Destino
3 A nova e triste casa...
Notas iniciais
Por que isso aconteceu? Não podia ser verdade, eu estava longe do meu Eichi... Por que deixei isso acontecer? Por que eles fizeram essa crueldade? Por que separaram nós dois?
Quando notei que estava no carro da minha nova família, eu não suportei a dor da perda. Poderia ter gritado, esperneado e chorado... mas não, percebi que não havia mais jeito... só restava ficar aqui.
Não disse nenhuma palavra, eles falaram comigo, eu acho, mas não consegui escutar nada... eu não queria escutar, muito menos falar. Tudo o que eles falavam entrava pelos meus ouvidos, mas não era absorvido.
Minha voz não soaria mais, eu não queria desperdiçá-la com isso, não queria! Eu não suportava a idéia de viver longe de meu Eichi, por isso que a partir de hoje eu estava morta!
Chegamos na casa, era uma bonita casa, grande e arejada. Altas paredes que indicavam ter vários andares, um lindo jardim que enfeitava a volta da casa, tinha um lindo chafariz de peixinhos... Qualquer menina faria de tudo para viver aqui, mas eu não, eu queria viver no meu orfanato.
Entramos na casa, era ainda mais bonita por dentro. Tudo arrumado, os móveis perfeitamente alinhados, e a limpeza era um tanto sistemática. Gostei do que vi, mesmo sabendo que não queria morar aqui.
Os móveis pareciam ser todos da maior qualidade possível. Muitos espelhos enfeitavam a casa toda, junto com lindos tapetes felpudos...
- Mitsuki, querida, venha ver seu quarto. – Não sei dizer de que boca saiu essas palavras.
Eu assenti com a cabeça, continuei sem dizer nenhuma palavra. Via meio embaçado a reação de todos, com o meu estado vegetativo. Mas eu não me importava com nada.
Subi as escadas, levantando as pernas de uma forma que nem eu sabia se ainda as controlava. Minha respiração era fraca, se eu pudesse, parava de respirar. Meus olhos estavam caídos, entre abertos... tudo isso era ruim demais.
Subi os degraus acompanhando o casal, eles paravam na frente de uma porta cor de rosa. Pendurado ali, tinha uma plaquinha roxa escrito bem vinda. Acho que eles já tinham a intenção de adotar uma menina.
O meu novo pai, se posso considerá-lo assim, abriu a porta para que eu entrasse. Eu entrei, ainda levando minha dor.
Era um quarto lindo, todo cor de rosa, cheio de ursinhos... muitos brinquedos, tudo feito carinhosamente, não para mim, para outra menina que fosse capaz de aproveitar isso sem dor.
Pensei em ter ouvido algo do casal, algo para que eu me deitasse e descansasse. Bem, eu não tinha muita coisa a fazer nesse dia, só restava me deitar e amargurar.
A cama era bem macia, jamais senti uma cama igual a essa. Seria reconfortante, mas ainda eu queria o meu Eichi aqui, e sem ele... nada era bom.
Eu não estava com muito sono, então resolvi cantar. Perto de onde estava, tinha uma pequena janela que dava para observar a lua. Encarei a janela e comecei a cantarolar algo sem sentido...
Por que te perdi?
Se fui tão feliz quando vivi...
Eu e você éramos um só.
Mas por que eles te tiraram de mim?
Ela está ali.
A Lua pode ver o quanto sofri...
Ela que viu todo o meu amor,
Agora pode ver apenas dor...
Acordei bem cedo, ainda com a esperança de estar em outro lugar. Mas eu não tive esse prazer, eu ainda estava aqui. Ainda estava entre paredes desconhecidas...
Levantei metade do corpo para olhar melhor meu quarto, sim, ele era muito bonito. Algo me chamou a atenção, perto da porta, tinha uma menina, uma menina que jamais vi.
Ela era da minha idade, ou um pouco mais velha. Sorria para mim, e segurava uma bandeja toda enfeitada. Era incrível como aquela menina parecia ser feliz, ou estar feliz.
Por mais que eu estivesse triste, eu tive que sorrir também, ela parecia tão acolhedora...
- Olá Senhora Mitsuki, meu nome é Kaoro, sou sua empregada! Vim trazer seu café da manhã, tudo que precisar, pode me chamar!
Kaoro parecia um robô falando, acho que deveria ser ensinada a fazer isso. O que me estranhou foi ver que ela era bem nova para estar trabalhando, deveria ser filha da empregada ou algo assim.
Sorri para ela novamente, ela tinha sido tão gentil comigo... e ela não tinha feito nada a mim, não custava eu ser um pouco educada.
- Olá Kaoro, muito obrigada pelo café!
Ela assentiu e o deixou ali, sem dizer mais nenhuma palavra.
Gostei muito de Kaoro, por mais que eu nem a conhecia ainda. Quem sabe ela não poderia ser a minha amiga? Seria algo bom, para nós duas!
Comi meu café da manhã lentamente, eu não estava acostumada a comer dessa maneira. Normalmente nós tínhamos que ir até a cozinha do orfanato e comer...
Normalmente eu comia junto ao Eichi!
Mas lágrimas se derramaram naquele momento. A comida não passava pela minha garganta, ela enroscava. Resolvi não comer mais, a dor pela perda era maior.
Jamais eu ia conseguir superar isso, jamais... o que mais eu queria nesse momento era o meu Eichi...
Eu precisava de algo para aliviar essa dor, sem Eichi eu não poderia viver... Mas pelo menos, quem sabe eu poderia apenas não morrer?
Não, não tinha nada para aliviar minha dor... Não existia nada que pudesse me deixar um pouco mais feliz, não existia... Novamente me peguei chorando descontroladamente...
Eu não me importava mais com nada...
Pela iluminação que passava pela janela de meu quarto, pude perceber que o tempo passou rápido, e que já era bem tarde.
Algo aconteceu, escutei um barulho incomum vindo da porta. Arregalei os olhos, quem seria a bater na porta? Isso era bem estranho... quem quer que fosse, provavelmente entraria sem bater...
Levantei da cama e fui ver quem era. Agora eu podia ter uma idéia, deveria ser a menina, a empregada chamada Kaoro... Já estava quase na hora do almoço.
Abri a porta e lá estava ela, totalmente formal como da outra vez, mais de manhã. Eu a fitei sem saber o que dizer.
- Olá senhora Mitsuki, quero que me perdoe por te incomodar... Percebi que a senhora está sozinha e resolvi vir aqui e oferecer companhia...
Eu olhei a menina, era engraçado, mas ela parecia querer ser a minha amiga? Eu mal tinha chegado aqui, ela já se preocupava comigo dessa maneira...
- Oi, pode me chamar de Mitsuki apenas... Acho que podemos ser amigas...
- Era exatamente isso que gostaria, queria ser a sua amiga! – Ela abriu um sorriso imenso em seu rosto.
- Então seremos amigas!
Fale com o autor