Destino Das Fadas
58 Capítulo 55 — Falhas e perdas
Notas iniciais
Capítulo 55— Falhas e perdas
Natsu
Bati a porta com força e fiquei um tempo perdido em pensamentos, segurando aquela maçaneta. A maldita maçaneta que me separava de Lucy, de novo. Meu coração está em um ritmo anormal e nada saudável. Gritar com ela não me deixa legal de qualquer forma. E ainda fico pensando se fiz o certo, mas não consigo encontrar motivos para achar que não. Era a verdade. A estúpida e insuportável verdade.
Tive que respirar fundo e contar mil vezes até cem para me acalmar. Ok, talvez não tenha contado tudo isso até porque se fosse contar na minha situação provavelmente não lembraria como chega até o 5. Afastei-me da porta aos poucos e hesitante. Eu deveria voltar lá e dizer “Tô brincando loira, você acreditou?”. Sacudi a própria cabeça com esses pensamentos. Preciso ser forte. Agora mais do que nunca. Agora que estou indo... para meu noivado.
Sinto como se tivesse arrancado 3 anos da minha cabeça, dessa forma, em um único grito. Encostei-me à próxima parede em que encontrei após virar o corredor. Olhei para o chão, para minhas mãos inquietas, para o teto. Levei a mão até o bolso do terno e tirei de lá uma aliança. Porque eu trouxe essa porra de anel comigo? Suspirei indignado com a minha capacidade de brigar comigo o tempo todo.
Queria estar pensando em qualquer outra coisa. Sobre o casamento, sobre meus amigos, sobre o que vou fazer amanhã na cerimonia, sobre a matéria da faculdade, sobre porque a grama é verde, QUALQUER COISA. Mas não... É apenas Lucy, Lucy, Lucy... Posso vê-la com seu sorriso encantador, com sua felicidade facilmente conquistada com coisas simples, sobre seu jeito carinhoso e generoso, sobre como ela consegue ser tão bondosa com qualquer pessoa, sobre seu jeito irritante, sobre o modo como ela amarra o cabelo, sobre o cheiro natural que ela emana por qualquer parte, sobre como ela consegue ser tão mandona quando quer algo, ou até mesmo como ela finge ficar brava comigo por coisas bobas. Sinto falta do seu jeito extravagante, exagerado, risonho e carismático. E sinto também que fui eu quem tirei essa parte dela.
Que merda.
Porque ela não pode simplesmente calar aquela boca e ficar do meu lado para o resto da vida? Caralho, é tão fácil. É tão explicito, é tão... certo. Porque ela só não grita comigo e me deixa acalmar ela com um abraço? Garota mimada pra cacete. Estou com tanta raiva e decepção ao mesmo tempo que nem consigo identificar qual sentimento é maior. Porque eu achei mesmo que ela só iria dizer “Sim Natsu, eu vou com você”, com aquela voz doce, a mesma voz que um dia disse “Eu te amo”? Mas não, ela diz “Não posso fazer isso Natsu”, “Eu escolhi o Sting, otário”, “Você vai ter novos sonhos, então trate de me tirar dos seus”. Cretina.
Respirei fundo mais uma, duas, trinta milhões de vezes. Achei que fosse ter um infarto brigando com ela. A cada palavra que eu me exaltava a dizer, era como uma nova facada em mim mesmo. Era como perder mais uma parte dela a cada palavra sem pensar. Mais uma parte da mínima parte dela que sobrou para mim. Essa parte é tão pequena e frágil e para mim tão importante. Tão importante que chego a me odiar por isso. Sou ridículo mesmo. Desde quando sou tão idiota de ficar correndo atrás de mulher?
Ah é, desde que conheci a loira maldita.
Esquece. O jeito é me odiar mesmo. Porque odiá-la eu já tentei, e não consigo.
Ouvi passos em minha direção e me apressei em devolver o anel para o bolso. Alguns segundos após, bem a tempo de esconder o bendito objeto, Gray apareceu. Ele virou o corredor e me viu.
— Ow cara, te procurei por toda parte — Disse em seu tom casual de irritação.
— Ah, foi mal — falei sem muito animo.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Você tá legal?
Suspirei em resposta, bati na testa dele.
— Vamos acabar logo com isso — murmurei enquanto comecei a andar em direção ao salão principal onde provavelmente já tinha um pai e uma noiva pirando.
— Olha eu não tenho tanta certeza, mas acredito que não é essa frase que se usa para ir ao próprio noivado — ironizou.
— Bom, é a minha frase para ir ao meu noivado — respondi apenas e continuei andando.
Pude sentir que ele ia questionar mais alguma coisa, então completei:
— Não faça perguntas. Eu sei que não faz sentido algum agora, mas talvez faça sentido depois. E se não fizer, não vai importar, porque vai ser tarde demais de qualquer forma. Eu realmente queria que fosse diferente, mas não é. Então cala a porra da sua boca e me deixa em paz.
Ele ergueu os braços.
— Faça o que quiser velho. Mas se quer saber...
— Não quero.
— Mas eu vou falar do mesmo jeito, então cala a boca você — disse rígido.
Realmente me irritei com esse seu jeito, mas se quer saber, nunca o vi assim. Realmente irritado. Era só o que me faltava, sermão antes do noivado.
Observando meu silêncio, ele prosseguiu:
— Vou te contar uma história...
— Ah cara, tá de brincadeira — protestei inconformado.
— Eu mandei você calar a boca!
— Fala sério... — resmunguei e cruzei os braços — Conta logo a droga da história. E juro por todos meus pertences preciosos que se essa merda de história não tiver nada a ver com a minha vida, eu te rasgo no meio.
— Tá, tá, só cala a boca — falo mexendo os braços, não dando a mínima para minha ameaça, que por acaso, não era brincadeira — Sei de um cara que se lixava para a própria vida, que saia por aí com o único intuito de achar algum corpo bonito pra levar pra cama. Uma vida completamente sem sentido, sem direção, sem motivo. O idiota era apaixonado pela mesma garota por anos e não admitia para ninguém, nem para si mesmo. E nessa brincadeira de ficar se escondendo por medo, quase a perdeu. Então apareceu outro idiota, um pouco mais idiota que o primeiro idiota, e praticamente cuspiu na minha cara “Lute por ela, imbecil, eu estou fazendo isso pela garota que gosto, amo, whatever...”.
Fiquei apenas olhando para ele com cara de tédio.
— Minha vida ganhou um sentido com a Juvia que nunca achei possível ter. Eu lutei, cara.
— Na verdade, você só disse “Vem” e ela foi. Qualquer um poderia ver o fim dessa história.
Seu olhar não foi nada amigável. Respirei fundo e continuei mesmo assim:
— Olha Gray, sei que quer ajudar. Mas eu lutei. Eu disse tudo para a Lucy, tudo. Ela não quer nada comigo, não sou eu. Então tá convencendo a pessoa errada, beleza?
Ele apenas ficou parado. E isso foi minha deixa. Preciso ir logo, antes que estragasse tudo de novo.
Não me importo mais.
Hoje no meu noivado vou agir como se estivesse realizando um dos meus sonhos. E amanhã vou casar sem nenhum arrependimento. Sem pensar que não tentei de tudo para mudar minha história. É como eu disse... cansei disso.
Vi o salão aproximando-se. E o desespero foi crescendo. Que merda. Não vou dar pra trás de novo. Na verdade, não vou fazer isso nunca mais. Só mais alguns passos para oficializar essa história de uma vez por todas. Só alguns passos para desistir da Lucy completamente. Só alguns passos... para mudar meu destino por completo. E eu não parei.
Sinto que fui com os olhos fechados até entrar no salão. Então os abri, e ali vi Yukino com os olhos marejados, mas assim que me viu abriu seu sorriso radiante como sempre.
— Boa noite — foi o que consegui dizer ao chegar, olho para o relógio da parede, meia hora atrasado.
— Achei que fosse a noiva que se atrasasse — o Sr. Aguria disparou em minha direção, e com razão.
— Papai! — Yukino o repreendeu.
— Peço sinceras desculpas pelo ocorrido.
Meu pai arqueou as sobrancelhas ao olhar para mim, apenas desviei o olhar e sentei ao lado de Yukino. Fiz o meu melhor para abrir o melhor dos sorrisos. Sinto que eu era apenas um robô que seria desmontado em breve. Pude ouvir a voz do Gray dizendo “Olha, não entendo nada de casamentos, mas acredito que não seja assim que um noivo se sente no noivado”. E então minha voz diz para a voz dele “Cala a boca”.
— Está tudo bem? — Yukino cochichou.
Olhei para ela, e pela primeira vez na noite, ou na vida, reparei um pouco mais nela. Ela estava linda a seu modo, com um vestido longo e seu sorriso tão sincero. O sorriso sincero que tenho esperado anos para ver a Lucy mostrar para mim. Que idiota. Talvez ela apenas não me ame mesmo, porque eu não aceito a merda dessa realidade?
— Estou, desculpe pelo atraso, não quis te magoar — desculpei-me.
Conversas trocadas, propostas, planos. Um milhão de coisas que para mim não faziam sentido. Mesmo assim tentei interagir, como se me importasse. Parecia mais uma reunião de trabalho do que um noivado. Mas devo ser o único a pensar assim, porque Yukino parecia excessivamente feliz, e seria mentira dizer que isso não me deixava um pouco feliz também. Qual a chance de em um casamento arranjado ter alguém que me ame assim?
Está tudo bem. Está bom assim. Posso aceitar isso.
Novas histórias de amor sempre vão aparecer, certo Lucy?
Sorri mais para mim do que para os outros. Quando temos mais consciência de como a vida ocorre, acho que podemos aceitar um pouco mais a tristeza. Podemos enxergar que nem todos os planos que fazemos, vão se realizar. Você chega em tal idade e pensa que já gostaria de ter feito tantas coisas e quando se olha no espelho, nada aconteceu. E temos a incrível e tosca mania de olhar para trás o tempo todo, de nos torturar por algo que já aconteceu e não aceitar a vida como é. Ficamos presos no inevitável e incontrolável passado, perdendo o presente o tempo todo e quando decidimos olhar para frente, o futuro já está ali, vazio.
Nossos amigos começaram a entrar pelo salão. Pude ver alguns de meus amigos ainda brigados. Meu casamento é um pesadelo mesmo. Mas vou transformá-lo em um novo sonho para mim. Respirei fundo e sorri para Yukino, segurando em sua mão.
— Como está se sentindo?
Com o sorriso ainda mais largo.
— Especialmente feliz em te ter ao meu lado — respondeu.
Senti meu coração dar uma acelerada fraca. Pude sentir algum sentimento nascer ali, ainda era quase inexistente, como um laço tão frágil quanto seda, mas ele estava ali, guardado em algum lugar de mim esperando pela oportunidade que eu pudesse deixar meus sentimentos, meus pensamentos, e todo o meu passado definitivamente para trás.
— Achei que você não viria — sussurrou com o olhar baixo.
— Porque eu não viria? — perguntei quase que naturalmente.
Ela me olhou com um brilho de dúvida e mágoa.
— Parece um passo muito grande a se dar com alguém que você mal conhece.
Parei para pensar por alguns minutos para não dizer algo idiota como sempre faço.
— É um passo gigantesco para ser sincero — respondi com um sorriso — E na verdade, meio que estou apavorado.
Seu olhar de decepção e desespero me incentivou a melhorar isso. Sinceridade nunca foi meu forte. Aliás, acho que nunca é o forte de ninguém, porque sinceridade costuma magoar as pessoas. Sei bem disso.
— Mas... — olhei para o chão, pensando na profundidade do que eu viria a dizer — Não acho que seja o tempo que iria me deixar mais seguro.
— O que quer dizer com isso? — murmurou.
Coloquei minha mão em seu queixo, puxando seu olhar para mim.
— Quero dizer, que tenho uma vida inteira para te conhecer. E por mais que possa ser assustador, estou disposto a fazer isso. Podemos montar uma história juntos.
Uma lágrima escorreu em seus olhos e o desespero me pegou de surpresa.
— Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Ela me beijou. Então acho que está tudo bem.
—♥—
Muita conversa jogada fora. Muitos sorrisos, choros, desespero e... eu, que fiquei no meio de tudo isso. Brindamos ao nosso noivado. Então chegou a hora das alianças. Que amanhã vão estar novamente sendo trocadas, apenas mudando o dedo. Chega a ser ridículo fazer isso agora, mas que opção eu tenho? Mulheres e seus sonhos esquisitos.
Eu e Yukino ficamos a frente de todos, atrás da mesa principal. Ouvíamos palmas, assobios que logo foram diminuindo para que o momento ficasse marcante. Com certeza para mim será marcante. Peguei a aliança em cima da mesa. E por um momento enquanto segurava aquela joia, passei a divagar, a imaginar Lucy na minha frente, sorrindo para mim, querendo ser minha pelo resto da vida. Sonhos esquisitos... ri de mim mesmo e voltei a realidade.
Na minha frente estava uma mulher disposta a me fazer feliz. Alguém que me amava. E que eu iria aprender a amar também. Peguei sua mão. E pude sentir seu nervosismo. Olhei para nossa grande plateia. E em toda ela, só pude enxergar o olhar triste de Levy e de Erza. A decepção de Gray. Olhei novamente para Yukino, antes que meu instinto e o olhar de desprezo dos meus amigos fizessem algum efeito. Respirei fundo. Engoli a seco. E comecei a colocar a aliança.
— NATSU!
No susto, quase joguei a aliança para o ar. PORRA, o que foi isso?
Olhei em direção ao som estridente da porta batendo junto com o grito que parecia vir de um incêndio. E ali estava Sting. Ele tá maluco? Dar um grito em uma hora dessas?
A atenção de todos se voltou para ele. E depois para mim, buscando uma reação para aquilo. Eu deveria repreendê-lo por acaso?
— Hm... oi? — respondi.
Ele pareceu recuperar o fôlego, o que começou a me causar um sentimento de pânico assustador. E então passei a procurar a Lucy desesperadamente em toda aquela multidão. Reconheceria seus olhos em qualquer situação inimaginável. Então o pior, foi dito.
— A Lucy desapareceu.
Meu coração acelerou em um nível anormal. Como se fosse ter uma parada cardíaca. Lucy... o foi que eu fiz? Que merda ela está fazendo? Senti meu corpo tremer. Olhei para Yukino, que parecia ler meus movimentos. Olhei para todas aquelas pessoas me observando, tentando prever o que eu faria. Não posso parar tudo aqui. Não posso continuar com isso sem saber que ela está bem. Quantas boas opções. Olhei para meu pai que apenas fez um aceno com a cabeça.
Nunca mais correr atrás dela. Eu não aprendo mesmo.
— Desculpa Yukino — falei com toda a sinceridade que tinha dentro de mim.
Ela pareceu claramente magoada, mas se virou para todos.
— O noivado está cancelado, por favor, vamos encontrar Lucy.
Foi minha deixa, para sair correndo até Sting, que apenas disse que na pousada ela não estava, pois havia procurado em todos os cômodos existentes. Sai praia a fora. Liguei para seu celular que apenas dava fora de área. Corri toda a extensão de praia que pude enxergar. Mesmo assim me sentia completamente vivo. E desesperado.
Parei por alguns segundos, respirando forte. Pela amor de Deus, Lucy! O que pensa que está fazendo? Se a intenção é me fazer ter uma parada cardíaca, vou logo dizendo, que devo ter só mais alguns segundos. Inspira. Expira. Inspira. Desisto, a droga da minha respiração nunca voltará ao normal.
Olhei ao redor. O sol começava a dar lugar a uma noite estrelada. Será ainda mais difícil encontra-la assim. Se ela ainda estiver nessa ilha. Onde você está? Nunca quis tanto escutar sua voz. Mesmo sua voz completamente irritada e com ódio de mim. Ainda assim é sua voz.
Um sentimento amedrontador começou a me engolir. Algo além do desesperado e do pânico. Nunca imaginei estar assim um dia. Nunca imaginei também estar sem a Lucy. De repente parece que todas as situações inimagináveis resolveram acontecer no mesmo instante. Sinto que meus olhos começaram a marejar. Não posso chorar. Ela precisa de mim em algum lugar. Eu preciso dela agora. Respirei fundo, tentando me recompor. Será pior se me deixar levar por esses sentimentos incômodos.
Então, foquei em um ponto da ilha, onde ninguém havia procurado. Ninguém procuraria. A floresta. Só pode ser lá. Tem que ser lá.
Corri a todo vapor até lá. Ignorei os galhos que me prendiam o tempo todo, as teias de aranhas que estendiam-se de um lado a outro, e os machucados que consegui pelo caminho. Só preciso vê-la. Não me importo comigo. Nunca me importei. Uma lágrima escapou de meu orgulho, no momento em que eu não a encontrava em lugar algum. Não ligo para dinheiro. Não quero saber de casamentos forçados. Nem de passar o resto da minha vida ao lado da pessoa errada. Eu sempre soube. Era você Lucy. No momento em que te encontrei na escola. No momento em que vi seu sorriso. Eu não aceito não poder me apaixonar por você.
Apoiei em uma árvore. Está escurecendo. O suor pinga de meu rosto. E as lágrimas disfarçadas seguem seu rumo.
O que aconteceu com a gente? Quando foi o momento em que a gente se perdeu?
Deixei-me deslizar pela árvore. Olhando para o céu. Pedindo inutilmente para que algum milagre acontecesse, que me levasse para o passado. Ou para algum futuro alternativo em que estou ao lado de Lucy. Nunca pensei sentir essa dor novamente depois de perder minha mãe. De ver meu pai depressivo e minha irmã perdida. Agora é tão mais real.
Não quero pensar em coisas ruins. Quero apenas me lembrar das coisas boas. Respirei de maneira mais calma, sentindo meu coração desacelerar por um momento. Preciso me concentrar. Pensei, sentindo minhas forças se esgotarem. Olhei ao redor. Árvores e mais árvores que parecem assombradas com o céu escurecendo. Esse chão negro coberto de folhas secas e galhos quebrados... Meu olho estalou, junto com meu coração.
Eu a reconheceria em qualquer lugar.
Tudo passou como um flash. Nem lembro do momento em que levantei do chão. Eu a encontrei. É ela. Vi seu corpo estirado no chão, com sangue a sua volta. Pensei que não aguentaria. Pensei que meu mundo fosse cair. E de fato caiu. Mas só me lembro, de levantá-la do chão, desesperado, e correr o mais rápido possível até a pousada.
Houve gritaria e tumulto. Lembro das pessoas falando alto e se esbarrando para ver o que acontecia. Então, eu estava dentro de um helicóptero, voltando para a cidade, e estando no lugar de onde nunca deveria ter saído.
—♥—
Tudo a minha volta pareciam apenas vultos. Depois que chegamos ao hospital e não me deixaram entrar para ver Lucy, a sala de espera parecia o próprio inferno.
Mas eu não era o único a pensar assim. Nem havia notado quando Levy estava no helicóptero com nós dois. Só a partir do momento em quem ela também se encontrava angustiada na mesma sala que eu. Andando de um lado para o outro com os olhos inchados de tanto chorar. Conversando consigo mesma. Então, desistiu e sentou-se ao meu lado.
— Onde a encontrou? — perguntou com a voz chorosa.
— Floresta — respondi sem animo para conversas. Poderia desabar a qualquer momento.
— O que ela estava fazendo lá?
Pensei em ser grosso e lhe dar uma resposta ao mesmo nível que a pergunta, mas me contive. Tinha que entender. Ela estava tão perdida quanto eu.
— Não faço ideia — falei apenas, olhando para os próprios dedos.
O silêncio reinou entre nós.
Minha mente estava completamente em branco. Estava ali fazia horas. Nada de notícias. Não quero imaginar o pior. Nem sei o motivo dela estar com tanto sangue. Só consigo me culpar imensamente por não ter cuidado dela. Nada disso teria acontecido se eu não tivesse gritado com ela.
— Estou com medo — Ouvi novamente a voz de Levy, só que muito mais gaguejada e com lágrimas que não paravam — Ela... é minha melhor amiga — disse encolhida.
Queria poder consolá-la. Estou tão desesperado quanto ela. Disfarçando a todo custo a porra daquela sensação que ela se foi. A sensação de que perdi algo muito importante e que a culpa é minha. Apenas fechei os olhos e puxei Levy no meu ombro.
— Ela também é minha melhor amiga.
Então ela desabou. Seria mentira dizer que não me deixei levar por esse sentimento de agonia também. As lágrimas vieram naturalmente e desceram no mesmo silêncio em que as palavras minhas e de Lucy ficaram. Não estou preparado para perdê-la. Não assim. Não para valer. Na verdade, acho que nunca estarei.
Posso viver sabendo que não estamos juntos, mas que ela está em algum lugar, bem e sorridente. Mas viver, sabendo que ela... tudo... se tornaram só memórias. Que cada célula do meu corpo, que ainda luta por ela... é em vão. O vazio é tão próximo disso.
Tento dizer mentalmente para mim que vai ficar tudo bem. Que no final, vai ter sido apenas mais um daqueles momentos que queremos esquecer. Ao mesmo tempo em que tento me acostumar com a ideia de não vê-la nunca mais. Porque sinto que se isso realmente acontecer, eu vou perder a cabeça. Mas é impossível. É impossível deixar alguém que ama ir, para nunca mais voltar. É impossível pensar no conceito de morte, sem ficar angustiado. É impossível imaginar a Lucy nunca mais sorrindo.
Não quiseram me dizer nada. Mas sei que é grave. Caso contrário não demoraria todo esse tempo. Eu. Estou. Desesperado. Eu quero ela de volta. Quero abraçá-la, quero segurar em sua mão, quero beijá-la sem fim, quero dar flores e leva-la no festival Hanami novamente, quero protege-la de todo o mal, quero sentir seu calor, ouvir sua risada escandalosa, quero vê-la brigando comigo, quero que ela me rejeite, que me torture, que fique com outro cara. Porra! Só... quero vê-la bem...
Consigo me lembrar de seu rosto perdido ao entrar na escola. Da sua timidez passageira. Seu sorriso encantador. Nossos trabalhos juntos. Nossos passeios. Nossas brigas. Do modo como encarava todas as situações. E como fugia delas também. De suas milhares de expressões. Sempre achei incrível como alguém pode se expressar de tantas maneiras diferentes quando se está feliz. É como se houvesse mais felicidade no mundo dela, fiquei lisonjeado de ter sido engolido por esse mundo. Ela apareceu como uma nova luz onde eu poderia me apoiar.
É engraçado como as pessoas entram em nossas vidas. Do nada. Sem aviso prévio. Com um simples sorriso ou um olhar. Apenas estando no lugar certo e na hora certa. Eu te encontrei assim, Lucy. Imagino como eu seria se não tivesse levantando atrasado aquele dia em particular. Na verdade, acho que eu não seria. Você entrou na minha assim, e está sendo levada na mesma facilidade.
É assim que funciona. As pessoas vem e vão. Nem sempre conseguimos dizer adeus antes delas irem definitivamente. E mesmo assim elas parecerem estar sempre com a gente, em nossas memorias, em nossos corações. Em pequenos atos, em diversos lugares.
Eu não quero te ter só em memórias, Lucy.
Eu te disse, não quero novos sonhos. Sinto muito em completar, que você está em todos eles. Sempre achei bobeira o mundo girar em torno de outra pessoa. Daí você aparece, e me mostra que bobeira é não ter o mundo girando em torno de outra pessoa. Porque apesar de todo o sofrimento, ainda acredito que todos os momentos bons valem a pena. Vale a pena estar ao seu lado.
Pode ser tarde, mas você perdoaria todos meus erros? Eu perdoo os seus. Então pode voltar logo para mim? Eu não aguento mais isso.
Estou conversando comigo mesmo. Devo estar pirando.
De repente, a porta escancarou-se, fazendo com que eu e Levy acordássemos do transe. Mas não era um médico ou uma enfermeira. Era só mais algum pessoal para ficar angustiado com a gente.
— Cadê a Lucy? — Sting perguntou aflito.
Não respondi. Simplesmente porque não queria aceitar a verdade. Levy levantou-se e correu para abraçar Gajeel e chorar ainda mais. Yukino também apareceu na porta, mas não tive a audácia de ir até ela. E nem precisei, porque o médico apareceu. Levantei na mesma hora.
— Como ela está? — agitei-me.
Ele suspirou e meu coração pareceu estilhaçar-se.
— Ela está se recuperando... — disse com o semblante triste.
Isso bastou para que eu ficasse aliviado, mas algo em seu aspecto me dizia que algo a mais viria. Busquei o olhar de Levy para ver se ela estava tão aliviada quanto eu, porém não estava. Seu olhar parecia ainda apavorado. Olhei novamente para o médico para que ele continuasse. Minhas mãos estão suando.
— O bebê... não resistiu.
...
— Que? — perguntei sem entender.
Levy começou a soluçar ainda mais alto, colocando a mão em frente a boca e olhando para mim em desespero. Minha intuição parecia gritar comigo.
— O que foi que disse? — perguntei novamente.
O médico olhou para mim, provavelmente percebendo como eu estava alterado.
— Fizemos de tudo, mas ela perdeu muito sangue, houve algumas complicações. Eu sinto muito senhor. Você era o pai?
Fiquei olhando para ele, sem olhar. Senti que meu corpo estava tremendo. Pai? Bebê? Que história é essa? A Lucy estava... grávida? O que?
— Quem era o pai, Levy? — questionei tentando manter minha voz firme, mas tenho certeza de que não estava mais.
Ela não respondeu, apenas começou a chorar ainda mais.
— QUEM ERA O PAI, LEVY? — gritei transtornado.
— ERA VOCÊ — Sting berrou de volta.
Olhei para ele. Queria responde-lo, mas não pude. Não saberia o que dizer. Tudo pareceu ser um borrão para mim. Comecei a tossir desesperadamente, sem ar. Tentaram me ajudar, mas me afastei de todos. Os sentimentos vieram todos de uma vez, como um turbilhão que se fundiam e se contrariavam. Em um mesmo segundo, me senti acabado, triste, revoltado, traído, frustrado, decepcionado e mais milhões de outras definições que eu não consigo identificar. Mas a dor era a pior, é incontrolável, esmagadora.
Eu... acabei... de perder um filho... que eu nem sabia da existência?
Tentei respirar fundo, mas as tentativas eram em vão. Meus amigos diziam várias coisas ao mesmo tempo, eu ignorei. Ignorei tudo. Porque eu estava inutilmente tentando ignorar a realidade.
— Sinto muito, Natsu — escutei Levy dizer.
Então ignorei novamente. Nem me lembro do momento em que me sentei. Nem do momento que as lágrimas começaram a cair consecutivamente. Apenas me lembro... do momento em que perdi o título de pai, sem nem ao menos ter ganho. Do momento, em que minha vida desabou de verdade.
Eu sinto falta dos anos que foram apagados
Eu sinto falta do jeito que o brilho do sol iluminava seu rosto
Eu sinto falta de todas essas coisas pequenas...
Eu nunca imaginei que elas significariam tudo pra mim
(From Where You Are – Lifehouse)
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