Destino Inevitável
2 Luke Castellan
Notas iniciais
Se arrependimento matasse, não sei se eu já estaria morto. De qualquer modo, em pouco tempo, minha existência acabará e meu único legado será Cronos e umas meras lembranças que se apagarão na mente de pessoas a quem alegrei e a quem feri.
Meus pensamentos se limitam a Thalia e nada mais. Thalia Grace. Meu primeiro amor.
Mas não posso pensar nela sozinho e permitir-me lembrar dos velhos tempos, pois Cronos vê tudo que se passa na minha mente e sente todos meus sentimentos.
Enquanto ele conversava sobre nosso sonho que enfim se concretizaria, eu só conseguia pensar nela e se conseguisse, talvez estaria já em prantos. Porém minha vida passava como um filme em minha consciência, e quando terminava, voltava a repetir como em uma lavagem cerebral, na qual eu estava em transe.
– Seremos os reis, Luke. – sonhou Cronos. – Bem, eu serei o rei. Você nada mais será do que um herói morto. Uma lenda que as pessoas esquecerão. – riu-se.
Já tinha aprendido a ignorar as piadas do Titã, zombando de meu atual sentimentalismo. Para ele, era tudo um filme trágico muitíssimo divertido. E para mim, um sofrimento eterno prestes a terminar no vazio.
Notei a entrada de Morfeu no cômodo, falando sobre a estratégia do inimigo e outras coisas de batalha que antigamente fariam sentido para mim, mas até minhas memórias eram afetadas por Cronos.
Meu corpo levantou da cama e começou a andar em direção a porta a qual o deus dos sonhos tinha trancado ao entrar. Já no outro lado, no corredor Morfeu perguntou com sua voz entorpecente que eu já estava acostumado a ouvir:
– Mestre, estamos prontos para atacar. O senhor vai querer participar da ofensiva?
– Sim, — respondi. – Sim, eu quero. Quero ver até quando Percy Jackson e seu exército de meia dúzia de semideuses evitarão que eu destrua o Olimpo em ruínas.
– Claro mestre. Deseja vestir a armadura? – questionou parando a porta pondo a mão na maçaneta.
– Se é verdade que Jackson também mergulhou no Estige,... – arrepiei-me ao ouvir minha voz gélida responder a pergunta, lembrando-me em fragmentos o acontecimento.
Abrimos a porta da sala onde ficava a armadura feita de ouro e pedras polidas do monte Otris e algo branco e grande caiu na porta fazendo barulho.
– Uma invasora, senhor! – gritou Morfeu alarmado.
– Acalme-se. – ordenou Cronos com o braço esticado para impedir o deus de avançar na “invasora”.
– Lu...Luke... – gaguejou a garota no chão.
Aquela voz. Captou toda minha atenção.
Era o meu anjo. Meu anjo branco: Thalia Grace.
Fitei seu rosto assustado, as mesmas feições de anos atrás.
Simples assim, ela estava ali no chão, assustada, enfurecida, com as lágrimas correndo semelhante a uma cachoeira.
Nunca imaginei que um coração poderia ser quebrado tantas vezes e ainda continuar a viver mergulhado na tristeza. Esse era o meu coração. Perguntei-me o que Thalia fazia no navio quando, extremamente rápido, Morfeu caiu no chão acertado por uma flecha e logo outra ricocheteou em meu ombro duro como aço.
– É só isso que sabe fazer Caçadora? – zombou Cronos enquanto eu processava o que tinha acabado de acontecer.
– Deixe-me falar com Luke. – pediu a filha de Zeus.
Ela viera ali somente para falar comigo. Apesar de todos os meus erros, ela veio atrás de mim. Enquanto eu já tinha desistido, ela não.
E eu sabia que ela não sairia viva, mesmo que fosse uma seguidora de Ártemis.
– Luke Castellan não habita mais este corpo. – mentiu o Titã, fazendo-me sentir muita raiva ao sentir os olhos de Thalia se tornarem vazios. Eu estava aqui! Eu ainda estava aqui! O que ele iria ganhar mentindo a ela?
“Por favor, Senhor. Deixe-me falar com ela.” implorei.
“Deseja falar com seu anjo, filho de Hermes?” debochou.
“Por favor. Depois faça o que quiser comigo.” ofereci. Era muita humilhação, mas eu faria o que fosse preciso para amenizar a dor que eu trouxe a Thalia.
“Você já foi usado até o final, não tem mais serventia, Castellan. Não passa de uma carcaça, agora.” confessou.
– Eu me recuso a acreditar. – insistiu minha menina.
– Que seja. – desdenhou Cronos. – Ache o que quiser. Continue aí, sofrendo por amor enquanto destruímos seus amigos, o Olimpo e tudo o mais que você preza. A decisão de acreditar ou não é sua.
– Eu nunca vou acreditar! Nunca! – berrou Thalia materializando raios que, acho eu atingiam o navio que começou a sacudir. – Luke prometeu a mim e a Annabeth uma família e eu estou aqui para lembra-lo disso! Eu vim buscar o que ele jurou! Nem que eu tenha que acabar com você! Mas eu não vou desistir dele, não importa o que ele escolheu! Eu só tenho que fazê-lo lembrar! – e puxou a espada ao mesmo tempo em que Cronos materializava Modecostas.
O primeiro ataque foi de Thalia cheia de coragem e determinação, porém Cronos fez o tempo desacelerar ao seu redor e então a única saída da filha de Zeus foi recuar para longe do meu ataque. Ela investiu contra meu corpo uma segunda vez, mas acabou sendo arremessada de lado pela aproximação com a foice negra.
– Tem certeza que é isso que você quer? Podemos poupar sua vida se preferir se juntar a nós. Vai poder estar sempre ao lado de seu amado Luke Castellan. – Cronos ofereceu, com sua misericórdia barata.
Acho que preferia que ela se juntasse a nós do que vê-la morrer com um simples movimento da lâmina maldita. Queria que ela se preocupasse em fugir e desistisse logo de mim, pois não suportaria perde-la de novo, ainda que não fosse minha mais.
– Eu não preciso da sua piedade. – rebateu Thalia levantando-se.
– Você que sabe. – disse o Titã dando de ombros e erguendo Mordecostas para o golpe final.
Independente de sua espada estar a postos também, Thalia não teria chance. Cronos desacelerou todo o tempo ao redor dela, deixando-a completamente vulnerável, a um passo da morte.
“Por favor, Senhor, não a mate!” eu implorava, mas ele nem se quer ligava para o que eu dizia, apenas ria com meu desespero. Se eu tivesse o controle de meu próprio corpo estaria chorando a essa altura, ou, na melhor hipótese, estaria salvando meu amor.
Ele começou a descer a arma na direção dela. E eu fazendo de tudo para impedi-lo, tentando retomar o controle de meu próprio corpo, mas era difícil, pois Cronos lutava contra mim pela minha consciência.
Mordecostas descia em câmera lenta, sedenta por sangue e alma.
O menor toque... A alma de Thalia seria sugada... Sua existência...
“Heróis, sempre tão tolos.” Desprezou-nos. “Veja-a morrer, Luke Castellan e sinta o tormento eterno de que ela morreu tentando salvá-lo.”
Não.
– NÃO! – berrei com todas as minhas forças. Como eu podia ser tão estúpido?
Levei as mãos à cabeça, sentindo uma dor excruciante que, acho eu, Cronos sentia também. Cheguei a cair de joelhos e minha visão começava a escurecer, com todas as coisas girando ao meu redor.
– Luke! – ouvi a voz de Thalia gritar seguida pelo tilintar de uma espada caindo no chão. – LUKE! – escutei novamente, mas dessa vez sua voz estava mais longe.
“Seu moleque!” disse o Titã em minha mente. “Vou fazer você sentir agonia até o fim da sua vida miserável, filho de Hermes.” Cronos gritava. Eu não sei o que fiz, mas ele estava sentindo dor. E eu também. Mas senti que ninguém estava no comando absoluto do meu corpo e que essa era a minha chance. Porém eu não conseguia suportar a dor dentro da minha cabeça e eu precisava falar com Thalia rápido.
– Luke! – ouvi-a gritar mais próxima de mim agora. – Luke! – chamou-me, caindo de joelhos na minha frente. — Eu sei que você está me ouvindo, eu sei! Você não pode desistir, Lu! Vai desistir de mim? De nós? Da Annabeth? Você nos prometeu uma família! Esqueceu-se? Eu vim aqui te lembrar, te fazer desistir dessa loucura, por que ainda dá tempo! Eu te perdoo, te perdoo por tudo! Me desculpa por ter me tornado Caçadora, mas eu pensei que tudo isso não tinha volta. Porém, eu vim aqui pra te mostrar que eu não desisti! Eu ainda te amo e eu não vou desistir de você, Luke Castellan!
Todas suas palavras fizeram-me reunir força para abrir meus olhos em busca dos seus.
E, então, eu a vi. Bem na minha frente. Mesmo suja de terra, sangue e suor, ela era linda. Não, ela era perfeita. Eu queria ficar ali a observando por horas. Queria abraça-la e dormir ali mesmo com ela nos meus braços e nunca mais soltá-la. Para que nunca mais chorasse. Nem em mil dicionários de línguas diferentes haveria palavras o suficiente para expressar meus sentimentos. Eu simplesmente amava aquela garota e tinha esquecido isso por anos. Esse esquecimento levou-me a ruína, e em pouco tempo levaria ela também.
– Thalia... – sussurrei com a voz rouca.
– Tudo bem, eu estou aqui. – falou com a certeza de que poderia me proteger de qualquer perigo daqui em diante.
– Thalia... – repeti, as lágrimas começando a drotar de meus olhos. – Me desculpa... Me perdoa... – pedi -, eu achei que você nunca mais voltaria. Eu te amo tanto! Fiquei com tanta raiva dos deuses, de tudo! Não era pra nada disso ter acontecido, você sempre tão valente, e eu um covarde...
– Você não é covarde. – ela retrucou.
– Sou sim. Eu desisti de você, mas você não desistiu de mim. Eu sou uma pessoa horrível, eu... – tentei explicar aos soluços.
– Mas agora está tudo bem. Acabou. – ela garantiu fazendo Cronos rir dentro de mim.
“É uma pena que ela esteja tão esperançosa assim. Nada acabou meu querido Luke. Você vai morrer e vai voltar às cinzas do fogo que um dia brilhou. E a filha de Zeus, vai ter a alma sugada pela minha amada Mordecostas, para apenas se tornar um cadáver podre no fundo do mar.” Ele riu. “Vá enfrente, continue iludindo-a. A agonia dos dois é o meu alimento preferido.”
Cronos estava em silêncio. Sem se manifestar saberia que eu controlaria meu corpo para falar com Thalia e então em algum momento ele nos atrapalharia e quando estivéssemos distraídos ele a atacaria.
Eu sabia seu plano, mas meu desejo de falar com ela era enorme. Meu sofrimento era suavizado pela sua voz, pelo seu carinho. Eu mesmo me iludia para poder vê-la uma última vez. Mas tentei fazê-la ir embora.
– Não. Não acabou. – falei. – Eu estou morrendo. Vou morrer e ser descartado como lixo.
Não era exatamente isso que eu pretendia falar e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa ela me mandou ficar quieto:
– Não fale assim.
– Só saiba que eu nunca esqueci você. – confessei logo de uma vez, tentando suportar a dor, antes que fôssemos separados pelo destino mais uma vez. – Eu nunca me senti tão vazio, tão injustiçado depois que você morreu. Meu tempo está acabando, e eu só queria que você soubesse que eu ainda te amo, para sempre. E lamento muito por ter te feito sofrer. – acrescentei baixando a cabeça e deixando as lágrimas escorrerem.
“Awn.” Debochou Cronos.
Thalia ficou uns instantes em silêncio e perguntei-me no que ela estaria pensando e por que estaria pensando, até que, do nada, ela começou a rir.
Que momento propício para se dar risada, pensei.
– O que...? – comecei, mas fui extremamente interrompido por um beijo. Pelo beijo de uma Caçadora.
Sem nem tentar entender, correspondi seu beijo com todas minhas forças, mas fui limitado pelo meu pouco folego que era manter o controle de meu corpo. Porém, foi o melhor beijo do mundo igual ao de sete anos atrás.
E ao me afastar dela, percebi que voltara a ser um mero espectador.
“Não!” gritei desesperado, mas minha voz não saiu. Ao invés disso, foi a voz do Senhor do Tempo que saiu pela minha boca:
– Isso não é correto para uma Caçadora de Ártemis que jurou renunciar o amor.
Vi seus olhos assustados novamente fitando o meu, mas ela não parecia me enxergar mais, ainda que eu estivesse postado na sua frente.
“Diga adeus a menina, Luke. É falta de educação não se despedir das visitas.” Recomendou meu maldito hóspede.
– Seu amado Luke Castellan se foi, e agora é a sua vez, Caçadora. Mas, infelizmente você não tem mais chance contra mim. – escutei a voz gélida e metálica de Cronos no ambiente, enquanto nos levantávamos e meus braços erguiam a foice negra contra Thalia. – A benção da Lua não brilha mais em você. – enfatizou, descendo Mordecostas para o golpe final, agora definitivo, pois eu tinha perdido o controle e minhas forças eram iguais a nada.
Nem tive tempo para raciocinar o que estava vendo. Imaginei que o tempo devia ter sido acelerado porque Thalia tentou recuar, mas a lâmina tocou seu braço direito e logo em seguida ela já estava no chão. Consegui escutar seu último suspiro e então seus olhos se fecharam.
E os meus continuaram abertos até algumas horas depois.
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