Destino Esquecido

6 Laços e obstáculos


Remy havia levado Melissa a uma casa de Jazz na Rua Bourbon – um dos locais mais badalados de Nova Orleans. A garota parecia admirar a música e o ambiente, mas possuía um olhar meio assustado, como se todas aquelas coisas fossem novíssimas para ela.

- Não acredito que você não conhecia uma casa de Jazz – Disse Remy.

- Eu nunca saía de casa quando vinha para cá, e lá na França, onde eu morava, não havia coisas do tipo.

- Eu vou repetir o que já disse: uma garota tão bonita como você não deveria ficar trancada dentro de casa.

- Eu tenho muitas coisas importantes para fazer, Remy – Melissa dizia com determinação – Eu tenho que cuidar da minha mãe e de minhas responsabilidades no clã.

- Mas você não pode se privar a isso. Você tem uma vida para viver.

- Este pensamento explica o fato de você ter abandonado o clã – Disse Melissa com um provocativo, após tomar um gole de seu refrigerante.

Remy não gostou do comentário da filha. Mas, de certa forma, Melissa estava certa (e nem foi preciso que ela lesse a sua mente para concluir isso).

- Ao contrário do que todo mundo diz, eu não costumo fugir de minhas responsabilidades.

- Então é por isso que você se casou com a minha mãe?

- Bem... De certa forma sim... Mas eu aceitei o casamento por livre e espontânea vontade – Remy começou a se sentir pressionado.

- E é por isso que você está aqui? Eu sou apenas uma responsabilidade que tinha sido esquecida?

- Você não é apenas uma responsabilidade! Você é a minha filha! Se eu soubesse antes que você existia, a história seria completamente diferente.

- Acho que “ser esquecida” não pode ser pior do que “não saber da minha existência” – Melissa não poupava em provocações.

- Chérie, eu não estou gostando do rumo desta conversa. Pensei que nós estávamos nos dando bem.

- Está bem! Me desculpe, Remy! – Disse ela após soltar um suspiro – É que estou um pouco nervosa, não é fácil aceitar um desconhecido como pai em poucos instantes.

- Mas eu não sou um desconhecido. Eu sou o seu pai!

- Eu sei! Você pode ser o meu pai biológico, eu posso ter o seu sangue. Mas...

- Mas o que, chérie? – Remy percebeu certo tom de tristeza na pausa da fala da garota.

- Mas não é a mesma coisa quando você não é criado pelo pai... – Além de seu tom de voz, o seu olhar também era triste.

Apesar de não ter o conhecido antes, era evidente que Melissa sentira falta de Remy. Aliás, ela passou a vida inteira sabendo da existência de um pai que nunca havia conhecido, ao contrário da maioria das outras pessoas que eram felizes com suas respectivas famílias.

- Melissa, eu sinto muito! – Disse Remy, após segurar uma das mãos dela – Se eu pudesse mudar o passado, eu o faria por você. Mas eu estou aqui agora para ficar com você, e para te recompensar pela minha falta.

- Sinto muito, Remy – Melissa soltou a sua mão – Mas nada pode recompensar o que eu passei.

Remy definitivamente não sabia mais o que dizer. Sendo assim, os dois ficaram em silêncio e de cabeça baixa em meio a um ambiente festivo. Remy estava sentindo muito pela sua filha, e queria ajudá-la de qualquer forma. No entanto, ela aparentemente não queria colaborar para se auto-ajudar.

- Acho melhor irmos agora – Disse Melissa enquanto já se levantava – Já está ficando tarde.

- Tudo bem... Vamos embora!

Remy e Melissa partiram da casa de Jazz em total silêncio. Era um silêncio assustador. Quem os visse pensava que eles eram um casal que não estava bem, mas nunca um pai e uma filha que acabaram de se conhecer.

Assim que eles chegaram onde o carro estava estacionado, Melissa, de repente, parou, e começou a observar o local com um olhar sério e preocupado.

- Algum problema, chérie? – Disse Remy ao reparar o estranhamento da filha.

Melissa, de imediato, não o respondeu. Apenas continuou observando o local.

- Não... Não é nada – Disse ela após terminar a sua observação.

No entanto, assim que ela se virou, um tiro quase lhe acertou por de trás.

- Cuidado !!! – Gritou Remy.

Melissa correu rapidamente para de trás do carro, e os misteriosos atiradores continuavam atirando sem piedade.

- Não saía daqui! – Disse Remy, enquanto retirava algumas cartas de dentro de seu bolso. Ele imediatamente as energizou, e assim que ele se levantou de trás do carro, as jogou em direção aos atiradores. No entanto, ele não obteve sucesso em sua jogada.

- Não se pode atirar em uma coisa quando você não consegue vê-la! – Disse Melissa nervosamente.

- Isso não é hora para sacarmos, mon petit! Eu não consigo achá-los em lugar algum – Disse Remy enquanto procurava pelos atiradores à frente – Você pelo menos consegue sentir a presença deles?

Melissa fechou os olhos para tentar se concentrar. No entanto, antes que ela conseguisse detectar alguma coisa, eles foram surpreendidos por um barulho de uma arma que vinha detrás deles. Assim que se viraram, Remy e Melissa se depararam com um atirador com o seu rosto coberto.

- Merde!

Já que nesta situação não podiam fazer nada, Remy e Melissa ficaram parados, apenas esperando o próximo ataque. O atirador mirou a sua arma, mas quando ele estava prestes a atirar, seis garras de metal perfuraram as suas costas. O misterioso atirador caiu morto, e por trás dele surgiu ninguém menos que o Wolverine.

- Logan, o que você está fazendo aqui? – Disse Remy que, ao invés de assustado, estava confuso agora.

- Eu te faço a mesma pergunta, cajun.

- Eu nunca imaginei que diria isso, mas é ótimo te ver, mon ami! – Remy se levantou e foi até o Logan para cumprimentá-lo.

- Pena que não posso lhe dizer o mesmo – De repente, os olhos de Logan caíram sobre a Melissa, que se aproximava atrás de Remy – Quem é a garota?

- Bem... Essa é a...

- Remy !? – Uma voz feminina e familiar o interrompeu.

Assim que ouviu o seu nome por aquela voz, Remy se virou imediatamente e se deparou com Vampira indo até ele.

- Vampira!? O que está fazendo aqui?

Antes que Vampira pudesse ao menos chegar próximo a ele, Melissa também se virou, o que fez Vampira recuar.

- Melissa? – Disse ela assim que se deparou com a garota de suas memórias.

- Você sabe quem eu sou?

- Esperem! – Disse Remy que se colocou no caminho entre as duas – Acho que vocês dois estão aqui atrás de respostas. Mas agora eu também preciso de algumas respostas.

- Agora eu tenho idéia do que aconteceu para você ir embora daquele jeito... – Disse Vampira enquanto encarava a garota dos olhos azuis.

- Vampira, nós precisamos conversar!

- Sim, nós precisamos conversar agora! – Disse ela, após voltar o seu olhar ao Remy.

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Enquanto Logan “tomava conta” da Melissa, Remy e Vampira se afastaram deles para que pudessem se entender (ou pelo menos tentar fazer isso).

- Remy, o que aconteceu? Não imagina como eu fiquei preocupada!

- Non, chérie! Acho que eu tenho que fazer as perguntas primeiro!

- O que está dizendo?

- Você sabia que eu tinha uma filha por todo este tempo?

- O quê? – Vampira ficou surpresa com a pergunta e a desconfiança do namorado – Não! Eu não sabia, eu juro!

- Como não? Há dois anos você absorveu as memórias de Belladonna, e tem sonhado com uma garota por todo este tempo, e agora você sabe até o nome dela!

- Sim, eu estava sonhando com as memórias de Belladonna, mas eu não conseguia ver tudo e nem entender direito! Quando eu sonhei que eu estava grávida, na verdade isso era uma lembrança dela! Eu só consegui entender tudo depois que eu achei uma foto da Melissa!

Remy ficou em silêncio, apenas a encarava com um olhar sério. Ele jamais tinha ficado tão nervoso com a Vampira antes.

- Você acha que eu seria egoísta a este ponto? Que eu esconderia a sua própria filha de você?

- Eu não sei... Você escondeu algumas coisas de mim recentemente...

- O quê? – Vampira ficava nervosa cada vez mais – Como o que, por exemplo?

- Essa história de gravidez que você não me contou!

- Você ainda está pensando nisso?

- Não! Mas se você escondeu algo importante assim de mim, quem garante que você não escondeu outras coisas mais importantes? – Remy subiu o seu tom de voz.

- Você está desconfiando de mim? – Vampira se assustou com o comportamento de Remy.

Remy, de repente, deu conta do que tinha dito. Ao ouvir a última pergunta e se deparar com dois olhos cheios de lágrimas, ele percebeu que estava ofendendo a mulher que amava.

- Chérie... Me desculpe! Eu não queria dizer isso...!

- Até parece que você pode dizer alguma coisa sobre segredos, não é? – Vampira se afastou dele.

- Eu sei que eu errei... Eu não devia ter ido embora sem falar com você... Mas eu fiquei confuso, eu agi por impulso...

- Eu entendo, Remy – Vampira finalmente se aproximou dele – Eu também não queria ter estas lembranças em minha cabeça.

- Eu sei! Eu também entendo como os seus poderes são complicados... Você não tem culpa de nada, chérie. Sou eu quem deve pedir desculpas.

- Tudo bem... Mas o que você vai fazer agora?

Ao ouvir as últimas palavras da amada, Remy voltou a ficar tenso. Ele ficou em silêncio e olhou em direção onde estava a Melissa. Ele finalmente se viu na situação que mais temia: ficar entre duas mulheres.

- Remy? – Perguntou Vampira, após notar o estranhamento do namorado.

Remy tinha poucos segundos para refletir e tomar a decisão certa. No entanto, ele acabou fazendo a sua escolha.

- Chérie... Eu acho que eu preciso de um tempo...

- O quê?

- Eu não posso voltar, chérie... Não agora.

- Remy... Você está terminando comigo? – Vampira dizia com uma voz trêmula.

- Não! Não é isso! – Gambit se aproximou e a segurou pelos braços, encarando-a profundamente – Ontem eu descobri que tinha uma filha, e você mesma viu o que aconteceu agora. O alvo deste atentado certamente era ela.

— Remy... – Vampira não sabia mais o que dizer. Ela já estava segurando as suas lágrimas enquanto uma forte fincada incomodava o seu coração.

- Isso não é um fim, chérie...

- Remy... Quando você encontrou a Melissa, você ao menos pensou em voltar para casa?

Um breve silêncio surgiu novamente entre os dois. Esta era uma pergunta que o próprio Remy fizera para si mesmo assim que saiu da mansão, mas até o momento não tinha conseguido a resposta.

- Chérie... – Remy segurou o rosto dela entre as suas mãos – Eu sei que não tenho o direito para te pedir isso, mas você precisa confiar em mim agora. Eu preciso ficar aqui... Eu tenho que proteger a Melissa.

- Remy, eu não quero entrar em seu caminho, mas eu não posso deixar você sozinho aqui!

- Eu prometo que vou ficar bem!

- Você promete que vai voltar?

Remy teve que refletir rápido novamente. Mas ao ver os olhos cheios de lágrimas de sua amada, ele não podia tomar uma decisão contrária.

- Ouí! Eu prometo!

Vampira o abraçou fortemente. Apesar das desconfianças e maus entendidos, Vampira sabia ser compreensiva. O que ela menos queria era ser um obstáculo para a felicidade de seu namorado.

- Eu te amo, Remy!

- Eu também te amo, chérie!

Agora só cabia ao Remy refletir se ele tinha feito a escolha certa.

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Enquanto Remy e Vampira não voltavam, Melissa tinha que se contentar com Wolverine sendo a sua “babá”. Ela estava sentada no banco da frente do carro, e observava atentamente as mãos de Wolverine, onde saíram as letais garras de metal.

“Por que eu sempre tenho que bancar a babá?”, pensou Logan enquanto fumava o seu charuto.

- Eu não preciso de babá. Eu sei me defender muito bem!

- Como é !? – Logan se assustou ao ver que a garota tinha lido os seus pensamentos.

Melissa imediatamente se deu conta do que ela tinha feito e dito sem pensar.

- Aaah... Me desculpe! Eu li a sua mente sem querer.

- Tudo bem. Já estou acostumado com estas coisas – Disse Logan que, em seguida, voltou a fumar o seu charuto.

- Você também é um mutante, não é?

Ao ouvir a pergunta inocente da garota, Logan a encarou com um olhar confuso, já que a resposta era óbvia demais (mas claro que a garota só estava tentando “puxar assunto”).

- Sou.

- E aquele era o seu poder?

- Qual?

- Aquelas coisas afiadas que saíram de sua mão!

- Mais ou menos...

Para sorte de Wolverine (antes que Melissa pudesse elaborar outra pergunta para o seu interrogatório), Remy e Vampira estavam voltando ao local.

- Logan, nós temos que ir agora.

- Ir para onde?

- Para o instituto... – Disse Vampira, após olhar rapidamente para Remy.

- Como assim?

- Remy tem alguns assuntos para resolver aqui...

Não só Wolverine, mas a Melissa também ficou surpresa com a situação.

- Foi bom ver você também, mon ami! – Disse Gambit já abrindo a porta do carro para entrar.

Mas antes que Remy entrasse no carro, Vampira foi até ele. Mas ao se lembrar da presença de Melissa, ela decidiu poupar certa distância.

- Adeus, Remy! – Disse ela com um tom entristecido.

- Isto não é um adeus, chérie – Gambit segurou levemente o rosto dela – É apenas um “até breve!”

Vampira o respondeu com um leve sorriso. Mas quando Remy se inclinou para dar-lhe um beijo de despedida, ela se afastou. Vampira não queria alimentar suas próprias ilusões no momento, e também queria respeitar os sentimentos da Melissa. Remy imaginou o porquê daquela atitude. Já a Melissa, se sentiu incomodada com a situação. Sendo assim, Remy entrou no carro, deu a partida e foi embora em companhia da filha.

- Olha, se você não é louca, então eu não estou entendendo mais nada! – Disse Logan.

- O que foi?

- Você veio até aqui para terminar com aquele traste, é isso?

- Eu e o Remy não terminamos!

- Que pena! Por um minuto eu fiquei contente! – Brincou Logan.

- Remy acabou de conhecer a filha. Ele precisa passar um tempo com ela... – Vampira, em seguida, começou a caminhar.

- Aquela tagarela é a filha dele?

- Sim...! – Vampira estranhou a pergunta.

- Levar a filha em um atentado parece ser muito divertido!

- Ele precisa ficar com ela agora justamente por causa daquele tiroteio.

- Eu estou te achando muito compreensiva! – Disse Logan, que ia andando atrás dela.

- E qual é o problema nisso? Remy nem sabia que a garota existia! Ele ainda está em um estado de choque.

- Aquela garota parece ter a sua idade. Quantos anos ela tem? Uns 20?

- Isso não importa, Logan!

- Tudo bem! O que importa agora é que estamos voltando para casa.

Vampira parou de repente e encarou o amigo com um olhar meio sarcástico.

- E quem disse que estamos voltando para casa?

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Remy e Melissa não falaram nenhuma palavra durante o percurso de volta para a mansão dos Ladrões. Melissa olhava rapidamente para o pai, e conseguia perceber que ele estava longe em seus pensamentos, preocupado com a Vampira.

- Me desculpe!

- O que? – Disse Remy, após se despertar de seus pensamentos.

- Me desculpe por estragar a sua vida...

- Do que você está falando, chérie?

- Você mesmo não viu? Eu destruí o seu relacionamento! – Melissa desviava o olhar.

- Você não fez nada! Além do mais, eu e a Vampira não terminamos.

- Mas eu estou sendo uma pedra no caminho de vocês dois!

- Isto não é verdade! – Remy olhou rapidamente para a sua filha ao lado – Eu estou aqui por conta própria. E eu também prometi que ia ficar com você, lembra?

- Ao contrário do que todo mundo diz, você não costuma fugir de suas responsabilidades, não é Remy LeBeau? – Brincou Melissa.

Remy sorriu. Além dos sacarmos, ele também estava feliz ao ver a filha sorrindo. No entanto, o fato de ter feito a mesma promessa para duas mulheres diferentes ainda o incomodava. Depois disso, não demorou muito para que os dois chegassem à mansão dos ladrões.

- Tem certeza que você não quer eu que te leve até lá? – Disse Remy, assim que estacionou o carro.

- Tem certeza que você quer ser morto? – Brincou Melissa ao ver o pai se oferecendo a ir até o território dos assassinos – Não se preocupe! Já estou acostumada a dirigir por aqui à noite. Só vou me despedir do tio Henri e da tia Mercy agora.

- Te vejo amanhã?

- Eu acho que sim...

Assim que Remy e Melissa entraram na mansão, Mercy foi desesperadamente em direção aos dois, enquanto todos da casa estavam reunidos na sala.

- Graças a Deus vocês estão bem! – Disse Mercy enquanto abraçava fortemente a sobrinha.

- Pelo visto vocês já sabem sobre o que aconteceu na cidade.

- Não só sabemos sobre o atentado como também recebemos isso – Disse Henri, que entregou uma carta ao Remy.

Remy, com um olhar preocupado, pegou a carta e a abriu imediatamente. Porém, o seu olhar ficou ainda mais preocupado quando leu a carta.

- O que foi, Remy? – Perguntou Melissa.

- Eles querem você, chérie...

- Como assim? – Disse Melissa, que em seguida, arrancou a carta das mãos do pai.

- Chérie, espere!

Os olhos de Melissa arregalaram quando ela leu carta. Ela se afastou um pouco, e com uma voz trêmula, ela anunciou a sua decisão.

- Eu tenho que ir pra casa! Minha mãe está em perigo!