Destined

11 Capítulo dez



Capítulo Dez


Yuu não entendia de batalhas ou guerras, não entendia nem mesmo sobre missões. Se algum dia, ao continuar na Ordem Branca, tivesse que conduzir uma missão, por menor que fosse, sabia que as coisas não sairiam bem. Yuu era pacato demais e se assustava muito fácil, sabia não ser o tipo de pessoa com o perfil deste tipo de trabalho, tanto que só podia se sentir agradecido pelos anos que passou dentro do comitê da Ordem, tratando de assuntos burocráticos.



Não que agora houvesse necessidade de se preocupar com isso, não voltaria mais para o Japão, mas podia constatar o fato mais uma vez ao ver todos discutindo tão enfaticamente sobre o ataque. Aqueles homens tão destemidos, até mesmo Adele que tinha uma força muito superior a sua, haviam nascido para aquilo. Para esbravejar e contestar e batalhar e trazer a justiça à luz. Até mesmo enquanto arquitetavam o plano, ainda que conseguisse seguir claramente todo o raciocínio e prever opiniões, Yuu não ousava, nem mesmo, se manifestar.



Sabia que talvez sua falta de coragem – por assim dizer – devia-se por ter se traumatizado com a violência das batalhas muito cedo, por ter formado uma opinião que, mesmo que com os anos se abrandasse, ainda estava enraizada demais no que era hoje. Yuu nunca quis guerra, nunca quis a pressão das lutas e debates políticos de seu país, mas Yuu nascera em meio a tudo aquilo e, ao invés de se moldar ao padrão endurecido dos soldados, somente se escondera por trás de seus medos para que sobrevivesse. Soava um pouco patético em frente as atitudes dos outros, mas era assim e somente Yuu havia sentido na pele o que o tornara assim, então não se importava com como fosse soar.



Lambeu os lábios correndo os olhos até o outro lado da mesa e viu o sorriso satisfeito que dançou nas feições sempre tão tensas de Yutaka. Estava tudo resolvido agora, naquela noite mesmo os vampiros sairiam atrás do outro grupo, com uma ordem expedida na Sede dos Clãs, para que os exterminassem. Não seria necessária a presença de Yutaka, Adele e Yuu, os vampiros da casa até mesmo achavam que o melhor era que ficassem protegidos dentro da mansão. A prova de que haviam cumprido com o acordo seria a falta dos atentados que viria após aquela noite.



Yuu também se deixou sorrir, era bom que as coisas se resolvessem para que tudo finalmente se encaixasse em seus trilhos. Talvez, há algumas semanas, nunca pensaria que qualquer coisa estivesse fora dos trilhos, até porque, há algumas semanas, Yuu era a pessoa mais conformada do mundo. Há algumas semanas Yuu não havia chorado suas mágoas de anos no ombro de ninguém. Se antes tudo o que queria era ser esquecido dentro das repartições do comitê, agora só podia querer viver em paz o amor que ganhara com a presença de Kouyou em sua vida e passar de volta esse amor tanto para Kouyou quanto para Tom.



Seu Tom que ainda dormia na cama que agora pertencia a Yuu e Kouyou. E sorriu mais ao pensar nisso, era diferente de tudo o que esperou sua vida inteira, era mais do que o que esperou em sua vida inteira. Mas isso só fazia tudo incrivelmente perfeito, porque recebera da vida um presente, um presente que talvez equivalesse ao quanto já havia sofrido. Sem mais lamber as feridas mal cicatrizadas, agora só seguiria em frente para o destino que lhe esperava. Destino do qual não tinha mais medo ou receio e que abraçaria com toda sua alma.



Alma essa que já havia entregado nas mãos de Kouyou, mesmo que, talvez, esse ainda não soubesse.



Alcançou a mão de Kouyou que repousava sobre a mesa, o toque sempre frio que agora representava conforto e amor. Suspirou apaixonado e ergueu seus olhos para Kouyou que lhe sorria com um carinho charmoso em seu rosto tão perfeitamente sedutor.



A pessoa mais bela do mundo; os olhos âmbar que nunca lhe cansavam; o toque que sempre lhe inebriava; as palavras sussurradas que sempre lhe acariciariam o coração; a força que sempre lhe marcaria; os beijos que lhe eram como bálsamo; o corpo que representava sua perdição; o cheiro tão único que nunca lhe remeteria a qualquer outro. Tudo aquilo era Kouyou e mais do que aquilo era Kouyou e em seu coração tudo se definia muito bem.



— Não me olhe assim, porque eu posso não responder por mim. — Kouyou somente movia os lábios formando as palavras mudas e Yuu sorriu tímido abaixando o rosto.



Aquilo era algo que nunca mudaria.



— Acho que podemos seguir com nossos dias agora. — Derec se pronunciou em seu timbre tão autoritário. — Assim que o sol se pôr nós sairemos.



Dito isso muitos se ergueram e, em um baixo burburinho de conversas, seguiram para fora da sala. Yuu voltou novamente os olhos que havia desviado para Kouyou e aproximou-se lhe selando os lábios.



— Vamos para o quarto. — Soou baixo e ergueu-se. — Tom pode ter acordado e eu não o quero assustado.



Seguiram silenciosos para o andar superior e, ao adentrar o quarto, Yuu notou que, esparramado docemente sobre a cama tão grande para seu tamanho, Tom ainda dormia. Sorriu ternamente e soltou a mão de Kouyou para que pudesse ir até ele. Subiu no colchão macio e deitou-se ao lado da criança, correu, o mais leve que pôde, os dedos pelo cabelo negro, sentindo os fios tão finos e suaves formando delicadas ondulações entre as pontas de seus dedos. Escutou o ressonar da criança e isso lhe pareceu mágico, assim como os dedos miúdos perdidos tão soltos no lençol claro, assim como a boca entreaberta que deixava a respiração tão calma sair, assim como o corpo inteiro que parecia tão pequeno perto do seu.



Estava encantado pela imagem de ter uma criança para si e, segundo Kouyou, isso se devia ao fato de que aquilo representava família. Não discordava dele, mas, ainda assim, Tom parecia especial demais ante os seus olhos para que quisesse definir o que sentia. E ainda sabia que ele não era somente seu, desde que Takanori havia posto seus olhos sobre Tom, ele não era só seu e, de um jeito bastante egoísta, queria aproveitar enquanto podia para tê-lo só para si.



— Eu te vejo olhar tão fascinado para essa criança e me pergunto o que você está pensando… — A voz rouca de Kouyou alcançou seus ouvidos e somente neste momento notou que ele se deitara do outro lado de Tom. — Como você pôde se encantar tão rápido por ele?



Correu as pontas dos dedos pelo contorno do rosto cálido do menino e sorriu. — Eu não sei, Kouyou, mas dizem que crianças tem esse encanto natural. — Passou a língua pelos lábios, os umedecendo e esticou o braço tocando a mão de Kouyou. — Mas seus ciúmes são infundados, a espécie de carinho que tenho por ele é totalmente distinta da que tenho por você.



Kouyou lhe entrelaçou os dedos e negou em um gesto lento. — Não é ciúme Yuu, eu estou somente curioso. — E, olhando naqueles olhos de âmbar tão intenso, Yuu sabia que ele não mentia. — Eu nunca sentiria ciúmes de algo que te faz bem como essa criança faz, meu único medo é que você espelhe demais nele o que queria que tivessem feito consigo. — Suspirou e apertou levemente a mão do moreno. — E também que sofra quando ele se afastar de você por causa de Takanori.



Yuu deixou-se fechar os olhos por um momento, sentindo aquelas palavras balançarem seu peito, mas tornou a abri-los ao notar o pequeno movimento de Tom. O menino moveu-se abrindo os grandes olhos redondos, seu castanho-mel cintilou mesmo a pouca luz que havia no quarto, e piscando ainda cheio de sono voltou-se para o lado esticando uma das mãos tão pequenas até tocar no peito de Yuu.



— Yuu? — Ele perguntou baixinho.



E Yuu nunca poderia ter se impedido de sorrir e soltar a mão de Kouyou para acariciar o cabelo do menino, tirando-o da testa para que não o incomodasse. — Sou eu, Tom… Dormiu bem?



O pequeno se moveu novamente até que conseguisse se aninhar nos braços de Yuu, que o recebeu em um aperto morno. — Dormi. — A voz infantil soando baixa. — Kouyou já foi?



Yuu mantinha o sorriso dançando em seus lábios e elevou os olhos para Kouyou que assistia a tudo com um olhar perdido. — Kouyou está aqui. — Disse chamando a atenção do loiro que piscou e sorriu leve para o moreno.



Tom assentiu lentamente, como se receasse o que falaria. — Kouyou? — Chamou tímido e o loiro piscou antes que depositasse um beijo suave sobre a cabeça da criança, percebendo que ele se encolhia um pouco com o gesto. — Porque você é frio?



Ambos os adultos se entreolharam e Yuu lembrou-se que se esquecera de conversar sobre isso com o pequeno. — Tom… — Yuu começou, mas Kouyou o interrompeu com um gesto.



Kouyou pegou o menino nos braços e sentou-se na cama, acomodando-o em suas pernas. Sorriu notando o quanto Tom era magro e pequeno, isso o fazia tão frágil em suas mãos que um instinto protetor aflorou em seu peito. — Tom, por que você tem medo de mim?



— Porque você é frio. — A criança não hesitou em responder, mesmo que permanecesse tenso no colo de Kouyou.



— E por que você não gosta de frio? — Perguntou em um tom carinhoso que aprendera a usar com Yuu e que agora cabia tão bem aquele pequeno.



— Porque… — Tom hesitou parecendo procurar o que dizer. — Porque as pessoas são quentes.



Kouyou pesou aquelas palavras de lógica infantil e sorriu. — Eu nunca fui quente desde que nasci. — Falou brando vendo os olhos vagos de Tom se arregalarem. — Mas, Tom, mesmo que eu seja frio nunca te farei mal algum. — Sabia que a criança podia compreender aquelas palavras.



— Nunca? — A voz soou baixinha e Kouyou riu rouco.



— Nunca, assim como qualquer outro dessa casa. Nós te trouxemos porque queremos cuidar de você e todos os outros, que são frios como eu, também querem isso. — Explicava fazendo um carinho nas costas tão pequenas. — Você vai dar uma chance para eles, Tom?



O menino pareceu pensar sobre aquilo, torcendo os lábios finos e pequenos em um beiço torto que logo se desfazia enquanto ele agitava a cabeça em afirmação, seu cabelo balançando adoravelmente no movimento. E Kouyou sorriu ante o quanto era fácil conseguir a confiabilidade de uma criança.



Yuu também sorriu e se aproximou depositando um beijo no rosto dos dois. — Estou feliz com esse avanço. — Os olhos negros brilhavam em uma felicidade sincera que Kouyou apreciou encantado.



Depois disso deixaram-se ali durante um tempo, simplesmente aproveitando daquela nova aura fiável que havia entre os três. Horas de um prazer simples sendo desfrutadas com algo tão infantil quanto jogos, brinquedos e uma história qualquer sobre fadas. E, Yuu notou, que, ao seu modo tímido e receoso, Tom gostara daquele momento. Um momento que era dos três, só dos três, que tinha algo único que nada roubaria: o brilho de uma felicidade sincera.



Mesmo que Kouyou permanecesse sentado, somente observando o desenrolar da brincadeira que Yuu bolara com o menino, ainda havia o mesmo brilho que reluzia nos olhos dos dois em seus olhos e por fim acabou contando um dos vários contos que simplesmente havia decorado com os anos, fazendo com que Tom sorrisse de um jeito sonhador ao imaginar como seria tudo o que contava.



E aquele momento, tão deles, só terminou quando bateram a porta mais tarde, o quão mais tarde nenhum deles saberia dizer. Acabaram encontrando do lado de fora um Kohara sorridente, um Shinji obstinado e um Takanori um tanto apavorado. A sobrancelha de Kouyou ergueu-se elegantemente em uma pergunta muda, enquanto observava aqueles três, mas os deu passagem antes de dizer qualquer coisa.



— Boa tarde, Yuu. — Kohara cumprimentou enquanto seguia para se sentar ao lado do moreno no chão.



Yuu sorriu e Tom, que também estava no chão, se encolheu abraçando o trem de madeira.



— Boa tarde… — O moreno respondeu e voltou os olhos para Tom. — Não precisa se encolher, Tom, lembra do que Kouyou disse?



O menino somente balançou a cabeça em afirmação, antes de voltar a brincar com o trem de brinquedo, como Yuu havia lhe dito se chamar. Apesar de não poder enxergar Tom era extremamente inteligente e entendia com facilidade tudo o que lhe diziam, conseguia reconhecer algumas coisas pelo toque e tinha uma boa percepção do ambiente a sua volta. Era algo encantador para Yuu, que lhe observava atentamente todo o tempo.



Kohara se sentou e deixou-se observar o menino por um tempo antes que se voltasse para Yuu. — Hum… — Começou chamando a atenção do amigo. — Yuu, você confiaria em nós para nos deixar sozinhos com Tom?



A pergunta não chamou só a atenção de Yuu, mas também do menino que logo ergueu os grandes olhos em direção as vozes dos dois. — Por quê?



Kohara sorriu docemente e correu os dedos pela pelugem de um ursinho de pelúcia que estava jogado perto de si. Lembrava de quando aquele ursinho pertencia a Shinji, assim como se lembrava de quando as roupas que Tom usava agora eram de Shinji. Quanto tempo fazia desde então, já não sabia dizer…



— Queremos ensinar a Takanori a ficar com Tom. — Disse com uma voz saudosista. — E ensinar Tom a confiar em Takanori. Shinji acredita que vai ser como era com nós dois quando ele era criança. — Riu fraco. — Acho que ele está empolgado.



Yuu assentiu pensativo, olhando para Tom que olhava vagamente para um ponto entre ele e Kohara, só seguindo o som das vozes. Sabia que ele ficaria bem depois da conversa com Kouyou e disse a si mesmo que não precisava se preocupar. — Tudo bem, eu vou ficar com Kouyou na biblioteca ou em meu quarto. — Kohara sorriu radiante e assentiu parecendo feliz. Yuu torceu os lábios em um sorriso de lado e se inclinou deixando um beijo na testa de Tom. — Eu vou sair, mas Kohara, Shinji e Takanori vão cuidar de você.



— Você vai demorar? — Tom perguntou com os lábios torcidos, talvez em desgosto.



— Acho que não, mas eles são legais e vão te tratar bem. — Com isso se ergueu e deixando um último olhar voltou-se para Kouyou.



Ele conversava com Shinji que parecia explicar sobre o que queriam fazer e Takanori permanecia parado, com uma expressão estranha, ao lado do moreno de olhos prata. Yuu ergueu o cenho, perguntando-se se aquilo seria medo. Mas sabia que era e por um momento pensou em dizer algo para animá-lo, porém não o fez. Não era como se fossem próximos e outra que achava que ele deveria cuidar daquilo sozinho. Nunca admitiria que sentia uma ponta de um ciúme bobo quanto a Tom.



Suspirou e se encaminhou até o lado de Kouyou. — Oi. — Cumprimentou baixo aos outros dois.



— Oi, Yuu. — Shinji soou educado. — Vocês não precisam se preocupar, cuidaremos bem dos dois.



Yuu assentiu indiferente e, sem dar espaços para qualquer outra conversa, arrastou Kouyou para o lado de fora. Se tivesse que ser, que fosse de uma vez – era o que pensava.



Kouyou acenou para os outros dois e se deixou levar pelo corredor até o quarto que Yuu deveria dividir com Yutaka, mas que agora ficava tão vazio quanto outros muitos cômodos da mansão. Observou o perfil de Yuu, notando os lábios torcidos, e sabia que ele estava com ciúmes de deixar Tom com os outros, mas não falaria nada sobre isso. Na verdade, achava bom que Tom aprendesse a ficar com os outros para que pudesse ter momentos a sós com Yuu, momentos como aquele que passariam naquela tarde.



Ao adentrarem o quarto Kouyou relaxadamente deixou que suas mãos corressem pelos ombros de Yuu, abraçando-o por trás, sentindo sua forma e seu calor que parecia irradiar por baixo de sua pele. Seus lábios frios encostaram-se a orelha do menor enquanto o apertava forte contra o próprio corpo, deixou que seu hálito fosse de encontro a pele sensível e, ao notar a pele descoberta de Yuu se arrepiar levemente, sorriu.



Gostava daquela sensibilidade, gostava ainda mais de saber que aquela sensibilidade vinha com seu toque. Somente com seu toque. Saber que aquele corpo tão quente era seu lhe preenchia com uma emoção que, mesmo em todos os seus longos anos de existência, nunca havia provado. Era tão único, tão ímpar, o que sentia ao estar com o moreno que simplesmente não podia deixar de sorrir, que simplesmente não podia pensar em deixá-lo ir de alguma forma.



E aquele amor também era isso: Era possessão em acréscimo ao carinho, era um desejo tão intenso, tão total e único de tê-lo inteiramente para si e somente para si que lhe agitava a respiração antes de qualquer contato, era um desespero inédito que lhe levava a procurar mantê-lo em seu abraço e entre seus beijos, era uma doce aflição que invadia seu peito sem qualquer permissão, só para deixar-lhe agoniado, remoído em uma dor que só era gostosa de sentir quando sanada pelo toque do outro. Era tornado e era calmaria, assim como era gelo e fogo. Era pele contra pele e a força do contato. E era indefinível, por mais que não se cansasse de procurar meios de defini-lo.



Atraiu então, entre beijos e sussurros roucos, o corpo de Yuu até uma das camas e gostava do modo como a expressão daquele rosto se transformava em um apelo quase obsceno quando o olhava de cima e o subjugava sob seu peso. Gostava de como os fios tão negros e tão lisos se espalhavam em um manto sob a cabeça de Yuu, emoldurando aquela expressão como se fosse seda. Era um quadro. Um quadro belíssimo e feito somente para lhe enlouquecer.



E não havia meios de impedir a consequência daquilo tudo, porque era como as águas de um rio que fluiriam até desaguar no mar, e Kouyou queria desaguar em Yuu com força, intensidade e vontade. Então somente se moveria começando o atrito entre os corpos só para ver os lábios fartos e vermelhos se entreabrindo para liberar a respiração aflita, só para ver as intensas contas negras se esconderem por trás das pálpebras, só para ver as mãos frágeis se perdendo nos lençóis, os apertando para conter o desejo, só para ver a expressão daquele rosto se tornar realmente obscena e então receber um olhar fendido e marejado de desejo.



Então tiraria suas vestes e as de Yuu, só para provar o sabor único daquela pele quente que lhe enlouquecia, tragar do cheiro que tanto lhe tirava a razão e recostar o próprio peito contra aquele tão liso quanto o seu, sentindo suas formas contra si enquanto o beijava desesperadamente, louco por seu gosto. E aquele corpo lhe desnortearia mais e mais, porque era a representação do seu inferno: feito só para lhe tentar. Mas não se importava, porque se afundar no inferno por causa daquela pele, daquele sabor, daquela imagem entregue lhe parecia a opção mais certa.



Então o prepararia e se perderia na visão do corpo de pele levemente dourada, nas coxas finas e lisas marcadas por seus dedos; no abdômen tentador marcado por seus lábios; o umbigo que lhe parecia convidativo demais, lhe chamando para que entornasse vinho e bebesse dali; nos mamilos escuros e sensíveis, excitados por sua boca; na linha que cortava levemente o peito, clamando para sentir seus lábios; no pomo-de-adão que se mexia a cada engolir de saliva; nos olhos negros acesos em desejo que lhe chamavam em um convite irresistível; nos lábios inchados e vermelhos que lhe clamavam para que fossem devorados.



Então se afundaria naquele corpo, sentindo suas pregas e seu calor lhe envolvendo, e era tão apertado quanto da primeira vez. Gemeria extasiado por sentir-se abrigado por aquele corpo, então o embalaria em estocadas cadenciadas e se sentiria mais atraído ao sentir o sexo rijo roçar contra seu próprio abdômen enquanto se movia. Aquilo se tornaria uma dança de corpos que buscavam o prazer, rápida e selvagem, provocando o som indecente quando os corpos se chocavam. O cheiro característico de sexo subiria em volta dos dois e mais e mais Kouyou se perderia nas expressões de prazer do rosto de Yuu.



Iriam ao limite de seus corpos e então explodiriam em sensações tão intensas que não pareciam caber no próprio corpo. E Yuu iria sentir o corpo de Kouyou cair sobre o seu, prendendo seu peito lhe impedindo a respiração tão descompassada, mas se deixaria senti-lo por alguns segundos antes que tocasse seu ombro em um pedido mudo para que se levantasse. Assim se enroscariam sobre o colchão, entrelaçando as pernas enquanto se abraçavam em busca de se manterem o mais unidos que podiam.



Um suspiro abandonou seus lábios antes de guiá-los ao contorno da mandíbula de Kouyou, trilhando beijos lentos na pele fria. — Isso… foi intenso. — Um sussurro apenas, uma tentativa de conversa.



Kouyou sorriu e levou uma mão para os fios negros, entremeando-os com seus dedos, sentindo sua textura. — Meu amor por você é assim… — Sussurrou contra a testa de Yuu.



E, sentindo seu peito estremecer de um jeito bom, Yuu só pôde deixar-se embalar por aquele silêncio confortável. O tempo correu assim, entre carinhos mudos que diziam muito mais que palavras perdidas. Eram só eles e isso era fantástico, mesmo sendo tão simples. E nada importava enquanto esqueciam-se de tudo nos braços um do outro. E aquela completude era algo que Yuu não queria realmente abrir mão.



— Kouyou… — Sussurrou, e não era preciso mais que isso. — Eu… quando eu posso ser transformado? — Soava um pouco tímido, o que se intensificou quando Kouyou separou um pouco os corpos só para lhe olhar nos olhos de um jeito muito surpreso.



— Você quer se transformar?



Piscou, sentindo-se emocionado de uma forma nova. — Eu quero, Kouyou, é uma das certezas que eu tenho agora.



Aquelas palavras sussurradas trouxeram o sorriso mais reluzente que Yuu já havia visto no rosto de Kouyou. — Eu… Eu acho que só tenho que conversar com, bem, com alguém. — E ambos riram. — Pode ser Derec, é, ele vai saber me instruir bem sobre o que tenho que fazer. — E, olhando nos olhos de Yuu, Kouyou o beijou de um jeito intenso que perdurou por alguns segundos apenas. — Você não tem noção do quanto está me fazendo feliz.



— Eu tenho sim, porque você me faz feliz da mesma forma. — Um abraço apertado. — Uma eternidade para viver isso me parece o mais justo.



Era isso no final, nada mais deveria ser dito.



° ° °



A noite caiu lentamente, como se incerta sobre se deveria ir e no horizonte as cores eram manchas abstratas de laranja, roxo e azul. Por um tempo mais longo que o comum o céu permaneceu assim, estendendo-se até se partir em um fio dando lugar para o manto negro estrelado brilhar sozinho, já que era período de lua nova.



Mas os vampiros não hesitaram em sair pela noite assim que esta se fez, prontos para destruir de vez aqueles que já atormentaram a vila por tempo demais, deixando na mansão os outros quatro sozinhos. Em falta do que fazer Yuu levou Tom consigo para o quarto, deixando Yutaka e Clemoon sozinhos, e os dois só se acomodaram no jardim das rosas para aproveitar o frio cortante da noite daquele lugar talvez pela última vez.



Os bancos de pedra eram frios, não mais frios do que tudo em volta, mas frios. As rosas eram grandes e cintilavam em um vermelho vivo e vibrante em meio ao verde escuro e frio das folhas. As pétalas macias, de toque aveludado, eram de uma delicadeza que contrastava de forma brutal com os espinhos, e a folhagem farfalhava alto ao sabor do vento. E Yutaka não podia deixar de pensar que Adele era incrivelmente parecida com aquelas roseiras.



Sorriu olhando a silhueta esguia da mulher que brilhava contra a noite escura, os fios loiros e de maciez ímpar caíam em ondas voluptuosas por suas costas, soltos, dançando em uma conversa selvagem com o vento frio. A saia do vestido também chicoteava contra as pernas a cada soprar e ainda assim a figura magra permanecia firme em sua postura, de pé, admirando a extensão da abóbada celeste.



O homem suspirou e deixou-se relaxar contra o frio, de um jeito que não se lembrava quando havia feito pela última vez. Talvez precisasse realmente de descanso, afastamento total de suas funções na Ordem Branca, mas como conseguir descanso em meio a mais uma batalha? Yutaka estava simplesmente cansado daquilo, mas seria leal aos desígnios de seu governante até o fim, porque essa fidelidade era algo seu que nada poderia mudar.



— O frio desse lugar é algo que parece penetrar na pele. — Adele falou lhe atraindo a atenção.



Suspirou sentindo o vento bater contra seu corpo e assentiu mesmo que ela não pudesse ver. — Aqui venta demais… — Soou como quem explica a causa de tudo.



Adele voltou-se observando a silhueta do homem e sorriu complacente ante a expressão relaxada do rosto sempre tão tenso. — Verdade. — Disse enquanto se aproximava do homem. — Mas Yutaka, quero lhe falar sobre algo…



Uke arqueou uma sobrancelha em dúvida e a mirou interessado. — Você pedindo para falar?



— Sim, eu pedindo para falar. — Disse em tom de riso.



— Ora, então diga.



A loira lambeu os lábios e desviou os olhos para as rosas. — Você sabe que Yuu não vai voltar, não sabe? — Perguntou lentamente como se testasse o terreno em que iria pisar.



Mas o moreno somente assentiu parecendo muito conformado. — Eu tinha quase certeza.



— E você pensa em impedi-lo de ficar? — Franzia o cenho com certa ponta de aflição.



Yutaka riu soprado enquanto negava em um maneio lento. — Me diz: como eu poderia fazer isso? — Perguntou fazendo a loira inclinar a cabeça para o lado em dúvida. — Olhe para os dois e diga se poderia separá-los! Eu não faria isso. Nunca. — Com sua resposta Adele sorriu e cortou o espaço que lhes separava, sentando-se ao lado do homem no banco frio. Sua mão delicada alcançando a tão rude de Yutaka em um aperto morno. — Eu não tenho qualquer direito sobre Yuu, e não acredito que esteja o perdendo. Ele achou o seu lugar, não é?



A loira assentiu suavemente. — Assim como achamos o nosso. — Yutaka sorriu suave e se inclinou beijando as mãos de Adele. — Acha que podemos morrer na guerra que vai se formar no Japão?



— É uma possibilidade. — Yutaka soou pesaroso. — Mas, tenha certeza, que eu farei de tudo para que nós dois estejamos vivos no final de tudo e então vamos nos casar e vamos fazer uma família. Nada vai impedir nossa felicidade, nada.



Por trás daquele plano existia uma fina emoção que transbordava pelos olhos dos dois, e eles sabiam que aquilo era algo tão certo quanto as estrelas que brilhavam no manto escuro lá no alto. Era a vida deles traçada em palavras tênues, mas vivas.



— Vai ser perfeito. — A loira sorria e aquele sorriso era a força que Yutaka mais precisava no mundo.



Adele era a força que guiava sua vida.



° ° °



O vento uivava em seus ouvidos como um grande lobo faminto, as copas das árvores farfalhavam em um barulho alto que, ainda assim, era incapaz de inibir suas audições aguçadas. Eram caçadores naturais, com o instinto despertado ao máximo, prontos para uma matança necessária. Eram como vultos cortando a mata na noite escura, tão rápidos quanto flechas certeiras.



Corriam sem qualquer esforço, pareciam parte do vento tão forte intrínseco àquele lugar, e isso lhes levou até um ponto aberto entre as frondosas árvores. Era uma clareira infestada do cheiro daqueles parasitas, o que lhes indicava que eles haviam estado ali há pouco tempo. Kouyou farejou no ar e tentou traçar através deste um possível percurso que sua caça havia feito, mas o vento estava mudando muito rápido de direção, ainda assim parou entre os outros e se concentrou o máximo em seguir o cheiro fétido das criaturas. Assim não foi surpresa quando, com um grunhido, trocou um rápido olhar com Derec indicando a trilha ao leste e disparando em uma corrida sobrenatural.



Todos da família corriam contra o vento, suas roupas chicoteando ferozmente contra o corpo e mesmo que a velocidade fosse tão anormal podiam ver perfeitamente tudo a sua volta. Estavam em um ambiente que muito favorecia seus instintos treinados. Não perderiam aquela caça de maneira alguma, e, foi com esse pensamento, que o próprio Kouyou estancou em determinada parte da trilha, os outros, imediatamente notando o que o fizera parar, lhe seguiram.



Parasitas – dezenas deles – estavam tentando se camuflar na sombra das árvores, em clara desistência da fuga. Os olhos das criaturas brilhavam vermelhos na sombra, seus dentes animalescos rangiam pelo medo, e, se não fosse por estes dois fatores, eles pareceriam com humanos comuns, humanos de aparência mortificada, mas comuns. Kouyou riria com este pensamento se naquele momento não estivesse mais preocupado em caminhar em direção do grupo.



Não, não haveria palavras aquela noite — ele pensava enquanto notava os outros da família o seguindo. Haveria luta, gemidos e grunhidos, sons de ossos se quebrando, talvez gritos de desespero, mas não palavras. Eles já sabiam o que fazer, os parasitas, por mais que talvez quisessem negar isso, sabiam o que aconteceria, e agora era só questão de fazer o serviço. Cumprir com a promessa que haviam feito aos membros da Ordem. Então voltariam, e isso, juntamente a perspectiva de estar com Yuu novamente, fez com que Kouyou atacasse sem qualquer receio, subindo em uma corrida ágil pelo tronco grosseiro, pulando no ar assim que alcançou o primeiro alvo e, na fração de segundo que durou sua queda, pensou: hoje só sobrarão cinzas.



° ° °



Seus dedos correram suavemente por entre os fios negros e finos, desfazendo os poucos cachos que tornavam a se formar assim que seus dedos os soltavam. A textura macia era convidativa ao toque e isso, somado a entrega da pequena criança que dormia tão solta em seus braços, lhe enternecia profundamente.



Suspirou apertando Tom contra seu peito, seus olhos vagando até a janela aberta no outro extremo do quarto. Torcia para que tudo corresse bem com Kouyou, não podia estar com ele ou ao menos saber o que estava acontecendo, mas pedia aos céus que nada de ruim acontecesse. Por mais que eles tivessem assegurado que nada de ruim poderia acontecer, não conseguia se impedir de ficar temeroso. Era uma característica sua afinal, sempre ter medo, sempre ter um pé atrás.



Mas não se incomodaria com aquilo dessa vez, ainda mais quando seu medo era justificável. Sorriu levemente ao pensar nisso, perdera muito de sua afobação depois daquelas semanas que estava na mansão, e, mais do que todo o ambiente pacífico, sabia que isso tinha muito haver com seu relacionamento com Kouyou. Evoluíra muito como pessoa só por estar com ele, mesmo com o pouco tempo já conquistara mais do que nunca sonhara para toda sua vida, e nunca abriria mão disso.



Relaxou contra o colchão, deixando-se apenas sentir a respiração suave de Tom contra seu peito e assistir a noite lá fora. Não tinha sono e sabia que não conseguiria dormir até ter Kouyou ali, seguro e junto de si. Seus pensamentos fluíam incontroláveis em momentos de silêncio como aquele e teimavam em parar em sua transformação – estava muito ansioso quanto a isso. Não soube dizer quantas horas se passaram assim, mas sem que notasse acabou realmente cochilando ali, sentado contra o espaldar da cama.



Só acordou quando, já sendo alta madrugada, um baque ressoou pela casa, vindo do andar debaixo. Seus olhos abriram-se rapidamente e o primeiro pensamento que lhe cortou a mente foi de que Kouyou havia chegado. Devagar e com extremo cuidado tirou Tom de seu peito e o aconchegou sob as cobertas, certificou-se de que ele não havia despertado e então se ergueu, rumando rapidamente para o andar inferior.



Yutaka e Adele também desciam e se encontrou com eles no corredor, trocaram um olhar rápido e Yuu se adiantou em descer a escada. Viu os vampiros entrando ligeiros, abrindo espaço para que Kouyou pudesse entrar apoiando um Takanori que mancava, Yuu franziu o cenho ao observar aquilo e acelerou os passos se aproximando.



Seu olhar cruzou com o âmbar de Kouyou e o amante lhe sorriu com o mesmo charme de sempre. — Por que esse olhar preocupado? — Perguntou ainda ajudando o amigo. — Eu estou bem e Takanori só teve um pequeno incidente com um dos parasitas.



Yuu desviou os olhos para a perna do pequeno que parecia em um ângulo estranho. — Mas… isso vai se curar?



Kazuki que estava mais próximo de Yuu se aproximou tocando-lhe o ombro com leveza. — Nós podemos nos regenerar, só temos que colocar a perna dele no lugar para que não fique torta depois. — E riu daquele jeito tão moleque que só ele tinha, trazendo um sorriso torto ao rosto do próprio Takanori.



— Quero ver quem vai ser o animal que vai colocar minha perna no lugar… — Sussurrou contra o ouvido de Kouyou, mas diante das risadas dos outros vampiros soube que eles também escutaram.



Derec ergueu uma sobrancelha e estralou os dedos, trazendo um sorriso de lado em suas feições bonitas. — Eu posso fazer isso. — Takanori o encarou parecendo um pouco duvidoso, mas só assentiu. Confiava em Derec. — Vamos colocá-lo no sofá da sala de visitas. Venha Kouyou.



Assim todos acabaram seguindo junto com eles, Yuu ficou entre Kohara e Kazuki observando todo o processo: primeiro sentaram Takanori no sofá, depois Kouyou deu a volta e segurou o amigo contra o descanso, enquanto Derec se postava diante dele segurando a perna fraturada. — No três. — Derec avisou e os outros dois assentiram. — Um, dois… três. — Então com uma força que Yuu nunca presenciou antes Derec puxou a perna de volta ao lugar, todos puderam ouvir o estalo alto que retiniu por toda a sala, acompanhado do grunhido gutural que Takanori emitiu.



— Au… — Foi tudo que Yuu conseguiu expressar encarando a cena, abobado. Kohara e Kazuki riram da reação do moreno, o loiro logo o cutucando no braço.



— Logo você vai poder fazer coisas assim também. — Brincou ganhando um olhar horrorizado do moreno.



— Vou preferir me manter longe de fraturas, ainda mais de ossos mais duros que diamante… — E gemeu como se para enfatizar o desagrado pelo que dissera.



Os dois vampiros tornaram a rir, mas logo voltavam a observar Takanori que choramingava no sofá: — Nunca mais eu vou passar por isso… Que dor do inferno. — Kouyou riu lhe soltando e dando a volta no sofá.



— Ao mesmo você pode sentir algo hoje, não é, amigo? — O pequeno teve que assentir enquanto se acomodava deitado no sofá, a perna esticada para que pudesse ter uma recuperação perfeita. — Mas vamos deixá-lo aqui, se recuperando. — E, se voltando para os outros, sinalizou para fora.



Yuu ainda esperou até que seu loiro se aproximasse e passando um braço pela cintura esguia seguiram para cima. Não falaram nada com os outros que também se dispersavam pela casa, só foram para o quarto. Kouyou abraçava Yuu pelo ombro, gostando de sentir o braço dele lhe prendendo com possessão, havia valido a pena terminar tudo rápido para que pudesse voltar para aqueles braços. Já não saberia viver sem seu moreno.



Alcançaram o quarto lentamente e entraram sem fazer barulho, não querendo acordar o menino, mas se surpreenderam ao encontrar Tom sentado ao pé da cama, abraçado a um ursinho de pelúcia e contando um conto que Kouyou havia lhe contado no dia anterior. Yuu entreabriu os lábios, maravilhado com a inteligência da criança. Ele havia decorado um conto somente de ouvi-lo uma vez.



— Surpreendente… — Kouyou sussurrou contra o ouvido de Yuu, traduzindo o que o mesmo pensava.



E Yuu sorriu estreitando mais o abraço contra o corpo de Kouyou. — Ele não é incrível? — Disse com os olhos presos na criança, e o brilho contido naquele negror maravilhava Kouyou.



Mas, com a fala alta de Yuu, Tom se calou e ergueu os olhos em direção ao som. — Yuu? — Perguntou inseguro.



— Estou aqui. — Respondeu soltando-se de Kouyou e seguindo até seu pequeno. Tomou a criança no colo e passou a mão por seu rosto, totalmente encantado. — O que fazia fora da cama, Tom?



O menino baixou os olhos vagos para o ursinho que tinha nas mãos e deu de ombros. — Acordei e te chamei, mas você não estava aqui, então desci da cama e peguei o Sr. Bu para contar uma história. — O pequeno explicava tímido.



— Hum… Que menino inteligente! — Yuu ainda soava admirado, e depositou um beijo no rosto cândido. — Mas vamos dormir? Não é hora de ficar acordado.



— Kouyou já chegou? — Ele perguntou permitindo-se ser colocado na cama.



O loiro se aproximou e sentou-se do outro lado do garoto. — Estou aqui. — Soou baixo tirando os cachos da testa da criança.



— Ah… — O menino assentiu e se acomodou abraçando o ursinho. — Boa noite então, Kou… Boa noite, Yuu. — Desejou baixinho e fechou os grandes olhos sonolentos, deixando-se adormecer ao sabor do carinho que Kouyou dispensava em seus fios.



E aquela cena enternecia Yuu mais do que tudo no mundo. — Vocês dois são perfeitos. — Sussurrou sabendo que Kouyou escutaria e viu um sorriso se desenhar no rosto tão belo.



Ficaram ali em silêncio velando pelo sono do menino. A felicidade que Yuu sentia por ter aqueles dois era incalculável, cuidaria deles sempre para que nada de ruim acontecesse a sua família. E ser transformado lhe ajudaria nisso. Tinha um pouco de receio de que Tom passasse a lhe estranhar depois disso, mas tentaria, de todas as formas, mostrá-lo que ainda estava ali para ele.



— Ele não fala dos pais… — Kouyou comentou atraindo seus olhos e lhe tirando de seus pensamentos. — É estranho de certa forma, não acha?



Suspirou, encarando os traços aristocráticos do rosto de Kouyou, a leveza com que ele acariciava o cabelo de Tom, o ar de tranquilidade que ele passava. Kouyou conseguia ser perfeito em tudo. — Eu tento entender o que se passa na cabecinha dele, mas acho que a mente infantil de Tom ainda não conseguiu se ligar totalmente a realidade. Talvez, algum dia, de um momento para o outro, ele chore e chame pelos pais, mas por agora tudo é muito novo e, de certa forma, divertido, então ele não pára pra pensar que não vai vê-los mais.



Kouyou suspirou e ergueu os olhos mirando os negros de Yuu. — Foi assim com você?



— Nem de perto. — Sussurrou e ergueu uma mão para acariciar o rosto de Kouyou. — Eu não fui acolhido por ninguém, eu cresci nas ruas. Lá não tinha ao menos com quem eu falar e isso fez com que a realidade me atingisse mais rápido. Eu chorava toda noite, encolhido em um canto de qualquer beco sujo. — Seus olhos eram melancólicos ao lembrar daquilo, mas se abrandou quando Kouyou acariciou sua mão que mantinha na face gélida. — Cada um reage de maneira diferente, eu imagino. Depende do ambiente, da criação, da personalidade. Fico grato que Tom seja tão inteligente quanto ele é, mas quero estar aqui quando ele estiver frágil também.



— Estaremos aqui. — Kouyou pontuou firme e Yuu sorriu. — Hum… O que você fez enquanto eu não estava? — Perguntou tentando notoriamente mudar o assunto.



Yuu agradeceu mentalmente.



— Brinquei com Tom, o fiz dormir e depois fiquei pensando em você até que peguei no sono também. Não foi minha noite mais animada. — Kouyou sorriu e se ergueu da cama.



— Bem, quer saber como foi a batalha?



E com um sorriso Yuu assentiu acompanhando o mais velho até as poltronas.



° ° °



Naquele dia ninguém se levantou cedo. Haviam dormido com o sol quase nascendo e diante disso acordaram já de tardinha. O almoço foi servido pouco tempo depois e todos que se sentaram naquela mesa sabiam que era como uma despedida, já que Yutaka e Adele precisavam ir.



Os olhos de Yuu estavam atentos no rosto dos companheiros, pensando que estaria voltando com eles se tudo não houvesse acontecido, e pensar que quando chegara ali desejava com todas as suas forças poder voltar lhe fez sorrir. Aquele agora era seu lar, finalmente achara o lugar onde se sentia feliz, onde podia criar raízes, onde lhe amavam e jamais se afastaria. Definitivamente.



Suspirou satisfeito e desviou os olhos do casal para mirar um Takanori sem-jeito que tentava alimentar um Tom faminto. Riu baixo e negou em um maneio leve, ainda sentia ciúmes de ver seu pequeno com ele, mas era divertido ver o baixinho invocado tentar parecer cuidadoso. A imagem de Takanori dando comida para uma criança era simplesmente hilária demais para que se segurasse.



— Takanori, eu não acredito que você pareça estar com medo de uma criança. — Comentou divertido, conseguindo risadas de alguns que observavam a cena.



— Não estou com medo! — O loiro se defendeu. — Mas me sinto desconfortável… — Parecia tímido ao dizer isso, ainda mais quando os grandes olhos da criança estavam presos em si. — Nunca alimentei uma criança.



Kohara que tinha os dedos entrelaçados aos de Shinji lhe sorriu compreensivo. — Você vai se acostumar com o tempo, aliás, daqui a algum tempo Tom nem vai mais aceitar ser alimentado por outras pessoas.



O pequeno mencionado virava o rosto em direção ao som toda vez que seu nome era citado, até que parou e fez uma careta que seria brava se não fosse adorável. — Minha mãe me ensinava a comer sozinho. — Comentou com uma voz chateada que atraiu os olhos de Yuu. — Mas ela dizia que eu fazia bagunça… Yuu? — Chamou mantendo os olhos vagos para frente.



— Estou aqui. — O moreno soou do lado oposto da mesa.



— Eu posso aprender a comer sozinho, ne? — E o moreno sorriu diante daquela pergunta. Por um momento temeu que Tom começasse a falar dos pais.



— Claro que você pode! Você é muito inteligente, Tom. — Soou brando e o pequeno assentiu voltando-se para Takanori que tentava parecer menos desconfortável com a criança.



Yuu desviou os olhos da cena, encarando o próprio prato, mas se sobressaltou quando uma respiração gélida foi solta contra sua orelha. — Você é charmoso até quando tem essa aura de pai preocupado. — Kouyou sussurrava contra sua orelha lhe deixando tímido. — Como eu resisto a você?



Virou o rosto ficando de frente para ele e sorriu de viés como uma provocação. — Não resista. — Levou uma mão para acariciar os fios loiros de Kouyou e lhe selou brevemente os lábios. — Mas só quando estivermos sozinhos. — Pontuou afastando o outro pelo ombro e Kouyou riu.



Almoçaram em paz, entre conversas amistosas e divertidas, e quando já haviam terminado Yutaka chamou a atenção de todos para si. Trazia no rosto sempre sério um sorriso brando que lhe ressaltava as covinhas que tinha nas bochechas e isso lhe deixava com um ar mais jovial.



— Quero agradecer por tudo e pedir perdão por qualquer inconveniente que nossa estadia possa ter causado. Estamos partindo, mas sei que encontrei aqui uma amizade diferente que pretendo levar de recordação. — Suspirou e voltou os olhos para Yuu. — Sei que decidiu ficar e não te julgo por isso, você com certeza parece melhor aqui. Só desejo que seja feliz em sua vida de agora em diante. — Levantou-se e correu os olhos por cada rosto, marcando aquelas fisionomias em sua memória e sabia que não os esqueceria tão cedo.



E ainda sorrindo Yutaka reverenciou a todos que estavam ali.



— Ora, não esperava por isso. — Clemoon comentou olhando o ato do companheiro. — Você gosta mesmo de me surpreender… — Yuu riu observando aquela mulher e ela lhe piscou um olho. — Eu acho que você escolheu certo. Acredite, se alguém tão lindo quanto Kouyou me escolhesse eu também ficaria. — Risos ecoaram pela sala de jantar e Yutaka a encarou com uma expressão estranha. — De qualquer forma, muito obrigada a vocês por terem nos ajudado. Tenham certeza que isso ficará registrado, queridos amigos.



Sorrisos sinceros acompanharam as palavras da mulher que se ergueu e também reverenciou a todos. Assim uma pequena comitiva os acompanhou enquanto saíam, já haviam deixado as bagagens no hall de entrada então só os pegaram e mais uma vez se despediram de todos antes que enfim saíssem da mansão.



Os olhos negros de Yuu os acompanharam por um longo tempo, mesmo depois que haviam cruzado os portões. Trazia uma expressão serena no rosto e, quando se sentiu abraçado por trás, só pôde pensar que a sua vida agora era a melhor que podia ter escolhido.



— Arrependido? — Kouyou perguntou contra seu ouvido.



— Nenhum pouco.



Notas finais
Olhem, já estou postando o epílogo junto deste capítulo... vou explicar no final dele o que acontece XD
Agradeço a Su Shibasaki; Anghel; Shiroyama May; vampire_kawaii; Pon; tomoyo05; e MiChi. Vocês me deixam feliz quando comentam, de verdade. Não respondi os reviews do capítulo passado, e peço desculpas por isso, mas vou respondê-los em breve.
Nota: Betado por Shiroki_D.