateral da rua pela qual passavam e virou-se para trás, pegando os braços da menina, desmanchando aquele cruzamento, e posteriormente segurando uma mão pequenina a sua. – Estamos: só eu e você aqui. Não precisamos contar para o papai se não quiser...
Olhos azuis analisaram os de cor âmbar.
— Tá bom.
— E então?
— Estavam... Estavam me chamando de Susan sem parar hoje e eu não gostei, eles não são meus amigos mais! Aqueles bobos!
— Hum, entendi. É... Eles parecem bem chatos. – Sorriu com o “drama” da pequena, balançando a cabeça suavemente. – E por que você não gostou Brittany?
— Porque meu nome não é Susan, mamãe! É Brittany, com B, R, I...
Começou a soletrar o primeiro nome inteiro, indignada pela própria mãe não entender o grau da situação.
— Ah, sim. Mas, Susan faz parte do seu nome completo querida, então não tem problema nenhum...
— Tem sim!
Ela sorriu com a relutância da garota.
— Você o acha feio, é isso?
— Não sei...
— Sabia que fui eu que o escolhi? – A mulher soltou a mão da criança com cuidado e começou a limpar as lágrimas secas do rosto de Brittany, a mesma negou a pergunta direcionada para ela, enquanto recebia as mãos da mãe no rosto. – E se quer saber, você devia se orgulhar do seu nome todo, principalmente desse, tem toda uma história em volta dele...
— Uma história? – Perguntou com os olhos azuis brilhando, adorava histórias. – É sério?
— É sim mocinha, eu posso te contar se você quiser...
A pequena loira assentiu freneticamente, antes mesmo de a mãe terminar de falar.
— Tudo bem, tudo bem, você venceu! – A mais velha concordou. – Qual foi, a primeira flor que, o papai deu para a mamãe no primeiro encontro deles mesmo? Você lembra?
— Hum... – Ela colocou a mão no queixo pensativa, sua mãe já havia mencionado algo, tinha certeza. – L-li... Li... Lir...
— Lírio?
— Sim, essa aí!
— Ponto! – A mulher disse rindo. – Bom, sem saber, o Robert acertou quais eram as flores preferidas da mamãe, então quando a cegonha te trouxe para nós, nós conversamos sobre muitos, muitos nomes para você, e chegamos a dois vencedores: Brittany e Susan. E olhando muito pra essa sua carinha aí... – Ela apertou a bochecha da filha. – Brittany combinava tanto, tanto, que ficou sendo esse. Mas, nós não podíamos deixar Susan de lado, não... E você sabe por quê?
A loira balançou a cabeça em negativa, encontrava-se vidrada na conversa.
— Porque Susan se deriva de uma palavra no hebraico que significa nada mais nada menos que: Lírio.
— Uau! – Arregalou os olhos inclinando-se para frente. – Significa lírio mesmo, mesmo?!
— É, mesmo, mesmo! Juro de dedinho. – A adulta riu, envolvendo o dedinho de uma de suas mãos a sua. – Legal né? Duvido que seus colegas saibam disso.
— Muito! Essa flor é linda, mamãe...
— Exatamente, assim como você. Minha flor preferida... – Ela suspirou e fez um carinho nos cabelos louros da criança que, eram tão parecidos com o seu. – Então, não fique brava ou magoada por te chamarem de algo tão bonito e que é seu. Só seu, aliás. Duvido que, alguém tenha um nome assim, no mundo todo! Se orgulhe. Ok, senhorita Brittany Susan?
— Brittany Susan Pierce! – A garota corrigiu-a. – Esqueceu o Pierce, mamãe? Não pode...
— Isso, correto! – A mãe gargalhou, abaixando os óculos-pretos sobre olhos âmbar, novamente. – Não, eu não esqueci. Estava te testando... Vamos pra casa agora, pequena Susan?
— Sim, vamos!
Ela sorriu satisfeita para a loirinha e virou-se no banco, para assim, voltar a dirigir. Ligou o veículo, tirando-o dali, não era permitido estacionar pelo perímetro obviamente, ela tinha total consciência, conhecia de cor cada rua. Talvez, a odiada multa não demorasse tanto a chegar à residência dos Pierce, quem sabe. Câmeras de vigilância cercavam a cidade grande por completo, isso era um tanto quanto chato. Dinheiro poderia ser gasto em coisas tão mais úteis do que com aquelas suas multas. Ela tinha até uma lista.
— Mamãe?
— Sim?
— Qual o significado de Wanda, Robert e Brittany?
— Bom... – Wanda fitou-a por entre o retrovisor central, sorriu, era engraçado a pequena achar que ela sabia o significado de todos os nomes. Pensando bem, ela poderia fingir saber, e depois talvez pesquisasse sobre, se desse na telha. É. – Por enquanto, é segredo. Ok? Quem sabe eu te conte um dia, filha... – Ela levantou os óculos apenas para lhe mandar uma piscadela. – Caso você for muito, muito bem, na sua aula de piano, é claro.
E agora...
Brittany despertou num sobressalto, do nada, inclinando o corpo para frente, como se ela, estivesse saindo diretamente de um pesadelo dos ruins. O cinto de segurança, em volta do tronco, segurou-a de bater a cara com tudo na janela à frente. Poderia até quebrar o nariz se acontecesse. Seria meio trágico batê-lo de novo em um mesmo dia, não? Estava respirando alto demais, afobada. Levou a mão direita ao peito esquerdo, em choque. Ela tinha corrido uma maratona e não sabia? Espera aí, o carro estava andando, e ela não estava dirigindo o mesmo. Iria morrer. Tinha certeza que iria. Que bruxaria era aquela? O conversível guiava-se sozinho, piscou com força os olhos.
— Tudo bem com você, Britt-Britt?
— S-Santana... – Ela suspirou ao ouvir a voz e olhou para o lado, percebendo o volante entre os dedos morenos, subiu os olhos azuis e fitou olhos castanhos a encarando periodicamente, esperando algum retorno. – Ah, é... Tudo bem, sim!
A Lopez riu.
— Realmente, acordou do quadragésimo ronco, Piercezinha. Tinha que estar bem mesmo...
— Hã?! Eu não ronco! Para com isso, San.
— O quê? Você não sabe?! Pois fique sabendo então: o que eu escutei agora pouco foi triste. – Fingiu chateação na voz. – Muito triste. Não superarei nunca esse trauma que me fez passar!
— Santana você é tão, tão chata que...
— Eu sei, eu sei Brittany... – Ela gargalhou. – Estou brincando! Você fica muda dormindo, perdão.
— Que bom!
— É que eu não resisto...
— Percebi.
A morena revirou os olhos.
— Ai, ai... Falando sério agora, você tá estranha. O que aconteceu? Teve um pesadelo?
— É... Acho que sim, mas estou bem... Onde nós estamos?
A Lopez estranhou o tom de voz da loira, mas preferiu não dizer nada, continuou com os olhos na direção.
— Perto de chegar ao tal restaurante.
— Estamos? – Ela se desdobrou e assistiu a rua, mexeu nos fios loiros e espreguiçou-se. – Que bom, demorou bastante.
— Demorou bastante? – Santana repetiu entre risadas. – Você ficou aí dormindo, sua folgada...
— Pra mim pareceu uma eternidade, Sant.— A líder de torcida provocou. – Você pegou o caminho mais longo, é? No aplicativo diziam que demorava no máximo uns quarenta e cinco minutos para chegar nessa cidade.
— Sem trânsito, né?! – Rebateu debochadamente. – E sim, peguei o caminho mais longo e mesmo assim, dirijo mais rápido que você, Britt. Acredita nisso? Será que algum dia um milagre acontecerá?
Brittany riu e deu de ombros, dando-se por vencida. Notou o silêncio dentro do veículo e estranhou.
— Você desligou o rádio?
— Sim, desliguei. Você dormiu Brittany, e aí meio que acabou a empolgação momentânea de cantar.
— Ah, sim. Entendi... – Riu e olhou para o teto coberto. – Você podia ter abaixado à capota se quisesse, sabia? Não estamos em Rosefield.
— Eu já abaixei, levantei, acelerei, até garoou e você dormindo do lado perdeu tudo.
— Sério?! – Perguntou preocupada, alcançou seu celular dentro do porta-luvas, olhando para o horário, praticamente duas horas de viagem. – Estamos indo para o restaurante mesmo ou você mudou a rota, e estamos fugindo, Sant? Ou melhor, está me sequestrando? Eu não permiti, então tecnicamente...
— Não, eu só aumentei um pouco o caminho, digamos assim... E aproveitei o carro da Barbie aqui, contornando a cidade toda, sua neurótica.— Ela riu. – Já que, pra quem estava com “tanta fome” assim, você conseguiu até que dormir bem de boa, né coração.
A Pierce ruborizou, não havia se acostumado de modo nenhum ainda, com a Lopez a chamando de “coração”. Isso sempre despertava batidas desesperadas no seu coração-bobo, e ela tinha que pensar em outra coisa para não pirar. Vai ver a outra nem percebia isso. E nossa... Como Brittany ousara dormir naquele banco de passageiro ao lado da Lopez? Sabendo que aquele dia poderia ser apenas um miserável sonho feliz de sua mente fértil. O dia que Santana Lopez a deu passe livre para beijá-la. Não conseguia acreditar ainda, estava só esperando a ficha cair. Entretanto, transbordava euforia por saber e ter certeza que aquilo era real, tão real que até assustava-a. Não voltar para Rosefield seria ótimo. E francamente, como Santana era linda, os cabelos negros voando para trás com a corrente de ar que escorregava da janela era encantador de admirar.
— Brittany?
— O-oi? – Piscou os olhos azuis para molhá-los, talvez tivesse piscado pouco. – Desculpa.
— Estava no mundo da lua, é? – Santana questionou aos risos, fitando ela rapidamente. – Que foi?
— Estava só pensando.
— No que?
Olhos castanhos voltaram ao semáforo à frente, parou o carro um momento.
— Em você... – A loira deixou escapar e a morena sentiu as bochechas queimarem escutando a pequena frase, os pelinhos dos braços arrepiaram ligeiramente, e Brittany correu para fazer algo a respeito de sua “deslizada”. – Sobre o que vai pedir no restaurante e se vai... Quer dizer, se nós vamos fazer jogos... Sabe?
— Ah, sim. Nós podíamos deixar isso pra hora que chegarmos lá, né. Acho melhor.
— Sim, melhor mesmo.
— Nossa... – A Lopez riu, analisando a cidadezinha, fez uma careta. – Eu achava que Rosefield era caipira, mas olha isso, Britt. Eles superaram, com certeza. Precisam de um prêmio!
— É. – Ela riu. – Fazer o que...
— Não tem nada de dois andares aqui, olha! Como isso é possível?!
— Não? – Brittany olhou para os lados, procurando algo, mas não encontrou, e a duvida continuou a infernizando. – Tem certeza, Santana?
— Não. Mas, quem liga? – Deu de ombros, e entrou numa rua. – Será que nós vamos ser assaltadas hoje?
— Por quê? Você está com medo?
— Eu não. Você que devia ter, o conversível é seu... Incrível! Que lugar “bonito” esse que seus amigos te mandaram, dá até vontade de chorar.
A loira sorriu com a maldade das palavras da latina, e preferiu não dizer nada, apenas esperar que chegassem à rua certa.
(...)
— Chegamos. – Santana pronunciou, ao terminar de manobrar o conversível prata num vazio, em frente ao estabelecimento. Ela desceu, dando a volta pela parte frontal do carro, até chegar ao outro lado da calçada onde Brittany já se localizava em pé, entregou-a a chave do veículo e olhou para frente, mãos na cintura. – É isso aí?
— Acho que sim... – Pegou o celular e confirmou o nome e a localização no GPS. – É sim.
A morena não se aguentou e começou a rir, Brittany arqueou uma sobrancelha.
— O que foi?
— “O que foi”, Britt? Olha esse monte de letreiro “descolado” pisca-pisca nos vidros. – Apontou e começou a lê-los. – “Aberto, três vezes... Café, duas... Restaurante, duas, três... Muito bom... Sensacional... Promoção...” parece um bar meia boca, até... – Comentou. – “Um verdadeiro lar longe de casa” ah é? Que convicção a desse povo, mas eu duvido que seja verdade. – Se divertiu com as coisas que achava na fachada do restaurante, e andou dando pulinhos. – “Não aceitamos cheque e nem fiado” ah, sim. O que tá escrito naquele papel ali...? – Espreitou os olhos castanhos. – “É permitido fumar”...
— O que?! – Brittany perguntou quase aos gritos, grudou na morena, e começou a procurar. – Eles permitem o que?
— Fumar...
A boca da loira quase despencou da boca.
— Tá, legal! – Pegou a mão da outra e puxou-a consigo. – Chega... Desse jeito não vamos entrar nunca. Para de zoar tudo, por favor...
— Ora, mas não estou zoando nada, Britt-Britt.— Santana riu, enquanto passavam pela entrada do local, e Brittany tentando não pensar na possibilidade de alguém estar fumando enquanto ela enchia a barriga de comida, isso se a comida fosse boa. Deus, a comida tinha que ser boa, seu estômago mandava gritos de socorro do abdômen e Quinn dissera ser boa, ela era uma boa amiga, Santana voltou a falar, quebrando seus pensamentos. – Eu frequentava lugares bem parecidos em Lima, só estava relembrando os velhos tempos, só isso.
— Sei... – Ela olhou debochadamente para a Lopez e elas soltaram as mãos observando o pequeno ambiente, havia um extenso balcão de madeira em linha reta com banquinhos vermelhos altos, para comer rapidamente. Do outro lado do corretor mesas castanhas com assentos “sofazinhos” (bem cara de lanchonete) em frente, bom, era uma lanchonete, isso explicava tudo. Existiam alguns quadros de florestas e carros em volta pendurados, luzes amarelas no teto enfileiradas em cima das mesas, paredes brancas, piso numa tonalidade de madeira, até que era aconchegante. – Vamos sentar?
Brittany olhou para o lado quando não obteve resposta e Santana havia desaparecido. Ela começou a se virar procurando a outra garota, até sentir um toque leve nas suas costas e dar um pulinho, temendo quem poderia ser.
— Calma, sou eu. – A Lopez avisou sorridente, entrando em seu campo de visão. – Eles têm sabonete líquido no banheiro, acho que não vamos morrer tão cedo de intoxicação alimentar ou coisa do tipo...
— O que isso tem a ver? E, espera... Você já foi até o banheiro e voltou? Como eu não vi?
— É, estava checando a região, nunca se sabe. E é claro que não me viu. Você se desligou de novo! – Ela riu e puxou a outra, para elas sentarem-se à mesa mais próxima. – Você tinha perguntado o que tem a ver o sabonete líquido com a integridade do lugar, né? – A loira assentiu e ela continuou. – Assim, vou explicar... Obrigada. – Santana parou de falar e ergueu os olhos, agradecendo, quando uma mulher trouxe os cardápios para elas, os colocou na mesa e depois saiu, a adolescente rodopiou o papel na superfície. – Bom... Você acha realmente que lanchonetes com sabonetes de tablete são confiáveis? Todo mundo passa a mão nesse tipo de sabão, que nem dinheiro, já o líquido é preciso apertar, sem contato direto com o produto, como luvas. Sem dizer que também tem álcool em gel aqui, o que é bom. Eles devem ser higiênicos na medida do possível.
— Nossa... – A Pierce disse sem reação, sorriu, inclinando o corpo para frente, ficando mais próxima da outra, para encará-la nos olhos. – Você presta mesmo atenção nessas coisas.
— Sim, por que a surpresa? – A morena perguntou usualmente e abriu o menu, mirando os olhos castanhos nos azuis, antes de ler o conteúdo. – Hein, Pierce?
— Nada, nada. – Balançou os braços, fazendo-se de inocente. – Achei que eu fosse: a neurótica.
— Ah, você é coração... – Santana riu e abaixou o olhar, lendo as porções do estabelecimento. – Só que duvido que já tenha vindo num lugar desses antes, por isso não tem noção do que estou te falando agora... E até que esse é bonzinho.
— Saudades do Breadsticks... – A loira deixou escapar, quando bateu os olhos nas enormes porções gordurosas do cardápio que resolvera abrir, Santana riu e ela terminou o pensamento. – Eu queria estar lá.
— Faz ter saudades mesmo, né?
— Sim. – Ela assentiu, fitando os olhos castanhos e em seguida abaixou os olhos azuis para as letras de fonte serifada, para não ficar com a “cara de boba” que Santana reclamara mais cedo e que quase a fez cair um penhasco abaixo. Que nervoso. Ela não devia ficar lembrando-se de quanto era... Maravilhoso ficar perto da outra, toda hora, antes da chantagem. Pensar que seu sábado podia acabar era triste, sua rotina sem Santana perto fisicamente era triste, mas ela tinha que viver o agora, pois estava adorando. – Vamos ter jogos hoje, San?
— Hum... Sabia que você os adorava, Britt-Britt. — Ela esboçou um sorriso brincalhão e mordeu o lábio inferior segurando uma risada, a loira fitou os lábios carnudos, atenta. – Eles vendem porções enormes aqui...
Olhos azuis subiram em direção aos castanho-escuros.
— Eu vi!
— Então, a gente devia pedir uma de bata-frita, uma de nachos e outra de pastéis! – Ela riu. – E aí?
— Não é muito? – Brittany indagou surpresa, não que estivesse reclamando, mas até dava asma pensar no tamanho gigantesco das porções, era possível comer tanto? Aquilo era para verdadeiros estômagos fortes, treinados. – Melhor a gente dividir. Acho que...
— Mas, era pra dividir mesmo, Britt.
— Ah, era? – Ela sorriu tão espontaneamente para a outra que se apavorou. Ela nunca gostara da ideia de dividir comida com ninguém, mas parecia tão certo com a sua paixão... Quer dizer, a Lopez, que não tinha importância. – Tudo bem! E o jogo?
— O jogo? – Santana perguntou rindo, e empurrou um frasco de pimenta sobre a mesa, seus olhos malvados encaravam-no. – Muito simples querida Piercezinha: Comer cada um dos aperitivos com uma gota do nosso velho amigo, o molho de pimenta aqui.
— Sério?
Santana assentiu.
— Isso é golpe baixo, Sant! Você deve gostar de pimenta e... Eu não.
— Isso você vai ter que descobrir. A menos que seja uma fracote, claro.
— Não... – Saíram chamas dos seus olhos. – Eu topo! – Segurou a mão da outra sobre a mesa. – Vou vencer.
— Acho que não, mas você pode tentar. E... – Ela afastou a mão. – Tome cuidado.
(...)
Brittany estava no seu quarto ou quinto copo d’água, lágrima gritante no olhar, entretanto ainda empenhada, apesar da queimação da pimenta na garganta e língua, era divertido observar que depois de alguns nachos, batatas e dois pastéis no total, a Lopez já não se mostrava tão vantajosa, pois claramente começou a “sofrer” também, e aí a Pierce notou seu celular tocar, e largou um nachos semi-mordido na vasilha, atendendo o aparelho.
— Alô?
— Britt... – Ouviu a pessoa fungar do outro lado da linha. – Está ocupada?
— Na verdade sim. – Sorriu encarando Santana em frente a ela naquela mesa, e logo voltou a prestar atenção na respiração da amiga do telefone. – Mas, pode falar Quinn. Tá tudo bem?
— Eu e o Finn terminamos de verdade, eu acho.
— Sério?! – Esbugalhou os olhos, fazia bastante tempo até. – Por quê?
Santana se interrogou sozinha, por um segundo, ao perceber a reação da outra. O que estaria Fabray falando para a loira? Ela queria saber. Gesticulou um “O que aconteceu?” com a boca muda para a Pierce, sem demora.
— Longa história, Britt... Onde está?
— Em outra cidade.
— Outra cidade?! Com quem?
— Com a Santana...
A morena levantou de seu lado do assento as pressas e deu a volta na mesa sentando ao lado de Brittany, cansada de ser ignorada, encostou o ouvido do outro lado do telefone, podendo ouvir também a chamada.
— Hã?! Eu ouvi direito mesmo?! Você tá em outra cidade com a Lopez?
— É. Naquele restaurante que... – Ela lembrou-se da amiga acabando de dizer que havia terminado/ou algo do tipo o relacionamento com o Hudson, e parou de falar, mudando a direção de sua frase. – Um restaurante aí, que tem batatas legais...
Santana riu da “mudança” de direção dada por Brittany, e se concentrou para ouvir a voz de Quinn.
— Uau, vocês nem vivem mais grudadas e ainda sim vivem. Como pode isso? – Riu lacrimosa. – Eu precisava de você aqui hoje.
— Desculpa...
— Eu posso falar com ela? – A ex-líder de torcida perguntou a Brittany e a mesma concordou entregando-a o celular, e colando a orelha do lado para ouvi-las. – Oi Barbie, tudo bem?
— Não, eu estava falando com a Britt, Lopez. – Respondeu sem ânimo. – Você pode passar pra ela de volta, por favor? Não quero brigar.
— Não vou passar. E também não quero brigar. – Gargalhou. – Estou com uma fila na sua frente já, querida. Enfim, qual seria o próximo pedido, Fabray? Um que eu faça.
— Eu te odeio.
— Eu também te odeio, acredite. Mas, vamos relevar Quinnie. Agora é a parte que você me fala o porquê está com voz de choro no celular.
— Aff, não te interessa!
— Interessa sim.
— Eu não vou falar... Não agora... Diga pra Britt me ligar depois, ok? Até, Santana.
E assim ela desligou. A morena devolveu o celular para a garota ao lado, um pouco ponderativa sobre tudo, e arqueou a sobrancelha.
— O que aconteceu, Brittany?
— Acho que ela e o Finn terminaram.
— Então, por que ela está chorando? Devia estar pulando de felicidade.
— Essa é a quarta vez, eu acho. – A loira respondeu despreocupada. – Eles vão voltar de novo.
— Quarta vez? Ela teve a burrice de repetir um erro três vezes? Será que ela caiu na real agora?
— Não fala assim.
— Mas, é verdade Britt-Britt!
— Ah, não sei... É a primeira vez que eles terminam desde as férias.
— Não deixa de ser ruim. – Santana afirmou e alcançou a lata de coca-cola na mesa, bebendo pelo canudinho. – Você acha que a gente consegue terminar de comer as porções?
— Não sei, mas eu ganhei.
— Hã? – A menina virou-se para o lado rindo e empurrou a outra com o ombro. – Não mesmo, fui eu.
— Está cega Santana? – Brittany perguntou sorridente. – Meu lado está bem mais vazio.
— Ah, sim. É porque você...
Elas foram interrompidas quando dois caras estranhos sentaram no assento frontal.
— As moças estão desacompanhadas? – Um deles questionou, e depois passou a mão no cabelo, sorrindo maliciosamente, elas ficaram caladas. – Eu e o meu amigo achamos que...
— Nós por acaso parecemos desacompanhadas “rapazes”? – Brittany devolveu uma pergunta irritada, levantou do banco e pegou uma mão da morena, deveriam sair já que, os moços estavam embriagados e com caras nada amigáveis. – Melhor a gente ir embora.
— Concordo.
Santana acompanhou-a até o caixa onde pagaram a conta, e os caras começaram a cercá-las até a saída do local.
— Vão tão cedo mesmo meninas? – O outro homem indagou, aproximando-se. – A noite é uma criança, e nós não temos a mente fechada não.
A Lopez revirou os olhos. Era esse tipo de coisa que ela queria evitar. As garotas entraram no veículo num salto, e logo trancaram as portas, os homens deram de ombros e saíram de frente do conversível-coberto como verdadeiras tartarugas, então Santana abaixou o vidro.
— Minha amiga é doida! Ela vai atropelar vocês, hijos de puta! Andem!
— Eu o que? – Brittany virou para o lado, confusa, e recebeu um “shh”, a latina logo apertou a buzina. — Sant...
— Ah é?! Passa por cima então, porra! – O homem bêbado bateu no peito, enquanto o outro já se encontrava dentro da lanchonete de volta. – Duvido que essa loirinha atropele alguém!
— É. Ela não atropela mesmo! Mas, eu sim! – Arqueou as sobrancelhas despretensiosamente, irada. – ¡Escucha! ¡Soy de Lima Heights Adjacent y yo tengo orgullo! ¿Sabes lo que pasa en Lima Heights Adjacent? ¡Cosas malas!
Brittany fitou-a admirada, o que estaria falando tão explosivamente em Espanhol? Devia ser ruim.
— O que?! – O homem gargalhou. – Sua demônia, vai à merda!
— Você não viu nada! – Gritou para fora da janela e jogou a perna para o espaço do motorista, pisando no acelerador, em seguida. – Sai da frente!
— Santana! – Brittany esperneou assustada quando percebeu o conversível acelerar e desviou do cara girando o volante como um raio, esbarrando levemente o veículo num pedaço de roupa do mesmo, porém lá ficou ele, "são", salvo e bêbado para trás, ainda bem. – Você tá louca?!
A loira permaneceu dirigindo.
— Eu não... – Cruzou os braços. – Eles estavam me incomodando. Você viu!
— Eu sei! Mas, não podemos atropelar as pessoas assim, só por serem chatas! É meio extremo...
— Não é uma má ideia, a gente nem mora aqui, Pierce.
— Você precisa se controlar.
— É... Vamos ficar em silêncio até chegarmos na porcaria de Rosefield. E vê se enrola pra chegar, por favor.
A líder olhou para o lado, percebendo a irritação da garota, entendeu.
— Ok.
(...)
Depois de exatamente uma hora e meia “enrolando” a mais, as adolescentes enfim chegaram, através do conversível prata, na cidade. Havia acabado de escurecer o céu nublado, Brittany estacionou em frente à residência dos Lopez, não sabendo muito bem como despedir-se da outra, havia adorado o dia delas, menos o silêncio estranho que se instalou durante a volta de ambas para a cidadezinha, sem dizer dos caras chatos cercando.
— Tchau...? – A loira disse num tom de indagação, esperando Santana dizer algo, ou sei lá, então, a morena virou-se pra ela calada, as janelas do carro quase integralmente fechadas, e puxou a raiz de seu pescoço aproximando seus lábios de maneira perspicaz, beijou-a calmamente, e com o tempo elas separaram-se. – Tá tudo bem, San?
— Com você sim, Britt. – Sorriu sem graça abrindo os olhos, deu um último selinho acentuado na outra antes de descer do carro, e voltou à janela. – Eu quero te ver amanhã.
Brittany assentiu, sem pensar.
— Só preciso ver...
— Não importa o horário, Brittany.
— Ok, Santana. Tá marcado, então!
— Legal... – Olhou para a calçada, deu uns passos para trás, acenando. – Até.
— Até!
Ela não queria ir para sua casa. Não. Mas, acabou se rendendo a ir em direção as luzes acesas da sala de estar, Cesar devia estar lá assistindo algo na televisão como rotineiramente, antes de ir para o plantão, e Maribel devia estar do lado, ou no quarto, ou talvez com uma das vizinhas falando altamente dentro do quarto, e sua avó devia estar junto, falando sobre seu futuro irmão, ou dormindo na sua adorável casa perto do Breadsticks, não importava, Santana odiava entrar em sua “casa” independente do que estivesse rolando.
(...)
Brittany chegou a sua residência, pensando na Lopez e em tudo o que aconteceu no seu dia inteirinho. Um roteiro correu por sua cabeça. E ela, passou reto pela sala vazia, escadas e corredores, até chegar ao local que a interessava, seu quarto.
Trancou-o.
A adolescente caminhou sem pressa pelo chão, descalçando os seus tênis, incerta, deixou-os pelo caminho, assim como as meias, agora estava descalça, pés nus. Brittany Susan Pierce estava olhando-se no espelho do armário, enquanto dava aqueles seus passinhos de bailarina, suaves no carpete. Por fim, abriu sua gaveta de roupas, a primeira de todas, empurrando todas as peças presentes para o lado, como se estivesse cavando o tecido com as mãos, até encontrar uma foto. Aquela foto deveria ser simples, comum, normal.
Encarou-a, com o coração aos pedaços.
Pensou em pegá-la na mão, e ficar olhando para ela. Todavia, foi incapaz disso. Ela jogou as roupas sobre a fotografia de volta, e bateu a gaveta com força, sentindo os olhos tremerem.
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