Destinazione
8 Bloodline
Notas iniciais
O dia amanheceu cinzento e nevado, um tapete de neve cobria as ruas da cidade, o frio havia congelado o rio. Aquela visão lembrava Maya dos terríveis invernos em Veneza, mas que não podia ser comparado com o frio daquele lugar, muito mais intenso. Ela não tinha coragem de imaginar o que teria acontecido com as pessoas que vira na rua no dia anterior. Provavelmente mortas por debaixo da neve ou em algum lugar sofrendo com a hipotermia.
Maya respirou fundo, se levantando da cama e agradecendo por ter onde dormir. Vestiu a camisa de mangas longas, a calça preta e as botas. Lhe faltava coragem para sair da estalagem, mas não pela temperatura lá fora e sim pelo que iria encontrar pela frente. O sofrimento das pessoas pelo caminho e sobre seu próprio passado. Ela caminhava pelo quarto pequeno com passos lentos, sua mente estava pesada demais e seus pensamentos pareciam a querer esmagar. Pensava em Ezio o tempo todo, se perguntando onde estaria e se havia dado continuidade à missão que cruzara seus caminhos anos atrás. Se sentia sem rumo, pela primeira vez em anos, não sabia para onde ir ou a quem recorrer, havia apenas um caminho a seguir e ele era incerto. Suspirando pesadamente, ela amarrou a faixa vermelha de cetim na cintura, afivelando o cinto de couro com as duas adagas e a espada, mas deixou o robe branco de lado. Apesar de saber que os Templários não caminhavam sobre aquele país, não queria que nada chamasse a atenção para a Ordem.
Ao sair da estalagem, o vento cortante a atingiu com força, jogando neve em seu rosto e cabelos. Ela abraçou o corpo, caminhando o mais rápido que podia na neve funda. Podia ver as torres do castelo ao longe, apesar da neve que caía. Por todo o caminho que percorreu, não encontrou pessoas nas ruas, não tinha certeza se aquilo era bom ou não, apesar de se condenar por isso, afastou o pensamento da mente.
Ao chegar aos enormes portões de ferro do castelo, não viu nada além de um jardim mal cuidado e um caminho de pedras que fora livrado da neve recentemente. Olhando curiosamente para dentro dos portões, não conseguiu identificar nenhum guarda ou soldado que tomasse conta dos portões. Começava a ter uma impressão ainda pior daquele reino e se perguntava se realmente queria descobrir sua ligação com aquele rei que pouco se importava com qualquer coisa.
– Posso ajudar? – perguntou um homem velho que saiu detrás do muro se apoiando em uma bengala. Tinha os cabelos e a barba já brancos e a pele bastante castigada pelos anos.
Ela hesitou por um momento, analisando o homem – Estou aqui para ver o príncipe Jaime.
– E quem é você? – ele perguntou se aproximando com dificuldade, estreitando os olhos para tentar ver melhor.
Maya abriu a boca para responder, mas então se lembrou que não havia dito seu nome para ele na noite anterior. – Uma amiga...
– Espere aqui. – o homem falou e então caminhou pelo caminho de pedras, se apoiando em sua bengala e lutando contra a neve.
Depois de muito tempo esperando, sem saber como ainda não havia congelado na neve e estar se perguntando porque diabos não tinha ido embora há uma hora atrás, o homem voltou, com o caminhar ainda mais lento, para a irritação de Maya. Ele abriu o portão com as mãos trêmulas, indicando o caminho. O velho conduziu Maya até uma entrada de serviço um tanto escondida, e então abriu a porta, revelando um ambiente tumultuado.
Maya entrou na cozinha abarrotada de servos, o local era aquecido pelos vários fogões acesos, os empregados estavam ocupados demais cozinhando e carregando mantimentos para notar sua presença, mas a pessoa que a interessava notou. O príncipe usava um avental sujo por cima da camisa branca, sorriu ao vê-la.
– Não imaginei que fosse aparecer tão cedo. – ele limpou as mãos sujas de molho vermelho em um pano e o jogou em cima de uma mesa cheia de caixas de madeira.
– Subestimou minha curiosidade. – ela respondeu olhado em volta. – O que vai acontecer hoje? Uma coroação? – ironizou.
Jaime riu, tirou o avental e o pendurou junto com tantos outros, conduzindo Maya para fora da cozinha, pelos corredores menos pomposos do castelo.
– Durante o inverno nós oferecemos comida para os sem-teto. Almoço e jantar, durante os três meses o trabalho na cozinha é intenso.
– Fico surpresa em ver um príncipe sujo de molho. – Maya falou com certo humor. – Mas não seria melhor proporcionar uma vida melhor para os desabrigados, ao invés de apenas alimentá-los no inverno?
Jaime pareceu achar graça no que ela disse – É claro que seria, mas eu não sou o rei, sou?
Maya ergueu as sobrancelhas, não dizendo nada em seguida, o que fez o príncipe suspirar enquanto caminhavam.
– O rei não se importa com seu povo, ele está levando o país para o caminho da miséria total. Ele se tranca em sua sala de música e de lá só sai com o cair da noite. – ele dizia com certa raiva em sua voz.
– Qualquer um que chegue de fora nesse país, pode notar isso...
– Faço o que posso para melhorar a vida desse povo, mesmo que seja apenas dar-lhes comida.
– Nesse caso, acredito que já seja um belo gesto.
Jaime abriu uma porta pequena naquele mesmo andar, dando acesso a uma sala compacta e sem móveis exceto pela mesa encostada na parede, não possuía janelas, deixando-a completamente escura, quando o príncipe fechou a porta o local se escureceu totalmente. Então ele acendeu um lampião, clareando o pequeno recinto.
Maya logo fixou o olhar num único quadro que havia na parede, um grande quadro que ocupava quase todo o espaço entre o chão e o teto, retratava a família real; o rei Jaime III, a rainha Margarida, o príncipe Jaime IV e a princesa Anne-Marie. Apesar de ter ouvido antes sobre sua semelhança com a princesa, não pode esconder a surpresa em seu olhar quando reconheceu a si mesma naquela pintura.
Ela olhou para o príncipe, mas seu olhar estava focado no quadro, na mulher que segurava Anne. Tinha os cabelos escuros e cacheados como os da princesa, os olhos verdes exibiam uma felicidade tão grande que quase podia ser tocada. O rei tinha um ar imponente, mas bondoso, os cabelos ruivos, cumpridos e lisos, olhos marrons profundos.
– Eles parecem felizes... – Maya quebrou o silêncio incômodo que havia se instaurado entre eles.
– De fato eram... Antes de tudo acontecer.
Maya respirou fundo, pensando se realmente deveria fazer aquela pergunta, mas estava ali para descobrir sobre a história de Anne, ou a sua própria.
– O que houve com a princesa?
Jaime suspirou, abaixando a cabeça por um momento e então abriu a porta, indicando para que ela saísse, fechando-a em seguida, voltando a caminhar pelo corredor.
– Me culpei pelo sequestro de Anne por muitos anos. – ele começou – Era uma tarde agradável de outono, eu tinha o costume de pedir à ama que a levasse para o jardim onde ficávamos brincando. Meu pai havia saído da cidade por alguns dias para negociar com os comerciantes do sul. Há muito tempo mercadores de escravos estavam sondando nosso reino, afinal nosso povo sempre foi conhecido por ser forte e saudável. Eles se aproveitaram da pouca segurança ao redor da cidade e invadiram as casas naquele dia, levando as crianças. Um pequeno grupo escalou os muros do castelo, atrás apenas de ouro e dinheiro, mas o que encontraram foi ainda mais precioso.
– Porque não levaram você também? – ela perguntou, olhando-o.
– Eu já era crescido, seria difícil controlar uma criança mais velha. – suspirou – Mataram a ama que cuidava de vo... De Anne e a levaram, me culpei por não ter conseguido livrá-la daqueles homens. Na ausência de meu pai, minha mãe ordenou a perseguição do navio dos mercadores de escravos, mas nossos navios foram massacrados na costa da Ásia, algumas pessoas dizem que o navio dos mercadores naufragou, outros dizem que chegou à seu destino. O fato é que nunca encontramos Anne e isso acabou com a vida da rainha. Apesar de tudo, meu pai continuava cuidando dos assuntos do reino, embora se importasse menos com os acontecimentos. Depois de cinco anos tentando vencer a tristeza e a terrível doença que pegou todos de surpresa, minha mãe morreu e levou com ela a força restante que meu pai tinha. Desde então o reino é pura desgraça.
Maya não sabia o que responder. Aquilo se encaixava tão bem em sua infância desconhecida que ela não tinha reação. Depois de certo tempo pensando naquilo tudo, seu lado racional tomou conta de sua mente outra vez. Qualquer história se encaixaria bem em sua infância, afinal ela não sabia nada sobe aquele tempo antes de Veneza. Ela respirou fundo, calculando as chances de realmente ser Anne.
– É realmente muita informação de uma vez... Vou entender se quiser sair correndo agora, mas se preferir posso deixar você pensar bastante enquanto me ajuda na cozinha. – Jaime falou a tirando de seus pensamentos.
– Ótima ideia. – Maya respondeu depois de alguns segundos, seguindo o príncipe de volta para a cozinha em passos lentos. Era de fato muita informação de uma vez só.
De volta à cozinha ainda a todo vapor, Maya foi finalmente notada, agora na companhia do príncipe, seria difícil não ser. Com os olhos dos empregados sobre si, realmente pensou em correr para longe como Jaime havia dito momentos antes, afinal, sua vida inteira foi vivida com base na discrição e na “invisibilidade” que o trabalho de Assassina exigia, ficar diante de um grupo enorme não era exatamente confortável.
– É apenas uma amiga que chegou de viagem, vai nos ajudar com o almoço, não caiam sobre ela feito gaivotas! – Jaime percebeu o desconforto de Maya, logo chamando a atenção dos empregados.
Ela suspirou aliviada ao deixar de ser o centro das atenções, Jaime a guiou para uma mesa cumprida, a entregando um avental e aconselhando a dobrar as mangas folgadas da camisa branca. Maya prendeu os cabelos em um coque e colocou o avental, dobrando as mangas como sugerido.
– Se não se importa, vai me ajudar a cortar o peixe para o ensopado. – ele a entregou uma faca afiada, pedindo ajuda de um homem forte e robusto para tirar o enorme peixe da caixa onde estava.
Maya riu – Já estive em situações piores.
Enquanto tiravam as escamas do peixe que ocupava quase toda a mesa, Jaime fazia perguntas que não se esforçava em manter para si mesmo.
– Segundo fontes, você veio da Itália. O que veio fazer na Escócia, tão longe?
– “Fontes”?
Ele riu – Na verdade seu sotaque te entrega.
– Certo... – ela respondeu em italiano com certo humor – Sonhei com este lugar há algum tempo – deu de ombros – senti que precisava vir para cá, parece que foi uma boa decisão afinal.
– O que é o símbolo em seu cinto? Se me permite saber. – ele voltou a perguntar depois de alguns minutos.
– É... – Maya hesitou por um momento – É o símbolo de uma ordem secreta.
Jaime a olhou um tanto espantado – Ordem secreta?
Maya riu – Sim, não faça perguntas, há uma razão pela qual ela é chamada de secreta, sabe...
O príncipe ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo. – Mas sinta-se livre para me contar, curiosidade não é apenas da sua natureza. – ele ficou em silêncio por alguns minutos enquanto limpava o peixe com a ajuda de Maya. – Aposto que não te chamam de Anne na Itália – falou com certo humor – Qual o nome com que está acostumada?
– Maya. Maya Di Versati. – ela respondeu rapidamente – E agora eu não tenho ideia do por que.
Jaime ergueu as sobrancelhas, mas sem olhar diretamente para ela, evitando deixá-la notar que havia acabado de deixar transparecer sua aceitação dos fatos.
– É um belo nome, embora eu ache que Anne combine mais com você. – respondeu gentilmente como era de seu costume.
Enquanto conversavam sobre a vida de Maya na Itália e ajudavam os empregamos na preparação da enorme panela de ensopado, a hora voou e logo serviam as pessoas que faziam uma fila enorme no portão do castelo. O ensopado era servido em tigelas de metal e acompanhado de um pedaço de pão também preparado pelos empregados. Não houve conversa enquanto distribuíam a comida para os desabrigados, afinal, já havia muita especulação e conversa entre as pessoas ali perto, embora nenhuma delas ousasse perguntar.
“Será mesmo ela?” “Será que Jaime a encontrou?” era o que mais se ouvia as pessoas sussurrarem.
Após recolherem todas as tigelas, Jaime deixou que os empregados se encarregassem de lavá-las, levando Maya para uma área reservada do castelo, construída com pedras claras que lembravam o castelo em Monteriggioni. Se sentaram em um banco de madeira polida.
A primeira reação de Maya foi rir com incredulidade – Princesa... Francamente, é a última coisa que eu pensei que aconteceria comigo. – então ela fechou os olhos por um breve momento – Pensando bem, talvez não. – se lembrou da suposta imortalidade.
Jaime sorriu, aparentemente se contendo para não expressar uma reação exagerada – A última coisa que eu pensei que aconteceria, era eu reencontrar minha irmã... E aqui estamos.
– Acho que ainda não me dei conta do que realmente aconteceu. Foi um tanto rápido. – ela fez uma longa pausa, pensando naquilo tudo – O que não significa que eu não esteja feliz, descobrir minha origem é algo que eu sempre quis.
– Não te julgarei pelo que sente. – Jaime falou rapidamente, olhando para Maya.
– E quanto ao rei? Pretende dizer alguma coisa a ele?
– Apenas se você pretender ficar aqui. Não posso correr o risco de te anunciar e então tê-lo em pedaços novamente se um dia quiser partir.
Maya respirou fundo – Não sei se ficarei Jaime... Prometi a alguém na Itália que voltaria logo.
– Exatamente por isso dependo de sua decisão. Sei que tem outra vida, uma que não tem a menor relação conosco e embora possa afirmar que vai me partir o coração, não posso te obrigar a ficar apenas por sermos sua família. Você construiu uma história naquele país, deve fazer o que sente que é certo Anne. – o príncipe falou calmamente.
Maya sentia que no fundo queria ficar e descobrir mais sobre a família, ajudar o povo e provar daquele amor, mas também pensava em Ezio na família que havia conquistado na Ordem, embora tivesse passado apenas alguns dias em Monteriggioni, nos últimos três anos havia estado na companhia dos Assassinos, sentia que a Itália era sua casa. Sua mente estava dividida e certamente não conseguiria dar uma resposta antes de pensar cuidadosamente em tudo.
– Preciso de um tempo para pensar no que vou fazer.
– Tem todo o tempo que quiser. – Jaime respondeu – As portas deste castelo estarão sempre abertas para você, tenha tomado sua decisão ou não, será sempre um prazer vê-la Anne. – ele sorriu.
Maya não pôde evitar ser contagiada pelo sorriso e pela alegria do irmão, mas se surpreendeu quando ele a abraçou.
– Desculpe, não pude evitar. – ele se desculpou num tom formal.
– Não se preocupe, não foi nenhum crime – ela disse com humor, se levantando em seguida. – Bem, se puder me mostrar a saída, ficarei grata, perdi totalmente a noção de norte e sul andando por esses corredores infinitos.
Jaime riu se levantando do banco e acompanhando Maya de volta até o portão. A neve havia parado de cair, mas o chão estava completamente forrado com uma camada grossa dela, fazendo os pés afundarem.
– Espero te ver em breve. – o príncipe falou assim que os portões se fecharam.
– Ainda nos veremos, não se preocupe – ela sorriu, acenando e então retornando para o hotel, encontrando Eri no poleiro relativamente pequeno do lado de fora. A enorme águia limpava as penas e só parou quando Maya se aproximou, acariciando-o. – Que reviravolta, Eri... – ela suspirou, estendendo o braço coberto pela camisa, deixando que a ave subisse. – Sabe às vezes eu queria que você me respondesse. – a águia soltou um pio baixo, provando que de fato a atendia, arrancando uma risada de Maya – De preferência na minha língua. – ela aproveitou que o salão da estalagem estava vazio e subiu para o quarto com o animal se equilibrando em seu braço.
Maya se sentou na pequena mesa colada à cabeceira da cama, deixando Eri apoiado na madeira, pegou algumas folhas de pergaminho que havia comprado há alguns dias, determinada a escrever para Ezio, mas sem ter a menor ideia sobre o que falar, agora tinha história até demais. Escreveu durante a tarde inteira, contando sobre a recente descoberta e também sobre a suposta imortalidade que na verdade tinha certo receio de testar. Colocou as quase dez folhas dentro de um envelope grande, selando-o e então indo até o porto, encaminhando para Monteriggioni. Segundo a previsão, a carta deveria chegar dentro de um mês se não houvesse nenhum contratempo na viagem.
Cansada e ainda pensativa, Maya voltou para a estalagem, comprando uma quantia grande de feno planejando fazer um ninho para Eri. A ave pareceu muito feliz quando recebeu as iscas vivas que ela havia comprado e o feno.
– O ninho é por sua conta, não seja preguiçoso! – falou ao ver que a águia esperava parada na cabeceira da cama olhando para o feno. – Ande logo com isso, vou jantar e então quando voltar quero o senhor fora da minha cama! – brincou, fechando a porta ao sair do quarto. O jantar foi rápido, afinal Maya estava exausta pelo dia atarefado, se qualquer pessoa ao redor comentou alguma coisa sobre família real, ela sequer ouviu. Logo subiu de volta para o quarto, encontrando Eri sobre o monte de feno que havia arrastado para cima da mesa, se recusando a arrumar o que deveria ser um ninho.
Maya se livrou do cinto e da faixa de cetim, descalçando as botas e soltando os cabelos, se deitando na cama, puxando os pesados cobertores sobre o corpo gelado, pegando no sono rapidamente. Foi a primeira noite em muito tempo, que ela não teve sonhos estranhos ou possíveis mensagens de aviso.
No dia seguinte acordou se sentindo renovada, apesar de o relógio da praça indicar quase meio dia, ela não se sentia nem um pouco culpada por ter dormido até tão tarde. Eri saiu voando com certo desespero assim que Maya abriu a janela, provavelmente com fome. Depois de se vestir e pentear os cabelos preguiçosamente, ela se debruçou no parapeito da janela, notando um estranho burburinho na praça abaixo. Saiu do quarto, deixando a janela aberta para quando Eri voltasse e saiu para a rua.
– O que há na praça? – perguntou a uma senhora sentada em um banco próximo.
– Estão dizendo que o rei morreu. – ela foi objetiva, deixando Maya sem reação.
Sem ao menos pensar duas vezes, ela correu para o castelo, encontrando as janelas dos andares superiores fechadas e protegidas por cortinas do lado de dentro, ela não se deu o trabalho de checar de o porteiro estava lá, apenas pulou o muro alto, escalando-o sem a menor dificuldade. Entrou no castelo, encontrando alguns empregados no salão principal.
– Onde está o príncipe Jaime? – perguntou a um dos homens que reconheceu do dia anterior.
– Em seu quarto, segundo andar a última porta no final do corredor à direita. – o homem respondeu ao reconhecê-la.
Maya não teve muita dificuldade em encontrar a porta entreaberta. Bateu com os nós dos dedos na madeira.
– Jaime? – ela o chamou, sem se atrever a abrir a porta.
– Anne? – reconheceu a voz, abrindo a porta e revelando um rosto pálido e com olheiras.
– Então é verdade... – ela suspirou, olhando-o com pesar. Não havia sinal do homem alegre e sorridente que a recebera no dia anterior. Por puro instinto, ela o abraçou, exatamente como ele fizera no dia anterior.
O príncipe apenas assentiu com a cabeça, parecia exausto. Ele se sentou na enorme cama no centro do quarto, olhando para as próprias mãos.
– Não consigo saber o que é pior, enterrar meu pai ou começar a me preocupar com minha coroação... – ele respirou fundo.
– Como aconteceu? – Maya permaneceu em pé, olhando para o irmão com certo pesar.
Jaime respirou fundo, embora o luto o consumisse, tinha que se erguer e superar aquilo tão rapidamente quanto havia acontecido.
– Eu não o via há uma semana, ele se trancou em seu quarto e não permitiu que mais ninguém além de um dos empregados o visse. Então no começo da noite de ontem a notícia chegou aos meus ouvidos. Meu pai sempre foi egoísta demais para pensar que talvez eu quisesse vê-lo uma última vez...
Maya suspirou, não sabia o que dizer ou o que fazer, afinal conhecia bem a dor que ele sentia. A morte de Paolo ainda visitava sua mente mais vezes do que ela gostaria de admitir.
– Eu ao menos sei o que dizer...
– Não precisa dizer nada. Apenas me ajude a passar por isso, sim? – ele ergueu os olhos.
– Farei tudo o que puder... – ela assentiu.
A semana seguinte passou rapidamente, embora para o reino tivesse parecido anos. Após o funeral do rei e os dias de luto, a preparação para a coroação de Jaime era feita às pressas. As pessoas finalmente tinham esperanças de que suas vidas melhorariam, afinal como príncipe ele fazia muito para ajudar os necessitados, talvez como rei não houvesse mais “necessitados”.
A pedido do irmão, Maya havia deixado o pequeno hotel e passado as noites no castelo, ajudando com a arrumação do lugar que parecia abandonado. O quarto do rei permaneceu fechado e assim ficaria por ordem de Jaime.
No sexto dia daquela semana, a movimentação no castelo começou cedo, mas não em prol do almoço que era servido no inverno e sim pela coroação do jovem rei.
Logo depois do café, todos os empregados se reuniram no enorme salão principal a pedido de Jaime. Talvez comandar o reino fosse mais fácil do que convencer Anne, mas com certo esforço e insistência, ela acabou cedendo e então naquela manhã, ela estava ao seu lado no alto da escada.
– Silêncio meus amigos! – ele pediu, erguendo a mão e então fazendo com a conversa se encerrasse. – Bem, creio que essa especulação esteja na ponta de suas línguas, mas sinto que tenho o dever de lhes afirmar o fato. Há cerca de uma semana, lhes apresentei Maya como uma amiga da Itália, para mim é mais do que óbvio que vocês não engoliram essa história. Muitos de vocês já serviam à esta família quando o incidente com Anne aconteceu há vinte anos, e é com enorme satisfação que lhes apresento a princesa Anne-Marie.
Não houve tempo para dizer mais nada, já que a explosão de aplausos que se seguiu foi alta suficiente para sobrepujar qualquer outro som. Maya não tinha outra reação além de rir em incredulidade, ainda sem saber como reagir ao ser o centro das atenções. Após vivas, aplausos e urras de saudação, a multidão foi dispensada por Jaime.
– Prepare-se para dar ao menos um aceno para a população que te espera do lado de fora. – ele falou rindo.
– Não vai fazer isso... – ela o olhou com uma preocupação séria estampada no rosto.
– Mas é claro que vou. Eles estão mais ansiosos para terem suas especulações confirmadas, do que para ver uma coroa de ouro na minha cabeça! – respondeu com humor.
– Eu ao menos sei me portar como eles esperam!
– E como eles deveriam esperar?
– Por Deus, Jaime. Como vou saber? – Maya parecia desesperada.
– Exatamente, ninguém sabe, porque nunca tivemos uma princesa! Sinta-se à vontade para continuar sendo você mesma. – Jaime falou calmamente – Não se preocupe, eles não precisam de uma boneca de porcelana, continue apenas se importando com o bem-estar da população eles estarão mais do que contentes, afinal é o que se espera da realeza.
Depois de se acalmar e aceitar a ideia, Maya se preparou para o momento mais marcante naquele ano. Já havia ganhado algumas roupas feitas sob medida e mais “adequadas”. Apesar da insistência de Jaime, ela recusou os vestidos, não se dava bem com saias longas e roupas enfeitadas demais, o colete de veludo vermelho bordado em dourado já a incomodava o suficiente. Vestiu uma camisa branca de mangas folgadas, como já estava acostumada, e calças pretas.
As ruas da cidade haviam sido livradas da neve da noite, deixando as pedras cinza do calçamento secando com o sol fraco da manhã. O caminho até a igreja do outro lado da cidade foi bastante animado, as pessoas acenavam e assoviavam para a carruagem simples que levava os irmãos. Não existiam soldados propriamente ditos, afinal a decadência do reino não permitia que salários fossem pagos regularmente à muitas pessoas, sendo assim, não havia um exército para proteger o povo ou mesmo a realeza, mas também não havia perigo maior do que o frio e a falta se suprimentos para ser combatido.
Jaime e Anne foram recebidos pelo velho padre da capital, era uma pessoa respeitada e muito bem vista pelo povo, tinha um grande e bom coração, assim como o futuro rei. Depois de apresentar Anne e receberem as bênçãos do padre, os dois irmãos se dirigiram para o segundo andar da enorme catedral, onde as portas abertas de uma varanda os aguardavam. As joias da coroa estavam sob uma mesa arrumada juntamente com o manto vermelho bordado com fios de ouro. Jaime o recusaria, mas sabia que a notícia de sua coroação correria por muitas milhas, retratos daquele momento seriam pintados e ele sabia que para os outros reinos, ele deveria parecer imponente.
O primeiro a aparecer para a multidão na praça foi o padre, conseguindo imediatamente o silêncio das milhares de pessoas que aguardavam ansiosamente. Após rezar uma missa breve, ele anunciou a triste morte do rei Jaime e então a sucessão de seu filho, Jaime IV.
– Não vá desmaiar, certo? – o príncipe riu, olhando para Anne que aguardava as palavras finais do padre, segurando a coroa sob uma almofada de cor púrpura.
– Não sou tão sensível. – ela ergueu uma sobrancelha, demonstrando o nervosismo.
Jaime sorriu, repirando fundo e então caminhou lentamente para fora, sendo recebido com uma explosão de gritos e saudações da multidão. Após conseguir o silêncio novamente, o homem que andava e fazia todos os movimentos lentamente, se virou para Jaime que se abaixou, apoiando-se em um dos joelhos, abaixando a cabeça e então recebendo novamente a bênção. Anne caminhou até eles, ficando ao lado dos dois homens. Podia-se ouvir os murmúrios entre a multidão, mas o respeito que demonstravam pelo padre e por Jaime os manteve em silêncio.
– “Datum est per me, summi nomino. Et misereatur tui, dies tua, et misericordiam, et deducet vias rectas.”. – o padre falou com a voz alta que parecia não pertencer àquele homem já idoso.
(Pelo poder à mim concedido, eu o nomeio soberano. Que seus dias sejam iluminados e sua bondade o guie pelos caminhos corretos.)
Os olhos de Jaime estavam agora fixos no horizonte. O padre tomou a coroa nas mãos, erguendo-a para a multidão e então se dirigindo ao príncipe, abaixando-a lentamente, finalmente colocando o símbolo da realeza sobre sua cabeça e então virando-se para a multidão, deixando que o vissem.
– Erga-se Rei Jaime, o quarto de sua linhagem. – após as palavras do padre e de Jaime ter-se levantado, a multidão explodiu em gritos e aplausos. – Que dias melhores o sigam, meu rei. – o homem falou curvando-se.
Jaime sorriu, olhando para Anne rapidamente e então caminhando até o parapeito, olhando o mar de pessoas logo abaixo, ele ergueu a mão, conseguindo logo o silêncio do povo que tanto o amava e respeitava.
– A todos vocês eu tenho a agradecer, por todo o carinho que me demonstram todos os dias. Hoje é um dia importante para todo nosso amado país e especialmente para a família real. Quero que conheçam mais do que seu novo rei hoje, muitos de vocês já especulam e desconfiam disto, lhes apresento meu braço direito e conselheira; a princesa Anne-Marie! – ele a anunciou, puxando-a para perto.
Como já era esperado, Anne não sabia como reagir, apenas sorriu e então fez um breve reverência para a multidão que a aplaudia, gritava e assoviava. Depois de muita festa e cumprimentos, o dia foi um dos que a população jamais esqueceria. Peixes e frutos do mar foram distribuídos na praça, garantindo que as pessoas tivessem um dia farto e alegre.
Após a coroação do rei, os dias passavam voando. Cada um deles era um novo desafio, o inverno ainda castigava a Escócia e as pessoas ainda dependiam da refeição servida no castelo, mas agora Jaime e Anne dedicavam a maior parte de seu tempo com os negócios do reino e suas alianças. A Inglaterra havia se interessado bastante pelos negócios da Escócia e sua crescente fama na fabricação de navios, bem como no cultivo de flores e frutas. Em poucos meses o país tinha condições que jamais haviam imaginado conseguir em tão pouco tempo. O comércio no centro da cidade estava mais movimentado devido à economia melhorada, as pessoas empregadas e os salários que os proporcionavam algumas refeições a mais.
Foi em uma tarde não muito ocupada de primavera, quando Anne treinava a pontaria já desgastada, que Jaime se aproximou, sentando-se no banco de pedra próximo a ela, aproveitando o sol da manhã e esperando que a irmã notasse sua presença, mas ela parecia ocupada demais atirando nos alvos em diferentes posições e fazendo manobras que ele jamais imaginou que a frágil Anne poderia fazer sem quebrar alguns ossos.
– Impressionante. – falou quando notou que ela jamais o perceberia ali.
Pós errar um alvo, se assustando com a voz do irmão, Anne se virou, dando atenção a Jaime.
– Sabe, não costumo errar. – ela respondeu com certo humor, se sentando ao lado do rei.
– Onde aprendeu a fazer isso? – Jaime olhava para os alvos precisamente multilados.
– Bem, eu tive algum treinamento. – disse vagamente.
– Ora, vamos Anne, acho que já está na hora de me contar sobre sua Ordem. – ele pediu calmamente. – Acho que já pode confiar em mim, não?
Anne riu – É complicado explicar.
– Tente.
Ela suspirou e então explicou tudo da forma mais simples que pôde, deixando Jaime ainda mais impressionado.
– Templários... – ele estreitou os olhos.
– Sim. – Anne sorriu.
– Achei que eles fossem apenas história para crianças, lendas da época das Cruzadas.
– Eu certamente não dormiria se me contassem uma história dessas – ela riu.
– Não sei se vou dormir sabendo que minha irmã é uma Assassina. – respondeu com humor na voz.
– Oh, não se preocupe com seu pescoço, rei. Se eu quisesse cortá-lo teria feito há muito tempo.
Com o passar dos meses, a relação entre os irmãos se estreitou e logo pareciam ter vivido a vida toda juntos. O reino prosperava e as pessoas viviam mais felizes do que nunca. Mas quanto mais Anne se envolvia com os assuntos da Escócia, mais se lembrava dos anos que passara na Itália. De Ezio, Mário e todos os Assassinos, de Monteriggioni e também da Guilda. Se perguntava o quanto Ezio estaria nervoso com ela, afinal não havia nem sinal de sua resposta à carta que lhe fora enviada meses atrás.
A notícia da coroação de Jaime e da descoberta de Anne havia de fato corrido quase o mundo inteiro, trazendo muitos aliados para a Escócia, antes julgada como apenas um pedaço de terra governada por alguém sem nome ou rosto. Mas também atraiu a atenção de pessoas indesejadas, especialmente por Anne.
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