Destino
4 Camus
Notas iniciais
“I hear the echo of the promise I made. When you're strong you can stand on your own. But those words grow distant as I look at your face…”
Acordo preguiçosamente em minha cama e percebo que Hyoga está abraçado comigo. Flashes passam em minha cabeça, o que foi que fiz? Não acredito que me deixei levar por um momento de fraqueza. Com cuidado, me desfaço das mãos de meu pupilo e me levanto, o deixando dormindo. O observo por alguns momentos. Acho que nunca vi sua face tão serena e com um sono tão tranquilo. Um sorriso involuntariamente escapa de meu rosto.
Saiu do quarto e me encaminho ao banheiro para tomar banho. Ao sentir o contato da água em meu corpo, começo a lembrar da noite anterior.
Estava sem conseguir comer direito e nem dormir, pensando nos últimos acontecimentos e das coisas que Hyoga fez e por causa de minha negligencia, acabei tendo febre alta e meu pupilo, por consequência, veio cuidar de mim. Qual foi minha surpresa ao acordar, após ele fazer baixar a febre com compressa e vê-lo, deitado em meu peito e dormindo. Fiquei durante minutos sem me mexer, apreciando essa cena. Ele, de forma inocente, brincando com meus instintos e eu, quase cedendo.
Hyoga acaba cansando dessa posição e sai, me permitindo levantar da cama. Sento com as pernas para fora dela e mil coisas passam em minha cabeça. Não posso me deixar levar, mas quando ele se ajoelha em minha frente e o vejo à meia-luz.... Quando ele coloca a mão em minha testa e após isso segura minha mão entre as dele... Abri meus olhos e o vi, me olhando com preocupação, carinho e zelo, depois de ter me desafiado. Isso foi demais para mim. Quando me dei conta estava o beijando e depois que fiz isso, quando pensei que retomaria o domínio, ele se joga em meus braços e reduz a nada qualquer coisa que eu pudesse fazer. Não acredito como pude permitir tudo o que aconteceu essa noite.
Saiu do banho e começo a pensar o que farei quando Hyoga acordar. E agora? Que situação fui me submeter, justamente por um ato de fraqueza e sentimento.
Vou para cozinha e preparo o café. Não iremos treinar hoje, já está tarde e não quero me desgastar mais. Pela primeira vez depois de muito tempo, não sei o que fazer.
– Bom dia mestre – Hyoga interrompe meus pensamentos ao me cumprimentar. Ele estava com os cabelos bagunçados e com cara de sono, mas um semblante tranquilo e alegre.
– Bom dia – respondo – Você sabe que seus dias para conseguir a armadura de Cisne estão acabando.
– Eu vou conseguir mestre, o senhor verá. Te dou a minha palavra que não irei te decepcionar.
Ele sorri. O sorriso mais bonito que ele já deu, desde quando o conheço. Por impulso penso em sorrir de volta, mas consigo conter isso e mudando de assunto, o chamo para tomar café, que por sinal, estava na mesa.
Ele toma café todo sorridente e animado, mas percebo que, algumas vezes, me encara como se quisesse falar algo. Espero ele terminar o café e o chamo para ir até a sala. Eu me acomodo no sofá, suspiro resignado e um pouco impaciente.
– O que deseja falar Hyoga?
– É errado sentir tudo isso que estou sentindo mestre? Foi errado o que fizemos?
Passou a mão nervosa e impacientemente pelo cabelo e demoro alguns segundos para responde-lo.
– Olha, dependendo do ponto de vista, foi sim errado. Já te expliquei que sentimentos só atrapalham e são seu ponto fraco. Para nós, que somos defensores de Athena, não devemos ter falhas e foi o que aconteceu ontem, uma falha. Em contrapartida, tudo que é feito com verdade, não se deve ser enxergado como erro. É complicado Hyoga, muito complicado. Não sei como te explicar, até porque é novo para entender.
Ele me encara fixamente, como se assim pudesse entender e absorver as palavras que acabei de dizer. Sem pedir permissão, ele senta em meu colo e me abraça.
– Porque tem que dificultar as coisas para mim, Hyoga? – penso alto, mas minha voz sai baixa. Sinto ele me apertar e se aconchegar mais em mim, ao escutar essas palavras. Movido por um impulso que não consegui resistir, passo a mão no cabelo de meu pupilo, acariciando os fios loiros.
Quando percebo que isso não o acalma, começo a passar a mão em suas costas, em um movimento de subir e descer. Não digo nada, apesar de entender o medo que ele está sentindo. Todos temos medo. E ele ainda mais, por ter perdido a mãe, por ser apegado a ela, por ter sido escolhido para proteger Athena, porque sei que ele conseguirá a armadura de Cisne. Mas principalmente por minha culpa, de não ter sido forte o suficiente e o feito sentir e a encarar sentimentos que não está preparado devido a sua idade. Se para pessoas normais, existem situações que são difíceis, imagina para nós, Cavaleiros. E mais uma vez lembro o motivo de ter escolhido abdicar de sentimentos e no minuto seguinte, ao abaixar minha cabeça e ver Hyoga, o porquê cedi a eles.
– Desculpe-me pelo descontrole mestre – o ouço dizer, com a voz abafada.
– Entenda Hyoga, todos sentimos medo. É uma fraqueza que não pode permitir que usem contra você. Não é errado sentir medo e não precisa se desculpar. Mas cuidado para quem demonstrará seus medos, pois isso inevitavelmente será usado contra ti. Sou seu tutor e com isso sabe que pode confiar em mim. Entretanto, as pessoas lá fora não são iguais a mim, então terá que escolher com cuidado em quem pode confiar. Acreditar na pessoa errada pode te levar a destruição e a morte.
Me levanto do sofá, carregando Hyoga em meu colo e o levo para seu quarto e o coloco na cama.
– Durma Hyoga, existem coisas que só aprendemos depois que passamos por ela. Hoje não será o dia que entenderá tudo o que te falei, mas estou certo que irá entender em algum momento de sua vida. Você ainda tem muito para amadurecer e o meu tempo para te ensinar está acabando. No futuro iremos nos encontrar e quando isso acontecer, bom, não é algo para se pensar neste momento. Apenas descanse agora.
Nos dias que se passaram, foi como se a obsessão de meu pupilo fosse conseguir a armadura de bronze. Ele treinou com mais afinco e sempre, ao final de meus ensinamentos, tentava controlar o cosmo o suficiente para conseguir quebrar o gelo que escondia a armadura. E ele conseguiu, como esperado. Não posso negar que senti uma ponta de orgulho com tal feito dele.
Ele estava feliz com essa realização e eu me mantive neutro, apesar de tê-lo cumprimentado. Agora é que a vida dele vai verdadeiramente começar, como Cavaleiro de Bronze.
Hyoga está falando alguma coisa, mas não presto atenção. Estou com a mente longe e ele percebe.
– Mestre, o senhor não está prestando atenção no que estou dizendo!
– Repita, por favor, o que falava.
– Hoje vou preparar o jantar – ele falava com empolgação – Um jantar que jamais esquecerá mestre. Como forma de agradecimento por tudo!
– Faça como quiser – respondo. Estou feliz por ele, mas não consigo compartilhar da empolgação que ele está. Sei como é difícil a vida de Cavaleiro e não tenho certeza absoluta que Hyoga está preparado, apesar de ser forte fisicamente e ter certo controle do cosmo. Resolvo ignorar todo receio que me ronda, afinal não adianta pensar e se preocupar com algo que não consigo prever.
Hyoga estava certo quando disse que ia preparar um jantar que jamais esqueceria. Tudo estava muito bom e optei por esquecer momentaneamente os problemas e de forma sutil, me divertir. Até me permiti beber um pouco, proibindo Hyoga de fazer o mesmo, por causa de sua idade. Meu pupilo fazia de tudo para me entreter.
Após terminar o jantar e arrumar a cozinha, nos preparamos para dormir. No outro dia ele voltaria para o Japão, então essa noite é nossa despedida.
– Mestre – ele me chama receoso, no momento em que coloquei a mão na maçaneta para entrar em meu quarto. Deixo aberta a porta dele e me viro para Hyoga.
– Você é um Cavaleiro assim como eu. Pode me chamar pelo nome. Sempre pode fazer isso.
– Camus... me permite um último desejo?
– O que posso fazer por você, Hyoga?
Percebo que ele reúne toda sua coragem para pronunciar o que quer. Ele me olha com brilho nos olhos.
– Deixe-me despedir de você!
– Não Hyoga. Já expliquei que não pode acontecer.
Ele se irrita comigo e vai para o quarto. Eu sorrio ao entrar no meu. Hyoga parece uma criança mimada que não conseguiu o brinquedo desejado.
Após uma hora ele volta ao meu quarto, entrando sem pedir permissão. Deveria puni-lo por isso, mas hoje é o dia de comemorar sua conquista e despedir-me dele. Eu estava de pé, arrumando minhas coisas, pois irei partir amanhã de volta para o Santuário
– Sabia que você voltaria aqui Hyoga – falei, sem dar tempo dele se pronunciar.
– Como assim, sabia mestre?
– Não importa. O que veio fazer em meu quarto sem pedir permissão?
– Aquilo então foi um teste? – ele pergunta após refletir por alguns segundos.
– Uma última lição antes de nossa despedida – eu falo, o empurrando e o pressionando contra a parede – Algumas vezes, é necessário ter força de vontade e correr atrás de nosso objetivo. Nem sempre poderá ser passivo e submisso. Nem sempre poderá ignorar seus desejos. O segredo de um sábio é saber quando se deve avançar e quando se deve recuar. Desde quando o conheci, te ensinei a lutar por aquilo que queria, que no caso era a armadura de Cisne. Mas a partir de amanhã, não terá a mim para guia-lo. Você será o único responsável por suas atitudes, escolhas e destino. Então me diga Hyoga, o que você quer?
– Queria me despedir do senhor, mestre... Camus – ele responde, como sempre submisso a mim.
– Então Hyoga – falo baixo no ouvido dele e o sinto tremer ao som de minha voz – Por ter adivinhado certo o momento que não deveria recuar e lutar por aquilo que queria, terá sua recompensa.
Ele me pediu uma despedida, mas daria a ele uma noite que ele jamais esquecerá. Hoje eu tenho certeza que estou perdido.
Fale com o autor