Destined

3 Capítulo dois


Notas iniciais
Vou passar a postar dois capítulos por semana, espero que fiquem contentes com isso. XD
E esse é dedicado especialmente à Annie Lannister, em consolo por... bem, ela sabe o motivo ^^
Dito isso, lhes peço que leiam carinhosamente ♥

Capítulo Dois


E, naquele efêmero momento, a vontade pareceu fugir de seu corpo.



E era como se não houvesse mais o vento forte ou as vozes que gritavam em volta.



E era como se uma força muito maior lhe impulsionasse a se abandonar naqueles braços frios.



E sentia-se vulnerável enquanto aqueles lábios gélidos tocavam sua pele.



Pensou em recuar, em afastá-lo e fugir, mas não encontrou forças em seu próprio corpo. Em um segundo tremia de medo e no outro desviava seu olhar para a abóbada celeste esperando seu destino trágico.



Sentia o desespero da criatura que inalava de seu cheiro como uma droga, que apertava sua cintura com força desmedida e que resvalava os lábios por sua pele como quem experimenta de algo vital.



E isso lhe fazia tremer mais. De frio, de medo, de abandono…



— Kouyou! — Alguém gritou com mais força e então aquele corpo gélido foi afastado de si.



Caiu ao chão quando perdeu seu sustento, sua cintura dolorida pelo aperto que o outro havia feito, e levou uma mão ao pescoço como se para confirmar que ainda estava intacto. O loiro, que agora era segurado por outros dois, ainda lhe olhava com aquela dor latente e se contorcia querendo se soltar, querendo lhe ter entre os braços para que pudesse… morder-lhe. Ofegou contra o vento cortante que ainda estava ali, diferente do que tinha pensado segundos antes, e só quis ir embora.



Adele observou todo o desenrolar da cena e já estava com a mão sobre uma das facas que escondera entre as vestes quando outros dois puxaram a criatura. Viu Yuu cair ao chão com a expressão contorcida em medo e o loiro ainda lutar para se aproximar outra vez, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa outro loiro, este muito baixo, se aproximou e puxou aquele que atacara Yuu pela gola do casaco.



— Kouyou, se controle agora mesmo! — Ordenou com sua voz forte e os olhos cor de âmbar se desviaram para ele. — Você não pode fazer isso, você sabe as regras, então se controle.



— Takanori, eu… — Ele ofegava e parecia sentir dor.



— Kouyou, eu sei que a sensação é desesperadora, mas você tem que se controlar. — O pequeno suspirou e olhou para os dois que seguravam Kouyou. — Leve-o para dentro e não deixem que ele saia do quarto.



Adele ainda observou o loiro ser levado por aqueles dois, mesmo que não se debatesse mais ainda mantinha os olhos sobre Yuu, este que até agora não havia levantado do chão. A loira suspirou, pensando que definitivamente aquele homem não servia para missões em campo.



— Eu quero me desculpar pelo pequeno… desconforto. — O suposto Takanori soou lhe chamando a atenção.



Voltou seus olhos em sua direção e o viu ajudar Yuu a se erguer, mesmo que este ainda parecesse assustado com a idéia de aceitar a ajuda de um deles.



— Acho que tudo bem, no fim Yuu não se machucou. — E lhe sorriu pequeno. — Mas tenho certeza que vocês têm uma boa explicação para tudo isso, não é?



— Certamente. — Ele concordou lhe oferecendo um sorriso tão falso quanto o seu. — Agora lhes convido a uma taça de vinho.



Adele arqueou uma sobrancelha para o pequeno homem, mas o seguiu tendo Yuu em seu encalço. Takanori apesar de pequeno era tão belo quanto qualquer um daqueles que já havia visto até agora, os fios loiros emolduravam a face pálida, olhos azuis brilhavam perigosos na face de traços fortes e sua voz melódica tinha um timbre profundo.



Seguiram-no por todo o caminho até a entrada da mansão e adentraram deparando-se com um ambiente luxuoso, digno de contos de fadas. O chão era de mármore negro e as duas escadas que se encontravam no final tinham uma armação de prata oxidada maravilhosa. Cortinas pesadas da cor vinho caíam até o chão tampando as janelas e todos os móveis tinham um brasão entalhado naquela mesma prata.



Takanori seguiu até uma porta a direita que os levou para o que parecia uma sala de visitas. Os móveis eram muito luxuosos desde os sofás, passando pela mesa de centro, até a estante de livros. Havia também um bar, onde uma grande variedade de bebidas brilhava por trás do cristal, o que surpreendeu foi que algumas delas não estavam totalmente cheias. Perto de uma grande janela com vista para o jardim havia um piano de cauda e nas paredes havia quadros de algumas pinturas.



— Sentem-se, por favor. — Takanori pediu indicando os sofás.



Adele puxou Yuu junto consigo e assim se sentaram de frente para Takanori. O pequeno sorriu e seguiu até o bar, pegando uma garrafa de vinho e três taças de cristal. Repousou-os sobre a mesa de centro e serviu as taças indicando para que pegassem as suas.



— Você toma vinho? — Yuu perguntou baixo enquanto pegava a própria taça.



Como resposta o pequeno loiro sorriu e tomou um gole da bebida, conseguindo olhares curiosos em troca.



— Acredito que isso e todo o resto será explicado até o fim desta noite. — Ele soou enigmático.



Adele suspirou e tomou um grande gole do vinho tinto. — Então você sabe o porquê de estarmos aqui…



— Claro. — Lambeu os lábios e sorveu outro gole da bebida. — Os ataques já são do conhecimento de White Tiger.



— Sim, eles são. Mas o que queremos saber é o porquê deles estarem acontecendo quando no passado vocês assinaram um acordo dizendo que não prejudicariam as pessoas dessa vila. — Adele foi direta e Takanori suspirou parecendo chateado.



— Veja bem, senhorita…?



— Adele Clemoon.



— Senhorita Clemoon, nós em momento algum quisermos fazer mal a essas pessoas. — Explanava em movimentos lentos. — Isso tudo é uma situação que não nos beneficia em nada, não faríamos algo assim, quebrando um contrato de anos quando podemos muito bem viver sem o sangue dessas pessoas.



— Então, se isso não é do interesse de vocês, por que está acontecendo? — Ela tinha o cenho franzido e a taça de vinho agora já estava esquecida em sua mão.



— Acredite quando eu digo que nós nada temos a ver com esses ataques. — Explicou calmo, inclinando-se sobre as próprias pernas. — E eu quero explicar tudo para vocês, mas não sei se estão… receptivos o suficiente para minha história.



Adele olhou profundamente naqueles olhos que conseguiam ser mais claros que os seus e suspirou, concordando em um gesto simples.



Takanori sorriu pequeno e se acomodou melhor no sofá onde se sentara. — Vocês conhecem toda a história do massacre de anos atrás que aconteceu no Japão, não conhecem? — Os dois assentiram. — Bem, vocês sabem uma versão, mas a verdade de tudo o que aconteceu naquela época nós guardamos em segredo.



— Você está dizendo que o que nós sabemos não é verdade?



— Não inteiramente, senhorita. — Sorriu-lhe pequeno. — Mas para que você entenda tudo o que eu vou te explicar é preciso que entenda outra coisa primeiro.



— Bom, pode explicar.



— As pessoas têm uma única visão sobre os vampiros, aquela de que todos precisam de sangue para sobreviver. Mas isso não é de todo verdade, existem tipos e tipos de vampiros. — Os olhou esperando alguma reação, mas os dois estavam atentos ao que dizia. — Existem aqueles que por já serem muito velhos não necessitam tomar sangue sempre, porque já são fortes o suficiente para passarem longos períodos sem se alimentar. Existem aqueles que optam por uma semi-vida fraca se alimentando do sangue de animais. Existem outros de classes mais baixas que, além de serem seres inconscientes, que se alimentam sem o menor escrúpulo e que necessitam disso diariamente para sobreviver, são parasitas que perseguem os mais fortes atraídos por suas forças. E ainda existem aqueles considerados os mais fortes que ainda que necessitem de sangue, não é o de qualquer um. Estes se guiam pela beleza e pelos sentidos, se apaixonando pelas cores e pelas formas, mas incapazes de morder alguém que não queiram consigo pela eternidade.



— E… em qual grupo vocês se encaixam? — Adele perguntou encarando-o diretamente.



— Senhorita Clemoon, eu e minha família nos encaixamos exatamente nesse último caso. — E sorriu com a expressão perplexa nos rostos a sua frente. — No passado, quando tudo aquilo aconteceu no Japão, nós já vivíamos ali. Foram séculos sem que nada de ruim acontecesse, na época somente um entrou para família, mas a nossa presença prolongada naquele lugar atraiu essas raças mais fracas e foi então que todo o massacre aconteceu. Quando um dos nossos foi capturado, foi por termos saído para aniquilar aos outros. Então aceitamos o acordo com o imperador por não querermos perder ninguém e porque sabíamos que se saíssemos do país eles seriam atraídos e sairiam também. Os aniquilamos assim que tivemos a oportunidade e nos acomodamos aqui desde então.



— Mas o que me garante que a sua história é verdadeira, quando esses ataques estão se repetindo agora? — Adele mantinha as feições sérias.



— Pense bem, nós ficamos aqui tantos anos e nada aconteceu, se acontece agora é porque esses parasitas apareceram outra vez.



— Se é assim, porque vocês ainda não os aniquilaram?



— Antes mesmo de vocês chegarem nós já estávamos planejando isso e convido a você e seus companheiros a se instalarem em nossa casa, para acompanharem tudo. — Takanori se levantou e encheu novamente a taça de vinho. — Provaremos a nossa inocência e vocês poderão voltar para sua terra.



E, Yuu notou, Adele parecia pesar a oferta sem ao menos se lembrar do que acontecera consigo mais cedo, mas isso lhe aquietou ao ponto que mordiscando o lábio inferior se voltou ao vampiro.



— Mas e o seu amigo que queria me atacar? — Perguntou alto ganhando a atenção dos dois.



E Adele ergueu uma sobrancelha em uma pergunta muda ao pequeno vampiro.



Takanori suspirou e aproximou-se de Yuu, se sentando o mais próximo que conseguiu. — Lembra o que eu disse sobre sermos guiados por beleza e sentidos?



— Sim, eu me lembro, mas você também disse que vocês só mordem quando querem alguém ao seu lado pela eternidade. — Yuu tentava passar uma firmeza que não sentia na voz.



— Sim, eu disse. — Sorriu em consolo. — Mas, às vezes, acontece com alguns de nós de achar alguém que seria como seu “par”. Kouyou essa noite foi imediatamente atraído por seu cheiro e quis te morder para mantê-lo ao seu lado.



Yuu deixou que a perplexidade tomasse conta de seus olhos, porque não podia acreditar em tudo aquilo. Como podia ele, dentre todas as pessoas, ser algo como o destinado de um vampiro? Era irreal e ilógico demais. Além do fato de ser assustador, porque se fosse assim aquele loiro iria querer transformá-lo em algum momento e não queria isso. Não queria ao menos estar ali e isso começava a formar um bolo estranho de indignação e medo em sua garganta.



— Você está dizendo que ele quase me transformou em vampiro porque eu sou o seu “par”? — Havia medo nos olhos negros e Takanori notou isso.



— Sim, mas não tenha medo. Ele nunca poderia te obrigar a coisa alguma. — Olhou dentro dos olhos negros e sorriu de viés. — Aquilo que aconteceu lá fora foi algo que eu tenho certeza que não vai se repetir, Kouyou é controlado e eu sei que quando ele sair daquele quarto não vai tentar te atacar.



— Mas se ele fez uma vez…



— Aquilo foi de repente demais até pra ele, foi só instinto, mas, por você ser quem é para ele agora, ele não te fará mal algum. Então não tenha medo, você não é obrigado ao menos a estar perto dele. — E Takanori lhe ofereceu um sorriso consolador.



Yuu até quis responder ao sorriso, mas ainda estava engasgado demais com todas aquelas informações. — Tudo bem, desde que eu não tenha que ficar perto dele, tudo bem.



Takanori assentiu complacente e se voltou para Adele. — Mas então, vocês vão ficar?



° ° °



Naquela noite os dois voltaram para casa, escoltados por dois vampiros ordenados por Takanori, vampiros esses que vieram silenciosos toda a viagem e que sumiram na penumbra assim que entraram na sede. Akira e Yutaka estavam jogando cartas na sala enquanto esperavam, Takashi talvez estivesse na biblioteca e Hiroto em algum canto desmontando e remontando armas.



Adele foi a primeira a se jogar no sofá e tirar as botas de um jeito que soava deselegante demais para sua imagem, mas que arrancou um pequeno sorriso de Yutaka. Yuu contentou-se em agir mais ponderado e tirou os sapatos deixando-os próximos a porta e depois seguiu calado sentando-se na poltrona.



— Como foi? — Akira foi o primeiro a perguntar.



Então explicações foram feitas e gritos e reclamações foram ouvidos durante um longo tempo. Um consenso parecia ser difícil e Yuu estava cansado demais de tudo aquilo. Porque Akira e Yutaka não entenderiam, eles não estavam lá, eles não puderam ver a veracidade dos olhos azuis de Takanori e a explicação meia boca de Adele não lhes serviria. Eles continuariam a noite inteira dizendo o quanto foram ingênuos em acreditar em tudo aquilo e que deveriam os quatro voltar agora mesmo para colocar fogo na mansão.



Suspirou e se ergueu cortando o discurso inflamado de Akira. Lançou-lhes um longo olhar que mostrava todo o seu cansaço e o sustentou durante todo o tempo em que media suas próximas palavras.



— Acredito que não posso falar de mim, pois não me conhecem, mas creio que conhecem Adele o suficiente para que digam que ela agiu ingenuamente. — Akira bufou e abriu a boca para falar, mas o cortou antes. — Vocês não estavam lá, esperem para julgar depois que possam falar com um deles. — Seus olhos então caíram sobre Yutaka que lhe parecia muito mais ponderado. — Eu quase fui mordido essa noite, se alguém não deveria querer voltar lá sou eu, mas quero dar esse voto de confiança a esses vampiros, porque acredito ser o modo mais rápido de voltar pra casa. Então espero que pensem bem, vocês tem até o entardecer de amanhã.



E dizendo essas palavras se dirigiu para o quarto, porque só queria dormir.



° ° °



Mãos, quentes e delicadas, correram de seus ombros por seu peito enquanto o corpo macio se acomodava a suas costas. Ergueu sua mão segurando aquelas tão menores e delicadas e descansou a cabeça contra seu ombro. O cheiro suave da mulher lhe envolvia e encantava, enquanto seus longos fios dourados lhe acariciavam o rosto. Sentia-se bem quando estava com ela, poder tocar aquele corpo era como poder voltar para casa e isso era algo que nunca, jamais, trocaria por qualquer coisa que seja.



— Não pense tanto quando deveria estar descansando. — A voz soou baixa, a respiração lenta aquecendo seu ouvido. — Não quero te ver com olheiras gigantescas por aí.



Sorriu com a preocupação e virou o rosto beijando aquela bochecha quente e suave. — Você me enche de preocupações e não quer que eu pense?



E Adele sorriu branda levando uma mão para lhe acariciar o rosto. — Querido, tudo em excesso faz mal.



Riu rouco e a puxou de vez fazendo com que se sentasse em seu colo. Adele com o susto soltou um gritinho que foi abafado pelos lábios de Yutaka. — Eles estão dormindo.



— Então não me puxasse assim. — Ela ralhou baixo lhe estapeando o ombro.



— Mas, falando de algo sério agora… Você realmente acredita nos vampiros? — Cortou o clima que se formava, fazendo com que ela se aprumasse em seu colo e lhe encarasse seriamente com seus espelhos azuis.



— Uma das poucas coisas que pude aprender com minha mãe foi a não confiar totalmente e também a não desacreditar totalmente. Ninguém tem realmente como saber o que é verdade e o que é mentira, mas se deixamos vias para que estas se confirmem estamos sendo inteligentes. — Sorriu entrelaçando os fios escuros em seus dedos. — Seja inteligente, Yutaka.



Suspirou e se deixou entregar naquele carinho singelo. — Eu quero ser. — Fechou os olhos sentindo um beijo breve ser dispensado em seus lábios.



— Então você sabe o que fazer.



° ° °



Os passos ecoaram decididos pelo grande corredor até que chegasse a última porta. Não se importou com bons modos e adentrou o quarto procurando seu amigo com os olhos. Não o achou na grande cama de dossel ou nas poltronas em frente à lareira, então fechou a porta seguindo em direção a grande janela. E ele estava lá, desafiando o vento cortante ao se sentar no beiral, o olhar perdido na estrada ao longe e camisa branca aberta como se estivesse totalmente entregue a tudo que aquele momento representava.



Caminhou calmamente, parando um pouco atrás e esperou que ele quisesse lhe dizer algo, mas o silêncio foi tudo o que lhes acompanhou durante longos minutos. Mas o respeitou, até porque sabia que meros minutos significavam nada para quem conhecia todas as facetas do tempo. Correu os olhos para o céu, no peito não sentia mais o coração há muito tempo, um tempo talvez que fosse longo demais e isso tornava a ciência dos dias mais nítida, mais profunda… Aquele homem que estava a sua frente agora tinha sorte, porque encontrara um motivo para lhe guiar na eternidade.



Sentir era uma dádiva, uma dádiva que Takanori daria tudo para ter outra vez.



— Eles se foram… — A constatação veio em um timbre baixo, sussurrando dolorosamente contra o açoite do vento.



Suspirou e desviou os olhos para a figura que agora lhe encarava de perfil. — Eles vão voltar. — E sorriu falso caminhando até estar ao lado de seu amigo. — Como é a… sensação? — Quis saber, mas sabia ser algo falho desde que as palavras abandonaram seus lábios.



— E você conseguiria entender? — A resposta lhe pareceu gelada, gelada como aquele vento deveria ser. — Eu nunca pude entender sua perda dos sentidos.



— Eu procuro entender desde um tempo que já não me lembro. — O vazio se alastrava como uma sombra em seu peito. — Talvez tudo tenha sido errado demais desde o início, se ao menos os motivos de minha transformação houvessem sido mais nobres do que um desejo egoísta…



— Mas ainda há esperança para você, meu amigo. — Disse enquanto descia do parapeito. Virou-se mostrando o tronco magro descoberto pela camisa aberta. — Pense em todas as pessoas que existem no mundo, as pessoas que ainda vão existir… Não há como você não encontrar quem lhe trará os sentidos outra vez.



Takanori sorriu ante a bondosa perspectiva de Kouyou. Aquilo era uma esperança efêmera, tão ilusória quanto uma bruma que translúcida se desfaz ante os olhos, mas era tudo o que tinha para se prender e continuar caminhando por aquele tempo que ria de si.



— Eu só posso esperar por isso. — Declarou calmamente e se aproximou do amigo, erguendo as mãos para lhe fechar a camisa. — Agora temos que saber sobre o seu controle… Acha que pode se manter afastado quando eles voltarem?



— Acho que sim, o pior passou depois que o cheiro dele já estava… entranhado demais em meu olfato. — Suspirou. — Mas eu não quero me manter longe, eu quero que ele queira estar ao meu lado, Takanori.



O menor elevou o cenho quando por fim terminou de fechar os botões. — Ele é seu destinado e estando sob esse teto, uma hora ou outra, ele vai perceber. — Suspirou inclinando a cabeça para o lado, como quem pensa o que vai dizer. — Mas eu não acho que sou o mais indicado para lhe falar sobre isso. Procure nos livros ou fale com aqueles que já têm o seu par, o que eu posso lhe dizer eu nunca vivi, o que eles podem lhe dizer, no entanto, lhe ajudará daqui pra frente.



Após dizer isso se afastou, saindo do quarto e Kouyou acompanhou seus passos com os olhos. Sabia que o vazio de Takanori deveria ser grande demais, não se imaginava rompendo pelos séculos vivenciando tudo como por baixo de uma película, mas aquele pequeno vivia assim e ganhara o respeito da família somente por isso. Quem o criara não existia mais e nunca fora o seu par, era só alguém egoísta o bastante para transformar outro somente por querer o seu sangue. Agora Takanori era destinado a seguir vivenciando o vazio até encontrar seu próprio par.



Kouyou suspirou e encarou seu quarto que brilhava amarelado pela iluminação dos archotes. O fogo da lareira crepitava e por um momento sentiu-se tentado em passar a noite observando a mistura de laranja, azul e dourado das chamas, vendo suas formas dançantes e sentindo o calor que emanava até as poltronas. Mas não faria isso, procuraria algum dos casais da casa para conversar.



Descalço e trajando somente aquela blusa fina e a calça vinho, saiu do quarto andando ansioso pelo corredor, iria descer a escada quando avistou Shinji e Kohara saindo do quarto. Sorriu para o casal e se aproximou lentamente, o maior lhe encarara curioso com seus olhos prateados e o loiro sorria complacente, como quem entende o que se passa em seu coração.



Há muitos anos, talvez no século passado, Kohara havia conhecido Shinji. Kouyou se lembrava bem do alvoroço que se formou. Estavam viajando pela França em um pequeno grupo, a procura de um par para Takanori, e em uma bela manhã de primavera, ao passarem em frente a um orfanato Kohara simplesmente estancou, com o olhar vidrado e parecendo farejar o ar, ele desviou os passos até as grades da instituição e o seguiram sem saber bem o que fazer.



Havia várias crianças brincando no pátio, rindo e falando alto sobre suas descobertas, mas os olhos do loiro estavam presos na única criança que não brincava, mas permanecia sentada no primeiro degrau da escadaria com os olhos brancos perdidos, sem qualquer foco. Shinji era uma criança cega de nascença e os pais o abandonaram exatamente por esse motivo.



Naquela manhã Kouyou e Takanori assistiram a dor e angústia transpassar os olhos castanhos de Kohara. Viram-no brigar com o próprio instinto e se segurar para não avançar sobre a criança. Então lhe deram apoio quando, ao respirar fundo, ele seguiu determinado e tocou a campainha do orfanato, conversou com as madres que tomavam conta do lugar e se informou de todos os detalhes para a adoção.



Estavam ao seu lado quando ele conversou com o garoto a primeira vez e descobriram nele uma criança tímida, que sofria preconceito de seus colegas, mas que ainda assim era totalmente carente lhes oferecendo um sorriso ao primeiro carinho que recebera em toda a vida. E naquela viagem não cumpriram o objetivo inicial de achar o par de Takanori, mas voltaram para casa com algo de igual valor.



E ainda puderam assistir toda a paciência de Kohara que a partir daquele momento se tornou totalmente de Shinji. Que brincou com ele como o menino nunca havia feito antes, que lhe deu roupas novas e o tratou como um verdadeiro príncipe, que o esperou crescer e assistiu isso mais apaixonado a cada dia. E quando o moreno envelheceu o suficiente escutou toda a história da família e descobriu finalmente o porquê de Kohara ser tão frio ao toque, então foi o próprio que escolheu ser mordido e se tornar um deles, porque queria viver ao lado de Kohara para sempre.



Não viram a transformação de Shinji, mas quando ele apareceu no dia seguinte os surpreendeu por não ter mais os olhos esbranquiçados, perdidos no nada, mas sim olhos prateados que pareciam fascinados por cada detalhe da casa. Mas, mais do que qualquer detalhe, viram que o que lhe fascinara mesmo era Kohara e eles eram perfeitos juntos, lindos e dedicados um ao outro, o ar em volta dos dois parecia até mais puro.



Assim seguiam-se os anos e estavam aqui hoje e, se Kohara lhe olhava daquele jeito, era porque realmente lhe entendia. E, se dentre todos daquela casa, pudesse aprender com Kohara estaria feliz, porque aquele era um dos relacionamentos que mais respeitava.



— Eu posso conversar com vocês? — Perguntou e respondeu ao sorriso de Kohara.



Shinji foi quem deu o primeiro passo e abriu novamente a porta do quarto que dividia com o loiro. Esperou que os dois adentrassem para que pudesse seguir e se acomodou em uma das poltronas que Kohara lhe indicava, enquanto Shinji acendia a lareira.



— Então… — Kazamasa iniciou ansioso. — Aconteceu com você, não é mesmo?



Sorriu com o jeito do outro loiro e assentiu. — Ele é lindo…



— É um garoto também? — Quem perguntou foi Shinji, com um sorrisinho ladino brincando em seus lábios.



— Não enche. — Pediu rindo. — É um homem, não um garoto. — Riram os três juntos e Shinji sentou-se na outra poltrona puxando Kohara para se sentar em seu colo.



— Como ele é? — O loiro perguntou.



Suspirou apaixonado e fechou os olhos vendo novamente aquela imagem que parecia incrustada em suas pálpebras. — Ele é um pouco mais baixo que eu; tem o cabelo mais negro que eu já vi e a textura lisa parece simplesmente convidativa; o olhar, que apesar de parecer amedrontado quando o vi, era doce e brilhava tão negro quanto os próprios fios. — Suspirou outra vez e pôde ouvir o risinho baixo de Shinji. — Ele ainda tinha lábios grossos e avermelhados e um cheiro tão único que quase me enlouqueceu. — Tornou a abrir os olhos e Kohara parecia encantado enquanto Shinji ria baixo escondendo o rosto contra o ombro do amante.



— Isso me fez lembrar, de quando conheci Shinji. — E sorria com seus grandes olhos castanhos brilhando alaranjados pelo fogo da lareira. — Você se lembra de como ele era pequeno e cabia em meu abraço?



— Sim, eu me lembro de quando ele era uma linda criança meiga. — Riu junto de Kohara enquanto Shinji revirava os olhos.



— Parem, vocês parecem duas velhas nostálgicas assim. — Reclamou o moreno e Kohara deu de ombros.



— Então Kouyou, creio que aquele estrondo de mais cedo tenha haver com seu primeiro encontro…?



— Sim, Kohara, infelizmente sim. — Torceu os lábios em desgosto. — Eu estava conversando com Takanori quando senti o cheiro dele e simplesmente não pude me segurar. Agi como uma besta e quase o mordi. — Desviou os olhos para a lareira sentindo-se angustiado. — Ele tremia em meus braços por puro medo.



Ouviu um suspiro partir de Kazamasa e segundos depois o viu se abaixar em sua frente segurando suas mãos. — Você não fez certo, mas quem pode realmente te julgar? Tenho certeza que quando você o explicar tudo o que sentiu naquele momento ele vai entender.



— Kohara, mas não o conhecemos-



— Kouyou, ele é seu destinado e isso não tem a ver só com o cheiro dele ou a atração entre vocês. Acredite, você sente primeiro, mas é por você ser quem é, para nós é tudo mais intenso. — Ele sorriu em consolo. — Shinji é prova de que os humanos também sentem a ligação, para eles não é tão forte, mas existe. Você só tem que fazer com que ele perceba isso, que se esqueça do medo e sinta realmente tudo o que há entre vocês.



— Eu sentia que Kohara era especial desde que o conheci no orfanato e sei o que você vai dizer: que Kohara não tentou me atacar, mas eu sei que mesmo que tivesse tentado eu o amaria. — Viu Shinji desviar os olhos para as chamas. — A primeira impressão conta muito, mas, se os atos depois disso compensarem, ela se torna muito irrelevante.



— Faça assim, Kou, quando o ver outra vez controle suas vontades e seja bom com ele, peça desculpas, procure conhecê-lo e mostrar quem você é de verdade. — Dizendo isso Kohara apertou suas mãos. — Eu não tenho como prever como ele vai reagir, mas quem resiste a ser tratado com carinho sincero?



E, com o enorme sorriso que recebeu, só pôde sorrir-lhe de volta.



Notas finais
Espero que tudo tenha sido bem esclarecido, mas se alguém tiver alguma dúvida pode perguntar que eu vou tentar responder.
Agradeço a tomoyo05; Shiroyama May; Anghel; e Kouzuki ShiniZ por seus reviews no capítulo anterior. ♥ Vocês foram muito amor.
Bem, até o proximo! o/
Nota: Betado por Shiroki_D. Obrigada linda ♥