Destino Das Fadas
57 Capítulo 54 — Sonhos inacabados
Notas iniciais
Capítulo 54 — Sonhos inacabados
Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir...
E você a deixou ir.
(Let her go – Passenger)
Foi nesse momento que todos os músculos do meu corpo paralisaram, minha voz sumiu, e meu coração estava entre falhar ou acelerar demais. Imaginei diversas situações que eu poderia passar como: 1 – sorrir o casamento inteiro, voltar para a minha vida, um dia quem sabe casar com Sting, cuidar do meu filho e fim. 2 – nem ir ao casamento, voltar a minha rotina, tentar conseguir minha parte da empresa, ficar com Sting e meu filho, fim. E até 3 – ficar realmente feliz por Yukino e Natsu, aguentar por eles e seguir em frente entre as opções já citadas. Eu estava preparada para qualquer um desses destinos, mas a realidade era outra. E ela estava ali, na minha frente, me olhando.
Enquanto eu escrevia aquela carta, eu não pensei nas consequências. Não pensei na reação de Natsu. Não pensei em nada além de escrever o que eu estava sentindo. Agora me vejo desesperada. É claro que ele não toleraria isso. É tão lógico que ele faria algo como vir até aqui que estou com raiva de mim mesma por permitir que isso acontecesse.
Não consigo desviar meu olhar. Não consigo dizer nada. Sinto minha boca entreaberta, querendo dizer tantas coisas, mas não sabendo o quê. Natsu está esperando uma resposta, uma resposta que eu não tenho. Ou uma resposta que eu temo em dizer. Porque ele tem que complicar? Eu já o informei sobre minha decisão. E estou mesma decidida. O problema é que... quando ele me olha desse jeito, ele acaba descobrindo mais sobre mim do que posso dizer.
— Natsu — finalmente consegui pronunciar algo além de pensamentos.
Natsu ainda está encostado na porta, seus olhos são intensos e vejo um brilho de mistério neles. Queria poder descobrir o que ele está pensando, se está com raiva ou apenas em dúvida. Mas percebo que logo vou descobrir. Ele dá um passo para frente e fecha a porta com o pé. Sem tirar os olhos de mim. Meu corpo treme diante seus movimentos. E esse silêncio apenas piora minha aflição.
— Precisamos conversar — disse mantendo sua postura séria.
Essa situação toda era tão estranha. Sempre que penso em Natsu imagino aquele garoto sorridente, bobo e brincalhão. E aqui na minha frente está um adulto responsável e experiente querendo satisfações. Satisfações que não quero dar.
Recompus-me e respirei fundo temendo falhar. Comecei andar em sua direção. Teria que sair dali, não estou suportando isso. Parece não haver ar suficiente para nós dois neste quarto.
— Olha Natsu — falei mirando a porta atrás dele — daqui a pouco é seu noivado e eu realmente não estou querendo...
Sua mão pousou sobre meu pulso enquanto eu tentava passar por ele. Gelei. E toda aquela minha frase formulada para fugir dali evaporou-se. Estávamos um ao lado do outro, porém meus olhos fixavam a porta, enquanto sentia os seus cravados em minhas costas.
— Lucy — sussurrou. Ele estava tão próximo que pude sentir um arrepio se espalhar por todo meu corpo ao sentir seu hálito próximo ao meu pescoço — chega de fugir.
Essa frase causou um efeito sobrenatural sobre mim. “Fugir”. É o que eu tenho feito esse tempo todo não é? Sei que ele tem razão. Sei que devíamos sentar e conversar. Mas falar sobre o que exatamente? Todo nosso tempo perdido? Sobre nosso relacionamento mal resolvido? Sobre nossos sentimentos confusos e indecisos? Só de pensar meu estomago embrulha. E então quero ainda mais sair correndo.
As coisas poderiam ser fáceis como imaginei. Iriamos apenas continuar amigos, veríamos o outro feliz e ficaríamos felizes. Seguiríamos em frente com pessoas diferentes. Construiríamos uma família e... assim, fácil. Mas a vida não tem essa opção. Eu não estou tendo. Porque tenho tanto medo de conflitos? Deve ser porque agora tenho que pensar por dois... E agora mais do que nunca, admito, estou com medo.
— Não estou fugindo — murmurei sem olhá-lo.
Era uma mentira, claro. Eu estava mesmo fugindo.
Lembro-me de ter escrito na carta: “Então porque será que o silêncio se tornou nossa maior forma de comunicação ultimamente?”. Logo percebi que eu estava mesmo certa. Ficamos em um silêncio que parecia interminável apesar de ter quase certeza de não passar de segundos. Estávamos travando uma luta de pensamentos. Sua mão firme ainda me segurava. Mas sei que mesmo que ele me soltasse agora, eu não teria mais forças para sair correndo. Ele viria atrás de mim. Não tenho para onde ir além de mergulhar em um passado que eu deixei para trás.
Após minutos de silêncio e tensão, senti sua mão me apertar ainda mais, como se pegasse impulso para falar, e logo sua voz soou:
— Sobre a carta... — meu coração estremeceu. Eu ainda tinha falsas e pequenas esperanças que ele não havia lido — preciso saber se é verdade.
Virei-me para olhá-lo e percebi que não era a melhor solução. Aqueles olhos eram como veneno para mim.
— O que é verdade, Natsu? — perguntei fugindo novamente. Sei que não conseguiria fazer isso por muito mais tempo.
— Seus sentimentos por mim — respondeu sem demonstrar nenhuma fraqueza ou ressentimento.
Estou completamente sufocada mentalmente. O ar nem parece querer entrar nos meus pulmões. Percebi que essa era a hora. A hora da verdade, aquela que fugi por tanto tempo. Aquela que eu sempre soube que quando chegasse, eu estaria em pânico, como estou agora.
Desviei meu olhar novamente e me desviei de sua mão dando alguns passos para trás, mantendo uma distância de pelo menos 5 passos entre nós. Um espaço seguro. Meus olhos já teimavam em se encher de água. E eu ainda nem havia começado a falar nada. Natsu apenas me acompanhou com o olhar em todos meus movimentos e novamente pousou seus olhos sobre os meus.
— Isso não importa agora, Natsu, eu...
— Importa para mim, Lucy! — me cortou com a voz alterada. Meu coração saltou junto com o nível de sua voz — importa para mim — disse de maneira mais calma — Você não entende? — expressou-se em um tom um pouco elevado — Meu casamento é amanhã. Depois disso tudo acaba! Tudo pelo que eu lutei, tudo o que eu quero, todos os meus sonhos vão embora juntamente com o meu “Sim” de amanhã.
— Não é verdade — tentei acalmá-lo, aliás, me acalmar — É como eu te disse novos sonhos sempre vão aparecer.
— Eu não quero novos sonhos! — respondeu tão rápido que minha mente demorava a processar respostas para todos aqueles sentimentos revoltosos em forma de palavras.
Nossos olhos se cruzavam e pareciam gritar entre si. Gritos sem formas ou significados. As palavras que queriam sair eram tantas que se atropelavam. Estou confusa, estou perdida. Sei o que devo fazer. E ao mesmo tempo pareço não saber. O que ele quer escutar? O que eu deveria dizer? O que eu quero dizer?
— O que você quer que eu faça? — falei em um nível já alterado. E senti algumas lágrimas descerem.
— Quero que diga a verdade, uma vez na vida Lucy, a verdade — implicou.
Sentia minhas pernas tremerem. Sempre brigamos. Eu deveria estar acostumada. Mas esse era o tipo de briga que não acontecia sempre. Ou melhor, era o tipo de briga que vai decidir o que é para sempre. E mesmo tendo meu coração esmagado, resolvi falar.
— Eu já te disse a verdade Natsu! E a verdade é que eu escolhi Sting!
...
Minhas brutas palavras pairaram no ar. Simplesmente ficaram ali, no meio de nós, causando ainda mais conflitos. E o principal deles era o conflito do meu coração. Porque a dor ao dizer aquilo foi tão imensa que não pude acreditar. Se eu estava tão decidida... porque senti como se tivesse feito a maior idiotice da minha vida?
Ao ver a expressão de Natsu, senti algo quebrando dentro de mim. Eu estava tão arrasada quanto ele. Ele ergueu novamente a cabeça e seu olhar claramente magoado.
— Mas eu escolhi você.
Balbuciei algumas palavras sem sentido. Ou melhor, repeti sua frase inúmeras e inúmeras vezes para mim mesma e não cheguei a uma conclusão ou a alguma resultado que em explicasse o sentido de tudo o que passamos até ali. Fiquei estática. O que eu deveria fazer em uma situação dessas?
— O que eu faço Natsu? — falei com a voz trêmula — me jogo em cima de você, casamos e vamos continuar tendo uma vida normal como se nada tivesse acontecido? Vamos atrás de nossos sonhos sem se importar com mais ninguém? Esquecer todos nossos desastrosos erros e o impacto de cada um deles em nós mesmos? Me diz o que fazer... porque eu não sei mais — explodi em palavras confusas, pesadas e indecisas.
Natsu deu um passo para frente. E eu instintivamente dei um para trás que o fez parar onde estava. Sei que ele queria me consolar ou pelo menos tentar me acalmar, mas não daria certo.
— Não precisamos pensar em tudo isso agora — disse mais calmo. Pude sentir uma esperança em sua voz. E me pergunto se isso é bom ou ruim — É só dizer que quer vir comigo — completou.
Apenas isso? Será mesmo só isso? Posso tentar imaginar nós dois se eu por acaso me permitisse arriscar. Eu conseguiria ser feliz? Posso sentir a perfeita sensação de estar ao lado de Natsu pelo resto da minha vida, posso até mesmo sentir o calor de sua presença o tempo todo. Mas... e os outros? Posso ser egoísta um pouquinho? Eu não sou assim. Como nosso filho fica nessa história toda?
Pude ver seu sorriso enfraquecer diante minha hesitação. Essa reação naturalmente me magoou, por magoá-lo.
— Natsu... — falei trêmula — Eu não posso.
— Você só pode estar brincando — disse dando um passo a frente e dessa vez não sai do lugar, mas ele parou após o primeiro passo, parecendo incrédulo. Não consegui olhar em seus olhos.
— É difícil para mim, tá bom? — sussurrei.
— Difícil para você? — expressou-se sarcasticamente — É a minha família que estou deixando na mão.
— E como você consegue ser tão egoísta? — minha indignação transpareceu na minha voz e não da maneira que eu queria.
— Porque às vezes simplesmente não temos outras opções!
— Temos opções!
— Nenhuma que eu queria passar o resto da minha vida!
— Eu não consigo fazer isso!
— Fazer o quê? Pensar no nosso futuro?
Eu não havia percebido o momento em que deixamos de conversar e passamos a gritar um com o outro. Como também não percebi que meu rosto já se encontrava encharcado de chorar e meu coração estava simultaneamente acelerado e em pedaços. Não reparei como estávamos perto um do outro, devemos ter se aproximado nessa euforia de querer provar cada um seu ponto de vista. Recompus-me pela milésima vez nessa discussão sem fim.
— É claro que eu penso nisso, mas veja agora, estamos brigando de novo!
— Brigamos desde que nos conhecemos e isso nunca impediu que acontecesse algo entre nós — rebateu tão simultaneamente que fiquei sem ar.
Natsu virou sua cabeça de lado, soltando um sorriso de frustração.
— Estou cansado disso... — murmurou, como se fosse mais para si do que para mim.
— Cansado do quê? — perguntei já com o coração na mão.
Ele me olhou, pude ver certo brilho em seu olhar, como se bem lá no fundo esse brilho escondesse suas lágrimas. É claro que ele não choraria, sempre se fazendo de tão forte. Mas tinha algo mais. Sua mágoa era quase palpável.
— Cansado de ver você brincando com meus sentimentos.
Suas palavras me pegaram de surpresa e causaram um impacto tão grande em mim que pensei que fosse desabar. Sentia minha boca tremendo, querendo entender, mas nada deixava meus lábios trêmulos que se encostavam algumas vezes na tentativa de reprimir qualquer sentimento.
Natsu percebendo minha paralisia, apenas continuou:
— O que foi a nossa história, Lucy? Eu sempre soube de meus sentimentos por você, eu sempre quis apenas você, você sempre foi a única. Era tão doloroso conter esses sentimentos que eu não sabia até quando ia aguentar tudo isso até me declarar! Eu corri atrás de você. Eu tentei te amar como se minha vida dependesse disso, e por certos momentos realmente acreditei nisso. Você não acreditou em mim. Você me disse não. E aí toda vez que algo dá errado entre nós, você aparece, me dá esperanças, para depois me jogar fora de novo!
Não consegui rebater. Apenas deixei minhas lágrimas dolorosas e silenciosas caíssem por meu rosto. Odiava ser culpada dessa maneira. Odiava ser posta contra a parede. E odiava... saber que talvez ele tenha razão...
Ouvi sua risada irônica novamente e voltei a olhá-lo.
— Eu não me importava com isso. Você podia me machucar, me humilhar, se afastar, me recusar, que eu sabia que o resultado seria o mesmo, eu continuaria indo atrás de você. Sabe Lucy, eu realmente acreditava em nós. Você mesma disse que nossa história não acaba aqui. Mas agora... só vejo como fui idiota em te amar dessa maneira. Você alguma vez disse a verdade?
— Natsu... eu...
Estava pronta para dizer aquilo, que prometi a mim mesma não repetir mais. Mas sua mão se ergueu me mandando parar.
— Não se dê ao luxo de mentir de novo. De todas suas mentiras, essa foi de longe, a pior — disse com certa raiva em seus olhos — E você errou. Nossa história acaba agora. Eu não posso mais com isso.
Natsu deu alguns passos para trás, afastando-se de mim. Deixou o envelope em uma mesa perto de si, olhou uma última vez para mim e saiu. E eu sabia que dessa vez ele se afastara para não voltar para mim nunca mais.
Não achei que fosse possível, mas... parece que perdi uma parte do meu coração.
Sempre imaginei como seria perder a razão e achava ridículo as pessoas que passavam por isso, acho que agora eu entendo. No momento em que comecei a jogar todas as coisas para fora da minha cama, no momento em que piquei aquela carta em pedaços, no momento em que não pude controlar meu corpo, apenas deixei que ele descontasse sua raiva em tudo a sua volta para então desabar sobre a cama e chorar.
Eram tantas lágrimas, por tantos motivos diferentes, raiva de mim, raiva dele, raiva do meu pai por começar tudo isso, raiva do pai dele por não ter sido cuidadoso, raiva da Yukino por aparecer, raiva da escola por ter feito a gente se encontrar, raiva por ele ter sido tão gentil comigo desde o início, raiva daquela flor idiota que ele me deu no festival, raiva por todos aqueles trabalhos feitos juntos, raiva dos nossos passeios, raiva por ter passado tanto tempo do lado dele, raiva por aceitar a namorar ele, raiva da Lisanna por atrapalhar isso, raiva de mim novamente por não ter ido atrás dele da primeira vez, raiva por não ter me contido naquela balada infernal, raiva de ter tão idiotamente, inutilmente e completamente me apaixonado por ele.
Rebati-me sobre a cama inúmeras vezes, bati contra o travesseiro, eu precisava de algo que me tirasse essa dor, que esquecesse tudo isso, que me dissesse que era tudo um sonho e que na verdade eu nem havia saído da casa de meu pai, que eu nunca havia conhecido Natsu algum, que era tudo mentira, que essa dor era apenas passageira e que no final eu ainda era apenas aquela garota... que não queria mais ficar na casa do pai.
Quando foi o momento em que me tornei uma adulta tão ridícula? Quando deixei de ser aquela garota mimada e fútil? Quando foi que meu mundo virou de ponta cabeça e me encontro... grávida de alguém que não quer mais olhar para minha cara?
Quando foi que todos meus sonhos foram embora e me tornaram uma pessoa vazia que não espera mais nada?
Nada faz sentido agora. Minha cabeça gira, não sei se são as emoções ou se estou apenas zonza outra vez. Fecho os olhos, mas sei que isso não fará que tudo seja mentira. Não vai apagar as más escolhas, não vai apagar minhas memórias. Encolho-me na cama, tentando me proteger de algo que não posso tocar, nem ver, apenas sinto um dor tão grande no meu coração e preciso me apegar a qualquer coisa que faça parecer que não é real.
As lágrimas se atropelam pelas lembranças. Nunca parei para pensar que em toda minha vida, Natsu foi a única coisa em que acertei. E eu o deixei ir mais vezes do que posso contar.
Olhei para o relógio sobre o criado-mudo. Faltava pouco. Logo Sting irá aparecer para me acompanhar no noivado daquele que amo de verdade. E nunca tive tanta certeza disso como tenho agora. Nunca tive tanta certeza que não posso ficar sem ele. Daqui a alguns minutos, ele vai... E amanhã...
Algo surge em minha mente de maneira imprevisível. Um único objeto que havia esquecido completamente que estava comigo. Levanto-me bruscamente da cama e corro para minha mala. Jogo todas minhas roupas para os lados, não me importando em tê-las que dobrar novamente. Encontro meu casaco e vou diretamente para seus bolsos na esperança de encontrar lá mais uma de nossas lembranças. Mas não encontro.
O que? Tenho certeza que estava aqui! Eu o coloquei bem nesse bolso antes de sair de casa para vir para cá. Onde eu... Uma vaga lembrança de ter usado esse mesmo casaco no dia de procurar a Wendy apareceu em meus pensamentos.
Então, acho que perdi a razão novamente, saindo daquele quarto e correndo em direção... ao nada.
Todo o amor está lá, eu só não sei o que fazer com ele agora
Você sabe, eu ainda não posso acreditar que nós dois fizemos algumas coisas
Nem quero pensar sobre
Só diga que me ama e eu direi "Me desculpa
Não quero sentir isso por nenhum outro alguém."
(Stay – Mayday Parade)
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