Destinazione
21 Primeira parada: Nassau
Notas iniciais

Com o nascer do dia, antes que o sol despontasse no horizonte, os canhões foram carregados com artilharia leve e os tiros de aviso foram disparados. Mesmo que houvesse tripulação, o navio não se moveria, esteve em águas rasas por muito tempo e a areia já envolvia quase todo o casco.
Como esperado, não houve resposta, então nos aproximamos e abordamos o navio. Havia sinal de movimentação recente, mas de fato os porões estavam vazios, talvez a tripulação sobrevivente estivesse na ilha esperando resgate ou então capturados por nativos.
Obviamente, se tudo tivesse corrido como o esperado, eu não estaria contando a história de como conheci Maya.
Estávamos no porão reunindo todas as caixas de tecido, madeira e pólvora que podíamos carregar, enquanto outros marujos vasculhavam o resto do navio em busca do ouro prometido pelos boatos que nos trouxeram aqui, quando ouvi um dos meus gritar do convés:
Navio à vista!
A atitude que meus tripulantes tomaram, seria passível de punição severa, não fosse o caso de eu mesmo ter querido adotar a mesma. A histeria se espalhou por entre os homens e eu fui obrigado a deixar meus afazeres para averiguar que diabos estava acontecendo. Foi ao subir para o convés que entendi o que se passava: um navio de proporções colossais estava ancorado ao lado do Sea Dog’s Bite. A primeira coisa que se passou pela minha cabeça foi “de onde caralho saiu um navio daquele tamanho sem que ninguém o visse chegando? ”. Só depois de amaldiçoar aquele capitão foi que eu me dei conta da cor hasteada no mastro, ou melhor, a falta de cor. Uma bandeira negra com um símbolo desconhecido por mim e por meus homens, balançava ao vento. O navio era tão grande, que para ver a bandeira era preciso tomar distância e erguer a cabeça como quem olha o céu.
Ordenei o retorno ao navio imediatamente. Não houve disparos de canhão ou de armas que pudessem indicar batalha, mas a bandeira indicava que qualquer fosse a situação, meu navio estava tomado pelo inimigo e eu precisava atirar seu corpo morto ao mar para ensinar à ele e seus homens uma lição.
Subi ao convés me preparando para acertar a testa do filho da puta que se intitulava capitão daqueles homens. Estava prestes a sacar a pistola sem fazer perguntas quando me deparei com uma cena mais que intrigante e que me deixou confuso por um momento. Sentados em uma mesa, bebendo rum de uma garrafa e olhando para um mapa, estavam quatro de meus homens, Kenway entre eles, e uma mulher de cabelos laranja e vestes vermelhas, armada até os dentes — na época eu desconfiei de que ela poderia explodir o Sea Dog’s Bite sozinha… hoje tenho certeza.
— Que diabos está acontecendo aqui? — Ergui a voz e só então ela notou minha presença.
— Ora, então é a você quem chamam de capitão? A mesma pessoa que estava saqueando meu navio? Que curioso…
— Garota… — me irritou o tom de voz que ela usou, mas mal sabia eu, que de garota ela só tinha a aparência. — Se há por perto um navio hasteando uma bandeira inimiga, eu irei saqueá-lo.
Maya se levantou da mesa e eu tive que segurar o riso. Na época eu me perguntava como ela era seguida por aqueles homens, afinal não era de fato intimidadora. A ruiva sorriu, como quem acaba de ouvir uma piada sem graça.
— Você não é muito esperto, não é? — Ela manteve aquele sorriso debochado o tempo inteiro — Não sei se notou o tamanho da banheira fazendo sombra no seu barquinho. Eu tenho duzentos homens com os canhões apontados para você e não preciso de metade disso para te afundar.
Eu poderia achar graça, não fosse o estado de alarme de meus homens.
— Não irei à lugar algum sem o que vim buscar.
— Ouro… — Ela riu — Contente-se com os mapas nas mãos de seu querido tripulante e dê o fora.
Olhei para Kenway para vê-lo segurar alguns mapas e assentir. Quando voltei o olhar para a ruiva abusada ela estava se dirigindo para a balaustrada.
— Escolha logo capitão Thatch. Tem cinco minutos.
A ameaça daquele pingo de gente era irrelevante, mas o navio colocava medo. Tive vontade de atirar nela, mas a esperança nos olhos de Kenway me impediu de comprar aquela briga. O que foi bom, pois assim que ela pulou de volta para seu navio, homens desconhecidos — certamente tripulação dela — saíram do meio de meus próprios tripulantes e a seguiram. Aquele era o motivo da tensão entre os marinheiros, eu sequer havia notado aqueles homens se escondendo entre os meus, assim que se foram, a tripulação respirou aliviada e enfim me encarou. Como era o código de meu navio, decidimos por voto partir dali para não sermos afundados, mas eu jamais esqueceria o rosto daquela capitã de araque.
Não foi de fato naquele dia que eu a conheci. Passaram-se alguns anos desde aquele dia, durante alguns meses, persegui os malditos tesouros com os quais Kenway tanto me importunou e de fato os encontramos, mas não eram tão valiosos assim, o que frustrou parte da tripulação e me deixou imaginando porque raios ela desistiu dos mapas simplesmente para que deixássemos em paz um navio velho e encalhado.
Foi em 1703 com a morte do capitão Kidd e a declaração do fim da guerra da rainha Ana, quando foi assinado o tratado que anulava qualquer carta de corso, transformando nós corsários em piratas quaisquer, que minha tripulação e eu tomamos a decisão de fazer jus ao nome e nos lançamos ao mar saqueando e pilhando a quem viesse pela frente.
A 14 de Abril de 1703 aportei em Nassau a convite de Benjamin, um velho amigo e agora pirata. Kenway e eu esperávamos que ele viesse ao nosso encontro e enquanto isso tomamos mais que alguns drinques e a conversa estava animada na mesa quando alguém se sentou conosco. Não pude acreditar na ousadia dela — apesar de hoje rir do modo como ela teve a audácia de se aproximar como se nada tivesse acontecido.
— Não tivemos a oportunidade de nos apresentar propriamente. — Ela sorriu, tomando um gole da caneca de cerveja. — Sou Maya. — Estendeu a mão e eu a segurei com força, olhando em seus olhos.
— A capitã que atacou meu navio alguns anos atrás, não é? — Fui irônico. Sabia que era ela.
— Eu não o ataquei. — Ela sorriu — Você atacou o meu navio, eu apenas o tirei de lá. Muito educadamente, se me permite dizer. Já tratei pior com gente que fez esse tipo de coisa.
— “Já tratei pior…” Quantos anos você tem, garota? — A filha da mãe sorriu outra vez e bebeu.
— Não é da sua conta Thatch.
— Como sabe quem sou?
Eu sei de bastante coisa. Conheço muita gente, que conhece mais gente, é um ciclo infinito. — Maya apoiou o rosto nas mãos e me encarou. — O que o traz à Nassau, capitão Thatch?
— Negócios. — Fui direto. Na época eu não gostava de Maya, ela havia ameaçado minha tripulação e me feito correr de uma batalha.
— A quem quer enganar? Não há negócios para gente como nós em Nassau. Se tornou um pirata e está aqui pela comemoração.
— Então por que perguntou?
Naquele momento ela fechou a cara e por um instante eu fiquei feliz de ter acabado com sua alegria, mas logo notei que não foi para mim que ela ficou séria. Ben entrou pela porta do bar causando alarde e apontando a pistola em nossa direção, se para mim ou para ela, eu não saberia dizer, mas não importava, afinal éramos piratas e por mais que Ben não concordasse com aquilo, era o que nos restava e ele havia cedido no fim das contas. Ele gritava sobre sermos todos traidores e malditos. Vi que Maya colocou a mão na pistola em seu cinto, assim como Kenway, mas nenhum deles apontou a arma para Ben, esperando que ele não fosse muito longe com aquilo, mas eu o conhecia bem e pelo estado de meu amigo, eu podia jurar que ele havia se esquecido de ter aceitado e abraçado a pirataria, talvez tivesse esquecido o próprio nome de tão bêbado.
— Cale a boca Benjamin, antes que eu cale ela pra você. — Maya o ameaçou num tom sério, muito diferente do debochado qual eu havia presenciado alguns anos antes.
— Você Sereia! Você nos trouxe para cá, você nos seduziu para esse caminho! — Pelo visto eles se conheciam — Agora eu busco homens… — Ben deu um passo frente e ela se levantou, apontando o cano da arma para ele — PARA SE JUNTAREM À MINHA TRIPULAÇÃO! — O filho da mãe caiu na risada e virou a caneca de rum que segurava, guardou a arma e se aproximou rindo e cambaleando.
— Imbecil… — Ela também guardou a arma e todos pudemos baixar a guarda.
— Ficou louco Benjamin? Estava prestes a levar um tiro no meio da testa! — O repreendi, mas o idiota estava tão bêbado que sequer levou a sério.
Neste dia, sim: conheci Maya. Mas o que soube naquela noite e nas próximas semanas antes que ela zarpasse do porto, foi apenas seu primeiro nome e um monte de histórias misteriosas que outros homens me contavam sobre ela. Ben Hornigold a havia chamado de Sereia e eu o questionei sobre isso mais tarde.
— Ela é tão traiçoeira quanto uma sereia, Thatch. Ela chegará suavemente pela balaustrada de seu navio e o seduzirá ou o matará.
— Tem certeza de que ela é confiável? — Olhei sério para Ben. Nossos planos não podiam ser compartilhados com alguém que não estivesse completamente de acordo com a causa.
Ben olhou para os lados como se certificasse que ninguém além de mim o ouvia.
— A ideia da república foi dela na verdade. Quando nos conhecemos, ela dizia que logo a vida que tínhamos iria mudar completamente. Menos de um ano depois o maldito rei assinou aquele tratado e ela me encontrou em Kingston para que eu me juntasse a república que ela estava planejando. Caso eu decidisse por isso, deveria encontrá-la nas exatas coordenadas que me forneceu, dentro de um mês. — Ben parou para respirar. — Você não tem ideia do que ela é capaz Thatch. Ela é o demônio em forma de mulher. Aquele navio, ela conseguiu sozinha, usando uma fragata para matar os espanhóis que o tripulavam. Deus sabe lá como foi que ela matou todos e só acabou com a fragata destruída.
Fiquei curioso com a história de Maya. Havia tanto mistério que a envolvia… Após ouvir o que Ben tinha a dizer sobre a tal “Sereia”, me peguei perguntando o motivo dela não ter afundando meu navio em nosso primeiro encontro, ela não tinha nada a perder — dificilmente uma fragata como o Sea Dog’s Bite venceria um Galeão colossal como aquele. A cada segundo eu tinha mais curiosidade sobre Maya. E é claro que eu fui atrás dela.
x
Maya abriu os olhos e piscou várias vezes para se acostumar com a claridade. Virou-se na cama e estendeu a mão, encontrando o espaço vazio e ainda quente ao seu lado. Lentamente ela se levantou e olhou por uma das enormes janelas da cabine. Do lado de fora não se via nada além das águas cristalinas que cercavam a ilha. O navio que havia estado ali, já zarpou há algum tempo.
Ainda nua, na segurança de sua cabine alta, longe de olhares curiosos, Maya caminhou até a mesa onde tudo começou na noite anterior. Pegou os pedaços de tecido que usava por debaixo da roupa e começou a enrolar o pano amarelado pela barriga, subindo pela cintura e finalmente sobre os seios, apertando bem. Vestiu a camisa branca de mangas largas e a enfiou para dentro da calça preta de couro. Calçou as botas e pegou do chão um corselete feito de seda preta e inteiramente bordado pelas mãos mais habilidosas de toda a China. Os desenhos bordados com fios dourados eram os galhos floridos de uma cerejeira. Ela apertou a peça na cintura e sequer se incomodou com a pontada no estômago, estava acostumada com a lembrança permanente que havia ganho em Roma exatos dois séculos atrás. Por cima de tudo, colocou o robe preto, amarrando-o até a metade do corselete, onde se abria em uma fenda e continuava comprido atrás. Penteou os cabelos cacheados com os dedos e o prendeu com uma fita vermelha, velha e surrada.
Maya respirou fundo e caminhou para fora da cabine, dando boas-vindas à luz do sol nascente. Era possível ouvir as gaivotas que voavam do outro da ilha.
Ao passar pelo convés, Maya recebia cumprimentos alegres e os retribuía. O navio era tão grande, que era impossível atracar nas docas, ou acabariam encalhados nos bancos de areia. Ela desceu a rampa de madeira e seguiu a trilha de terra até as construções de pedra que um dia foram parte de um castelo suntuoso. Aquela ilha afastada e cheia de ruínas era agora o lar dos Assassinos e Maya era a grã-mestre das índias ocidentais.
Ao adentrar a parte do castelo que ainda permanecia de pé, Maya foi recebida por seu braço direito e amigo de longa data que a saudou colocando a mão sobre o coração e curvando-se. Ela fez o mesmo.
— O que faremos agora? — O homem respirou fundo. Seu tom era de preocupação.
— Eu mesma irei atrás dele, não se preocupe. Nenhum de nós poderia ter previsto isso.
— Mary partiu para Nassau.
— Sim. — Maya o cortou. — Irei encontrá-la na cidade. Se há algum lugar em que esse impostor está, é em Nassau.
— Impostor? — Ah Tabai olhou para a grã-mestre sem entender.
— Notícias ruins correm rápido, Ah Tabai. Duncan está morto há semanas, meses eu ousaria dizer, mas quem usa seu nome e veste suas roupas, eu ainda não sei dizer. Mas garanto que ele irá se arrepender de ter entregue o cristal nas mãos de Torres. — Dito isso, Maya olhou novamente para o amigo e sorriu. — Apenas vim lhe informar que estou de partida. Minha primeira parada é Nassau, mas não espere me encontrar lá, não ficarei por muito tempo.
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