Destino - Dramione
1 Capitulo 1
Prólogo
Eu sabia que, no momento em que pisquei os olhos, eu não seria mais o mesmo. Na verdade, eu não me recordava de uma existência, sem ser o que era. O que deveria ser. Minha responsabilidade sempre foi aquela. Mas, por um momento, imaginei que teria uma vida diferente. Um propósito diferente.
Então, eu a vi. E isso mudou tudo que sabia sobre o destino.
*-*
Capitulo 1
Eu nunca tive esperanças de uma vida diferente. Na verdade, eu sempre fui muito resiliente em tudo que fazia. Sabia exatamente como agir, como pensar. Quais ações tomar. Alguns diriam que eu sou perfeccionista, mas veja bem, eu somente quero que tudo esteja em seu devido lugar. E que tudo ocorra conforme eu planejei. Porém, não planejava aquele futuro. Não pensava que um dia, minha vida milimetricamente perfeita teria algum tipo de rachadura. E que o provocaria esse fecho seria uma doença terminal.
- Você tem um tumor – meu médico disse, um tanto sério, um tanto preocupado. Ele parecia se importar comigo. O que não era comum para os médicos que já fizeram meu atendimento. Ele era especial. Claro. Theodore sempre fora gentil comigo – Glioblastoma – ele deu o veredito.
Respirei profundamente. Não queria falar sobre aquilo. Não naquele momento. Eu consultora ele apenas para tirar a dúvida. Fizera a tomografia apenas para descartar o que dois médicos haviam dito. Contudo, Theo era alguém que eu confiava. E não esperava aquela resposta. Não naquele instante.
- Com o tratamento adequado e com as medicações, você pode sobreviver mais um ano – ele dizia, mas eu não estava escutando. Estava distante, olhando pela janela, desejando não ver o monitor a minha frente, onde mostra a tomografia do meu cérebro. Aquele órgão vital para minha profissional -...caso não opte pelo tratamento, você terá três meses de vida...
- Três meses? – interrompi Theodore. Aquilo havia me chamado a atenção. Três meses eram tão poucos. Mas, talvez, o suficiente para o que eu faria a seguir – Eu entendo.
Ele me fitou com um olhar triste, ultrapassando o limite da relação entre paciente e médico.
- Você vai optar pelo tratamento, senhorita? – ele tentou ser formal. Mas, eu sabia que isso era muito difícil para ele, já que havíamos estudado juntos no mesmo colégio.
- Eu não sei, preciso pensar – deixei minha armadura de lado. Eu não iria conseguir ser forte. Mas, precisava. Passei a mão pelo rosto, então fixei meu olhar nele. Meu olhar mais persuasivo – Você ainda não assinou o contrato, doutor Nott.
Ele me fitou, desconsertado. Um tanto surpreso por eu ter mudado de assunto tão rápido. Eu tenho certeza de que havia conseguido mascarar minha dor. A dor de cabeça insuportável que me acompanhava todas as manhãs.
- Bom, eu... – ele mexeu os dedos, fazendo a caneta branca passar entre eles, como se isso pudesse acalmá-lo – Eu não sei. Talvez, eu não consiga entregar o manuscrito a tempo.
Sua sinceridade era o que eu mais apreciava, mas como editora, eu não poderia deixá-lo escapar tão facilmente.
- Eu entendo, doutor – disse, com um tom suave – Mas, você sabe que seu último livro precisa ser lançado – usei um tom firme, para que ele prestasse a atenção em mim, não na caneta. Ele me fitou com um olhar atordoado – Theo, eu entendo que esse não é o momento ideal, mas pense com carinho, sim.
Levantei-me, de supetão, sem esperar uma resposta dele. Theodore me fitou com um olhar preocupado e pasmo. Claro que ele deveria me achar estranha. Mas, eu não tinha tempo para sofrimento. Não naquele momento. Havia pessoas que dependiam de mim. Uma pessoa, em especial.
- Você já vai? – indagou, se levantando também.
- Sim, eu vou – disse pegando a bolsa da cadeira ao lado em que estava sentada – Eu preciso voltar para editora. Tenho textos para revisar, clientes para atender...- enumerei sem prestar a atenção, indo para a porta.
Theodore fora mais rápido, me alcançando na soleira da porta. Abriu-a, mas antes que eu saísse, ele disse:
- Você sabe que pode me ligar, se mudar de ideia. Não precisa enfrentar tudo isso sozinha. Estou preocupado com você. E surpreso por você não dizer se vai optar pelo tratamento.
Eu apenas sorri, contendo a tensão no maxilar, trincando os dentes. Os olhos ardiam, mas não pela dor de cabeça persistente. Era o fato que não conseguia mais controlar minhas próprias emoções.
- Está tudo bem – falei, por fim. A nó na garganta ainda permanecia ali, como um aviso – Não se preocupe, Theo. Você é ocupado. Tem outros pacientes.
Sai pela porta, andando alguns passos, então me virei, com meu melhor sorriso.
- Não se esqueça de assinar o contrato, por favor.
Então, parti, sem esperar uma resposta dele. Eu era sua editora. Não poderia me dar o luxo de fraquejar, mesmo que ele fosse meu médico.
**
Quando dei por mim, estava caindo. Na verdade, não. Esbarrei com algo com força, na verdade. Parecia uma parede. Não sabia exatamente. Olhei para cima, atordoada. Aqueles olhos. Santo Deus. Que olhos lindos. Tão cinzentos e profundos. Os cabelos quase brancos. Loiros, na verdade. Mas, ele era lindo. Um rosto angelical. Contudo, seus olhos, apesar de belos escondiam um olhar sem vida. Na verdade, se eu observasse mais, veria que continha ali um tanto de ironia. Cinismo, talvez. Ele aparou minha queda, segurando com o braço. Eu me endireitei afastando-me daquele homem.
- Eu sei, sou muito bonito, mas estou ocupado – ele disse, sem que eu pudesse agradecer.
- O que? – exclamei, baixinho, sem entender.
Ele se afastou, com um sorriso estranho e seguiu. Girei com os calcanhares, vendo-o seguir pelo corredor do hospital apressado, como se estivesse prestes a atender alguma emergência. Ele usava um jaleco branco. Deveria ser da emergência do hospital, pela forma como desviava de um paciente e uma maca sendo empurrada por enfermeiros. Pisquei algumas vezes, atônita. Seria possível que ele tivesse percebido que eu o achara atraente? Na verdade, arrebatadoramente atraente. Ri baixinho, comigo mesma, sentindo as bochechas ficando quentes.
Tomei o metrô aquela manhã. Era um dia tão cinzento e triste. Londres sempre era tão fria e nada convidativa assim? Não me lembrava. Ao menos, de baixo da terra, eu não via isso. Apenas pessoas, prontas para ir trabalhar. Eu era uma delas. Pronta para mais uma jornada, mas a dor de cabeça era algo irritante. Eu não carregava mais meu fone comigo, pois nada parecia melhorar a situação. Uma música, remédio, chocolate, água. Qualquer coisa que tentasse não melhorava. Fora aí que percebi, eu precisava consultar um médico. E então, descobrira a verdade. Eu morreria. E morreria sem nem ao menos ter conseguido o cargo que desejava. Gerente de equipe. As lágrimas escorreram, como uma torrente, sem me permitir ao menos esperar chegar em casa. Por que eu simplesmente não conseguia me controlar? Alguém do meu lado, me ofereceu um lenço, que aceitei sem pensar. Limpei meu rosto e olhei para o lado.
- Você...? – Pisquei atônita.
Era o mesmo homem que virá no hospital. Ele me fitava com um olhar estranho. O mesmo olhar sem vida. Não parecia ter se emocionado com minha dor.Devolvei o lenço, um tanto constrangida, olhando para frente. Como ele havia chegado ali? Eu nem havia percebido que ele entrara no metrô. E ele não usava jaleco. Apenas um sobretudo preto. Então, foi quando percebi, um homem, a vinte passos de mim cairá no chão. E estava convulsionando.
**
Aquela imagem nunca sairia da minha cabeça. Aquele homem, aquele médico, enfermeiro, não sabia dizer, não fizera nada, enquanto o homem sofria uma convulsão no vagão do metrô. Muitas pessoas olharam para aquela cena, se aproximaram. Vi alguns sacarem seus telefones para filmar. Um se ajoelhara para conter a convulsão daquele pobre homem, que devia não ter mais de cinquenta anos. Mas, o homem que eu vira no hospital não havia ajudado. Ele não se mexera. Parecia estar apático. Alheio aquilo. Então, ele se afastou, sem olhar para trás, indo para outro vagão.
Cheguei na editora atordoada. A editora Cloudbook parecia estar a milhão. Só que havia um problema. Alguém estava na recepção, gritando. Parecia histérico. Foi quando eu a vi. E congelei. Pansy não era uma pessoa agradável, nunca fora. Mas, desde que ela se divorciou do Theo, aquele mesmo que havia me examinado, ela começara a conjecturar algumas coisas. Principalmente, achar que eu estava tendo um caso com seu ex-marido.
- Vocês têm que demiti-la – gritava a plenos pulmões.
A recepcionista, assustada, segurava o telefone. Parecia estar fazendo alguma ligação. Algumas pessoas que estavam passando no saguão pararam para olhá-la. Alguém estava munido do celular, filmando Pansy, que não percebia.
- Senhora, por favor...- a recepcionista pedia – Se acalme...
- Não vou me acalmar – Pansy gritou – Aquela megera precisa ser demitida. Eu exijo isso!
Eu tentei passar despercebida, para seguir meu caminho, mas infelizmente, ela havia me percebido.
- Você! – ela gritou, vindo até mim, como uma bala. Segurou meu braço com força e aquilo doeu. Doeu pela humilhação de estar sendo observada por pessoas que nem conhecia. Afinal, a editora ocupava apenas um andar daquele prédio – Como você pode fazer isso comigo?
Eu tentei negar, dizer que não sabia do que ela estava falando. Mas, de verdade, eu teria chance? Todos olhavam agora, como se eu fosse realmente culpada de algo. Só podia ouvir os cochichos, do quanto aquela cena era vergonhosa. Alguns me acusavam de ter roubado o marido dela. Outros pareciam tender a acreditar em mim. Pansy havia dito que queria, enquanto isso. Dizendo o quanto eu não prestava, por ter roubado Theo dela. Eu respirei profundamente, sentindo meu coração doer. O que mais eu poderia dizer, daquele instante? Não sabia o que dizer, porque a dor entre os olhos era maior.
Foi quando tudo sumiu. Simplesmente, puff. Eu senti uma dor tão profunda, que talvez, tivesse apagado. Não sabia dizer. Quando abri meus olhos, estava sentada em uma das poltronas da recepção do prédio. Minha colega, Nancy, segurava minha mão, com um olhar preocupado. Ao longe, pude ver que o gerente de equipe discutia com a recepcionista. Harry parecia exaltado. Como ele nunca havia ficado, em todo aquele tempo que eu trabalhava para ele.
- Vocês não podem liberar qualquer pessoa entrar nesse prédio – eu o escutava dizer.
- Você está bem? – Nancy perguntou, com olhar preocupado. Seus olhos amendoados pareciam brilhar, como se tivesse chorado.
- Ah, sim – eu disse, passando a mão pelo rosto.
Olhei ao redor, procurando Pansy. Mas, ela não estava mais lá. O que era um alívio. Nancy olhou com descrença para meu rosto e me ajudou a me levantar da poltrona da recepção. Podia escutar o cochicho de todos ao redor. “Aquela garota traidora”. Era isso que vinha a minha mente. Eu era essa garota. Claro, não era mais uma jovem. Beirava aos trinta anos. Mas, ainda me sentia muito jovem. E muito jovem para morrer. Senti o nó na garganta, enquanto entrava no elevador, ao lado de Harry e Nancy. Ele parecia sério. Não estava pronto para discutir qualquer coisa.
- Hermione? – Nancy me chamou.
Olhei para ela, piscando os olhos. Ela deveria estar falando, mas eu não devia ter escutado nada.
- Você sabe se a autora Weasley vai poder entregar o manuscrito? – Nancy perguntou, com um olhar insistente.
Saímos do elevador em seguida da pergunta. Eu não sabia se Gina Weasley entregaria aquele manuscrito. Não fazia ideia. Ela não respondia minhas mensagens. E quando nos encontrávamos, ela fingia que estava ocupada demais com projetos paralelos. Como era também modelo, sempre estava com a agenda cheia. Mas, eu sabia que ela estava passando por um bloqueio que a impedia de escrever como autora fantasma. Autores fantasmas geralmente não queria ter seus nomes vinculados a obras, ainda mais no caso dela, que escrevia romances. Ela detestava estar vinculada àquela imagem. E por posar para revistas famosas de Londres, não queria que sua imagem estivesse ligada a isso.
- Eu vou tentar ligar para ela – prometi, adentrando a nossa sala.
A porta de vidro era algo que me irritava profundamente. Ela mostrava todo o interior do escritório. E se alguém descesse ali com o elevador poderia ver qualquer um que estivesse trabalhando. E poderia me ver. Naquele dia, eu não queria realmente ver alguém. Se eu pudesse, teria uma sala reservada, como o diretor Zabini. Blaze Zabini tinha uma sorte muito grande. Filho único, herdara a empresa do seu pai, sem muito esforço. A Editora Cloudbook, claro, sofria com a negligência dele. Ele simplesmente não sabia o que era prioridade. Se era sair com amigos, para jantares caros, ir a boates e sustentar uma namorada muito exigente, que gastava seu dinheiro sem nem ao menos perguntar, ou cuidar dos negócios. Estaríamos falidos se não fosse por Harry. Era um bom gerente de equipe e mantinha ainda os contratos que tínhamos com os melhores escritores.
Sentei-me na minha cadeira giratória, olhando para minha mesa. Meus colegas pareciam alheios a minha presença. Mas, eu sentia um certo burburinho, como se estivesse sendo vigiada. A porta de Zabini abriu, de repente. Ele saiu, mostrando seu rosto moreno e olhar impactante. E seu olhar fora direto para mim. Seu rosto se tornara uma carranca, como se algo tivesse acontecido. Senti meu estomago torcer. Eu não sabia realmente se fizera algo de errado. Ultimamente minha cabeça parecia latejar além do normal. E já sabíamos o motivo. O problema de verdade era que eu não havia contado para ninguém da minha condição médica.
Respirei fundo e me levantei. Se eu precisava enfrentá-lo, aquele seria o momento.
Talvez, eu pediria demissão.
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