Destino
2 Verdade
Notas iniciais
Aichi abriu seus olhos devagar, ainda meio sonolento, viu uma imagem familiar bem próxima ao seu rosto. Com o susto ele saltou para traz que acabou lembrando a imagem de um gatinho.
— Waaah! K-Kai-kun? — perguntou meio corado. — Por que eu estava no seu.. c-colo?
Diante da pergunta surpresa Kai ficou meio sem jeito de responder, na verdade não tinha nenhum motivo exato para isso, apenas aconteceu.
—Bom.. você acabou adormecendo e eu não queria te acordar...
Aos poucos Aichi foi relembrando dos ocorridos, que estava mal e não poderia voltar para casa daquele jeito, e a unica pessoa que pensou em pedir ajuda foi Kai, ele começou a sentir vergonha das coisas constrangedoras que havia dito. Mas o que ele podia fazer? estava desesperado, precisava desabar ou sentia que iria explodir.
—Então.. — Começou o garoto menor — Desculpe invadir a sua casa assim e... dizer todas aquelas coisas.
—Tudo bem, eu não me importo, antes disso vamos cuidar de seus machucados. — A voz de Kai era gentil, Aichi sentia sua preocupação e por mais que não quisesse mais causar problemas ao amigo, decidiu aceitar.
Ele sentou em uma cadeira até que confortável enquanto o moreno trazia os primeiros socorros.
—Você poderia começar me contando sobre o que aconteceu — Disse enquanto limpava alguns cortes e enfaixava.
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"O que será que eu deveria comprar para comer?" Pensava Aichi a caminho de uma lanchonete que ele gostava muito de ir. Ele andava tranquilamente quando percebeu a presença de três garotos um pouco mais atrás dele. Decidiu ignorar.
Alguns minutos depois de continuar andando notou que eles ainda estava lá, olhou para trás e percebeu que não apena o estavam seguindo, mas de vez em quando cochichavam entre si e começavam rir. Depois de mais algum curto tempo, eles vieram até Aichi.
Supostamente era uma conversa amigável, mas os três estavam parados a sua frente como se o cercassem ou quisessem impedir a sua fuga.
—P-posso ajudar? — Aichi decidiu criar coragem e perguntar.
O maior deles, aparentemente o líder, deu um passo a frente.
—Siim, haha, você pode nos ajudar, imagino que você tenha um deck não é? — No mesmo instante que foi mencionado a palavra deck Aichi levou sua mão até o bolso onde o guardava, nunca saia de casa sem ele.
—E se eu tiver? — Ele que estava sendo observado a algum tempo, então não achou que deveria mentir, pelo menos não nessas circunstancias.
_Ah mas isso facilita muito as coisas. — O inimigo começou com um tom ameaçador que até fez Aichi recuar alguns passos. — Vamos fazer o seguinte, eu estou um pouco irritado nesse momento, que tal jogarmos algumas partidas e... não sei... se perder você me dá seu deck, o que acha?
Essa foi a coisa mais absurda que Aichi já tinha ouvido, dar seu deck? nunca que ele faria isso, de jeito nenhum, impossivel! Afinal aquele deck continha seus preciosos amigos, que mesmo sendo fraco, eles lutam ao seu lado e o ajudam a ficar mais forte. Por causa deles, ele havia reencontrado Kai, seu herói, aquele que merecia todo o respeito que conseguia imaginar.
Espera, por que lembrara de Kai agora? Isso não faz sentido, por que sempre que Aichi passava por uma situação difícil ele pensava nele? Será que...não não não, ele já havia pensado nessa possibilidade, não tem nenhuma chance disso acontecer, Kai era apenas um grande amigo, só isso...
—O que quer dizer com isso? É claro que não, nunca que eu colocaria meu deck em risco. — Colocando os pensamentos sobre Kai de lado respondeu.
—Não, não, garotinho, acho que você não entendeu, eu não estou pedindo, é uma ordem — Ameaçou tirando um canivete que levava no bolso. Seus outros dois colegas não tinham armas, mas eram com certeza duas vezes maior que Aichi. — Na verdade eu não me importo realmente com o que você escolher, acho que os dois vão servir para aliviar minha raiva — Sorriu maliciosamente.
—Tudo o que você tem que fazer é ganhar não é? — Terminou exibindo uma grande confiança em suas habilidades, provavelmente já havia feito outras vítimas antes de dele.
O pequeno garoto estava com medo, não tinha escolha a não ser aceitar o desafio e ganhar.
—Tudo bem, eu aceito — Disse finalmente com relutância.
Os quatro seguiram contra a vontade de Aichi para uma área mais isolada. No momento, eles eram os únicos ali. Os dois tiraram seus decks e começaram a batalhar. Mesmo com medo, Aichi reparou que o inimigo não era tão forte e que dominava a partida facilmente. Com certeza o líder da gangue percebeu que estava perdendo, porque logo em seguida começou a mudar de estratégia.
Com alguns truques baratos ele começou a trapacear, e mesmo isso não foi o suficiente para garantir a vitória.
Terminada a partida, Aichi começou a juntar seu deck e se preparar para ir embora, virou de costas aos perdedores e começou a andar em frente sem olhar para trás, tudo o que queria era chegar em casa o mais rápido possível.
Mas seu alívio durou pouco tempo, o líder agarrou seu ombro e começou a falar.
—Calma ai seu pirralho, quem disse que você poderia ir saindo assim? Depois de trapacear e ganhar a partida, e agora fica se achando todo superior. — Aos olhos de Aichi aquilo parecia mais uma desculpa para não aceitar seu próprio fracasso, mas pensar assim não o fazia sentir menos medo, já que no momento, estava um cara gigante que lembrava um avestruz apontando um canivete para o seu rosto.
— Trapacear? Eu não fiz nada disso, eu apenas ganhei.. — Foi a única resposta que conseguiu pensar.
— O que você disse? Quer dizer que você é melhor que eu seu filho da mãe? — Agora estava perigoso falar mais com o garoto-avestruz, ele com certeza era desequilibrado.
_Não eu só... — Não deu tempo de responder ou desculpar, o líder começou a avançar para tentar pegar seu deck a força.
Aichi era esperto, conseguiu desviar e começou a correr. Os três inimigos o seguiram e, por mais rápido que o menor fosse, ele era fraco, e tinha pouca resistência. Logo, eles o alcançaram e o cercaram.
—O-O que vocês querem? Eu ganhei, só me deixem em paz... por favor. — Aichi queria chorar, estava com medo, mas sabia que tinha que ser forte, nunca mais mostraria sua fraqueza, não na frente daqueles idiotas.
—Hahaha, eu quero ver você implorar, mas afinal, porque se importa tanto com essa porcaria de deck?
Mesmo que Aichi tentasse, ele não teria chance de responder, perecia uma pergunta que não esperava uma resposta.
—Ah já sei, eu já te vi andando com aquele merda de cabelo marrom, aquele filho da puta que fica se achando superior, acho que devíamos dar uma lição nele.
"Espera o que? Por que estão envolvendo o Kai nisso? É do Kai que estão falando não é? Não por favor, não falem mal dele." Muitos pensamentos como esse passaram por sua cabeça, mas no fim tudo o que disse foram simples:
—Retire o que disse.
—Ahn?? O que raio esse pirralho está falando? — Já sem muita paciência para brincadeiras o Garoto-avestruz perguntou em um tom zombeteiro inclinando a cabeça para o lado.
—O que você disse do Kai, retire o que disse. — Aichi agora já não demonstrava seu tom calmo e severo de antes, deixava bem evidente em sua voz a raiva que sentia nesse momento.
—Aah, então o nome daquele merdinha é Kai? Realmente combina com aquela porcaria. Como será que eu deveria tortura-lo até que ele rasteje até mim e beije meus pés? — Uma risada ecoou alta pelo local vazio onde os quatro se encontravam sozinhos.
Aichi não pensou direito, e muito menos pensou sobre as consequências, tudo o que pensou foi em defender Kai, talvez parando para pensar, porque ele iria tão longe por alguém? Por mais amigo que fosse, não era necessário enfrentar alguém armado e você estando totalmente sozinho, ao menos concordasse para conseguir sair dali bem e contar o que aconteceu ao seu colega.
Mas naquele momento não, Aichi não podia negar o que sentia por Kai, algo muito maior que respeito. Ele sempre havia fugido, sendo um covarde, se achando sempre um inútil. Mas sentiu que se fugisse naquele momento, estaria não só fugindo de seus sentimentos em relação a Kai, mas estaria fugindo de si mesmo.
Em um ataque de fúria momentânea, Aichi deu um grande chute na canela do chefe inimigo e se posicionou em posição de luta, porém ele não era um lutador, não tinha força nem para entrar em em uma briga comum, muito menos contra três adolescentes duas vezes o seu tamanho, sendo que um utilizava um canivete.
Logo o garoto menor se viu cercado pelos três agressores, o líder que foi atacado estava extremamente nervoso, e não mediu forças para contra-atacar.
Deu alguns socos por si só que foram mais que o suficiente para derrubar Aichi, porém eles ainda não estavam satisfeitos e enquanto os dois seguidores o seguravam pelo braço para o manter em pé, o maior começou a uma tempestades de socos, chutes e cortes, até ficar sem fôlego.
Aichi estava quase inconsciente, ou talvez até parcialmente morto, quando a gangue se virou para ir embora. Quando estavam se afastando aos poucos, o garoto-avestruz sentiu algo agarrar a ponta de sua calça.
Era a mão de Aichi. Com um esforço enorme, pronunciou algumas palavras que talvez teriam que ser decifradas para se entender
—Nã-o...enc-o-ste no K-ai... — Essa foi sua ultima memoria antes de receber um chute no rosto e desmaiar completamente.
Ficou muito tempo ali jogado no chão, sem nenhuma alma viva tentar ajudar. Até que quando acordou talvez algumas horas mais tarde, sentiu um sentimento horrível, tão horrível que sentia que preferia morrer a se sentir assim. Começou a sentir o quão fraco e inútil ele poderia ser, e se por culpa dele, aqueles caras fossem atrás do Kai? Ele precisava de alguém, alguma pessoa que pudesse desabafar, jogar todos aqueles sentimentos angustiantes fora.
Com dificuldade se levantou e apoiado na parede começou a andar. Ele não poderia ir para casa nessas condições, sabia que só existia uma pessoa que ele poderia ir agora, e essa pessoa era aquela que ele mais sentia vergonha de encarar, o próprio Kai.
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