Destino Inesperado
4 Um Homem de Família
Notas iniciais

— Aposto que seu marido nunca lhe contou que já salvou a vida de Ada Wong várias vezes. — Todavia, Claire era imparável e continuou com suas palavras mordazes que vieram como um furacão, pronto para destruir a vida perfeita do casal Kennedy.
— Eu não sei o que você está insinuando. — Angela se sentia irritada com o jeito da mulher que ela via como amiga, mas que agora parecia meio fora de si. — Mas, sugiro que pare com isso!
— Papai, papai... — A discussão acaba interrompida por causa da bagunça das crianças que correm toda alegre para os braços do pai que lhes trouxe presentes.
— Ei, eu também tenho um presente para essa pequena princesa. — Seu guarda-costas o agente Justin Dexter, também havia trazido um presente para a menina.
— Obrigado tio Dex. Ele é meio feio, mas eu gostei.
— Nat! — Leon tentou repreender sua filha se sentindo meio envergonhado. — Sinto muito por isso!
— Tá tudo bem. Ela só foi sincera, o urso é feio mesmo. — Os dois homens riram ao ver a criança avaliando o presente de Dexter. Mas ainda havia mais uma terceira caixa que o seu agente particular lembrou de trazer para agradar uma outra criança em especial. — Eu achei uma coisa que acho que Kevin também vai gostar. — Isso foi o suficiente para deixar o filho de Piers feliz e provocar uma troca de olhar entre o tal guarda-costas e Claire.
— O que é agente Dexter?!
— Abra e você vai descobrir. — O menino então abriu a caixa para encontrar um boné vermelho, com uma bola e uma luva de beisebol do time que eles gostavam.
— E aí, gostou?
— Sim. É maneiro tio! — Em agradecimento, o menino correu e abraçou Dexter alegremente pegando-o de surpresa.
— Papai, podemos acender a velinha e cantar meu Parabéns? — Nat dizia com sua voz infantil.
— Claro, princesa! — Leon nem acreditava que sua pequena Nat estava completando 5 anos, praticamente, o mesmo tempo de casamento que já tinha ao lado de Angie. Ele vem até a sua esposa e lhe cumprimenta com um rápido beijo nos lábios. — Está tudo bem?
— Sim. Vamos cantar o parabéns! — Angela lhe dá um sorriso forçado que deixou Leon desconfiado.
***/ /***
Depois de se livrar dos convidados, de colocar os filhos para dormir e deixar que seus empregados terminassem de arrumar a casa, o casal subiu para o seu quarto para ter algum momento a sós. Os dois estavam tomando banho juntos, mas Angela se sentia cansada e resolveu rejeitar as investidas de Leon.
— Angie, tem alguma coisa acontecendo que você não quer me contar? — Ele a puxou para os seus braços e os dois se encaram.
— Não, querido. Eu vou te esperar na cama. — Ela roçou seus lábios sobre os dele, antes de se desprender de seus braços e se embrulhou em seu roupão felpudo e quentinho.
— Ah, tudo bem. Vou fazer a barba. — Ele enrolou uma toalha em sua cintura e para na frente do espelho.
— Nossa, tudo isso para agradar a senhora Presidente?! — Ela não quis perder a chance de provocar Leon. — Dizem que a senhora Benford é uma mulher difícil de agradar.
Depois da morte de Adam Benford e de toda a verdade vir à tona sobre os atentados terroristas de Tall Oaks e Lanshiang e do escândalo envolvendo o nome de Derek Clifford Simmons; que afetou o próprio governo estadunidense; em 2016 os norte-americanos foram as urnas e elegeram Okoye Evelyn Benford, que se tornou a primeira mulher negra a ser Presidente dos Estados Unidos.
Okoye é a viúva de Adam Benford e lutou, arduamente, para vencer as eleições e, assim, continuar o bom trabalho ético e diplomático de seu marido. Pode-se dizer que a senhora Presidente também é uma mulher de personalidade forte, com um senso de justiça feroz e impassível.
— Ela só está tentando por ordem na casa — Ele terminou de retirar o resto de espuma de barbear, jogou mais um pouco de água sobre o rosto e voltou para se olhar no espelho, vendo a sua face agora impecável e sem pelos. — Sabe aquela reunião secreta que terei amanhã?
— Sim. A reunião com a Presidente e o Secretário de Defesa, não é? — ela grita do quarto.
— Exatamente. Bem, descobrimos que o Ex-Vice-presidente pode ter conspirado com Derek Simmons para assassinar o Adam em 2013. — Ele saiu do banheiro e foi se deitar em sua enorme cama, onde Angela já estava o esperando.
— Ainda bem que a Presidente tem alguém como você para ajudá-la. — Angela murmurou, preguiçosamente, enquanto se aconchegava ao corpo nu de Leon por debaixo do edredom.
Logo, após se casar com Angela, ele havia pedido desligamento por completo de suas funções na Casa Branca para se dedicar a ser apenas um bom pai de família. Tudo mudou há um ano quando Okoye decidiu chamá-lo para ser o novo Conselheiro da Segurança Nacional dos Estados Unidos. Leon tinha sido amigo pessoal de seu marido por vários anos, trabalhou para o Serviço-Secreto americano fazendo tantas missões perigosas por quase 15 anos, ainda chefiou a DSO com muita inteligência e responsabilidade e, sobretudo, tem sido conhecido por ser um sobrevivente nato que conhece a fundo os terrores do bioterrorismo e já salvou tantas vidas.
Foi por esse senso de justiça e por sua excepcional competência, que Kennedy se tornou a melhor opção para assumir um cargo de confiança tão importante como a de um Assessor Sênior da atual Presidente. Além do mais, ele foi responsável por tentar limpar a sujeira deixada por Derek Simmons na Casa Branca e seu nome ganhou notoriedade e respeito pelo mundo a fora, até mesmo entre a maioria dos cidadãos estadunidenses que o veem hoje como um verdadeiro herói nacional.
— Eu não sei. Tenho tentado ser o melhor Conselheiro que posso ser. — Ele acariciou os cabelos dela. — Mas, chega de falar sobre mim… Como foi o seu dia, senhora Kennedy?
— Foi exaustivo. Quase me arrependi de ter dado folga para a babá justamente hoje — ela respondeu, dramaticamente. — Seus filhos são muito peraltas e amam me deixar doida. — Os dois riram, antes dele lhe roubar um beijo intenso. Logo, ele se posicionava sobre ela, deslizando as suas mãos por todo o corpo feminino.
— O que eu posso fazer para cuidar de você, senhora doida... Ai! — Ele a provocou ganhando uma mordida em seu pescoço, sentindo também as pernas femininas longas e macias lhe apertarem forte a sua cintura. — Além de doida ainda parece uma gata selvagem… — Quando a palavra saiu do seu lábio, ele desfez seu sorriso, imediatamente, e parou tenso ao se lembrar de algo que pensava já ter esquecido há muito tempo.
De repente o cenário muda, lhe trazendo algumas lembranças dolorosas:
“Sabe, gata selvagem...” Ele passa a mão ternamente nos cabelos dela. “Eu gostaria de saber quando você faz aniversário?”
“Por quê?” Ela se remexe levantando os olhos para ele. Aqueles olhos amendoados de cor castanho mel.
“Porque você com certeza sabe o meu. Aliás, você sabe tudo sobre mim.”
“Leon Scott Kennedy, 29 anos quase completos. Filho de Sarah Annie Kennedy e Anthony Kennedy. Nascido em 2 de julho de 1977.” Ada diz convencida.
— Viu, eu sabia! Provavelmente até as minhas contas no banco você sabe.” Os dois riem. “Gata selvagem, você sempre consegue me surpreender.” Em seguida, ela o cala com um beijo quente e molhado. Aquele beijo que lhe roubava o fôlego e todo o seu raciocínio.
De repente, aquela lembrança lhe causa um aperto no coração e uma sensação de náusea, que o faz se afastar de Angela e se sentar na beirada da cama.
— Ei Leon, o que foi?! — Sua mulher se ajoelhou atrás dele se sentindo preocupada. — Você parece que ficou tão tenso. Amor, diz alguma coisa?!
— Me desculpa. — Ele se sentiu culpado por estar ali nos braços da sua esposa que ele tanto amava e, de forma abrupta, um detalhe idiota como aquele apelido tão estúpido, o fez pensar em outra mulher. Uma mulher que estava morta e longe do seu coração por muitos anos.
"Droga!" Leon se xingou mentalmente, se sentindo tão mal e triste com aquelas lembranças tão melancólicas.
— Leon, fala comigo! — Angela começa a massagear os ombros do seu marido na tentativa de acalmá-lo.
— Eu acho que preciso de um... remédio para azia. — Ele sai da cama indo até o guarda-roupa e pegando a primeira calça de moletom que encontrou, depois fugiu do quarto, deixando uma mulher insatisfeita na cama.
— Leon, você sabe que é um péssimo mentiroso — ela sussurrou para si, se jogando na cama e olhando para o teto.
***/ /***
Leon desceu as escadas, torcendo para não encontrar com nenhum empregado pelo caminho e foi parar na cozinha onde ficava o armário com algumas bebidas, que eram mais usadas em ocasiões especiais ou quando recebiam visitas, mas ele escolheu quebrar as regras pegando uma garrafa com um nome alemão, abriu-a e virou a bebida de cor caramelo num copo de vidro, bebericando em seguida uma grande quantidade.
Naquele momento, ele só tinha como companhia a sua própria mente perturbada:
"Nossa, que feio bonitão!" Ele podia ouvir a voz dela se fazer presente como um som irritante: "Pensei que havia parado com os velhos hábitos."
"E eu pensei que estaria para sempre livre de você!" Ele bufou, mentalmente, bebendo o resto do copo e virando em seguida mais bebida.
"Ai, essa doeu, bonitão!"
Ele podia imaginá-la ali, parada a alguns metros atrás dele, vestida em algum traje vermelho sexy e fatal, com os braços cruzados na frente do peito e com um sorriso sarcástico desenhados em seus lindos lábios pintados com um batom da cor escarlate. Depois, ficou imaginando qual era a cor exata dos olhos dela.
"Está em dúvida se meus olhos são de tom âmbar ou carmesim? Afinal, qual era o seu favorito?"
"Eu sempre preferi os castanhos mel." Leon não gostava dos olhos carmesins. Eles eram assustadores, o fazia lembrar do T-Veronica e do momento mais frágil e impotente dela. Aqueles carmesins também haviam estado presente nos seus piores pesadelos: "Eu odiava aqueles olhos vermelhos. Eles te faziam parecer um... um monstro!" Ele riu de um jeito amargurado, batendo o copo sobre o balcão.
"Por que está aqui sentado sozinho e bebendo como se quisesse afogar as mágoas?"
Ele podia ouvir o barulho dos saltos do sapato caro dela tilintar pelo chão, enquanto imaginava ela caminhando em sua direção.
"Pensei que você estava feliz."
"E eu estou feliz!" Ele ergueu o copo cheio no ar como se fosse brindar com ela, mas não ousou se virar para encará-la, porque sabia que se o fizesse, o encanto acabaria: "Eu me casei com uma mulher maravilhosa que é uma mãe incrível, uma companheira para todas as horas e uma amante perfeita na cama." Leon queria que suas palavras ferissem o ego de Ada, mesmo ela sendo apenas um fantasma assombrando a sua mente: "Tenho dois filhos saudáveis que são os amores da minha vida, um emprego que me dá uma vida bastante confortável e até luxuosa. Aliás, de luxo você deve entender."
"É. Eu gostava de luxo... quando estava viva." A bela mulher de ascendência chinesa riu de um jeito mórbido, causando um arrepio terrível nele. "Mas, eu estou aqui para falar sobre você. E se você está feliz, então, é porque a minha morte valeu a pena."
— Cala boca! — Ele se sentia com ódio, com muito ódio dela que até se esqueceu que estava sozinho naquela cozinha, discutindo com a sua própria mente conturbada.
"Você morreu porque queria fugir dessa vida. Porque teve uma vida miserável e por isso desejava a morte."
"Eu desejei a morte por muito tempo..." Ele fechou os olhos, enquanto imaginava ela tocando seu ombro e, por um instante, até o cheiro dela parecia pairar no ar: "Mas, na última vez em que nos vimos, bonitão... eu decidi morrer na verdade para te salvar. Foi um ato de amor."
— Para! — Ele reabriu os olhos e percebeu que estava apertando o copo de vidro que estava ainda cheio.
"Ada Wong é incapaz de amar alguém. E você nunca me amou."
"A maior prova de amor, foi eu abrir mão da minha vida, para que você tivesse um futuro feliz com a vida que sempre sonhou, mesmo que não fosse comigo. E quer saber... esse não é o amor genuíno? O amor altruísta que não espera nada em troca?"
A conversa se tornou tão difícil, que ele decidiu beber num gole só aquela bebida alemã, quase se engasgando.
"Mentirosa! Você esperava que eu seguisse em frente?" Isso a fez rir, o que o fez revirar os olhos.
"Concordo. Mas, em minha defesa, acho que tudo valeu a pena. Você disse que está feliz, certo?!"
"E eu estou mesmo. Mas..."
"Mas..."
— Eu queria que você estivesse aqui e fosse feliz também... porque você merecia. — dessa vez ele pronunciou as palavras em alto e bom som, ignorando a possibilidade de alguém real acabar ouvindo-o.
"Eu sei. Sinto muito por isso."
Houve uma breve pausa entre ele e a sua consciência.
"Ah, Droga! Acho que alguém está vindo. É a Claire. Ela parece estar precisando de um ombro amigo. Seja gentil com ela!"
Nesse momento, Leon se virou e o encanto, simplesmente, se quebrou e Ada Wong desapareceu, sendo substituída pela presença muito real de Claire Redfield Nivans, vestida com seu pijama colorido e com suas pantufas engraçadas.
Continua...
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