"Se o mundo te machucar um dia, então ele está procurando por alguém que te faça feliz[...]"

—Autor desconhecido-

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Fevereiro de 1979: presente.

Memórias antigas apareciam em minha cabeça, me fazendo sufocar a cada rodopio que dava nessa dança.

Meus músculos estavam doendo e apenas queria me sentar, para beber um pouco de água. Não queria ver essas pessoas, ou olhar para esse ser que me conduzia nesse salão.

Quero sair desse lugar e tentar colocar tudo no lugar. Colocar em ordem, que fui abusada e estou sofrendo desde então.

Esse homem, Antonin Dolohov, que me conduzia em uma dança espetacular no salão do Lorde das Trevas, me dava ânsia.

Antonin, era a pessoa mais nojenta que poderia ter colocado em minha vida e ter me apaixonado durante a escola.

Mas não posso deixar transparecer que não estou sendo mais induzida pela Amortentia, mas que continuo sendo apenas a boba e idiota apaixonada, que pensa que sou.

E que com todo o meu ser, ainda amava esse homem que apertava minha cintura com agressividade.

— Sorria. — Falou entredentes. _ O Lorde está olhando. — Apenas engoli em seco e continuei com a minha farsa.

Não sei o motivo de ter recobrado a consciência justo neste baile, mas posso dizer que agradecia imensamente.

Estaria livre dessas mãos que me seguravam com uma possessividade ameaçadora.

Poderia dizer para os duendes me ajudarem acabar com esse casamento, afinal, sou amiga deles e eles me devem favores.

Entretanto, apenas preciso sorrir e continuar com essa dança que não acabava, mas que meus pés pediam misericórdia.

— Lestrange está olhando. — Bas... _ Tiny, me diga. — Apertou ainda mais minha cintura, me fazendo gemer baixinho. _ Quem você ama? — Meu coração gelou e minha garganta queria se fechar.

— Anty, que pergunta é essa? — Tentei ficar emburrada, como uma garota de minha idade. _ Amo você, afinal, você é meu marido e foi você quem escolhi amar. — Beijei seu queixo.

Sinto uma sensação em meu peito, uma dor aguda se alastrando por toda a minha alma.

Queria virar meu rosto e ver Rabastan com os meus novos olhos, e não os da poção.

Como ele deveria estar? Será que sua barba cresceu ou seus cabelos estavam caindo em seus olhos como antigamente?

Seus olhos continuam verdes e me observava com carinho e amor? Sua voz já saiu da rouquidão da puberdade?

Eram essas perguntas que me fazia a cada passo neste salão.

A música terminou e Antonin continuou me tendo em sua posse, mas meu sorriso já estava em meu rosto e meu olhar, havia mudado.

Posso imaginar que essa pessoa era apenas Rabastan Lestrange, a pessoa que passei amar.

— Vá se sentar, preciso conversar certas coisas com o Lorde. — Apertou meu queixo. _ Deveria ter vindo com um vestido melhor. — Prendi minha respiração, tentando não transparecer a minha raiva.

— Anty, na próxima estarei belíssima. — Para acabar com sua vida. _ Vou me sentar, meus pés estão doendo com esses saltos.

Olhei para baixo, vendo o salto com safiras amarelas e fico tentando não sentir dor.

Mas era impossível, se estivesse em minha razão normal, saberia que isso iria doer.

Paro de olhar os meus acessórios, que eram apenas para serem vistos por essas famílias puras, afinal, sou apenas um enfeite hoje.

Porém, um dia não serei e virei um desses bailes vestindo algo melhor e confortável.

— O que está esperando para ir embora? — Sua morte. _ Vá, e não quero que você converse com Rabastan, escutou, Tiny?

Observei seu rosto, na época ele era a pessoa mais linda que já havia visto em minha vida.

Era um dos Sonserinos que tanto admirava, mas que virou alguém sedento por dinheiro.

Antonin foi meu primeiro amor, um amor irreal e traiçoeiro, como agora, que ele não vai atrás do Lorde e sim, de sua amante.

Elfos eram fofoqueiros quando sabiam que uma pessoa não iria ligar, mesmo se dissesse que iria morrer.

Bom, mesmo que Antonin saísse desse salão por uma das portas laterais – o que ele vai fazer – meu corpo não iria reagir indo atrás dele para confrontá-lo.

Amortentia era uma poção assustadora e que me privou de muitas coisas.

Parei de pensar nisso e continuei sorrindo, como uma bela boneca de ventrículo.

— Meu amor, Rabastan me odeia, por que iria atrás dele se tenho você? — Pisquei, tentando não deixar minha raiva transbordar.

Apertei sua lapela, fazendo que minhas mãos ficassem espalmadas em seu peito.

O anel estava ali, me lembrando que estava presa a esse homem até que me salvasse dessa coisa nojenta.

— Vá, não me faça repetir. — A próxima música iria começar e apenas saio de perto dele.

Caminhando para uma das mesas no fundo do salão.

Poderia muito bem ir à mesa dos Lestrange e cumprimentar minha melhor amiga, ou talvez ter uma conversa interessante com Genevieve.

Entretanto, tudo que faço é me sentar em uma cadeira e olhar para a decoração que estava no centro.

Observando de esguelha o homem que pensei amar e que iria se manter fiel, ir atrás de uma mulher que desconheço o nome ou a aparência.

Apenas continuei pensando em tudo que passei, até meu elfo, que era tão fiel a mim, se foi.

Sou alguém tão estúpida assim? Para ser traída pela pessoa que pensei por anos que realmente amava.

Devo ser alguém tão fácil de controlar que não sei quais palavras devo me descrever nesta situação.

Apenas que posso ser tudo que possam imaginar, mas não abaixarei minha cabeça para continuar nesta situação ultrajante.

Fechei meus olhos, tentando acalmar meu coração, algo que era impossível no momento.

Respirei fundo, lembrando de como conheci aquelas pessoas e de como tudo mudou em menos de sete anos.

Queria voltar a ser uma adolescente e não uma adulta que não reconhece quase dez anos de sua vida.

Sou patética, como pude me deixar ser enganada por todos esses anos? O que estou dizendo? Como poderia vencer Amortentia?

A droga que faz todos ficarem idiotas e apaixonados, sou alguém que recuperou a consciência... Imagina se não conseguisse?

O que iria fazer? Acho que poderia acabar me matando por puro desgosto e não conseguiria olhar para os meus amigos.

Não conseguiria olhar nunca mais para o Bas, a pessoa que passei os últimos meses em Hogwarts apaixonada.

— Senhora Dolohov. — Fui tirada dos meus pensamentos por um elfo. _ Gostaria de comer alguma coisa?

Certo, precisava comer e tentar não sentir o tecido do vestido amarelo me pinicando a cada respiração, ou que estava tão apertado que não conseguiria andar nos próximos dias.

— Por favor. — Minha voz saiu fraca, não foi uma súplica, mas ficou assim.

Era melhor comer aqui, onde sei que não terá poções na comida ou na bebida, poderia comer em paz.

O elfo se foi, levando com ele as minhas lamentações. Não posso ficar me lamentando por algo desse tipo, afinal, já passou e não tenho um vira-tempo para mudar meu passado.

Preciso arcar com as consequências e viver um dia de cada vez.

Olhei para o lado, vendo o olhar penetrante e carinhoso do homem que amava.

Minha pele se arrepiou e meu ar ficou preso nos pulmões, fazendo se tornar doloroso.

Meus lábios se apertaram e queria continuar constatando o quão lindo havia ficado, e quão próximo estava.

Ele parecia mais alto, mesmo estando sentado na mesa de sua família, sua barba que crescia na escola já preenchia seu rosto e o deixava com uma aparência robusta.

E o terno perfeito em seu corpo, já estava ficando desarrumado, ele sempre odiou roupas assim...

Poderia correr e me jogar em seus braços, chorando por tudo que me lembrei até o momento.

Pedindo que me aceitasse e que me salvasse das garras do Antonin, mas tudo que fiz foi virar meu rosto e esperar a comida.

Não quero que um príncipe encantado me salve dos meus problemas, posso resolvê-los sozinhos... Posso mesmo?

Lembro muito bem que tentei fazer isso em Hogwarts, era uma noite e fui dizer ao Antonin que não o amava mais, era uma garota tola com convicções gigantes.

E tudo foi perdido aí, meus ideais, meus sonhos e minha vida.

Talvez, uma pessoa precise largar mão de seu ego para se reerguer novamente, para saber que nem sempre pedir ajuda de terceiros é ruim.

Preciso de ajuda, mas não sei como iniciar o pedido. Não neste momento.

— Aqui. — O elfo apareceu com uma bandeja em mãos. _ Um caldo de camarão. — Colocou na mesa e entregou o talher. _ Espero que goste.

— Obrigada, Dixy. — Funguei.

— Qualquer coisa, me chame. — Concordei e apenas afundei a colher no caldo.

Vendo a consistência e as pequenas e grandes bolhas de óleo, flutuando pela tigela. Parecia apetitoso e os pedaços de camarão, fazia minha barriga roncar.

A minha boca salivou e não perdi tempo com pensamentos, apenas com a comida a minha frente.

As lembranças do momento que não consegui comer em casa apareceu, me fazendo entender o motivo de não estar mais no controle de Antonin.

O que pode ter sido um milagre, já que Antonin era obcecado pelas minhas refeições e não faltava uma se quer. Até que ontem, ele faltou o jantar e não consegui comer durante um dia.

Tive que rir, afinal, deveria agradecer a sua amante por roubar seu tempo e me fazer acordar para a vida.

Apenas que acabarei com sua vida, já que tentou fazer isso comigo. Não sou tão boazinha como aparento, e nunca serei.

Observei o salão grandioso e majestoso, com pessoas em seus belíssimos vestidos de gala, dançando com seus parceiros.

Alguns estavam, como eu, comendo e saboreando a música que tocava, porém, outros tentavam inutilmente ganhar a atenção do Lorde.

Ele era uma pessoa solitária em seu mundo contaminado pela obsessão, talvez não existisse ninguém para completá-lo.

As luzes não eram sombrias como nas reuniões, eram vibrantes e deixava o gostinho de estarmos sonhando.

Cisa preparou um belíssimo baile que infelizmente não posso aproveitar do jeito que quero, mesmo que a pessoa em questão não esteja aqui, existiam olhos e ouvidos por aí.

Mordo um dos camarões, fazendo que uma ânsia de vômito me fizesse largar a colher.

Tentei respirar e olhar para cima, vendo o teto iluminado com velas adornadas, mas a ânsia estava crescendo e fazia meu estômago queimar.

Levantei-me rapidamente, entornando um pouco da comida na toalha e saio dali, sem pedir desculpas pela minha falta de educação.

Agradecia por esse salão ter portas de emergência e uma estava atrás de minha mesa, me fazendo sair correndo, abrindo a porta e me encontrando no corredor.

Os sapatos me faziam tropeçar em meus próprios pés, mas não queria vomitar aqui. Apenas queria achar o banheiro e colocar tudo para fora.

Mas segurar o vômito, enquanto a saliva em minha boca já me fazia desesperar em parar de seguir as velas e continuar correndo, era difícil.

Joguei meus sapatos no corredor, fazendo que o silencioso corredor sofresse uma pequena mudança.

Paro de correr e empurro a porta, indo direto para o vaso, não esquentando a cabeça com a porta destrancada.

Ainda sou uma Dolohov e esposa de um dos piores Comensais do Lorde.

Ninguém seria tão burro em vir atrás de mim...

O cheiro do vômito preencheu minhas narinas, fazendo que meus olhos ardessem. Odiava vomitar e sentir essa sensação exaustiva e deprimente.

Minha cabeça estava doendo e uma tontura estava aparecendo atrás dos meus olhos, me fazendo observar o vaso preenchido.

Era intoxicação alimentar? Ou era a poção saindo do meu corpo? Tanto faz, apenas queria que isso acabasse, mas parecia que tudo que comi no dia seria colocado para fora.

O que era apenas o caldo...

A porta foi aberta e agarro minha coxa, sentindo que não havia varinha ali, onde minha varinha estava?

— Cordeirinho. — Lágrimas deslizaram pelo meu rosto, mas não consegui falar.

Apenas voltei ao que estava fazendo antes dele abrir a porta e invadir meu espaço nojento.

Escutei a porta sendo trancada e Bas se aproximou, segurando meus cabelos com as mãos.

O sinto ao meu lado, tentando segurar meu ombro como se estivesse tentando me consolar, então tudo explodiu.

Meus sentimentos que estava tentando colocar em ordem se tornou algo explosivo e caótico. Meus soluços e fungadas, me fizeram sentir estranha e fora de órbita.

Sua mão apertou meu ombro, fazendo de tudo para dar conforto neste momento estranho.

Não queria vê-lo ainda, queria pelo menos ir ao Gringotts e acabar com meu relacionamento com a família Dolohov.

Então, por quê? Por que quero me agarrar neste homem e chorar todas as minhas queixas?

— Ficará tudo bem. — Beijou o canto do meu olho. _ Quer que eu chame uma das meninas? — Discordei.

— Apenas fique aqui. — Não perdi seu semblante surpreso, mas não queria pensar nisso agora.

— Tudo que a senhora desejar.

Não queria que ele observasse a situação nojenta no vaso, então rapidamente dou descarga, tentando me recompor.

— Melhor? — Discordei.

— Acho que posso colocar meu estômago para fora. — Mesmo sabendo que não vai sair mais nada. _ Mas não sairá nada.

Sua mão soltou meus cabelos e me levantei com sua ajuda, o fazendo me acompanhar até a pia para lavar minha boca e rosto.

A água fria me ajudou a pensar um pouco racionalmente, mas nesse momento não queria pensar muito, apenas queria seguir o fluxo.

Tento colocar isso na cabeça, mas o olhar que me lançava pelo espelho, me queimava e dizia ter muitas perguntas, porém, tinha medo das respostas.

Fecho a torneira e seco meu rosto com a toalha do toalheiro, o banheiro poderia ser individual e espaçoso, mas não existia lugar para fugir.

— Desculpa, não queria que você visse isso. — Discordou e me virou para si, alisando meu rosto.

— Quer que peça ao Sev alguma poção? Talvez ele tenha alguma para enjoo. — Funguei, tentando ser forte com essas palavras.

Ficamos anos sem nos ver ou conversar, e mesmo assim. Ele estava aqui, me amparando.

— Cordeirinho... — Balancei a cabeça, sentindo seus dedos pressionando minha pálpebra, me fazendo fechar o olho.

Mordi meus lábios, tentando controlar minha boca e ações.

— Quer conversar? — Iria discordar novamente, mas concordei. _ Conte-me, como tem estado? — Dopada.

Mas entendi sua intenção, ele queria me fazer esquecer dos acontecimentos de segundos atrás. O que não achava ruim, apenas que estávamos no banheiro.

Olhei para baixo, vendo os meus sapatos em sua mão. Sorri por aquilo e fiquei o observando.

— Obrigada.

— Era o mínimo que podia fazer. — Suspirou. _ Meu irmão não queria que eu viesse. — Riu. _ Mas não posso deixar você assim. — Essa dor no peito estava ficando mais forte.

Girei o anel em meu dedo e o tirei, alisando a marca esbranquiçada. Guardei o anel no bolso do vestido e o homem a minha frente ficou confuso.

— Estava me apertando. — Estava me sufocando. _ Dolphi continua o mesmo. — Concordou, deixando meu rosto em paz. _ O que tem feito nestes anos?

Olhou em volta e percebeu que esse não era um local apropriado, mas não teria nada além desse.

Deixou os meus sapatos no balcão e se encostou nele, cruzando os braços, fazendo que o terno em seus bíceps ficasse apertado.

— Tentando não morrer. — Era uma resposta que abrangia vários tópicos. _ Sinto falta de nossas conversas.

— Também. — Gaguejei. _ Sinto falta de muita coisa. — Meus olhos estavam embaçados. _ Talvez tenha sido melhor assim.

— Não acho. — Estava sério. _ Mas não posso colocar minha opinião em sua cabeça, afinal, é apenas minha opinião.

Não é apenas sua opinião, é a minha e de todos ao meu redor. Por que tudo é tão difícil?

— Onde está...

— Não quero falar disso, não agora. — Respirou fundo e me abraçou. _ O quê...

Minhas palavras ficaram presas em minha garganta, até que o cheiro em seu corpo me fizesse arrepiar.

Terra molhada sempre foi um cheiro tão bom? Ou apenas era por ele ter um cheiro assim?

Levantei meus braços e o abracei, sentindo minhas forças físicas e mentais irem para o espaço. Minhas ideias estavam indo embora e estou quase contando tudo para ele.

Entretanto, apenas aperto seu terno em meus dedos, sentindo quão pequena era em seus braços. Mas estava me sentindo assim, uma pessoa pequena que apenas precisa de tempo.

— Pode chorar. — Beijou o topo da minha cabeça. _ Sei que você quer chorar. — Então fiz o que ele me pediu.