Destino Esquecido
9 Rendição
– Para onde você está nos levando? – Disse Melissa enquanto cuidava de sua mãe no banco de trás do carro.
– Não se preocupe, chérie! Nós já estamos chegando!
– Este não parece ser o caminho para o hospital, Remy.
– Eu sei que é muito te pedir isto agora, mas por favor, confie em mim! – Remy dizia com um tom preocupado enquanto dirigia apressadamente.
Não demorou muito para que eles chegassem ao misterioso lugar em que, segundo Remy, havia uma pessoa que poderia salvar Belladonna. Eles haviam chegado até a uma casa caindo aos pedaços no subúrbio de Nova Orleans.
– Você ficou louco ?! – Disse Melissa assim que se deu conta de onde estava – Isto aqui definitivamente não é um hospital!
Remy preferiu ignorar a garota. Assim que estacionou o carro, ele desceu apressadamente. Mas quando ele abriu a porta do banco de trás para carregar Belladonna, Melissa interveio, segurando a sua mãe fortemente.
– Quem é essa Lucy Martie, afinal? Se acontecer alguma coisa com a minha mãe, eu nem sei o que eu sou capaz de fazer com você!
– Isto não é hora para ler mentes, petit! Lucy é filha de Tantie Martie, a mulher que me criou e também era uma curandeira. E a Lucy também é!
– Você quer levar a minha mãe a uma curandeira? Você ficou louco mesmo!
– Não subestime o poder das Martie, chérie! Lucy poderá salvar a sua mãe! Por favor, confie em mim!
– E por que eu confiaria? Você, assim como o Gaspar, tem motivos de sobra pra ver a minha mãe morta!
– Eu não sou este tipo de monstro que você pensa que eu sou, Melissa! Por favor... A sua mãe não tem muito tempo! – Remy começou a suplicar. Ouvir as últimas palavras ditas pela filha tinha sido duro demais.
Melissa não queria usar os seus poderes, mas ela não teve escolha. Ela sentiu que Gambit realmente queria salvar a sua mãe. Ele não estaria fazendo isso apenas por ela, mas também pela Belladonna em si – Apesar de toda obsessão e insanidade, Belladonna tinha significado alguma coisa boa na vida de Remy. Aliás, salvar a vida dela poderia aliviar a alma de Remy de alguns de seus pecados passados.
Sendo assim, Melissa finalmente se soltou de sua mãe, e deixou que ela fosse carregada por Remy. Logo, os dois saíram correndo em direção à porta da casa. Remy pediu para que Melissa abrisse a porta sem ao menos tocar a companhia e, imediatamente, ele invadiu a casa, carregando o corpo de sua ex-esposa.
– Lucy! Lucy! – Remy gritava desesperadamente pela casa.
Com aquela gritaria, não demorou muito para que uma mulher alta, negra e magra surgisse assustada pela sala.
– Mas o que está acontecendo? REMY !? Você? O que está fazendo aqui?
– É uma longa história, Lucy! Mas agora precisamos de sua ajuda!
– Mas o que aconteceu? – A mulher encarava o corpo de Belladonna nos braços de Remy.
– Ela foi envenenada! – Melissa passou à frente
– Na verdade ela foi intoxicada por um gás venenoso! – Completou Remy.
– Oh, Jesus! Por favor, me sigam!
Ao ouvir as informações, Lucy realmente ficou preocupada. Sendo assim, Melissa e Remy seguiram a mulher, levando o corpo de Belladonna. Eles foram até a uma grande sala escura, onde havia vários e estranhos artefatos espalhados pelo local. Em seguida, Lucy pediu para que deitassem Belladonna em uma mesa.
– Vocês sabem qual é o veneno? – Perguntou a mulher enquanto fazia uma porção.
– Infelizmente não fazemos a menor idéia! – Respondeu Remy.
– Droga! Eu deveria ter lido a mente de Gaspar para descobrir qual era o veneno!
– Não se preocupe com isso! – A mulher, em seguida, se aproximou do corpo de Belladonna, e abriu a sua boca delicadamente. Lucy pegou um cotonete e, com ele, retirou um pouco de saliva da boca de Belladonna. Só com um olhar, Lucy descobriu a espécie daquele veneno – É o Amatus Arula!
– O que?
– Amatus Arula – Repetiu Lucy – É extraído de uma erva de origem africana. A sua substância é inofensiva quando está em forma líquida, mas é letal quando é transformada em gás. Eu acredito que a porção deste gás não tenha sido muito bem preparada, pois caso o contrário, Belladonna teria morrido em poucos segundos.
– E você pode salvá-la? – Perguntou Melissa com os seus dois olhos azuis carregados de lágrimas.
– Farei o possível...
Em seguida, Remy pediu para que Melissa se afastasse um pouco para que Lucy preparasse o antídoto mais à vontade. A curandeira misturou várias porções e ervas em uma bacia. De repente, ela parou, estendeu as suas mãos em cima da porção e começou a falar um dialeto estranho.
– O que ela está dizendo? – Perguntou Melissa.
– Está preparando o antídoto. Aconselho você não ler a mente dela agora, chérie.
Melissa olhou para o pai com uma expressão intrigada. Ela realmente queria saber o que estava realmente acontecendo. Mas ela preferiu não arriscar a enfrentar o conselho de Remy.
De repente, enquanto a mulher dizia aquelas estranhas palavras, a porção começou a brilhar, e se tornava cada vez mais densa. Os olhos de Melissa se arregalaram ainda mais quando viu aquele curioso fenômeno. No entanto, poucos segundos depois, Lucy parou de falar, e a porção havia se transformado em uma espécie de bolha.
Lucy retirou a bolha de dentro da bacia, e a levou imediatamente até Belladonna. Ela colocou aquele exótico antídoto em cima do busto de Belladonna, e começou a pressioná-lo sobre o corpo, enquanto dizia aquelas palavras estranhas novamente.
– Isso é bruxaria? – Perguntou Melissa enquanto encarava o ritual.
– Digamos que é magia e medicina...
A explicação do pai não foi o suficiente para aliviá-la. Mas, de repente, Melissa percebeu que uma estranha substância roxa saía da pele de Belladonna e entrava na bolha.
– O que é aquilo?
– É o veneno. Lucy está retirando o veneno de dentro de Belladonna.
Melissa continuava observando com uma expressão de impressionada. Mas não demorou muito para que Lucy completasse o processo. Ela tirou a bolha de cima de Belladonna cuidadosamente, e a colocou dentro da bacia. Lá, a bolha estourou, e o veneno foi liberado na bacia.
– Está tudo bem agora. Belladonna está salva! – Disse a mulher enquanto limpava o suor de sua testa.
Melissa, imediatamente, se aproximou do corpo da mãe e segurou a sua mão. Sendo assim, ela pôde perceber que os batimentos cardíacos da mãe estavam voltando ao normal, assim como a sua respiração.
Remy se sentiu aliviado. Se Belladonna não tivesse sobrevivido, ele, por algum motivo, se sentiria culpado. Enquanto Melissa olhava a sua mãe, ele se aproximou de Lucy.
– Muito obrigado, Lucy. Eu não sei como lhe agradecer...
– Disponha, Remy! – Disse a mulher enquanto limpava as suas mãos – Aliás, é bom ver você depois de todo este tempo.
– Ouí! Eu digo mesmo, Lucy. E eu sinto muito por ter me afastado de vocês naquela época...
– A última vez que eu te vi você ainda era um garoto. Você se tornou um belo homem, Remy!
Por incrível que pareça, Remy apenas sorriu timidamente quando recebeu tal elogio. Aquele, definitivamente, não era o momento para galanteios. Em seguida, ele olhou para Melissa, e viu que ela segurava a mão de sua mãe fortemente, enquanto também acariciava os seus cabelos.
– Você não pode fazer mais alguma coisa por ela? – Disse ele ainda encarando a ex-mulher.
– Eu sinto muito, Remy. Mas o que Belladonna tem está distante de qualquer magia ou medicina.
– Eu entendo... Mas de qualquer forma eu lhe agradeço!
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Após os agradecimentos, Remy e Melissa foram embora, mas desta vez levaram Belladonna para a Mansão dos Ladrões, pois com a morte de Gaspar, ainda não era possível prever a atitude dos outros Assassinos.
Chegando à Mansão, todos já sabiam sobre a morte de Gaspar, mas, por alguma razão, a família ainda não tinha recebido nenhuma ameaça dos Assassinos. Assim sendo, Mercy arrumou um quarto para Belladonna, para receber os devidos cuidados. Melissa não saía da beira da cama de sua mãe. Enquanto isso, Remy e Mercy a olhavam do corredor.
– Vocês brigaram feio, não é?
– Como sabe? – Remy ficou surpreso pela adivinhação da cunhada.
– Eu não preciso ler mentes para saber disto, Remy. A sua cara já nos conta tudo!
– Ouí... Eu acho que passei dos limites. Eu matei o Gaspar, e Melissa não aprovou isto...
– Diferente dos outros Assassinos e Ladrões, Melissa não teve nenhum contato com a violência. Belladonna a educou para ser uma dama normal como as outras. Melissa só está apenas assustada com você.
– Mas eu não queria isso... Será que ela vai me perdoar?
– Eu creio que sim. Aliás, além de salvá-la, você também fez um lindo gesto por ela hoje.
– Eu não salvei Belladonna só pela Melissa, Mercy. Apesar dos maus entendidos no passado, eu não poderia deixar Belladonna morrer porque... – Remy fez uma pausa, que parecia que algo incomodava o seu coração – Porque eu não quero ser mais um monstro...
Mercy apenas sorriu para Remy. Pelo visto, o seu cunhado havia tido uma grande evolução. No entanto, sem ambos repararem, Melissa havia saído de perto de Belladonna, e já estava de pé, em frente ao Remy e Mercy.
– Remy...Se você não se importa, eu queria conversar com você agora.
– Claro, chérie!
Sendo assim, Mercy deu licença aos dois para que eles pudessem ter uma séria conversa, mas também de forma tranqüila.
– Remy, primeiramente, eu quero lhe agradecer pelo o que você fez pela minha mãe!
– Não se preocupe com isso, chérie.
– Eu sei que a minha mãe errou feio no passado, mas o que você fez hoje significou muito pra mim!
– Eu teria a salvo de qualquer jeito. A sua mãe foi importante na minha vida.
– Eu sei... E eu também queria te dizer outra coisa...
– E o que é?
– Eu...Eu queria lhe pedir desculpas por ter te dito aquelas coisas hoje mais cedo... – Melissa desviava o olhar.
Remy sorriu levemente. Ele se aproximou da filha, segurou o seu rosto, fazendo-a encarar profundamente para dentro de seus olhos.
– Não se preocupe com isso, petit! Eu devo te pedir desculpas por ter te assustado.
– Você só queria me proteger, mas eu lhe tratei como um lixo!
– Não, você não fez isso. Mas saiba que eu faria tudo àquilo de novo para te proteger, Melissa. Eu te conheci ontem, mas já foi o suficiente para te conhecer, e para gostar de você. Você ainda não quer me chamar de “pai” ou coisas do tipo, mas saiba que eu te dou todo o tempo possível para isso. E também saiba que eu sinto muito orgulho de você, chérie. Je t'aime, Melissa!
Melissa sentiu o seu coração disparar quando ouviu tais palavras. Até então, nenhum homem havia lhe dito “eu te amo”. E agora ela finalmente as ouviu vindas de um homem em que ela poderia confiar. Melissa sorriu e, em seguida, deu um forte abraço em Remy. Este foi o primeiro ato de carinho que ela demonstrou a ele. E Remy, certamente, se sentiu mais seguro.
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Remy, enfim, estava a sós com Belladonna em seu quarto. Ele havia prometido à Melissa que, enquanto ela tomava um banho, não tiraria os olhos de sua mãe para ela. Sendo assim, Remy estava sentado em uma cadeira próxima à cama, enquanto ele observava atentamente a sua ex-mulher. Ele parecia estar longe em seus pensamentos enquanto a encarava. No entanto, ele decidiu quebrar o seu próprio silêncio.
– Sabe... Ás vezes eu fico pensando sobre o que teria acontecido caso o nosso casamento não tivesse sido interrompido. Você provavelmente teria me contado sobre a gravidez após o casamento, e teríamos formado uma família normal...Ou algo parecido. Também penso o que teria acontecido com o clã caso eu tivesse assumido a liderança. Você sempre me disse que eu seria um péssimo líder, e acho que você estava certa...
A conversa era em vão. Belladonna continuava presa em um profundo coma. Remy sorriu, e em seguida, ele se aproximou e segurou uma das mãos dela.
– Eu queria ter sido uma pessoa melhor pra você. Sinto muito por eu não ter te amado de verdade... Acho que eu não merecia ter uma filha tão linda e especial como a Melissa. Apesar de toda a loucura, você fez um bom trabalho. Merci, Belladonna...!
Remy soltou a mão de Belladonna. Mas, de repente, Remy não acreditou no que estava vendo: os dedos de Belladonna estavam se mexendo.
– Belladonna? – Disse ele assustado ao ver a reação da mulher.
Em seguida não demorou muito para que ela começasse a abrir lentamente os seus olhos.
– Melissa! Melissa! Venha cá, depressa! – Gritou ele enquanto observava aquele milagre.
Belladonna, finalmente, se despertou de um coma de dois anos. Remy sorria ao imaginar a felicidade que a sua filha sentiria ao descobrir isso. Após finalmente acordar, Belladonna observava o local, como se estivesse tentando reconhecer. E enfim, os seus olhos caíram sobre Gambit, que estava sorrindo ao seu lado.
– Belladonna! Você acordou! Você nem imagina...
– Quem é você? – Ela o interrompeu.
Remy engoliu seco. Ele se assustou com a pergunta, assim como não ter a entendido.
– Como... Como é?
– Eu te conheço? E que lugar é este? – Perguntou ela novamente enquanto tentava se levantar.
– Bem...Eu...Sou um amigo...
– Amigo? E qual é o seu nome?
Antes que pudesse a responder novamente, Melissa surgiu pela porta, e assim que viu a mãe acordada, correu imediatamente em direção à ela, abraçando-a fortemente enquanto suas lágrimas escorriam pelo rosto.
– Mamãe! Eu senti tanto a sua falta!
Belladonna não compreendia o que estava acontecendo. Era evidente que ela também não se lembrava de sua própria filha. Mas mesmo assim, não recusou o abraço. Enquanto isso, Remy sentia uma sensação estranha. De certa forma, ele se sentiu um pouco decepcionado por Belladonna não ter o reconhecido, mas isto poderia ser uma boa oportunidade para que ambos pudessem consertar as suas infelicidades passadas.
Melissa continuava abraçando a sua mãe. Já Remy decidiu se afastar, e continuou a observar a cena apenas do corredor.
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Enquanto isso, na Mansão Xavier, Kitty estava na cozinha fazendo uma refeição quando foi abordada por Bobby.
– Oi Kitty! Você viu a Vampira? Faz um bom tempo que não a vejo.
– Bem...Na verdade, ela só tem ficado no quarto depois que voltou de Nova Orleans.
– Nossa...! Pelo visto ela e o Gambit discutiram feio desta vez... Espero que ela fique bem.
– Ela costuma sair às vezes para comer alguma coisa... Mas parece que nada tem agradado ela.
– Como assim? – Bobby estranhou o tom de preocupação na fala de Kitty.
– Sei lá, desde que ela chegou de viagem, ela não tem se alimentado direito... Ela sempre joga a comida fora, dizendo que está estragada ou com mau cheiro.
– Ela realmente está muito abalada. Mas espero que ela não fique doente.
– Eu também... Aliás, ela já passou por problemas o suficiente!
– E você acha que o Gambit vai voltar desta vez?
– Eu não sei...
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