Destined
10 Capítulo nove
Notas iniciais
E, atenção! Nesse capítulo aparece um novo personagem e ele é um dos meus favoritos. O recebam com carinho!
♥
Capítulo Nove
Aquele dia amanhecera chuvoso como o anterior, as gigantescas nuvens cinzentas estavam carregadas, mas desaguavam devagar, em gotas finas e constantes. A estrada de terra, agora barrosa, que levava a vila estava cheia de poças de lama, mas decidiram sair naquele dia, porque, com os céus nublados, o sol não podia incomodar Kouyou. Porém suas botas e as barras das calças e capas já estavam totalmente sujas de barro e Yuu quase escorregara em uma parte mais lisa do trajeto.
Ainda assim continuaram seguindo até a vila que naquela manhã não estava movimentada, na verdade parecia muito vazia, talvez pela chuva ou pelo medo dos ataques que aconteceram as pessoas não saíam mais de suas casas, somente os comerciantes que não tinham muita escolha. Da praça central podiam ver a hospedaria, a barbearia e o mercado abertos, todos com uma aparência quase abandonada. Acabaram por decidir seguir primeiro para a hospedaria e beber alguma coisa antes de seguirem aos outros lugares.
Cortaram rapidamente a rua, entrando no estabelecimento que, tão diferente do ambiente exterior, estava bem aquecido. O dono, mal-humorado como sempre, lhes acomodou em uma das mesas ao canto, próximo a uma parede de madeira escura. Correndo os olhos ao redor, conseguiriam contar nos dedos as pessoas que estavam no bar àquela hora.
— Vocês querem o cardápio? — O homem perguntou com sua voz rude.
— Não, obrigado, só duas doses de whisky. — Kouyou respondeu objetivo.
— Querem música? — Voltou a perguntar com má vontade.
— Não. — Kouyou respondeu e por fim o homem se afastou.
Yuu riu baixo. — Que cara mal-humorado.
— Com certeza… — Kouyou resmungou e alcançou a mão de Yuu sobre a mesa.
Haviam se sentado em cadeiras próximas sem se importar com o olhar das poucas pessoas que estavam ali, até porque aquelas pessoas não pareciam muito preocupadas com o que faziam. Yuu sorriu para o gesto do loiro e observou as duas mãos juntas, a do maior estava tão fria que enviou um arrepio por seu corpo, mas não se importava.
Kouyou virou a mão de Yuu para que pudesse ver a palma, seus olhos logo correndo para o corte que o mais novo havia feito na noite em que recebera a carta de seu país. Deslizou delicadamente seu próprio dedo sobre o pequeno ferimento, sentindo-o áspero na mão de textura macia.
— Por que se cortar para abrir uma carta? — Perguntou em um timbre baixo e enrouquecido.
Yuu sorriu ao perceber a preocupação contida naquela pergunta. — Como Adele havia dito, essas cartas são feitas pelos magos da Ordem Branca, eu não entendo de magia, mas sei que é um modo seguro para que inimigos não possam saber sobre assuntos oficias do Lado Branco. — Explicou com a voz baixa. — Além do lacre não ser desfeito senão por sangue de algum dos membros da Ordem, o papel é impossível de rasgar ou queimar ainda estando lacrado.
— Então a magia está sob o domínio de seu país? — Kouyou soava interessado, guiando seus olhos até os negros de Yuu.
— Bem, sim. — Respondeu simplista, mas ao notar a sobrancelha erguida de Kouyou emendou: — Pelo que se conta da história do Japão, houve um tempo onde as terras não eram divididas. Não havia Lado Branco ou Lado Negro, era tudo um só e também era um só imperador. Nessa época a magia era muito praticada ao norte do país, pelo o que se sabe tudo começara com uma família que com os anos foi adquirindo discípulos, mas ainda assim eles não eram muitos e viviam muito isolados em um vale próximo a uma montanha.
Tomou o fôlego e olhou para Kouyou que parecia atento as suas palavras, então continuou: — O homem que liderava essa família era muito próximo do imperador e sempre que este necessitava de ajuda os magos não se negavam em ajudar. — Yuu pausou, tentando se lembrar da história. — Bem, por muitos anos tudo se seguiu assim e havia paz em nosso país, mas quando chegou o momento do Imperador ceder seu trono a um de seus herdeiros essa paz acabou. Por direito o trono deveria ser do filho mais velho, porém o filho mais novo também o queria e não aceitava que o pai simplesmente cedesse o trono ao irmão, então sugeriu que ele e o irmão duelassem pelo trono.
— O duelo aconteceu, mas ambos tinham um conhecimento em luta muito grande e houve empate onde os dois quase morreram. — Yuu se interrompeu com um suspiro breve. — O Imperador ficou muito triste com isso e quando os filhos se recuperaram os chamou e disse que faria uma divisão das terras. O mais velho governaria nas terras do norte e o mais novo nas terras do sul, assim ambos não precisariam mais lutar. O filho mais velho, ainda que não achasse totalmente justo, concordou com os desígnios de seu pai, porém o mais novo não, ele somente fingiu concordar.
Olhou para Kouyou como quem pergunta se há alguma dúvida, e com o assentir do loiro prosseguiu: — Enquanto o antigo Imperador era vivo, tudo se seguiu em paz, mas o que ninguém sabia era que o filho mais novo planejava um ataque ao lado do irmão. — Parou por um momento, considerando o que vinha a seguir, e, lambendo os lábios, prosseguiu: — Mas logo depois da morte do pai, quando as terras do Japão ainda estavam muito abaladas pela perda de tão grande líder, o filho mais novo executou o ataque. Muitas pessoas do outro lado morreram e foi com a ajuda daqueles magos que o irmão mais velho conseguiu expulsar aos guerreiros do irmão.
Kouyou pigarreou interrompendo o menor: — Então a divisão que existe no Japão começou somente por causa de uma briga de família?
— Infelizmente, Kouyou, o egoísmo de alguns pode, muitas vezes, prejudicar a vida de vários outros. — Yuu lamentou antes que continuasse com a história: — Os nomes White Tiger e Black Tiger surgiram nessa época, por se dizer que os dois irmãos, em batalha, pareciam-se com grandes tigres fortes e astutos. As terras também foram nomeadas como Lado Branco e Lado Negro e assim até hoje o país vive em guerra. Eu não sei como é o governo do Lado Negro, não sei sobre sua história, mas no Lado Branco as coisas foram bem certas. O nosso governante fez um acordo com os magos e, depois de fundada a Ordem Branca, estes receberam um lugar de destaque, muitas coisas que são feitas lá é por meio de magia. Existe ainda algo como um Quartel onde os membros aceitos na Ordem são treinados e os civis são sempre muito bem monitorados. — Suspirou e deu de ombros. — Acaba que a magia está muito enraizada naquelas terras. Agora, essa bebida não está demorando?
Kouyou riu pela mudança brusca de assunto e correu os olhos até o balcão, para procurar o dono da hospedaria-bar, encontrando o homem escorado ao balcão, lendo um jornal amassado. Kouyou suspirou e voltou-se ao moreno. — Bem, obrigado por me contar toda essa história. Eu torço sinceramente para que as coisas se resolvam algum dia. — Soou complacente e sorriu para o moreno. — Mas, se não se importa, eu vou ali buscar a bebida, porque senão vamos apodrecer aqui esperando.
Yuu riu e assentiu vendo Kouyou se erguer, seguindo até o dono do estabelecimento e trocando algumas palavras.
Assim ficaram ali algum tempo, bebendo no intuito de aquecer o corpo. Dentro do bar era quente por causa da lareira e o whisky queimava de um jeito bom, aquecendo o corpo. Kouyou não se preocupava, mas para Yuu era bom. Quando saíram novamente, vestindo suas capas, decidiram seguir para o mercado. Lá também estava bem parado, tanto que o dono tirava um cochilo atrás do balcão.
Não se demoraram muito ali, passaram pelo corredor procurando pelo necessário, compraram algumas frutas que Yuu gostava e alguns ingredientes que Takanori pedira para o jantar, por fim, quando saíram, Kouyou ainda comprou uma maçã do amor para Yuu.
— Isso é muito duro. — Reclamou quando tentou a primeira mordida e Kouyou riu.
— Mas é doce, pensei que gostasse.
— Kouyou eu não quero quebrar meus dentes, sabe? — Kouyou somente riu e continuaram parados á porta do mercado enquanto Yuu terminava a maçã.
Depois disso seguiram para o barbeiro e, enquanto Yuu tirava as pontas do cabelo, parava de chover lá fora, ainda que o céu permanecesse fechado. Quando saíram aproveitaram a estiagem para passear pelas ruas da pequena vila e o lugar tinha sua graça, ainda que parecesse parado no tempo. Quando passavam por uma rua mais afastada, porém, sentiram-se compelidos a parar. Ali era mais deserto e ficava próximo a uma mata, as casas pareciam vazias e no silêncio tenso que havia no ar o choro de criança pareceu um grito.
Olharam-se brevemente antes que corressem em direção ao som, Kouyou disparando a frente com sua velocidade anormal. Quando Yuu conseguiu alcançar a última casa daquela rua viu que Kouyou travava uma pequena batalha contra outros dois, que também aparentavam ser vampiros. Correu seus olhos ao redor e suprimiu um grito de pânico quando viu os corpos ensanguentados jogados no chão de terra batida. Desviou os olhos da cena e então foi preso pela imagem de uma criança assustada que se segurava a madeira que sustentava o telhado da área.
Era um menino pequeno e franzino, não deveria ter mais que cinco anos, seu cabelo negro caía em leves cachos até um pouco acima da altura dos ombros e seus olhos eram de um castanho-claro parecido com mel. Yuu arregalou os olhos e, deixando as sacolas de compra no chão, seguiu até a criança. Ajoelhou-se ao lado do menino e tentou puxá-lo para seu colo, a criança, porém, se assustou e se encolheu mais.
— Eu vou te ajudar… — Falou com uma voz calma e o menino pareceu um pouco indeciso sobre o que fazer. — Venha comigo, eu vou te ajudar.
— O que aconteceu? — A voz baixa da criança soou até si e Yuu franziu o cenho. — Meus pais gritaram e agora minha mãe não responde, o que aconteceu?
Yuu engoliu em seco e ergueu uma mão trêmula acenando-a em frente ao rosto da criança, vendo que os olhos castanhos não acompanhavam o movimento. O menino era cego. O coração de Yuu se apertou mais e puxou os bracinhos devagar, fazendo-o soltar a madeira.
— Qual o seu nome? — Perguntou mantendo a voz calma ainda que tremulasse um pouco.
— É Tom. — O menino respondeu baixo guiando os olhos em direção da voz de Yuu.
— Tom, eu vou te levar para um lugar seguro, está bem?
— Mas e meus pais? — Ele perguntou parecendo aflito.
— Seus pais… — Yuu hesitou sem saber como dizer aquilo. — Tom, seus pais morreram. — Falou com a voz ainda hesitante e viu os olhos da criança se encherem de lágrimas até que essas transbordassem sem freio seguindo o caminho que outras lágrimas já haviam feito mais cedo pela pele clara. Os soluços escapavam pela boquinha vermelha e Yuu só pôde tomá-lo no colo, tentando oferecer algum consolo. — Vai ficar tudo bem, Tom, eu vou te levar para um lugar seguro. — Yuu prometeu levantando-se com o pequeno no colo.
Procurou Kouyou com os olhos vendo que ele já lhe encarava parado a entrada da área, provavelmente já havia dado um jeito nos vampiros. Aproximou-se com o menino no colo e suspirou dolorosamente, sabendo que Kouyou entendia a decisão que estava tomando agora.
A partir daquele momento aquele menino era de Yuu, porque nunca poderia abandoná-lo sozinho, a própria sorte, como acontecera consigo no passado.
Kouyou pegou as sacolas e, deixando um último olhar para trás, voltaram para a mansão.
° ° °
Já fazia algum tempo que as gotas haviam voltado a bater fortes contra a janela fechada de seu quarto, produzindo aquele barulho tão típico, que ainda assim era capaz de lhe desconcentrar da leitura. Acompanhava o percurso das gotas atentamente e isso deveria ter sua beleza para qualquer outro que não fosse Takanori. Porque Takanori era vazio e nada era capaz de se mostrar belo ante seus olhos, nada era capaz de lhe encher com um pouco de vivacidade que fosse.
Suspirou fechando o livro que repousava em seu colo, seus olhos se desviando até a lareira apagada de seu quarto. O quão frio deveria estar agora? Queria saber dizer. Queria poder sentir. Fechou os olhos por um segundo, mas, não aguentando mais aquela angústia anormal que vinha lhe abatendo todo o dia, se ergueu e caminhou para fora do quarto. O livro em suas mãos com certeza voltaria para seu lugar em uma das estantes da biblioteca, para talvez ser lido em um dia onde sua mente conseguisse se concentrar melhor.
Desceu devagar as escadas, seus olhos desprovidos de qualquer animação atuada, mas os desviou para a porta quando essa se abriu. Parou no último degrau da escada vendo um Kouyou encharcado entrar seguido de um Yuu também encharcado, mas o que lhe fez piscar duas vezes indeciso sobre o que estava vendo foi a criança que se encolhia no colo de Yuu. Fixou seus olhos no garoto e então sentiu um cheiro, que primeiro lhe atingiu suavemente, fazendo com que respirasse mais fundo, só para ser tomado por uma força que nunca sentiu antes.
E Takanori sentiu. Sentiu como há muitos anos não sentia. Sentiu como nem se lembrava mais como era. Tudo em sua volta brilhou sob uma nova visão e os olhos perdidos da criança pareciam o mais puro mel que nunca encontrara em sua vida. Ofegou e sentiu a garganta queimar com uma sede que não conhecia mais, talvez que nunca havia conhecido. Sentiu suas presas crescerem e sua boca secar, deu um passo à frente e soube: aquela criança era aquilo que esperou a vida inteira.
— Takanori? — Escutou a pergunta soar distante, mas não queria dar atenção.
Caminhou, preso pelos olhos do menino, com um passo lento e seu coração pareceu machucar o peito quando bateu acelerado como não se lembrava mais. Aproximou-se e sorriu estendendo a mão para a criança, mas muito antes que pudesse tocá-la, foi preso pelos braços de alguém.
— Takanori, o que você está fazendo? — Era a voz de Kouyou e se obrigou a voltar os olhos para ele.
— Eu… — Balbuciou, tentando encontrar o que dizer. — Kouyou, essa criança…
— O que tem ele? — O maior soou irritado, mas então tornou a olhar nos olhos de Takanori, vendo ali algo que conhecia muito bem. — Ele é seu par. — Constatou em um tom abobado.
Yuu, que observava toda a cena, apertou mais o pequeno Tom em seus braços ao escutar aquilo e recuou alguns passos.
— Sim, eu… — Takanori sentia uma grande dificuldade em respirar. — Kouyou, eu preciso mordê-lo.
— Calma Takanori, você tem que se controlar. — O maior soou paciente. — Kohara! — Gritou, ainda mantendo o pequeno loiro preso em seus braços. — Kohara!
O outro loiro não demorou em aparecer no alto da escada, sendo seguido por um Shinji de torço nu. — O que aconteceu?
— Leve Takanori para o quarto e não o deixe sair. — Pediu em uma réplica do que o menor fizera consigo próprio quando conheceu Yuu.
Viu entendimento cortar os olhos brilhantes do maior e ele puxar Shinji para que descesse consigo os degraus. Entregou Takanori para os dois e eles o guiaram para o andar superior. Kouyou sabia que o pequeno loiro não reagia de modo mais violento por estar surpreso demais com tudo o que podia sentir agora e se sentiu feliz pelo amigo.
— Vai ficar tudo bem? — A voz de Yuu ecoou até Kouyou que se voltou assentindo.
— Kohara vai ajudá-lo e sei que Takanori vai se esforçar para não mordê-lo. — Suspirou e se aproximou. — Agora vocês dois tem que tomar um banho e trocar de roupa, vamos subir?
— Vamos sim.
° ° °
Sentou o corpo pequeno sobre a bancada do banheiro, podendo então observar o rosto choroso. Afastou a franja molhada dos olhos castanhos e dispensou um carinho suave na pele macia da bochecha. Tom era uma criança linda e cuidar dele seria uma honra para si, ele seria o filho que ao lado de Kouyou não podia ter. Suspirou vendo tristeza na expressão daquela criança, vendo que, além disso, ele também estava assustado e confuso. E o que não deveria estar se passando pela cabeça daquela criança?
Yuu sabia que perder os pais não era fácil, que estar pela primeira vez sozinho e sem amparo era doloroso, mas queria deixar claro para Tom que ele não estava sozinho ou sem amparo, que cuidaria dele e, mesmo que soubesse que nunca poderia se igualar aos pais que ele perdera, tentaria seu melhor para que ele não se sentisse perdido. Pensando sobre isso correu seus dedos pelos fios molhados daquele cabelo tão fino, apesar de abundante, percebendo que molhados assim ele não formava os leves cachos em algumas mechas.
— Tom. — Chamou baixo e o garoto guiou os olhos assustados em direção a voz. — Meu nome é Yuu e a partir de hoje vou estar aqui por você. Eu te trouxe para o lugar onde moro e você também vai morar aqui agora.
O menino piscou mantendo os olhos perdidos em seu peito. — Vou morar com você?
— Isso. — Soou baixo ainda acariciando os fios molhados.
— E minha mãe e meu pai? — Ele perguntou com os olhinhos marejados.
Yuu respirou fundo e tornou a erguê-lo no colo, acomodando a cabeça da criança em seu ombro. — Eles estão em um lugar onde não podemos mais visitá-los, lá eles vão estar bem, mas ainda assim uma parte deles vai continuar aqui com você. — Sussurrou, sabendo que ele escutaria. — Se você ficar triste se lembre disso, está bem?
A criança assentiu contra seu ombro e Yuu se deixou niná-la por um tempo, ouvindo alguns soluços pequenos soarem algumas vezes, mas não se importou. Se ele tivesse que chorar a morte dos pais, que chorasse, não o impediria, porque sabia ser melhor do que guardar no coração. Guardar machuca, e Yuu não queria que coisa alguma machucasse aquele pequeno.
Ficaram assim até Yuu notar que ambos tremiam de frio, então, com o menino ainda nos braços, voltou-se para o quarto para saber o porquê da demora da água quente. Kouyou estava próximo a lareira, mas se virou assim que notou sua presença.
— Kazuki está preparando o banho no banheiro do seu quarto, eu vi que vocês conversavam e não quis atrapalhar. — Yuu sorriu com a explicação do loiro.
— Então eu vou até lá, que Tom já está com frio. — Ao ouvir seu nome o pequeno levantou o rosto, deixando que Yuu contemplasse aqueles grandes olhos de um castanho tão incrível. — Não é mesmo, Tom? — Perguntou com um sorriso leve.
O menino assentiu e voltou a esconder o rosto em seu ombro. Yuu sorriu para Kouyou e saiu do quarto seguindo pelo corredor até alcançar aquele que deveria dividir com Yutaka, encontrou Kazuki já indo chamá-lo e somente o agradeceu levando o menino para o banho.
° ° °
Os dois dias que se passaram então foram carregados de mimos para o pequeno Tom. Todos da casa se empenhavam na missão de fazê-lo sorrir, mesmo que alguns, como Farir, não levassem tanto jeito com isso. Havia muitos comentários, principalmente de Kohara, sobre como aquela situação os lembrava de quando Shinji havia sido levado para viver com eles, ainda mais com o fato do garoto ser cego como o moreno era.
Yuu notava que Takanori observava tudo a distância, talvez por querer se acostumar a ter o pequeno por perto antes de tentar fazer ao menos uma amizade com a criança e Yuu não se incomodava com isso, pelo contrário, achava um ato nobre da parte do loiro. E, se assim estavam evitando que Tom se machucasse, Yuu faria de tudo para que as coisas não mudassem.
Mas, independente das ações de qualquer um, Tom não sorria. Ele aprendera a reconhecer o colo de Yuu e sempre se voltava para ele quando qualquer outro tentava tomá-lo nos braços ou até mesmo brincar com ele. O pequeno não parecia saber brincar com outras pessoas e talvez fosse preciso de alguns meses para que aprendesse. Também levaria tempo para que ele se habituasse a ter tantas pessoas querendo mimá-lo.
Além de tudo Yuu se incomodava por ele não falar dos pais, mas sabia que era muito recente ainda, talvez a mente infantil ainda não houvesse se dado conta realmente da situação.
Mas os dias, bem ou mal, passaram e naquela manhã fria de quarta-feira, quando Yuu agasalhava Tom para saírem do quarto, Kazuki veio contar que Derec chegara. Não se demorou então em vestir o menino e, pegando-o no colo, desceu para a sala de jantar. Tinha medo de deixá-lo descer a escada sozinho, então sempre o carregava quando tinham que descer.
Quando chegou a sala de jantar todos já estavam lá e Bridget logo pegou Tom para apresentá-lo a Derec. Yuu sentiu o coração pequeno ao vê-lo tenso nos braços da vampiro, mas não fez mais do que se guiar para perto de Kouyou. Suspirou abraçando-o apertado, inalando do cheiro bom que ele tinha e sentia-se confortável estando ali, tanto quanto não estaria em qualquer outro lugar, mas foi obrigado a se afastar quando ouviu o chamado choroso:
— Yuu! — Voltou-se vendo que Tom se contorcia tentando descer do colo de Bridget.
Suspirou e se afastou de Kouyou para pegá-lo no colo. — Desculpe. — Pediu para a morena que lhe entregava o pequeno com um brilho um pouco magoado nos olhos verdes.
Houve então um estalar de língua que ecoou claramente no ambiente silencioso. — Eu não entendo porque ele não aceita o colo de qualquer um que não seja Yuu. — Kohara soou observando o garoto se agarrar ao moreno. — Shinji não era assim…
— Bem, eu tenho uma teoria. — Quem falou foi Yutaka.
— Qual? — Yuu perguntou voltando para o lado de Kouyou.
— Olha, os vampiros são frios, não é como se uma criança fosse gostar disso. — Deu de ombros. — Talvez isso o assuste.
E Yuu se deixou considerar seriamente aquela hipótese. Sabia que tinha lógica, sabia que para alguém que não entende muito do que acontecesse ao redor o frio do corpo dos vampiros podia ser um tanto assustador, naquele caso isso era agravado por se tratar de uma criança. Uma criança cega. E, sentindo o quanto o menino se encolhia contra si, acreditou naquilo. Talvez munido deste entendimento Yuu pudesse conseguir fazer Tom se abrir em uma conversa.
— Bem, em algum momento ele se acostuma. — Shinji se pronunciou entrelaçando os dedos aos de Kohara. — E pelo que eu me lembro de quando conheci Kohara, acho que Takanori pode ajudar nisso.
Takanori, que permanecia quieto em sua cadeira, voltou os olhos arregalados para Shinji. — Eu?
— Claro. Vocês são destinados, não é? — O loiro assentiu ainda que parecesse hesitante. — Então? Eu não tinha medo do toque de Kohara por mais que fosse frio, nunca tive.
E os olhos de Kohara brilharam mais com aquela declaração tão atípica do moreno, enquanto Takanori parecia engolir em seco.
Mas um pigarrear grave fez com que todos se aprumassem nas cadeiras. — Peço que deixemos isso para outro momento. — Derec se pronunciou conseguindo que as atenções caíssem sobre si.
— E então? — Yutaka perguntou ansioso. — Qual foi a resposta do líder de vocês?
Derec sorriu, mostrando seus dentes brancos e alinhados, e apoiando os cotovelos sobre a mesa falou: — A resposta, jovem Yutaka, foi positiva e nós podemos começar a organizar toda a exterminação.
Notas finais
Espero que tenham gostado dele.
E, bem, quero fazer um agradecimento especial a quem tem favoritado a fic; mesmo vocês que nunca comentaram. É importante saber que tem gente curtindo a fic e fico mesmo feliz com isso. Só espero que vocês tomem coragem de deixar um review também algum dia ♥
Agora, como não podia deixar de ser, agradeço a Su Shibasaki; Pon; Anghel; vampire_kawaii; tomoyo05; Shiroyama May e Chido ri. Cara, vocês não fazem ideia do quanto me motivam e me fazem feliz. Muito obrigada.
Por fim, me despeço! Até o próximo! ;o;
Nota: Betado pela linda, maravilhosa, incrível Shiroki_D. ♥
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