Notas iniciais
O capítulo começa onde o outro parou.


— Parece que alguém mais perdeu o sono — Claire falou séria percebendo que Leon estava bebendo. — Bebendo a essa hora?! Isso não é um bom sinal. — Seus olhos azul-escuros se estreitaram.

— Só precisava relaxar um pouco… Mas se quiser se juntar a mim, fique a vontade. — Ele se levantou para pegar um outro copo, depois serviu ela com um pouco da bebida. Ambos se sentaram lado a lado e, por um minuto, ficaram em silêncio.

— Eu tenho feito isso todo dia. Sei como é. — Ela hesitou antes de beber um gole da bebida, fazendo uma cara de desgosto.

— Claire, você acabou de admitir que tem bebido todo dia? Isso sim não é um bom sinal! — seu sermão provocou um sorriso de canto nos lábios dela.

— Eu não me referia a bebida. Eu quis dizer sobre brigar com a sua própria mente.

— O quê?!

— Sim, sim. Eu vi você discutindo com sua mente. Eu faço isso também. Só que na minha mente a minha consciência tem a forma do Piers. — Parecia que dividir isso com Leon seria mais fácil.

Leon e Claire se tornaram melhores amigos após o incidente de Raccoon City. Os dois já passaram por altos e baixos, já dividiram momentos bons e ruins, já foram namorados por um curto tempo e, mesmo quando o namoro acabou, eles permaneceram amigos.

Quantas vezes Claire já chorou nos ombros dele? Quantas vezes Leon já chorou nos ombros dela?

A primeira pessoa para quem Claire contou que estava apaixonada por Piers foi para Leon que a incentivou a seguir um namoro firme com o jovem soldado, mesmo que isso não fosse da vontade de seu irmão. E quem teve que convencer Chris a aceitar o namorado entre sua irmã e seu soldado? Sim, foi Kennedy. E quando a bela mulher casou-se, o seu melhor amigo estava lá sendo o seu Padrinho de casamento e, posteriormente, sendo o padrinho de seu filho.

— Então, sobre o que você conversa com o Piers da sua consciência? — Leon riu tentando disfarçar seu próprio nervosismo.

— A gente conversa sobre várias coisas. Piers quer saber como foi o meu dia, saber sobre a Salve-Terra, sobre Kevin. — Claire fez uma pausa só para bebericar mais um pouco da bebida, enrugando o nariz ao sentir o gosto forte do álcool. — Às vezes, ele diz que tenho sido uma péssima mãe...

— Então, ele está errado! Você não é uma péssima mãe. — Leon a interrompeu, colocando sua mão sobre a dela. Ao simples toque dele, seu coração se abalou.

— Na maioria das vezes… eu discuto com ele — ela disse constrangida, afastando sua mão do toque de Leon, antes que a situação saísse do controle. — Nós brigamos por muitas coisas. Piers acha que eu devo seguir em frente, parar de viver no passado e focar no nosso filho. Ele acha que estou excluindo todo mundo da minha vida, inclusive o Christopher.

— Sobre isso... eu concordo com ele. — Leon a interrompeu, mesmo sabendo que isso só provocaria mais a raiva dela. — Viver brigando com o seu irmão, fazendo-o se sentir culpado pela morte do seu marido, não vai trazer Piers de volta.

— Cala boca! Vocês não entendem... Não entendem que quando Piers morreu, uma parte minha também morreu com ele. — Seus olhos se lacrimejaram de novo. — E é difícil não pensar que se ele não tivesse partido para aquela maldita missão para resgatar Chris, talvez... Apenas talvez, Piers ainda estaria vivo. — Ela passou as mãos, furiosamente, sobre sua face, tentando conter suas lágrimas, até que Leon a puxou para um abraço apertado, deixando-a chorar em seu ombro. — Droga! Estou cansada de chorar!

— Eu acho que Piers está certo... Claire, você precisa seguir em frente. Você é linda, é corajosa, uma pessoa tão afetuosa e cheia de amor. — Leon ergueu o queixo dela forçando-a a olhar para seus azuis. — Esse amor que você sempre coloca em tudo o que faz. Seja trabalhando para o Salve-Terra, ajudando os refugiados do bioterrorismo, ou no amor que você compartilha com seus amigos. — Ambos se olharam profundamente, como se tudo ficasse transparente e nítido. — E embora uma parte sua possa ter morrido com Piers, uma parte dele também ficou com você. Kevin está aí vivo, cheio de saúde e é um menino lindo. Mas, se você continuar assim, vai chegar uma hora que você vai perder essa última parte que resta do Piers. É isso que você quer?!

— Não! Eu não quero. Mas, eu não sei como parar isso.

— Bem, senhora Nivans, você já enfrentou tantos inimigos terríveis e grotescos. Já sobreviveu a quase três apocalipses zumbis. — Isso fez ela dar um sorriso. — Você teve coragem de enfrentar até um Wesker sobre-humano.

— Mas, eu perdi aquela luta... Precisei de Christopher pra me salvar.

— Todo mundo precisa de ajuda. Há batalhas que não dá pra vencer sozinho. Além disso, você nunca recuou por medo, sempre continuou lutando por um ideal, como mudar o mundo. Você é uma guerreira que só estava vivendo uma fase difícil. — Ele carinhosamente apertou um dos seus ombros.

— Merda! — ela murmurou, fazendo uma cara de desgosto enquanto tentava impor alguma distância segura entre eles. — Que bebida é essa?

— Não sei. Tem nome alemão. Ganhei de um Ministro no meu aniversário do ano passado.

— Legal! — Ela sorriu ainda tentando se recompor. — Mas e você Leon... por que está aqui bebendo sozinho? Por acaso você e a Angela brigaram? — Ela sabia que estava sendo muito intrusiva.

— Nós não brigamos! — Leon reclamou fechando a cara e se virando para o balcão onde estava seu copo quase vazio. — Eu só perdi o sono. — Ele bem que tentou mentir descaradamente.

— Aposto que não conseguiu dormir por causa da sua consciência pesada. — Ele arqueou as sobrancelhas aflito com o que sua amiga havia lhe dito. Parecia que a Claire sensível e melancólica de minutos atrás, foi substituída por uma versão curiosa, irônica e, talvez, um pouco cruel.

— Caramba! Acho que já bebemos demais por hoje. Vamos pra cama! — De repente ele corou, percebendo como a sua frase poderia insinuar um contexto errado e parecia que Claire percebeu isso também, mas ao contrário de Leon, a mulher mordeu os lábios lhe olhando como se tivesse lhe despindo com seus grandes azul-escuros. Amanhã ela iria culpar a bebida alemã por sua atitude controversa.

— O quê foi que perturbou o seu sono e te fez querer encher a cara? — a pergunta de Claire deixou seu amigo em total choque.

— O quê? Não tem nada me perturbando. — Leon desviou o olhar.

— Ah, Leon… você tá mentindo.

— Acho que esse papo já foi longe demais. — Então, ele se levantou, pegou os dois copos, levou até a pia e os lavou, rapidamente. Depois, guardou a garrafa, decidido a não deixar nenhum rastro à vista.

— Vamos lá, Leon! Não precisa fugir de mim. — Ela se levantou e se colocou na frente dele. — Somos amigos, ou não?

— Claro que somos!

— E amigos de verdade não devem colocar segredos entre eles.

— Mas, entre nós dois nunca houve segredos.

— Claro que já houve. Eu me lembro bem de um segredinho sujo seu que descobri por acaso:

Era agosto de 2006 quando numa noite chuvosa e fria, Claire apareceu de supetão em seu apartamento, desejando a companhia de um amigo para bater um papo descompromissado. Entretanto, ao chegar lá, a irmã de Chris acabou pegando Leon no flagra, dormindo com o inimigo... Quer dizer, dormindo com Ada Wong.

Naquela noite a relação de amizade entre os dois quase acabou de uma forma ruim, porque na mente furiosa de Claire, a espiã secreta era uma mulher manipuladora e assassina que trabalhava para Wesker. Ada na época deixou Leon sozinho para lidar com a amiga histérica enquanto ela fugia, sorrateiramente.

“Eu não posso acreditar que você está transando com essa mulher! Você tem noção do perigo em que está se metendo, Leon?”

“Claire, se acalma!”

“Se descobrirem sobre o seu casinho secreto com a espiã da Umbrella...”

“Ela não trabalha mais para Umbrella!”

“Ah, sim! Ela trabalha exclusivamente para Albert Wesker, o bioterrorista mais procurado do mundo.”

“Chega, Claire! Você não sabe nada sobre ela. Não tem o direito de acusá-la!”

"E se essa mulher não for apenas uma espiã que faz o trabalho sujo para Wesker? E se ela for a própria amante dele que está só te usando pra conseguir informações?”

“Não! Ela não tá me usando! Claire, parece que você se esqueceu que ela salvou as nossas vidas em Raccoon City. Além do mais, o que eu faço da minha vida pessoal, não lhe diz respeito!”

“Tá certo. Mas, eu sou sua amiga. E como amiga, eu tô tentando apenas te ajudar. Se o governo descobrir sobre vocês dois, você pode ser acusado de estar conspirando contra os Estados Unidos. E eles vão te expor como um traidor e sua vida vai virar um inferno.”

Foi exatamente por causa disso, que na mesma época, Leon havia decidido tomar algumas decisões definitivas sobre a relação secreta que tinha com Ada. O agente havia decidido que eles deveriam se assumir como um casal de verdade, sem segredos e sem ficar se escondendo, o que culminou na briga entre os dois amantes. E a descoberta de Claire acabou colaborando para o rompimento definitivo do casal.

— Aposto que você estava pensando na... Ada Wong. — Claire continuou o pressionando.

— Para com isso, Claire! — ele grunhiu irritado, tentando fugir dela e de suas indagações intrusivas — Esqueça isso e vá dormir! — Com isso ele tentou passar por ela e seguir para fora da cozinha.

— Esquecer como... se ela sempre será uma sombra entre nós? — Sua voz amargurada, fez Leon paralisar no limiar da porta.

— Ela está morta, Claire. — Leon se virou para encará-la. — Ada Wong está morta! — Seu peito nu e pálido subia e descia enquanto arfava de raiva.

— Será mesmo que Ada Wong está morta?! — Claire continuou desafiando a ira dele. — Afinal, ela já enganou todo mundo uma vez. O que a impediria de te enganar outra vez, Leon? — Isso foi o estopim para Leon caminhar furioso até ela e segurar os seus braços com firmeza, não deixando espaço para a sua amiga fugir.

— Ada Wong morreu há seis anos em Lanshiang... E eu a vi morrer! — bufou ríspido, sem perceber que havia falado demais. — Não tinha como ela sobreviver, entendeu?! — sua declaração exasperada pegou ambos de surpresa.

— Espera... você acabou de revelar que viu a espiã morrer?! — O atual Conselheiro Nacional foi obrigado a recuar, soltando os braços dela e desviando o olhar, nervosamente. — Mas, eu pensei que... que as únicas testemunhas da morte de Ada Wong, fossem o meu irmão e o Piers. Porém, você acabou de revelar que também estava lá, na hora da morte dela? É isso mesmo? — Não houve resposta, apenas um silêncio pesado. — Isso significa que alguém está mentindo.

— Escuta, Claire... Você mesmo disse que eu sou um péssimo mentiroso. — Os dois se olharam profundamente. — Então, quando digo que ela está morta é porque... ELA ESTÁ MORTA. Ninguém mentiu sobre isso — Leon enfatizou, desejando que sua amiga acreditasse nele e, simplesmente, parasse com o interrogatório.

Claire continuou por um minuto em silêncio, avaliando toda a expressão facial de seu amigo, a procura de algum sinal que mostrasse que ele estava mentindo, mas não conseguiu encontrar nenhuma falha que destruísse a imagem de bom homem de família, correto e fiel às suas convicções.

Talvez, Leon até seja inocente nessa história, mas isso significava que alguém estava acobertando uma mentira. Acobertando as mentiras daquela mulher. E o pior de tudo era que agora ela tinha convicção que esse alguém era seu próprio irmão Chris Redfield. A foto naquele jornal era a prova disso.

Havia um segredo pairando no ar, misturado a uma história mal contada, que cedo ou tarde ela iria descobrir. E, se o seu amigo estava alheio sobre tudo isso, eventualmente, ela compartilharia essa descoberta com Leon.

— Olá! — Eles se assustam com a chegada repentina de Dexter, o guarda-costas de Leon. — Me desculpem, eu não queria assustá-los.

— O que você faz aqui?! — é Claire que questiona de mau humor, encarando Dexter. — Você estava nos espionando?

— É claro que não, senhora! — Dexter se sentiu desconfortável com o olhar raivoso da mulher. — Eu só estava fazendo a última ronda como sempre faço toda a noite quando todos vocês deveriam estar dormindo. Esse é o meu trabalho: garantir que a família Kennedy esteja segura. — A sua resposta era bastante plausível.

— Tudo bem. Já está bastante tarde. Vamos todos dormir. — Leon trocou um olhar com Claire antes de cada um subir para os seus respectivos quartos.

Ao retornar para o seu quarto, Leon encontrou Angela dormindo, profundamente. Ele se deitou ao lado de sua esposa com cuidado para não acordá-la. Seus pensamentos estavam bagunçados, era difícil pegar no sono com a mente assim. E quando fechou seus olhos na tentativa de dormir, um pensamento intrometido ficou se repetindo em sua cabeça:

"Será mesmo que Ada Wong está morta? Afinal, ela já enganou todo mundo uma vez." Logo, a voz de Claire começou a se misturar com o seu próprio subconsciente obscuro:"E se Ada Wong estivesse viva... O que você faria?"

Lanshiang, China

Um Ano Antes...


O Centro de Atendimento a Vítimas do Bioterrorismo (CAVB) foi construída em uma zona rural que ficava a poucas horas do centro de Lanshiang e era protegida pelas montanhas. O lugar era uma fazenda que se transformou numa enorme instituição humanitária e social, inaugurada há um ano, e até ganhou um apelido carinhoso chamado UM LUGAR PARA RECOMEÇAR e, simultaneamente, passou a atender várias pessoas que necessitavam de apoio psicológico e físico, após sobreviverem as guerras biológicas.

O CAVB contava com a colaboração da ONU, da BSAA e de algumas ONGs como Salve-Terra que unificaram as suas forças. Aliás, a BSAA até transformou o enorme centro em sua principal Base Militar na Ásia. E ainda existia os cientistas, médicos e agentes da Shadows trabalhando infiltrados ali secretamente por Trent, que passaram a usar a instituição para fins de pesquisas científicas e para auxiliar a sua própria filha. E falando nela, a ex-espiã foi nomeada como Coordenadora-Chefe.

O nome Li Guimeng; embora fosse desconhecido pela sociedade mundial; sua nomeação teve muita influência de Trent como embaixador e recebeu apoio do próprio governo chinês (já que ela era nascida na China e, atualmente possuía residência fixa ali há mais de um ano). E, durante esse período, Ada concluiu a sua formação em Biomedicina, melhorando bastante o seu currículo. No entanto, havia muito mais de sua experiência que não constava ali naquele currículo...

Parte da sua experiência vinha desde os tempos em que trabalhava como espiã e também observando o trabalho dos pesquisadores, virologistas e médicos da Shadows. Isso a incentivou a querer ir mais longe, especialmente, porque ainda carregava sequelas em seu corpo, por causa dos anos que esteve infectada pelo T-veronica e pelo tempo que ficou em coma. Uma dessas sequelas era que, possivelmente, nunca mais conseguiria pegar em uma arma, pois suas mãos não obedeciam como antes, às vezes ficavam trêmulas, porém o pior ainda era a amnésia.

A maior parte da sua vida não passava de uma enorme lacuna, uma parte da sua história ainda como Ada Wong que ficou perdida, apesar dela às vezes em seus sonhos profundos, vislumbrar alguns flashes de seu passado esquecido: Uma confusão de lembranças aleatórias de criaturas mutantes, de uma versão maligna dela e dos olhos carmesins que pertenciam a um monstro. E, esse monstro no final se transformava nela própria. E, cada vez que essas memórias invadiam o seu sono, a ex-espiã despertava ofegante e assustada com a simples percepção que, um dia houve um vírus correndo em suas veias que quase a matou e que, assim como esses refugiados, Li no final era tão vítima como eles.

— Eu estou com medo. Eu não quero virar um daqueles monstros — dizia um garoto de uns 12 ou 13 anos, depois de ter presenciado a morto dos pais e do irmão após um atentado recente em seu vilarejo no Camboja. O menino havia sido trazido junto com outros sobreviventes, muitos deles estavam feridos e com a possibilidade de estarem infectados com o C-vírus. — Isso vai doer? — O pré-adolescente continuou a questionar com seus olhinhos cheios de medo.

— Eu prometo que será rápido — Ada lhe respondeu com carinho acabando de preparar a dose da vacina que seria injetada no braço dele. — Você pode fechar os olhos se preferir. E pode confiar em mim. — O adolescente fechou os olhos e, em seguida, sentiu uma picada da agulha e o remédio entrar por suas veias, dolorosamente. A sensação foi ruim, mas breve como Ada havia prometido.

De repente, Ada ouviu vozes alteradas e barulhos de tiros causando uma enorme tensão lá fora.

— Droga! Ela está se transformando. Atirem nela! Rápido! Afastem a criança!

— Merda! Ela me mordeu!

— O corpo dela está sofrendo mutação!

— Mamãe, mamãe! — Ada podia ouvir uma criança gritando e chorando no meio da confusão.

— Se afastem! Ela vai explodir! — E, em seguida, houve um estrondo assustando a todos.

Ada e uma enfermeira, que lhe ajudava ali no isolamento, trocaram um olhar de horror.

— Ei, estou apavorado! Por favor, não vai lá! — suplicou o garoto segurando uma de suas mãos.

E, o que dizer naquele momento, para uma criança que tão cedo já perdeu toda a sua família? Uma criança que tão cedo já presenciou os terrores da guerra biológica.

— Você tá seguro aqui. Não tem o que temer. — Ada fez um gesto para que a outra enfermeira se aproximasse para tomar o seu lugar e cuidar do menino. — Eu vou ver o que está acontecendo. Mas, eu prometo que vou voltar para te ver. Você deveria dormir um pouco.

Ada conseguiu sair de dentro do isolamento que ficava a vários quilômetros de distância da Sede da Fazenda. Como o próprio nome já diz, o enorme pavilhão ficava numa área isolada, já que ali eram trazidos os refugiados que poderiam estar infectados. Isso era uma das medidas de segurança: — Separar os POSSÍVEIS INFECTADOS, dos NÃO INFECTADOS.

— O que foi que aconteceu aqui?! — Ada viu um cenário de terror, com sangue e carne espalhados pelo chão e um cheiro horrível. Havia um aglomerado de soldados, voluntários e refugiados no meio da confusão, alguns estavam feridos, outros apenas possuíam uma cara abatida. Primeiramente, ela deu de cara com Sherry Birkin tentando acalmar uma criança que não parava de se debater em seus braços.

— A mãe da menina estava muito ferida e acabou sofrendo algum tipo de mutação. Os soldados tentaram matá-la, mas o corpo se explodiu — respondeu um dos soldados.

A situação só piorava, porque do outro lado se podia ouvir uma discussão entre Chris e Jake Muller (que agora era conhecido apenas como O Soldado Jacob, ou O Novato).

— Você está acostumado a fazer as coisas do jeito que você quer, só que aqui tudo é diferente. Como você vê soldado Jacob, regras foram feitas para serem seguidas, não para serem quebradas. E o protocolo é importante e não um monte de porcaria para você ignorar! — esbravejou o capitão.

— O que você queria que eu fizesse? Que eu abandonasse você lá com uma mulher ferida e uma criança precisando de ajuda? Eu não podia! — O rapaz abria e fechava as mãos em punhos, tentando controlar a sua própria raiva perante aquele impasse. — Eu fiz o que achei que era o certo.

— Você me desobedeceu e ainda colocou em risco mais duas vidas. Agora perdemos mais dois homens, seus companheiros de equipe... Tudo pela sua insubordinação!

— Eles estão discutindo de novo? Por quê? — Ada questionou desanimada, sabendo que aquela briga era apenas mais uma das várias que os dois soldados tinham, desde que Jake chegou para trabalhar ali.

— O capitão está furioso com o novato, porque ele mais uma vez desobedeceu as suas ordens — o soldado dizia ofegante, sentindo a ferida causada pela mordida da mulher infectada, começar a latejar.

Mesmo os dois homens possuindo uma diferença de idade de quase 20 anos, o modo de pensar e agir entre os dois não era tão diferente assim, pois ambos eram donos de uma insuportável petulância.

— Você diz que sou imaturo e egocêntrico, mas é incapaz de olhar para o seu próprio rabo e enxergar os seus próprios defeitos — Jake respondeu teimosamente.

— Olha como você fala comigo, Novato! — O homem mais velho deu um passo ameaçador com um desejo irracional de poder quebrar a cara do filho de Wesker. — Eu ainda sou o seu capitão e você me deve respeito! Enquanto, você estiver aqui, você é obrigado a seguir as minhas ordens, goste ou não.

— Desde que eu cheguei aqui você não tem facilitado a minha vida. — Mas, Jake não parava, o jovem se sentia frustrado e injustiçado pela postura prepotente de seu capitão. — Você usa do seu cargo de superior pra pisar em mim! Você me vê como um fardo! — o rapaz gritou com a voz trêmula, um pouco pelo nervosismo e um pouco pelo ódio.

— Sim. Você tem razão. Você só está aqui porque Trent te enviou para cá. Mas, sinceramente, o seu lugar nunca será aqui. Não no meio dos meus soldados! — Os dois continuaram se enfrentando.

— Eu quero a minha mamãe! — Enquanto isso a criança que não deveria ter mais que uns 5 anos, continuava a chorar copiosamente nos braços de Sherry.

— Ei, eu sinto muito! Não chore! Vai ficar tudo bem! — Sherry exclamava tentando acalmar a menina, ao mesmo tempo em que trocava um olhar consternado com a mulher mais velha. — Você sabe que Jake não fez por mal. Se ele não tivesse retornado pra ajudar Chris, nós teríamos perdido nosso capitão. Ele também foi ferido. — A jovem falou ganhando um olhar compreensivo de Ada.

— Tudo bem. Leva a criança para ser tratada no isolamento. E você... — Ada olhou para o outro soldado ferido. — Vá com Sherry. Eu sei que você já tomou a vacina, mas isso não quer dizer que essa mordida não possa infeccionar.

— Mas, doutora Guimeng... e enquanto a eles? — Ele apontou na direção do veterano e do recruta que continuavam a discutir sem cessar, ignorando os apelos dos outros soldados que tentavam apaziguar a situação.

— Não se preocupe... Eu vou cuidar deles. — Se havia alguém que podia bater de frente de igual para igual com Chris Redfield, era Ela.

— Então, deixa eu ver se entendi... Eu não sou honrado o suficiente para fazer parte da BSAA, por quê? — Jake trocou um olhar desafiador com Chris. — Seja sincero. — Seu olhar era de aço e contrastava com a postura implacável do veterano. — Você me odeia por que eu te afronto, ou por causa de quem é meu pai? — Chris já estava com a resposta na ponta de sua língua afiada... Entretanto, aquele momento não era o ideal para se tentar resolver esse tipo de questão com a cabeça quente. Além disso, ninguém ali sabia que ele era filho de Albert Wesker. Então, aquela discussão precisava ser parada antes que fosse tarde demais.

— Capitão Redfield, não diga nada que possa se arrepender depois! — Ela parou a um metro deles, mantendo uma postura firme.

— Eu nunca me arrependo das coisas que eu digo! — Chris enfatizou intolerante, sem ousar olhar para ela.

— Mas, tenho quase certeza, que se arrepende das coisas que diz, sempre que está errado. — Todavia, ao ouvir a voz severa dela, seus olhos acabaram sendo atraídos para a mulher, assim como os olhos surpresos do jovem Muller. — E você recruta... deve aprender a respeitar o seu capitão. — Ela alternou seu olhar entre os dois soldados. — Mesmo que o seu capitão seja um cabeça quente e orgulhoso demais para lhe agradecer por ter salvado a… sua bunda teimosa... — Com o comentário ousado dela, Jake soltou um sorriso provocativo, deixando o outro homem com um desejo insano de matar alguém. — Agora volte para o seu alojamento junto com os outros soldados. Amanhã iremos conversar quando todos estiverem descansados e com os pensamentos no lugar.

— Não! — Chris estava decidido que não permitiria que aquela mulher desse a última palavra, afinal, era ele o capitão e não ela. — Estou dispensando Jake das suas funções. — O capitão parecia inflexível em suas decisões.

— O quê?! — Ada e Jake murmuram em uníssono.

— Você tem até amanhã para sair! A partir de agora você não faz parte da equipe. Entendeu?! — E com isto o capitão deu um último olhar feroz se demorando em Ada, antes de seguir para o alojamento e tentar se trancar em seu quarto.

— Que babaca! — Jake exclamou irritado. — Nós dois sabemos o porquê ele me trata assim... Como se eu tivesse culpa das cagadas que meu pai fez. Mas, não é justo! — Os dois começaram a caminhar de volta para a área principal da fazenda, percebendo que a movimentação já começava a diminuir, com as trocas de turnos dos funcionários e com os refugiados se recolhendo para dormir. — Não posso continuar sendo punido pelos atos de um pai que eu nunca conheci e que eu não desejava ter nenhuma ligação de sangue. — Havia um tom tão cheio de mágoa e ódio. — Redfield só se esqueceu... que foi por causa desse MEU SANGUE, que existe a cura. — Eles chegaram a um dos alojamentos onde ficava alguns soldados da BSAA, inclusive Chris.

De repente Jake percebeu que a mulher ao invés de seguir para a casa principal da Fazenda, onde fica a administração e o dormitório dela, acabou desviando para a direção do quarto daquele capitão arrogante.

— Vá descansar. Deixa que eu resolvo o resto. — Ela lhe deu um sorriso de canto e uma piscadela. — Boa noite, recruta! — Jake deu de ombros e seguiu seu próprio caminho.